In Towards a New Life
4 Pela Luz dos Olhos Teus
Notas iniciais
[...] Mas se a luz dos olhos teus Resiste aos olhos meus só pra me provocar Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar [...]
De acordo com o horário de aulas que havíamos pegado na secretaria, estaríamos na sala 36. Após andarmos quase a escola inteira, paramos em frente a uma porta no fim do corredor do terceiro andar. A minha sorte era ter Alice comigo, porque se eu estivesse sozinha, já teria me perdido um bilhão de vezes.
Após tomarmos coragem, batemos na porta. O falatório dentro da sala cessou, passando para murmúrios. Já estava adivinhando o que eles estariam dizendo, tipo, “Que tipo de aluno estaria chegando a essa hora?” ou “Se eu fosse a professora, deixaria apodrecer lá fora”, e coisas do gênero.
Então, para minha infelicidade, a porta se abriu, revelando uma mulher alta e morena, lá com seus 35 anos. Ela usava um vestido simples, mas elegante. Seu rosto era magro e seus olhos azuis escuros estavam presos em mim. Ela suspirou pesadamente.
– Estão atrasadas! – disse ela. Eu e Alice nos entreolhamos. Nenhum aluno que estava dentro da sala conseguiu nos ver, porque eu e Alice estávamos a alguns passos da porta, justamente por esse motivo. Os murmúrios dentro da classe eram baixos, mas perceptíveis.
– Houve um contra tempo, senhorita Miller. – disse Alice, com cara de inocente. Senhorita Miller suspirou outra vez e andou dois passos para nossa direção, mesmo que ela ainda não estivesse perto de nós o suficiente.
– A coordenação deixou vocês passarem? – perguntou ela, cruzando os braços. Nós não havíamos pensado nisso. Não vimos os coordenadores em nenhum lugar. Isso seria estranho se nós não estivéssemos ocupadas nos reencontrando.
– Ahn... Bem... – Alice começou, mas não encontrou respostas. Mas bem na hora em que eu iria correr dali, Alice foi sincera. – Nós não vimos os coordenadores em lugar nenhum. – Senhorita Miller ficou estática, parecia ter ficado pálida. Ela deve ter alguma ideia do que tenha acontecido, porque, aparentemente, nunca haviam faltado coordenadores pela escola. Alguma coisa ruim devia estar acontecendo. Mas antes que eu pudesse perguntar, a nossa professora, de uma hora para outra, voltou a seu estado normal.
– A diretoria deve os ter convocado... Mas isso não tem importância. Vamos entrar meninas. Vocês já perderam mais da metade da aula. Só tem quinze minutos para vocês pegarem a matéria.
– O QUÊ? – Gritamos juntas.
– Como nós iremos copiar tudo isso em quinze minutos? – Perguntou Alice, indignada.
– Faz assim... Entra na sala, senta em uma cadeira, pega o seu material e use sua mão para escrever o que está no quadro no seu caderno. Simples, não? – disse ela, em um tom irônico e com um sorrisinho.
– Está bem, senhorita Miller. – dissemos em uníssono.
– Isso mesmo! – disse ela, gesticulando a sala com suas mãos, no objetivo de nos fazer entrar.
Eu e Alice nos entreolhamos e no mesmo momento senti um calafrio. Parecia errado nós entrarmos, mas não poderíamos ficar no corredor se já havíamos visto a professora. Olhei para a porta com o número 36 prateado fincado como um adesivo na madeira clara. Comecei a suar e calafrios percorriam minha pele. Por que estou me sentindo tão estranha? Era uma sensação como se estivesse prestes a dar algo errado. Foram as mesmas coisas que eu havia sentido no dia do meu aniversário de doze anos.
Com passos lentos, andamos juntas até o portal da porta e paramos lá. Todos ficaram em total silêncio, olhando atentamente para nós. Havia quase sessenta pessoas ali, sem brincadeira.
Percorri meus olhos pela sala e vi um menino olhando atentamente para Alice de um modo diferente. De um jeito mais sonhador, sabe? Hum... Aí tem coisa.
Continuei percorrendo meus olhos pela sala e vi várias pessoas. Góticos, populares, zoeiros, nerds, bad boys, e mais alguns que não consegui distinguir. Havia, exatamente, dois lugares na sala que estavam vazios. Eram para mim e Alice. Um estava entre os góticos e os populares e o outro estava bem no meio dos nerds. Bem, podemos dizer que não tínhamos muitas opções.
