In-victus
2 Capítulo 2
A tempestade durou quinze dias.
Às vezes vinha branda, inofensiva, apenas para acariciar a relva já encharcada das terras Lafontaine. Noutras, vinham violentas, sedentas por uma destruiçãozinha qualquer. Magdalena era profundamente grata aos deuses por essas destruições serem direcionadas somente à vegetação. Porque de destruições, aquele lugar já estava farto.
Em todo o caso, era bom que chovesse. Ainda seria preciso muita água para lavar o sangue daquele lugar. A carnificina foi bruta, desastrosa. Mas a resistência, branda. Ninguém esperava por uma batalha. Por isso, quando Aaron Lafontaine chegou com sua retaguarda para tomar o castelo ― que cedo ou tarde seria seu por direito ― apenas quarenta soldados empunharam espadas para defender seu lar. E todos padeceram. Richard Lafontaine fora executado pelas mãos do próprio filho, e tudo o que vivia naquele castelo perdera seu livre-arbítrio. Perdera sua liberdade. E todos que assistiram a carnificina e terminaram com vida, aterrorizados, aceitaram sem hesitar suas novas correntes. Magdalena era uma delas. Seus novos carcereiros eram pais, filhos, irmãos e amigos com que Magdalena crescera. Conheceu-os, a vida toda. Ali estava Ralf, manejando sua espada por entre corpos desprovidos de chance alguma. Estava Harry, defendendo-se desesperadamente de investidas furiosas. Até mesmo o jovem e doce Harwin estava ali, no auge da batalha. E tudo o que Magdalena pode fazer por si e seus iguais ― serviçais, cozinheiros, amas e aias ― fora se silenciar. Carcereiros e reféns conheciam-se uns aos outros, e cooperavam entre si para que aquilo não lhes custasse a vida.
Foram mantidos presos nas primeiras horas da batalha dentro de um quarto pequeno, sem meios de fuga. Havia crianças pequenas ali. Elas choravam e, suas mães faziam o possível para acalmá-las. Magdalena era órfã, mas sentia seu coração se apertar de agonia a cada soluço. Foram horas de uma angustiante espera. A maioria já havia caído no sono quando a pequena porta do quarto fora destrancada e seu carcereiro saiu dela.
― Você.
Magdalena quase pulou do banco em que estava sentada. Seu opressor era Sor Gregory Marchiori, que esta já conhecia de longa data. Ele encarou-a, impaciente, e ela saltou do banco onde estava e seguiu-o. Primeiro, fora conduzida até os aposentos do jovem Quentim, o mais novo dos Lafontaine. Ele chorava desesperadamente como qualquer garoto de sete anos teria feito.
― Lena, Lena! ― Repetia ele, com a cara enfiada em sua barriga, aflito. ― Eles me trancaram aqui, Lena! Levaram minha irmã e machucaram meu pai. Eu estou com medo, Lena!
Ela confortou-o com palavras doces, preparou seu banho e ― por ordens que Sor Gregory praticamente as cuspiu ― fê-lo dormir com chá de melissa. Em poucos instantes Quentim já cochilava furiosamente. Quando Sor Gregory puxou-a pelo braço novamente, Magdalena achava que estavam voltando para o pequeno quartinho onde jaziam, aterrorizados, os outros serviçais, mas não. Fora conduzida até o quarto que fora de Richard Lafontaine, onde empoleirados na porta, estavam dois senhores de meia idade. Pelo entalhe cuidadosamente forjado em suas armaduras, Magdalena ponderou serem pessoas importantes.
― E então? ― Perguntou um deles, para Sor Gregory.
― Morto. ― Respondeu, carrancudo. ― Não há mais nenhum filho de uma puta que possa ajudar, a não ser os malditos corvos. Até lá, ela tem que servir.
E empurrou-a para dentro do quarto, sem deixá-la questionar o que queria. Mas, ao entrar no quarto, suas pernas bambolearam. Deitado na cama, inconsciente, surrado, e com o rosto encharcado de sangue, estava Aaron Lafontaine.
Magdalena engasgou-se.
― Senhor. ― Começou. ― D-deve haver algum engano. Eu sou uma simples aia, não...
― Ninguém te perguntou nada, sua puta imunda. ― Rosnou Sor Gregory. ― Apenas faça o trabalho daquele curandeiro sujo que morreu agonizando, se não quiser ter o mesmo fim.
Isso foi o bastante. Teve que ser. Ela encontrou num banquinho perto da cama uma bacia de água com panos encardidos. Teria que servir. Seguiu com joelhos fracos até a beira da cama e viu o estrago de perto. Um lado do rosto de Aaron era puro sangue, ora seco, ora fresco. A cabeleira loura encaracolada, antes dourada como o Sol, agora era puro ferrugem. Com mãos trêmulas, ergueu as tiras de pano e travou uma luta com aquelas manchas, tentando limpar o rosto e encontrar a ferida causadora disso tudo. No final, encontrou um corte do tamanho de um punho fechado na lateral da cabeça, já inflamado e inchado.
E aquilo era ruim. Muito ruim.
― Tente mantê-lo vivo, se não quiser o mesmo fim dos seus amiguinhos naquele quarto. ― Disse Sor Gregory, com ar de chacota antes de fechar a porta e deixá-la naquele aposento sufocante.
