In The Dark
2 Capítulo 2: Fred e Eleanor
Notas iniciais
Capítulo 2: Fred e Eleanor
Muitos dos meus amigos e parentes têm uma admiração profunda pelo misticismo, com o qual não me identifico embora eu até goste de assistir alguns filmes de terror e ocasionalmente ler algum livro com esse tema. Já minha esposa, Eleanor, por outro lado, sempre foi intensamente interessada nesse assunto e como resultado ela possui fotos que ela mesma tirou de supostos fantasmas e até mesmo uma audioteca de FVE (Fenômenos das Vozes Eletrônicas ou EVP em inglês). Nós discutimos sobre tudo – desde OVNIS até sessões espíritas — e o que em minha opinião é fantasia, para ela é são fascinantes possibilidades. De modo geral, acredito apenas no que a ciência pode provar – o que me rendeu o apelido de “Scully” da parte dela. Enfim, apesar de graças a ela eu estar até muito bem informado sobre o assunto, eu continuava um incrédulo, até um incidente singular na casa dos avós dela transformar nossa discussão normalmente afável em algo mais sério.
No verão de 2004, minha esposa e eu fomos convidados por seus avós para passarmos as férias na casa deles, e foi o que fizemos. Partimos para a bucólica cidadezinha na sexta-feira de manhã e chegamos lá no finzinho da tarde. Na primeira noite de nossa estada, o jantar estava delicioso e a conversa animada, então só perto da meia noite é que nos recolhemos. Estava deitado na cama falando com Eleanor quando nossa conversa acabou se voltando para uma velha casa abandonada perto da entrada da cidade, logo onde o asfalto terminava e começava uma estrada de terra. Era a segunda vez que eu ia lá e desde a primeira visita (quando fomos convidá-los para o nosso casamento) fiquei seduzido pela aparência antiga, pela beleza decrépita da velha casa e seu ar de tristeza. Comentei com minha mulher o quanto aquela casa parecia assustadora e intrigante sob a luz do poente quando nós chegamos, e como ela me pareceu o cenário perfeito para um de seus adorados filmes de terror e mistério. Perguntei como era lá dentro e para meu espanto, ela respondeu que não sabia.
-Você não sabe? – Estranhei – Logo você que passa a noite em cemitérios e qualquer outro local potencialmente assombrado, munida apenas de um gravado e uma lanterna, nunca ter entrado lá?
Ela sorriu.
-Meu avô nunca me deixou entrar lá. Tem medo que o teto caia em cima de mim.
Não sei por que, mas não gostei daquele sorriso que ela me deu.
Na manhã seguinte, durante o café da manhã Eleanor comentou o assunto com o avô dela e eu me amaldiçoei por ter tocado no assunto na noite anterior.
-É um lugar perigoso, tem morcegos no forro e o teto pode desabar, não quero você lá dentro.
Isso foi tudo o que seu Antero estava disposto a falar e deu por encerrado o assunto. Ela mudou de assunto e os dois pareceram esquecer o motivo da pequena discussão. Acho que o avô dela não deve conhecê-la bem, caso contrário saberia que isso não acalmaria a curiosidade dela. De jeito nenhum.
Umas duas horas depois, quando nós voltávamos do bolicho vizinho á casa de dona Helena e seu Antero, Eleanor com os olhinhos extremamente brilhantes comunicou-me que iríamos investigar a tal casa, assim que seus avôs fossem fazer compras. Não gostei da idéia, mas sabia que não adiantava contrariar ela, então apenas concordei – seria até mesmo uma boa oportunidade de provar minha visão racional do mundo com uma bobagem que eu mesmo criara.
No meio da tarde, com o sol bem quente, estacionei o carro embaixo de uma árvore e nos aproximamos da porta da velha residência abandonada. Hesitei na soleira da porta e olhei por cima do ombro para me certificar de que não havia ninguém passando por lá naquela hora. Não estava a fim de nenhuma discussão de família no jantar ou de ser preso por invasão, mas Eleanor entrou direto, sem nenhuma preocupação. Eu a segui, tropeçando numa cadeira antiga, que estava derrubada mais a frente da porta, do lado de dentro da casa. A sala principal estava repleta dessas cadeiras antigas e uma mesa também bem antiga estava encostada na parede. O soalho estalava bastante a cada passo que dávamos.
O interior estava bem iluminado graças á uma janela aberta, que no passado, assim como as outras quatro (que estavam fechadas), foram pintadas, mas agora estavam quase todas descascadas. Eleanor chamou-me para ver o quadro pendurado na parede, parecia ser realmente antigo e retratava uma moça ao lado de um espelho que refletia as costas descobertas pelo profundo decote do luxuoso vestido vermelho de baile, sua pele cor de marfim e os cabelos muito negros e lisos, caindo pelos ombros. Estávamos os dois maravilhados com a pintura, quando ouvimos o barulho acima de nós. Admito que nessa hora levei um susto tão grande que dei um pulo e quase esqueci de minha posição cética. Quase.
Ficamos olhando para cima, para a madeira do teto, escurecida pelo tempo, dei um passo para mais perto de Eleanor e sussurrei um “você ouviu isso”, mas ela apenas me interrompeu com um aceno de mão, pedindo silêncio. O silêncio reinou absoluto por alguns minutos, até que não agüentei mais e soltei:
- Vamos embora, devem ser os morcegos que o seu avô falou...
