In London
1 Chegada em Londres
Notas iniciais
abraços.
Aquele foi um dia atípico de todos os outros, foi o dia em que tudo mudou em minha vida, tudo que eu era ou mesmo conhecia...
perder alguém que se ama é realmente a pior coisa que se pode acontecer, creio que nenhuma filho venha a imaginar isso em sua vida, da perca de um de seus pais. quanto mais quando você vive com apenas um deles, devido a uma separação de mais de 20 anos... perante tudo o que aconteceu eu tinha algumas alternativas, como morar sozinha e tentar bancar o aluguel e viver longe de toda a minha família ou voltar a morar com meu pai e ser abraçada por uma família que não tinha tanto contato.
não tive muito tempo para escolher... aliás, não tive tempo para nada.
em um momento eu e minha mãe estávamos voltando pra casa, em meio a uma animada conversa e de repente... na verdade não me lembro exatamente o que aconteceu depois disso, só me recordo de ter acordado em um quarto de hospital. tudo o que sei a respeito do que aconteceu foi por intermédio de outras pessoas, como a minha avó que apareceu do nada. mas ela não vive em Londres? foi um dos primeiros questionamentos que fiz.
-Mas vovó, o que faz aqui? – perguntei assim que consegui me ajeitar na cama e reconhecer o local onde estava. – O que aconteceu?
-Minha querida, que bom que acordou. Já estávamos todos preocupados.
minha avó tinha aquele sotaque britânico, não que tenha algo contra mas... naquele momento a presença dela me incomodava e nada tinha sentido.
-Preocupados? Como eu vim parar aqui? – minha cabeça doia muito enquanto tentava me lembrar como havia chegado ali.
-Bom... é...
-Veja só, nossa bela adormecida finalmente acordou. – disse o médico entrando no quarto e interrompendo a minha avó. – vejo que está melhor. – abrindo um sorriso.
-Desculpe doutor, mas... estou tentando me lembrar o que aconteceu e porque você estão falando que acordei. Sinceramente não estou entendendo nada e bom... ficaria feliz se alguém pudesse me dar explicação de algo.
Minha avó e o médico se entreolharam e aquilo me deixou mais confusa do que nunca. queria me lembrar do que havia acontecido, o máximo que vinha a minha mente era de uma luz muito forte vindo em minha direção.
-Bom... – começou o médico e se sentando ao meu lado – Catherine, ahn... não vou esconder o jogo pra você, vou ser totalmente sincero. – ele olhou para minha avó que apenas consentiu com a cabeça – há quase uma semana você e sua mãe sofreram um acidente, que pegou a todos de surpresa. Os peritos concluíram que além de um motorista bêbado que foi ao encontro do carro onde vocês estavam, também houve problemas no carro o freio não funcionou e o airbag não pode ser totalmente ativado.
-Então essa é a luz forte que eu consigo me lembrar. – falei baixinho.
-Sim. Depois que o socorro chegou você já estava desacordada. todos imaginaram que as duas pessoas que estavam no carro já não estavam vivas. porém, conseguiram tirar você a tempo e com vida. Como havia chovido e estava muito frio você quase morreu de hipotermia, mas você resistiu e desde você está aqui, acompanhamos seus sinais vitais que eram perfeitos, mas ainda se encontrava em coma.
-Estávamos com medo de que não acordasse mais querida. – disse minha avó já enxugando as lágrimas.
-Mas... – respirei fundo. – e a minha mãe? Ela está bem? Está internada, também esteve em coma? – já estava temerosa com as possíveis respostas.
Olhei para minha avó que colocou a mão no rosto, mas pude perceber que ela chorava. e assustada olhei novamente para o médico exigindo que verbalizasse o que havia acontecido com minha mãe.
-Responda... por favor – lágrimas já haviam escapado dos meus olhos antes mesmo que ele pudesse responder qualquer coisa.
Ele respirou fundo e com os olhos marejados me respondeu:
-Sinto muito... – respirou fundo antes de dizer: — mas sua mãe não resistiu.
Aquilo era mais do que eu podia suportar. a dor que vinha no meu peito era cruel. Como tudo aquilo podia ter acontecido? Como? Tudo foi muito rápido...
