In-victus
5 Capítulo 5
Cascos.
Eles ressoavam mais alto do que nunca sob a terra úmida após um dia de chuva, e filetes alaranjados brilhavam na escuridão da noite. Num total, ela contou cinco deles, mas só conhecia dois. Estava encolhida sob a raiz grossa de uma árvore, inerte e incólume. Prendia a respiração e desejava estar completamente invisível, embora estivesse parcialmente camuflada pela com a imensidão de folhas que a cercava. Mas apenas por precaução, mantinha o punho da faca bem firme no aperto de suas mãos.
Escutou-os descer de seus respectivos cavalos. O som apavorou-a. Ah, meu Deus, estou morta. Total, completa e terrível, terrivelmente morta!
― Aqueles pedintes filhos de uma quenga!
Sons de botas, cavalos bufando, alguém chutando pedras e Ralf.
― Eles certamente nos levaram até o rastro de um infeliz qualquer da porra do grupo deles.
― Perdemos o rastro! Nessa altura, a menina já atingiu a Antigowa...
― Não seja um completo idiota, Harry. ― Harry ― Nem que as pernas da garota fossem abençoadas pelos deuses! São quatro dias de caminhada até a próxima aldeia e mais seis até a Antigowa.
― E o nosso pequeno lordezinho não gosta de esperar... ― Esse ela conhecia. Era um dos cavaleiros mais próximos da antiga guarda de seu pai. Tinha por volta de quarenta anos, aparência ainda jovem, porém, ranzinza, portador da língua mais atrevida que Antoinette já soube existir.
Com esse, a jovem sabia que não podia contar. Seria o primeiro voluntário a entregá-la diretamente para os braços do irmão. Para os braços da morte. Este mesmo homem era, de maneira lamentavelmente irônica, pai do jovem escudeiro de treze anos que a salvara do alcance dela.
Que belo paradoxo.
― Eu estou pouco me fodendo para Lorde Aaron! ― Disse outro cavaleiro que ela não conhecia. ― Já faz mais de quarenta dias e estamos vasculhando o nada! Isso porque nossa majestade ainda nem acordou. A essa altura a menina já deve estar morta, servindo de banquete para os lobos...
― Ou se banqueteando com a carne deles, não se esqueça. ― Disse outro cavaleiro, desconhecido. ― Aquela garota era encapetada. Não é à toa que o irmão quer enforcá-la em praça pública.
Enforcá-la? Antoinette não tinha tanta certeza se esse seria método mais apropriado ao que Aaron provavelmente a submeteria.
― Seria um belo de um desperdício dar um cabo na encapetadinha... ― Essa era a voz de Sor Harry
― Não sejam idiotas! ― Disse Sor Gregory, rindo com escárnio. ― Lorde Aaron não vai matá-la. Surrá-la, talvez. Mas matar?... Não. O garoto não é burro. Sabe que são os últimos Lafontaine. E é muito pouco provável que queira usar os primos bastardos como oferta de casamento.
― Isso é triste, sores...
― O que é triste, sor Harry?
― Casar uma moça, uma criança, ainda na flor da idade com algum lorde velho e ranzinza.
Antoinette escutou risos baixos. Sor Harry parecia bastante jovem não só pela voz, mas pelas coisas que dizia. Antoinette não o conhecia e nem tivera a oportunidade de ver seu rosto, mas sabia que ele era um iniciante ali. Ele deveria ter a sua idade. Provavelmente recrutado por algum cavaleiro para testar suas habilidades na caça, ou onde quer que ele fosse útil. Sabia disso porque ele provavelmente ainda se permitia sonhar. Um direito que, com o tempo, haveria de ser tomado dele.
― Faria bem em descansar, Sor Harry. ― Disse Sor Ralf. ― Todos vocês fariam bem em descansar e dormir, do que discutir sobre o futuro de uma criança que não lhes diz respeito.
