Império das Cinzas: O Nascimento da Vilã
9 Capítulo 9
A escadaria de pedra descia em uma espiral íngreme e gélida, afundando nas entranhas da montanha. O ar, antes denso e sufocante, tornara-se úmido e frio, carregado pelo cheiro forte de mineral antigo e rocha molhada.
Segui os passos do Sasuke com a guarda alta. A tocha na mão dele cortava a névoa prateada que rastejava pelos degraus, projetando sombras longas e sinuosas contra as paredes rochosas. A atmosfera entre nós não era mais de confronto aberto, mas de uma trégua pragmática e desconfiada — unida pelo choque do que acontecera na câmara anterior e pela única certeza que nos restava: para sair dali, precisaríamos um do outro.
Ao chegarmos ao final da escadaria, o corredor se abriu diante de um arco monumental de pedra negra. Parei a poucos passos de distância, sentindo a pele do meu pescoço arrepiar. O arco era ladeado por pilares esculpidos com a figura de dragões entrelaçados. No topo do pórtico, gravada em letras rúnicas que emitiam um brilho esmaecido e pulsante, havia uma única linha entalhada na pedra.
Sasuke ergueu a tocha, iluminando as palavras com a luz vacilante do fogo. Ele franziu o cenho, os olhos negros percorrendo os traços ancestrais.
— Àquele que deseja o poder deve renunciá-lo primeiro — leu ele, a voz gélida e grave ecoando sob a estrutura de pedra.
O peso daquelas poucas palavras pareceu congelar o ar ao nosso redor. Não era um aviso comum e nem uma ameaça explícita; era uma charada ancestral, um filtro moral do qual não haveria como escapar.
— Um teste de renúncia... — murmurei, encarando a escuridão além do pórtico, a mente analítica tentando assimilar o enigma. — Para reivindicar o que está lá dentro, teremos que entregar algo do mesmo valor.
Sasuke sustentou o olhar na pedra por mais um segundo antes de virar o rosto para a escuridão do corredor. A chama da tocha refletia-se na lâmina da espada dele, mas a rigidez defensiva do seu corpo tinha mudado.
— Seja lá o que este lugar exigir... — disse ele, a voz baixa e pragmática, assumindo a frente dos passos — ...descobriremos logo... Mantenha a guarda alta.
Ajustei o casaco azul tático sobre os ombros e confirmei com um aceno rápido de cabeça, deixando a inscrição para trás. Antes que ele pudesse dar mais do que três passos além do arco, o mecanismo da câmara reconheceu a nossa presença.
No milissegundo em que a bota dele pressionou a grande placa de pedra central, um estalo metálico reverberou pelas paredes, profundo como o romper de uma corrente gigante. O brilho avermelhado da inscrição no pórtico se apagou e foi substituído pelo som ensurdecedor de engrenagens ancestrais se libertando.
— Cuidado! — gritei.
Um sibilo violento cortou a penumbra. Dutos laterais cravados nas paredes começaram a sugar o ar da câmara com uma força absurda, criando uma despressurização gélida que fez os meus ouvidos estalarem e o fôlego fugir dos meus pulmões. Ao mesmo tempo, as paredes gigantescas de rocha rúnica começaram a deslizar pesadamente para dentro, reduzindo o espaço de manobra do salão a um ritmo lento, mas implacável.
— O teto! — alertou Sasuke, a voz firme cortando o barulho das engrenagens.
Enormes lâminas verticais de ferro negro, cravadas com ranhuras afiadas, despencaram do teto em arcos diagonais rápidos, cortando o ar onde estávamos com a precisão de uma guilhotina.
— Pela direita! — comandei, usando minha agilidade e leitura tática para identificar, rapidamente, o intervalo entre o balanço das lâminas. — O padrão do mecanismo alterna a cada três segundos!
Corremos lado a lado pela pedra lisa. A poeira ancestral subia em torvelinhos com o vento forte sugado pelos dutos. Sasuke mantinha a postura de combate, usando a lâmina de sua espada para rebater fragmentos de rocha que se soltavam do teto, me cobrindo a cada passo.
Estávamos a poucos metros do túnel de saída da câmara quando o chão sob meus pés cedeu. Uma placa de pressão oculta disparou uma trava secundária. Acima de mim, um bloco de rocha maciça de quase duas toneladas libertou-se do teto, despencando em queda livre direto sobre a minha rota de fuga. O ar faltou no meu peito. Eu não teria tempo de esquivar.