Alice foi a primeira a se mexer e nem sequer esperou por mim. Ela andou até o grupo dos nerds e se sentou. Olhei para o outro lugar e todos olharam para mim. Eu me sentaria na cadeira que separava os góticos dos populares.
Andei com má vontade até o meu lugar e me sentei. Ignorei os olhares que davam a mim e voltei minha atenção para as minhas mãos. Estava ansiosa para que tocasse o sinal do segundo período.
A professora entrou na sala e fechou a porta. Ela andou até sua mesa e se sentou.
– Quero que façam um trabalho sobre o que eu passei hoje. Eu quero uma redação sobre a matéria. Me entreguem quinta-feira, sem falta, ou se não irão ficar com uma observação em suas provas. – disse a professora, e murmúrios de reprovação ficaram audíveis. – E sem reclamações. – ela completou.
E o silêncio passou por aqui, pensei. Todos se calaram e eu só ouvia o farfalhar de folhas de cadernos. Olhei para frente e vi Alice sentada na segunda fileira. Ela estava pegando seu material para começar a copiar as anotações do quadro, que por incrível que pareça, eram poucas. Todos os meus professores de biologia passavam inúmeros exercícios e ela, algumas anotações. Vou copiar isso em minutos, pensei.
Abri minha bolsa e tirei de lá o caderno. Abri o estojo e... Ah não! Cadê a minha caneta? Como eu vou pedir caneta pra esse povo? Que vergonha.
Olhei para o meu lado direito e lá estava um garoto gótico, escrevendo no caderno sem nenhuma animação. Olhei para a minha direita e lá estava uma garota patricinha, com salto scarpin estilo “carnaval”, vestido rosa que cobria, no máximo, só a sua bunda, ou onde ela deveria estar, porque depende se ela tiver alguma, e estava mascando um chiclete. Essas garotas que tentam amostrar o corpo que não tem...
– Ei! – eu murmurei, mas ela estava conversando com outra garota por meio de um papel. – Ei! – eu a chamei outra vez, e pelo menos dessa vez ela me ouviu.
– O que é, novata? – Perguntou ela, com uma voz taquara rachada, me olhando de cima a baixo com seus olhos castanhos.
– Você poderia me emprestar uma caneta? – perguntei, usando o resto da minha educação e me segurando para não voar nela.
– Não tenho. – Ela disse e virou a cara, voltando a escrever no papel.
– Nossa... – murmurei. Olhei para meu caderno e rezei para que uma caneta caísse do céu. E o pior é que funcionou! Não, ela não caiu do céu, mas ela apareceu na minha mesa. Olhei para minha esquerda e vi o garoto olhando pra mim. Seus olhos eram de um puro azul céu, penetrantes e sinceros. E na mesma hora eu pensei: Desde quando um gótico pode ser tão lindo assim?
Quando tinha o visto pela primeira vez, não havia prestado atenção, porque ele escrevia no caderno e seu cabelo cobria a maior parte de seu rosto. Parecia um gótico normal, mas agora percebi que nunca havia visto um garoto tão bonito antes.
Sua cabeça estava meio virada para me ver do mesmo ângulo, seu cabelo irregular caía sobre seus olhos. Seu rosto parecia ter sido calculado para que tudo estivesse perfeito. Nariz fino e meio arrebitado, olhos nem grandes, nem pequenos, sobrancelhas marcantes sem serem grossas. Suas bochechas eram de um tom rosado, fofo, que se não usasse tanto preto, poderia parecer um jogador do time de basquete ou até um surfista californiano.
Ele estava com um meio sorriso em seus lábios e por um momento eu não sabia o que pensar, fazer ou falar. Me sentia dependente de algo, alguém. Então ele sussurrou um “de nada” e se virou para continuar a escrever no caderno. Depois de processar o que ele havia feito, eu percebi que ainda o olhava, e no mesmo instante enrubesci. Me virei apressadamente para tentar disfarçar, mas antes disso, consegui captar o meio sorriso de um certo gótico que sentava ao meu lado.
Saí de meus devaneios quando ouvi um grito estridente vindo do corredor, então o alarme de emergência soou.
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