Senti minha avó me envolver em seus braços, tentando me confortar... mas eu não podia acreditar no que acabara de ouvir. Era demais... era demais pra mim. Já não havia mais ninguém no Brasil para me ajudar. Estava sozinha, por mim mesma.
Depois de tudo isso ainda teria que ficar mais uma noite no hospital. Eu não via a hora de sair daquele lugar, tudo era muito triste, vazio... e eu não conseguia parar de chorar. O que seria de mim? Não tive nem a oportunidade de dizer um último adeus a minha mãe...
Eu precisava me decidir, precisava tomar um rumo daqui para frente. Não foi atoa que minha avó veio da Inglaterra, os únicos parentes que conseguiram entrar em contato estavam do outro lado do Atlântico. Então ela veio o mais rápido que pode para não me deixar sozinha. E ainda veio me oferecer uma mão, insistindo para que eu pudesse voltar com ela para Londres e morar com a minha família, quanto mais no estado que eu me encontrava, aqui não teria ninguém para cuidar de mim.
Realmente era a melhor opção, como eu ia dar conta de um braço e um pé quebrado, para ter que resolver a minha vida e ainda dar conta de tudo sozinha. Ainda no hospital me decidi em ir para Londres, pelo menos pelo tempo até ficar boa... até que pudesse fazer minhas coisas novamente.
Com o momento da partida daquele hospital eu não consegui dormir. Ficava relembrando tudo o que se passara, até aquele momento. No que estaria me aguardando. O que poderia acontecer.
Após a liberação do médico que me colocou em uma cadeira de rodas, e nos levou até um carro preto que estava nos aguardando do lado de fora, seguimos para minha casa. Minha avó já havia pedido que arrumassem todas as minhas coisas e pediu que eu conferisse se havia ainda mais alguma coisa que gostaria de levar comigo. Sim... gostaria de levar tudo comigo, as roupas o perfume... tudo que lembrava minha mãe.
Quando adentrei o seu quarto e senti o seu perfume, não consegui fazer mais nada... viajei no tempo me lembrando de quantos momentos passamos ali, de alegria, tristeza, choros. Havia uma blusa jogada na cama, a qual abracei. Talvez ir para a Inglaterra realmente fosse o melhor a fazer, não poderia viver ali... não saberia o que fazer.
-Vovó, gostaria de poder visitar o túmulo da minha mãe antes de partir. Apenas dizer um último adeus.
-Mas claro minha querida. Claro que iremos. – disse ela já me abraçando e beijando meu rosto.
Apesar de nos encontrarmos pouco, minha avó paterna sempre teve um imenso carinho e atenção por mim. Não era de se admirar que neste momento ela viesse me fazer companhia.
Partimos no dia seguinte pela manhã... pude despedir de meus amigos e também de minha mãe. Logo estávamos em Sâo Paulo e já embarcando para Londres.
-Vovó, e meu pai? Porque não veio?
-Minha criança, seu pai anda muito ocupado por conta da política. Ele está concorrendo a está eleição e mal para em casa. Ele quis adiar muitos compromissos para estar com você, mas infelizmente não o pode.
Apenas assenti com minha cabeça. Não conversamos muitos durante a viagem, minha avó era uma mulher que sabia respeitar o sentimento de cada pessoa, por isso me deixou me perder em meus pensamentos durante as 12 horas de viagem.
“Tripulação preparar para o pouso.” Foi tudo o que consegui ouvir e me ajeitei na poltrona.
A partir de agora começa uma nova vida, mesmo que seu pai não esteja nem ai pra você ou ninguém aqui, você terá de ser forte o suficiente até ficar boa.
Tudo ficará bem! Era o que eu repetia para mim mesma. Afinal, quantas vezes eu já tinha vindo visitar a família? E quantas vezes também fui ignorada por parte dela? Só porque sou uma filha ilegítima, mas não deixo de ser filha, certo?
Finalmente desembarcamos, a dama de companhia (sei que isso é um pouco tempo da rainha, fala sério, como se não estivesse na terra dela agora) da minha avó pegou as minhas bagagens, já que a tentativa que eu fiz para pegar foi em vão. E tive que deixar essa tarefa para ela.