Após a repreensão de Ralf, a menina só ouviu burburinhos. Alimentaram os cavalos, ascenderam uma pequena fogueira e ficaram trocando apostas. Um cavaleiro desconhecido acreditava que ela já estava morta. Sor Harry acreditava que ela devia estar recebendo ajuda dos aldeões da fronteira da Antigowa para sobreviver. Outro cavaleiro dizia que a encapetadinha ― todos os outros homens usavam essa palavra com freqüência para apresentar suas teorias ― havia abandonado sua natureza humana e estava vivendo e banqueteando-se com a carne de lobos. Sor Gregory já achava que ela era o banquete da matilha. E que, ainda assim, qualquer lorde das terras vizinhas ficaria feliz em se deitar com uma carcaça. Parafraseando suas palavras, uma carcaça Lafontaine.
A única coisa que Antoinette pode pensar foi que aquele era mesmo um homenzinho desprezível. E então, continuou ali, parada, camuflada e sem respirar para arquitetar seu mais novo plano. E concluiu que algumas pessoas são realmente estúpidas quando passam a perna em alguém. Porque uma vez feito, pensam que podem passar a perna no resto do mundo... E se safar.
Principalmente quando passar a perna inclui tirar a vida de alguém. Antoinette desviou os pensamentos, concentrando-se nos sons que cercavam os cinco homens... E esperou. Certificou-se de que todos adormeciam e se enfiou no meio da mata, indecisa. Precisava chegar a próxima aldeia ― e ultrapassá-la ― antes que os homens de seu irmão a alcançassem. Obrigou seus pés a tomar a direção daqueles senhores e alimentou um súbito plano de sabotagem. Também obrigou-se ― e com muita luta ― a não deixar-se acovardar. E pôs em ação seu plano baseado em uma lembrança.
Durante sua estadia na mata, morta de fome e de frio, Antoinette alimentou-se de determinadas sementes que inicialmente, havia julgado venenosas. Ao ingeri-las, passou a delirar de maneira preocupante, andando em círculos por horas na floresta, tendo sempre a companhia de um Aaron furioso, ensangüentado e ensopado de água em seu encalço.
E também havia os cascos. Quando a vertigem passou, Antoinette desabou em algo que confundiu facilmente com colchão de penas macias e dormiu pelo que acreditava terem sido dias. Quando acordou, com os ossos pesados, o corpo dormente e completamente suja de lama, ficou apavorada com a perspectiva de ser alcançada por aqueles homens e andou o máximo que se permitiu. E agora, escondida atrás de uma moita onde cinco homens jaziam adormecidos, percebeu que aquele atraso favoreceu-os. E precisava recobrar a vantagem. Remexeu no tecido de suas saias, procurando por um bolsinho esquecido no meio das sedas e seus dedos logo tatearam os pequenos grãos.
Deu a volta pelos homens e fez uma manobra arriscada. Aproximou-se deles, mas passou reto, dando passos precisos e cuidadosos sob a relva em direção aos cavalos. Eles estavam famintos, ela percebeu. Por isso não teve problema quando estendeu os grãos sob a mão e os ofereceu. Acariciou-os, num pedido silencioso de desculpas. Realmente se sentia mal pelo que estava fazendo. Os pobrezinhos ficariam agitados, nervosos e com sorte, ainda não seria o bastante para acordar seus donos bêbados. E então eles cairiam como corças mortas ao chão. Antoinette não tinha certeza se eles tinham a chance de sobreviver, e se sentiu horrível por usá-los.
Estava sentindo-se desprezível com freqüência desde a última noite. Esperava arder no inferno por conta disso. Porque, na carnificina anterior, o rapaz de cabelos negros e olhos maldosos estava lidando perfeitamente bem com a idéia de matá-la. E nem disso, os cavalos tiveram a chance.
Afastou-se do bando às pressas, enquanto calculava quando tempo demorariam para acordar, quanto tempo até abandonarem os cavalos e qual seria a agilidade que os cavaleiros teriam sem os corcéis na direção. No final, isso a deixaria em vantagem por um dia e meio. E pensou que, se esse era o preço definitivo pela sobrevivência, desejava profundamente que as mãos cálidas e firmes da morte lhe envolvessem por inteira.
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