In The Dark
3 Capítulo 3: A Volta
Capítulo 3: A Volta
A nossa segunda entrada foi bem mais ordenada que a primeira, Eleanor levou uma lanterna e um mini-gravador e eu armei-me com uma pá que achei no porão dos avós dela. Assim que demos uma segunda olhada no estado da velha casa, a idéia de que alguém pudesse estar morando lá foi por água abaixo, já que qualquer um que tentasse subir as escadas e alcançasse o segundo andar provavelmente quebraria a madeira apodrecida e caria no chão.
Ficamos em silêncio, tentando escutar alguma coisa pelo que parecia ser uma eternidade e só ouvimos o estalo ocasional da madeira se expandindo ao sol, só que tínhamos ido longe demais para simplesmente ir embora sem dar uma boa olhada, especialmente lá em cima, então o jeito era pensar em como subir sem nos matarmos.
Eu tinha visto encostado na árvore em que estacionei perto no dia anterior, um pedaço de madeira razoavelmente novo de uns cinqüenta centímetros de altura e uns quinze de largura, então tive a idéia de ir pegá-lo e coloca-lo deitado na escada, para subirmos nele, usa-lo como apoio.
-Claro e podemos usar os tijolos que vi lá fora para reforçar a rampa!
Com essa sugestão vinda de minha esposa olhei para ela surpreso.
-O que foi? Eu já tive infância, tá?
Ela nunca deixaria de me surpreender, fato.
Cerca de uns 20 minutos depois terminamos de construir nossa rampa e gastamos mais uns dez minutos discutindo como crianças sobre quem deveria subir primeiro.
-O Mulder sempre vai na frente!
-Lea, mas se tiver um louco lá em cima a pessoa armada é que deveria ir primeiro. Sem contar que o Mulder sempre perde a arma, então vou eu!
Sem mais argumentos, ela calou-se, e ajoelhado eu fui subindo aos poucos, com a pá na minha mão. Não precisei da lanterna, nessa hora o sol já estava forte e entrava por uma das janelas que provavelmente estava aberta no andar de cima, o suficiente para eu poder ver tudo á minha frente.
Olhei em volta examinando o local ao mesmo tempo em que avaliava se o piso agüentaria meu peso. Não tenho a mínima idéia do que esperava ver ali em cima — a dona da voz provavelmente, mas o que quer que fosse não estava mais lá. Não havia nada além de mais mobília antiga e restos de coisas gastas pelo tempo (como a cabeceira de madeira de uma cama encostado-se à parede). Notei a crosta de poeira com quase dois centímetros de altura cobrindo cada centímetro do piso. Girei a cabeça para a direita e dei de cara com uma velha cadeira de balanço caindo aos pedaços. Nesse momento ouvi a voz de Eleanor, que acabava de chegar atrás de mim:
- E aí, achou alguma coisa?
-Pode esquecer a nossa teoria de algum estranho morando aqui.
E apontei para a poeira. Não tinha pegada alguma. Não sei por quanto tempo ficamos ali olhando em volta, mas deu para ver que ali nunca esteve fugitivo, vagabundo, louco ou rato nenhum. Estava me virando para descer e ir embora quando minha esposa tirou uma fita cassete virgem do bolso e colocou no gravador.
-Não senhora, pode esquecer, estamos indo embora agora!
Eu já estava cansado disso tudo, era um jogo de gato e rato onde não havia nada.
- Calma, nós vamos embora, mas o gravador fica. Só por precaução.
E piscou para mim, enquanto colocava o gravador no chão, perto da cadeira de balanço. Saímos de fininho de lá.
Decidimos não preocupar os avós dela perguntando sobre a história daquela propriedade ou, brinquei com minha esposa, ‘possíveis fantasmas vagando pelo local’, então durante o jantar daquela noite quando eles nos perguntaram o que andamos fazendo durante o dia, dissemos que tínhamos dado alguns passeios, aproveitando a vista.De acordo com Eleanor seu Antero era ainda mais racional que eu, e não gostava sequer que mencionassem o assunto.
Como para pegar o gravador que Eleanor deixara na casa nós teríamos que usar nossa rampa novamente e teríamos também que fazer isso bem cedo de manhã para não levantar suspeitas com os avós dela, deixamos nossas malas prontas, já que mais tarde no mesmo dia voltaríamos para nossa cidade.
Acordamos às quatro da manhã e saímos escondidos para a velha casa mais uma vez. Lá dentro, no total escuro só enxergávamos o que a lanterna iluminava, mas dava para ver que tudo estava como deixamos, inclusive a rampa. Nenhuma pegada na poeira a não ser as nossas. Não resisti e vire-me para Eleanor:
-Viu? Nenhuma atividade paranormal ou governamental, minha cara!
Ela simplesmente revirou os olhos, contrariada e seguiu em frente, rápida e cuidadosamente engatinhando rampa acima, esticou a mão e pegou o gravador, que estava exatamente no mesmo local onde ela deixara no dia anterior. Ainda com cuidado, ela desceu a rampa devagar, e silenciosamente nós tiramos os tijolos, colocando-os no mesmo lugar de antes, depois tirei a tábua e coloquei-a encostada à porta de entrada, não me preocupando em colocá-la novamente em baixo da árvore.