— Sakura!
O grito dele cortou o caos. Pela primeira vez os nossos títulos nao importavam e escutei o meu nome em sua voz rouca. Sasuke não calculou riscos, não hesitou e não pensou na própria preservação. Em um arranque de velocidade pura, ele se atirou na minha direção, entrelaçando o braço firme ao redor da minha cintura e me arrastando com violência para a reentrância de um ponto cego junto à parede.
Fomos arremessados contra a rocha fria, mas o bloco de pedra não parou. Para impedir que a estrutura nos esmagasse na parede, Sasuke girou o corpo e travou o ombro esquerdo — exatamente o lado ferido — contra uma viga de ferro negro que sustentava o contrapeso da armadilha.
Um urro de dor rasgou a garganta dele.
O impacto foi brutal. Vi a fivela do protetor de ombro dele se estraçalhar com a pressão. Ele segurou a viga com a mão direita e usou a força pura do próprio corpo para conter o mecanismo por dois segundos cruciais — o tempo exato para me empurrar para dentro da fenda segura do túnel.
— Vai! — rugiu ele, os dentes trincados, os olhos negros queimando de dor e determinação.
A viga de ferro cedeu sob o peso colossal. A rocha desabou com um estrondo monumental, lacrando a câmara atrás de nós e gerando uma onda de choque que arremessou Sasuke para dentro da fenda.
O chão sob a fenda desmoronou em um declive íngreme de cascalho, e nós rolamos pela penumbra até despencarmos na entrada de um amplo abrigo subterrâneo.
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Ao contrário da gélida câmara de armadilhas lá em cima, este ambiente parecia isolado da rigidez da montanha. O ar era visivelmente mais denso e morno, impregnado pelo aroma suave de minerais úmidos e vegetação rasteira. Paredes de rocha vulcânica escura se curvavam em uma abóbada natural, onde pequenos cristais luminescentes incrustados no teto emitiam um brilho fraco, misturando-se à luz alaranjada da tocha que rolara até a borda de uma lagoa.
No fundo da caverna, uma nascente termal brotava entre fendas rochosas. A água cristalina acumulava-se em uma bacia natural, soltando veios de vapor leve e aquecido que subiam em espirais suaves, mantendo o nicho em uma temperatura incrivelmente agradável e acolhedora.
— Sasuke! — chamei, a voz falhando no eco da caverna. Não havia mais a necessidade dos títulos.
Ajeitei-me em um salto e arrastei a tocha para perto. A poucos passos da margem da nascente termal, ele estava caído de bruços sobre a pedra lisa. Inerte.
Girei o corpo dele com cuidado e o coração despencou no meu peito. O lado esquerdo do manto e da túnica estava ensopado de um sangue escuro e quente. O esforço insano de segurar aquela rocha tinha rasgado a ferida antiga de fora a fora. A pele dele estava gélida, pálida como cera, e a testa coberta por um suor frio.
Minhas mãos tremeram. Wm minha vida no Japão eu sonhara em ser médica. Eu trabalhava incessantemente para conseguir recursos para pagar uma faculdade. Mas, a minha ansiedade era tamanha, que eu usava o restante do tempo livre em alas médicas da biblioteca pública, e imersa em Império das Cinzas também. Eu não tinha prática clínica real, apenas a teoria devorada em livros na minha vida anterior. Mas a vida dele dependia do que eu faria nos próximos dois minutos.
— Não morre... Por favor, fica comigo — murmurei, a respiração presa na garganta. Meus dedos estavam trêmulos. Ver uma ferida aberta pessoalmente não era bem diferente das fotos frias nas páginas da biblioteca.
Alcancei o cinto dele. Minhas mãos ensanguentadas tatearam o couro até encontrar o cabo de aço escuro da sua própria adaga. Saquei a lâmina. O peso do metal frio assustou meus dedos por um segundo, mas usei o fio afiado para cortar as fivelas da armadura e as tiras do manto. As peças pesadas caíram na rocha com um baque seco. Rasguei a túnica de cima a baixo, expondo o tórax dele.
A ferida no ombro esquerdo era feia: uma laceração profunda que vertia sangue sem parar. Cerrei os punhos, pressionando minhas unhas contra as palmas das minhas mãos, reunindo forças.