Mas pra variar, ela não me ouviu. Nem sequer se mexeu. Eu já ia reclamar novamente quando ouvi o barulho outra vez, só que mais claro, mais alto, em outra direção, como se estivesse se movendo no andar de cima. Ratos?Bom, se fossem deviam ser enormes pelo barulho que faziam. Imediatamente nossas cabeças viraram em direção da porta á esquerda, a atravessamos e paramos em frente a uma escada.
-Você acha que podem ser ratos? Ou quem sabe, talvez um gato?
Ela não me respondeu, apenas olhava insistentemente o topo da escada, o que me deixou ainda mais apreensivo. Foi quando veio à terceira batida, tão forte que soltou poeira do teto seguida de um barulho mais baixo, parecia que era algo sendo arrastado pelo chão. Aquilo bastava. Segurei firmemente o braço de Eleanor e falei um “vamos”, mesmo sabendo que isso não adiantaria.
-Parece que tem alguém lá em cima. – sussurrou ela, com o olhar ainda fixo nos três últimos degraus da escada.
Eu não sei quanto á vocês, mas não levo numa boa afirmações desse tipo, ainda mais nessas circunstâncias. Não estava mesmo a fim de me deparar com sei lá, o Maníaco do Parque. Não mesmo. Mas acho que nada me prepararia para ouvir o que ouvi a seguir. Não tanto pelo conteúdo, mas pela voz, porque minha mente racional ainda tem problemas para lidar com isso quando estou prestes a adormecer. A voz era baixa, suave, bem macia, parecia muito triste abafada pela distância dos andares que nos separavam e não sei por que, me fez lembrar o quadro pendurado no outro cômodo.
- Roberto, é você, meu bem? Você voltou?
Não lembro de muita coisa, além da voz e de que num minuto estávamos lá dentro e no outro estávamos lá fora, com o sol forte sobre nossas cabeças e uma brisa agradável batendo em nossos rostos, enquanto corríamos de volta ao carro. Meu lado racional que parecia ter me abandonado, voltou com força quando entrei no carro. “Oras”, pensei, “mas a própria Scully não correria numa situação dessas? Mas, graças a Deus meu nome não é Roberto, é Fred, ou seja, bem diferente.” Então me dei conta de que não estava assim tão racional quanto gostaria. Olhei com o canto dos olhos e vi que Eleanor também ultrapassara seu nível de tolerância. Voltamos para a casa em silêncio e não falamos nem uma palavra sobre isso o dia todo, como se nada tivesse acontecido. Só a noite, na cama é que voltamos a tocar no assunto.
Eleanor falou com se estivesse pisando em ovos, esperando que, como sempre eu dissesse para não falar mais sobre isso, que ela esquecesse o assunto. Só que eu preferi lidar com o assunto ao invés de deixar para lá. Contei á ela o que achei ter ouvido e tentei arranjar explicações plausíveis para o que podei ter sido.
- Nossas obturações podem ter captado uma estação de rádio próxima, nos confundindo com essa “voz fantasmagórica.” – Com essa ela apenas me lançou um olhar mostrando absoluto descrédito — Ou talvez tenha alguém morando lá e ninguém sabia disso.
Não gostei muito da segunda idéia – pensar em vagabundos ou fugitivos da prisão arrastando-se por lá enquanto andávamos despreocupadamente não era algo que me agradasse muito. Pensei atém em chamar a polícia para ir dar uma olhada, mas e se estivéssemos enganados? Poderia haver outra explicação e eu também não queria ter que me explicar para o seu Antero, admitindo que fui contra suas ordens explícitas, assim como uma criança ou pré-adolescente.
-É, pode ser... Mas a Ana Paula não falou sobre o quadro, e a voz era outra!Ela falou de uma figura masculina, não de uma mulher...
Ela falou pensativamente, eu levantei a cabeça do travesseiro e olhei diretamente para ela.
-Hã? A Ana Paula esteve lá e te falou sobre a casa?
Como assim, a Ana Paula esteve lá? Minha cunhada partilhava da minha impaciência com o lado irracional e intuitivo da experiência humana que tanto fascinava a irmã dela. Só que Eleanor nunca foi superficial em seu ponto de vista e era capaz de encerrar nossas discussões (sim, discussões e não apenas conversas) nos acusando de “ficarem presos a uma visão de mundo rígida e científica.” Se eu era a Scully, certamente Eleanor era o Mulder. Ou no mínimo, Mônica Reyes.
-Aham, esteve uns dois anos atrás.
-E ela te falou sobre isso?
Eu estava boquiaberto.
-Não, eu li no diário dela.
-Ah, você leu no... — E então eu me dei conta – Você o QUÊ?
É, dessa vez ela passou dos limites.
-Pfff!Como se fosse a primeira vez... Olha Fred, o que interessa é que ela estava certa e realmente tem algo lá!
-E o que você sugere?
Arrependi-me assim que as palavras saíram de minha boca, mas ficou acertado que iríamos voltar lá ao amanhecer e investigaríamos a casa novamente.
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