Eu batia as mãos para tirar um pouco do pó e Eleanor estava batendo nas roupas com o mesmo propósito quando aconteceu de novo. O mesmo barulho do primeiro dia de nossa visita àquela residência. Senti meus olhos se arregalarem.Eleanor provavelmente já tinha ouvido algo, porque quando olhei para ela, vi-a olhando para o patamar da escada fixamente. Olhei na mesma direção, mas com a escuridão não pude ver nada. Chegando um pouco mais para perto de mim ela perguntou se eu também tinha ouvido. Não consegui responder e ela voltou a ficar quieta.
Logo ouvimos uma segunda batida, mais forte que a primeira e tão violenta que derrubou bastante pó do teto, seguida do som abafado de algo sendo arrastado, como se tivesse alguém se arrastando lá em cima, chegando cada vez mais perto da escada. Senti os pêlos do meu corpo todo se arrepiar e vi minha postura cética me abandonar outra vez. Imediatamente nós disparamos porta a fora, tropeçando na escuridão. Logo estávamos sentindo o fresco ar matinal, que mesmo assim não adiantava nada, pois logo que estávamos passando pela porta decrépita da casa pela última vez nas nossas vidas (eu espero), ouvimos a voz novamente, dessa vez mais perto, como se estivesse no meio da escada, a voz dessa vez mais clara, mais triste e sombria, cujas palavras foram: “Roberto... Eu vi você! Você voltou!”.
Enquanto corria de volta ao carro, eu olhava por cima do ombro para me certificar de que estava tudo bem, que ninguém nos seguia.
Dentro do carro, Eleanor examinava o gravador atentamente.
-Estava desligado! Alguém o desligou de propósito no meio da fita!
-Talvez as pilhas tenham acabado.
Ela voltou a fita e o gravador voltou a funcionar. No tempo que levou para a fita voltar, chegamos a casa, descemos do carro e entramos. Quando ela ia apertar play, dona Helena, usando um roupão, abriu porta da cozinha e deu de cara com nós dois.
- O que vocês dois estão fazendo acordados tão cedo? Eu ouvi o barulho do carro aqui em frente.
-Hã, nós queríamos ver o sol nascer lá perto do rio, sabe, lá na ponte.
Eleanor respondeu calmamente e logo estávamos tomando café da manhã. Após o café, colocamos as malas no carro, nos despedimos e pegamos a estrada.
Passamos a estrada principal que desviava para a estrada de chão que levava á casa e fiquei observando-a enquanto passávamos por ela. Pessoas que iam para o trabalho e eu não lembrava o nome acenaram para nós e eu forcei um sorriso para elas.Eleanor acenou de volta e assim que saímos da cidade, tirou o gravador do bolso e tocou a fita.
Estacionei o carro no acostamento para poder ouvir melhor. Os primeiros sons gravados foram “calma, nós vamos embora, mas o gravador fica. Só por precaução.”, seguida do som da casa se contraindo ao sol, seguida de silêncio. Uns quatro ou cinco minutos de silêncio e então o barulho de um caminhão ou ônibus sei lá, passando pela estrada perto da casa, e o silêncio estava de volta por mais uns minutos. Comecei então a ouvir bem baixinho um tipo de som que a princípio não entendi bem, depois percebi que o som estava ficando mais alto. Era o som de uma respiração forte, como se um homem estivesse chorando e apesar de não se ouvir o som de nada se movendo, deu a impressão de o dono dessa respiração estar chegando perto do gravador. A respiração e o choro sumiram de repente e ouvimos ao fundo, como se estivesse meio distante,mas no mesmo cômodo, um canto suavíssimo, da mesma voz doce de mulher que ouvimos na casa. Não consegui entender as palavras, mas era como uma canção de ninar bem antiga...
A canção aos poucos foi aumentando e a respiração voltou e junto com a respiração não veio o choro e sim uma voz misteriosa, grossa, que entoou a canção, fazendo um dueto macabro com a mulher (que mais tarde passamos a chamar de “A Mulher do Quadro”). Os últimos segundos da gravação eu nunca esquecerei, porque pôs no meu íntimo a dúvida em minha fé cega na ciência. As vozes pararam de cantar de repente, como se tivessem percebido algo. No lugar da canção macabra, a Coisa insana de respiração aguda começou a gargalhar de uma maneira seca e distorcida, enquanto seu dedo alcançou e apertou o botão stop.
Eleanor segurava o gravador em suas mãos trêmulas e eu igualmente abalado, não consegui pensar em nada sobre o que falar. Nem uma deduçãozinha racional sequer.Por fim, com uma voz baixa, ela me perguntou:
-Não conheço essa música e você?
-Também não.
-E quem será o Roberto?
-Não faço a mínima idéia.
-Nem eu.
Respirei fundo e voltei a dirigir, pensando que realmente existem coisas que não podem ser explicadas racionalmente. Até hoje, cinco anos depois, apesar de ter ouvido a fita um bilhão de vezes e de minha mulher ter ampliado o som de várias maneiras, eu não sei explicar o que aconteceu e nem mesmo Ana Paula reconheceu a funesta música. O que me importa é que essa experiência reservou em minha mente um lugar para o assombro diante da vida, e principalmente o quanto essas vozes ainda me assustam no escuro quando estou prestes a dormir. Porque é na escuridão que eu as ouço e na maioria das vezes eu posso jurar que vejo uma figura masculina alta, parada, encostada na porta do meu quarto e uma figura feminina sentada na cadeira do criado mudo de minha esposa, como se fosse uma cadeira de balanço, eternamente a espera de alguém que nunca virá.
Fim.
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