In-victus

1 Capítulo 1


Ela ainda podia escutar o som dos cascos.

Eles vagavam pela noite, quebrando o silêncio, rompendo a escuridão e ricocheteando em seus ouvidos. Durante horas teve medo de fechar os olhos, e mesmo quando se permitiu adormecer e sonhar, aqueles ruídos não a deixaram. Quando acordou, a neblina fria da manhã se estendia sobre seu corpo, seus olhos e seu horizonte. Ela ainda tremia, despertando preguiçosamente do torpor. A geada cobria a vegetação como um cobertor fino e denso de cristais.

Eles estavam perto.

Levantou alarmada, olhando em volta. Havia terra úmida grudada em seu rosto e corpo, dando aspecto sujo e simplório ao vestido que, um dia, já fora bonito. Já fazia dias desde que ela peregrinava por aquela floresta, andando em círculos; com frio, fome, fadiga e uma horda de cavaleiros em seu encalço. Nestas circunstâncias, até homens de família, forasteiros e selvagens poderiam estar rastreando-a, com a perspectiva de tirar algum proveito de sua desgraça, seu destino infeliz. Tinha a perfeita consciência de que sua cabeça pendurada nas muralhas daquele castelo era uma visão que faria seu irmão mais velho deleitar-se em alegria... Mas não. Não pretendia voltar a por os pés naquela terra e, se tivesse mesmo que voltar para os braços dele, não pretendia fazer isso com vida.

Apesar que, não achava que poderia sobreviver por mais tempo se continuasse a se alimentar da mesma maneira. Ramos e folhas silvestres não eram exatamente um banquete, mas pelo menos a mantinham de pé.

Por enquanto. Pretendia sair das terras Lafontaine o quanto antes possível. Ainda custava a entender como foi que chegou a isto. À fome, ao frio, a fuga e ao exílio. Custava a entender muitas coisas, e a primeira delas, era o que pretendia com essa fuga. Repelia os pensamentos assim que lhe atingiam o consciente, mas ela sabia. A fuga era apenas uma maneira de ter controle sobre o próprio destino, a própria autonomia. Mas sabia que aquilo não daria certo. Que ele a encontraria, cedo ou tarde. E a surpreenderia de novo, e uma vez mais, para tornar real e palpável a dor que seu consciente lhe proporcionava somente em sonhos. A imagem era revivida com tanta verdade e nitidez em seus sonhos, que todas as noites acordava com medo de que seus gritos reverberassem pelo vale e acordasse seus rastreadores. Porque o pesadelo em que mergulhava todas as noites sempre o trazia à tona, incólume e vitorioso, encharcado pela água da chuva, o sangue escorrendo dos lábios... E o cabo do punhal nos dedos.

Instintivamente levantou as saias do vestido até os joelhos ralados, para descobrir o trapo imundo que cobria a ferida ainda ensanguentada na batata da perna. A lâmina do punhal havia cortado tão profundamente que há uma quinzena a ferida cheirava a pus e podridão. Aquilo foi logo antes de sentir o cheiro e o toque da liberdade. Quando ele quase a condenou a uma vida de terror e amargura nas celas daquilo que um dia já fora seu lar, quando suas pernas ainda eram perfeitamente saudáveis e velozes para fugir do abraço dele, quando sua mira precisa e magnificente havia acertado exatamente o alvo prometido, as migalhas daquilo que costumava chamar de esperança... Lembrava-se de cair de cima do lombo da égua ― a primeira égua que montara desde os 7 anos ― e agonizar no chão, seguindo os passos do irmão que, pouco a pouco, ia diminuindo a distância entre o ponto que se encontravam.

― Estou acabada. ― Pensou, sem proferir as palavras. Mas então o irmão tombou e no instante seguinte foi ao chão, com um baque surdo e forte. Em seguida, mãos desajeitadas, porém fortes a ergueram do chão; e tudo o que ela podia ver era a poça de cor escarlate enegrecido que saia do rosto do irmão, deitado no chão daquele pátio, com aquela mancha vermelha se expandindo, ficando maior e – para seu horror – mais vermelha sob o piso encharcado de chuva.

― Você precisa ir embora, minha senhora. ― Disse o cavaleiro que atacou seu irmão, obrigando-a a desviar os olhos de todo aquele sangue para seguir em direção á sua égua, que trotava em círculos pelo pátio. ― Para longe. Não vai querer estar aqui para ver Lorde Aaron acordar. Vá.

Ela assentiu, deixando-se guiar pelas mãos e voz que ela reconheceu ser de Harwin, o jovem escudeiro de seu irmão. A dor da perna a inebriava, e a própria viu apoiando-se na criança pelo menos dois anos mais jovem que ela para chegar a sua égua. Ele ajudou-a a montar e, lançando seu último olhar de gratidão ao jovem a sua frente, desapareceu na tempestade.

Depois daquilo, apenas algumas horas mais tarde conseguiu desalojar a lâmina do punhal da batata da perna, mordendo um pedaço de madeira para apartar os gritos. Desde então, tudo só fez piorar. Sete noites depois, sua égua morreu de inanição à beira de uma clareira, sujeita aos vermes da terra e aos lobos da noite. Sua perna comichava, lutando para reagir com as folhas silvestres que, segundo o antigo curandeiro do castelo dizia, tinham grandes poderes curativos. E o pior de todos, os sonos febris. Neles, sonhava estar abaixo daquela chuva novamente, com uma lâmina na perna, esparramada ao chão e com a visão do irmão se aproximando.

E nele, Harwin nunca aparecia.