Pensou nas pequenas que vira chorar, e lágrimas vieram-lhe aos olhos. Se o fim dos criados fora tão rápido, o seu certamente não tardaria a chegar. Olhou para Aaron, e pensou em quantas vezes o serviu, o mimou e o educou. Não muitas, pois trabalhava como aia apenas da Lafontaine caçula, senhora Antoinette, mas ainda assim, aquele garoto havia crescido ali. E agora pisoteava seus iguais como quem renega suas origens. Aquilo era, no mínimo, demasiado irônico.
Mas, não lhe era permitido questionar. Era provável que um dia morresse nas mãos deste garoto meio-anjo, meio-monstro do qual ajudava a preservar a vida, Engoliu o choro e continuou a limpá-lo. A água da bacia, antes limpa e transparente, tornara-se suja e irreconhecível. Não entendia muito das artes medicinais, mas conhecia uma planta cuja proteínas tinham poderes de cicatrização. Triturou-a com folha e caule, até tornar-se de uma consistência nojenta e pastosa. Espalhou-a com os dedos sobre alguns cortes do peito e do rosto, mas a maior parte havia sido para a ferida na cabeça. Estava aberta, exposta, numa localização difícil e não parava de sangrar. Envolveu a cabeça ferida com uma tira de pano da camisa do próprio Aaron e deu um nó apertado. Fazia cada passo com mãos trêmulas, sem muita confiança em seus próprios métodos. Tinha medo que, ao menor erro, pudesse condená-lo a morte, e que seu próprio fim fosse responsabilizado nas mãos de homens como Sor Gregory.
Lacrimejava só de pensar. Rezou para que a pasta bastasse e o curasse, pelo menos até que um curandeiro pudesse examiná-lo com mais cuidado. Não sabia se havia algo a mais que pudesse fazer. Já estava fazendo buracos no chão, enraizada, com medo de tudo aquilo não ser o suficiente, quando Sor Gregory abriu abruptamente a porta.
― Já terminou? ― Rosnou ele. Magdalena achava engraçado o modo com que qualquer coisa dita por aquela boca se assemelhasse a um rosnado. Embora aquilo fosse motivo para gelar-lhe as pernas.
― S-sim. ― Gaguejou ela.
― Então que porra ainda faz aqui, garota estúpida?
Magdalena não cogitou responder a pergunta e preparou-se para segui-lo. Ele agarrou seu braço e levou-a até o final do corredor, onde parado, à espera, estava seu filho caçula, Harwin.
― Senhor. ― Disse ele, endireitando-se.
― Leve a garota. Para a cozinha. E verifique se as outras estão na linha. Já!
E empurrou-a para ele. Magdalena sentiu a partida abrupta de mãos grosseiras para a chegada de mãos mansas que, mesmo desajeitadas, não deixavam de ser firmes. Eles trocaram um olhar rápido e saíram, tensos, pelo corredor. Harwin parecia realmente tenso, talvez por querer ser eficiente diante dos olhos do pai, e de quem mais estivesse por perto. Mesmo para a idade, Harwin já era um rapaz bem alto. Nem parecia que uma garota de quase 17 anos estava sendo guiada e conduzida pelos olhos vigilantes de um rapaz de 13...
Esta seria, definitivamente, uma situação impensável.
― Você está bem?
Magdalena pensou, antes de responder a pergunta. Era gentil da parte dele fazê-la. Provavelmente a questionara por sua expressão perturbada. Mas ela não queria lembrá-lo que, onde seus dedos a seguravam firmemente, haviam crateras profundas e doloridas de seu genitor.
― Estou ótima. ― Aquela era uma grande mentira, mas lançou-lhe o seu melhor sorriso de plástico.
Mas é claro que Harwin entendeu. Seria um bobo se não entendesse. Seu lar havia sido invadido, estilhaçado, despedaçado e submetido a ordens de pessoas imundas. Pessoas como Aaron Lafontaine, que nasceu e cresceu ali, e agora o reduzia a cinzas. É claro que Harwin deveria entender. Apesar de tudo, ainda havia pequenos vestígios de um menino bom dentro do garoto no corpo de um homem. Isso se aplicava até a maneira com que ele tratava os pombos. Estranhamente, Magdalena ainda conseguia ver um pequeno menino, faminto de fome e gula que vinha pedir-lhe pão todas as tardes, escondido do pai... E desejava profundamente que aquela criança não se perdesse dentro dele.
Chegaram à cozinha. Harwin soltou seu braço. Magdalena se aproximou das mulheres que, desconsoladas, trabalhavam em seus afazeres. Olhou ao redor. Havia quatro guardas com exceção de Harwin, que conversava com um deles. Uma das mulheres que enrolava uma massa de pão despencou no chão e desatou a chorar. Ninguém a consolou. Todos mantinham-se tensos e aterrorizados com os olhares observadores dos guardas. O choro da mulher foi alto, mucoso e catarrento. Ela levantou-se do chão e voltou ao trabalho, chorando baixinho. Magdalena olhou em volta e só então sentiu falta das crianças.
E entendeu.
Lá fora, a chuva parecia invencível.
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