Seguimos para o saguão ao encontro do motorista que nos aguardava com uma placa onde dizia: “Sra. McWayans”, que se referia a minha avó. Mas o que realmente me chamou a atenção foi o fato dele ser muito jovem, pensei que apenas pessoas mais velhas poderiam ser contratadas. Sem querer acabei o encarando por mais tempo do que deveria. Quando me dei conta ele já retribuia o olhar, acho que acabei corando nesse momento e desviei o olhar o mais rápido possível para minha avó.
Durante o percurso até Eveny Street, pude ir admirando a paisagem Londrina. Minha avó falava animadamente do quanto eu iria gostar de morar ali, de tantas coisas que havia para conhecer e que eu poderia cursar uma nova faculdade. Apenas sorria para ela e concordava, não estava muito a fim de conversar. Quando o carro parou no sinal pude perceber o motorista olhando para mim através do retrovisor. Novamente desviei o olhar.
O percurso não passou de 1h30min., confesso que para alguém que mora no interior é bem longe, mas com tantos lugares bonitos para se admirar o tempo passou bem rápido.
E finalmente em Eveny Street e toda a sua pompa de mansão inglesa, recordo da minha infância enquanto corria pelos jardins com meu primo Jared, será que ele virá me visitar? Volto do meu devaneio e vejo alguns rostos familiares.
-John. – gritei e o abracei em seguida, John era o mordomo da mansão desde quando eu me entendo por gente, me lembro de seus filhos quando era pequena, o quanto nós brincávamos, Henry e Suzan. Infelizmente perdi o contato com eles enquanto estive no Brasil, talvez ainda queiram ser meus amigos.
-Oh senhorita McWayans, como cresceu. Minha queria, sinto muito pelo que aconteceu e deixo a senhorita minha condolências.
Não sabia o que dizer, então apenas abaixei meus olhos. Ele então me pediu licença e seguiu para o carro para ajudar o jovem motorista, apenas observei o quanto eram próximos e conversavam enquanto desciam as bagagens.
-Que ajuda para seguir? – perguntou minha avó.
-Oh, não precisa. Acho que até a entrada da casa eu consigo. Obrigada.
O que estava facilitando minha vida era a bota imobilizadora que me permitia locomover sem necessitar de uma cadeira de rodas. Segui para o saguão da casa, pelo jeito meu pai ainda não havia chegado e pela diferença de horário já passavam das 23:00.
Tudo estava no mesmo lugar, no mesmo lugar de 8 anos atrás. Nada havia mudado, a não ser por fotos de pessoas que não conhecia que enfeitavam alguns móveis.
-Você ainda se recorda do seu quarto?
Quando me virei Rachel estava lá. Rachel era a governanta da casa, mas quando eu vinha de férias ela sempre cuidava de mim. Como era bom reencontrá-la.
-Que bom rever você Rachel. – já a abraçando.
-Como está senhorita McWayans? Soubemos das tristes notícias e todos sentimos muito.
Apenas sussurrei um obrigada, o que a fez retribuir com um sorriso amigável e tímido, como sempre. Pelo jeito ela não mudara.
-A senhorita deve estar muito cansada, gostaria de um banho? As suas malas já devem estar no quarto.
-Rachel, por favor nada de senhorita McWayans, Cath por favor.
Ela sorriu um pouco constrangida. Minha avó avisou que já iria subir e logo trataria de algo para nos alimentar. Mas a única coisa que eu queria era tomar o meu banho e me deitar, apesar de não estar com sono por causa do fuso horário, mas minha vontade de estar sozinha por um tempo era enorme.
Rachel me ajudou a subir a escada que dava para o quarto e preparou um banho, insisti que poderia fazer tudo sozinha, mas logo vimos que isso era impossível. Nunca gostei muito da ideia de ter alguém me dando banho, mas nesse caso precisei da ajudar dela. E infelizmente isso iria persistir por algum tempo até que pudesse retirar o gesso. E logo logo iria começar a fisioterapia, como sempre minha avó já havia ajeitado tudo.
Acabei não descendo para o jantar, meu corpo ainda doia muito por conta do acidente e também pela viagem. Pedi Rachel para que avisasse que estava sem fome e preferi ficar em meu quarto. Muito custou para que eu conseguisse dormir, pois tudo que conseguia fazer era chorar... consegui descansar apenas depois que tomei um remédio e então pude dormir.
Notas finais
bjinhos
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