É só fazer o que você leu... Vai dar certo.
Umedeci tiras de pano limpo na água morna que emanava da nascente e limpei o contorno do rasgo. O toque fez os músculos do abdômen dele se contraírem em um espasmo rígido. Dobrei um pedaço de pano grosso, posicionei-o direto sobre a artéria e dobrei o peso do meu corpo sobre o ombro dele, pressionando com força.
Um urro sufocado rasgou a garganta de Sasuke. A cabeça dele caiu para trás na pedra e a mão direita subiu vacilante, agarrando o meu pulso. Não para me afastar, mas travando os dedos hesitantes, buscando chão na dor.
Os olhos negros se abriram em frestas, turvos de febre.
— A... adaga — a voz dele veio rasgada, uma lixa seca. O olhar de Sasuke desceu para a lâmina colocada na rocha ao lado, coberta pelo sangue dele. — Estava... na sua mão... Sakura.
Ele trincou os dentes, a respiração vindo em arfadas curtas e descompensadas enquanto a dor da minha pressão sobre o ferimento o fazia tremer por inteiro.
— Você podia ter acabado com isso — sussurrou ele, os olhos negros me encarando em frestas turvas de febre. — Por que... ainda está aqui?
Sustentei o olhar dele. Sentia o calor do sangue atravessar o tecido e sujar meus dedos, mas não aliviei a pressão. Minha expressão se suavizou, e a raiva deu lugar a uma compaixão profunda ao ver a dor dele.
— Porque tudo o que eu disse é verdadeiro — respondi, a voz calma, baixa e sincera. — A adaga estava na minha mão, sim... Mas a única coisa que eu pensei em fazer com ela foi cortar a sua armadura para salvar a sua vida. -completei, ignorando o líquido que escorria pelo meu antebraço- Você se jogou debaixo daquela pedra por mim lá em cima. Eu nunca deixaria você sangrar aqui sozinho.
Ele soltou um riso fraco e seco, que virou um gemido de dor imediato. Fechou os olhos com força, os nós dos dedos no meu pulso ficando brancos de tanta pressão.
— Eu não podia... deixar você morrer — engoliu em seco, o pomo de adão movendo-se com dificuldade enquanto a máscara de general desmoronava. — Eu já vi... gente demais... ser tirada de mim. Não ia assistir a mais uma injustiça na minha frente.
O peito dele subiu e desceu descompensado. Ele abriu os olhos devagar, encarando o teto de rocha. A guarda dele não existia mais.
— O meu irmão... Itachi... — a voz dele desceu a um murmúrio rouco, rasgado de dor. — Ele era a única pessoa verdadeira que eu tinha. Era um homem honrado... e foi encurralado numa emboscada podre, armada por velhos miseráveis do próprio Conselho que a gente protegia. — engoliu seco — Eu não consegui evitar a morte dele à tempo...
A mão dele no meu pulso perdeu a força e escorregou para a pedra, os dedos abertos, indefesos.
— Quando você surgiu... sabendo coisas que ninguém deveria saber... eu tive pavor, Sakura. Pavor de ser enganado de novo. De achar que tinha alguém de confiança do meu lado... e descobrir que o Conselho tinha colocado mais uma armadilha no meu caminho. Eu não aguentaria passar por isso outra vez.
Uma lágrima solitária escapou pelo canto do olho dele, misturando-se ao suor da febre na têmpora. Ele nem tentou disfarçar ou esconder o rosto.
Aquilo cortou meu peito ao meio. A agressividade, os interrogatórios e as palavras duras... não era desprezo por mim. Era só o desespero de um homem destruído pelo luto, tentando não ser partido ao meio outra vez.
Soltei o tecido por um segundo e usei a mão livre com o pano úmido para enxugar o rosto dele com extremo cuidado, tirando a sujeira e enxugando a lágrima da sua pele. Toquei a têmpora dele com a ponta dos dedos em um afago suave.
— Eu entendo, Sasuke... De verdade — disse eu, a voz carinhosa e acolhedora. — Mas eu não sou o Conselho. E não sou uma armadilha. Eu estou aqui cuidando de você, e não vou a lugar nenhum.
Ele piscou devagar. As palavras pareceram assentar na alma dele. O peito de Sasuke soltou um suspiro longo, ruidoso, e a tensão extrema dos ombros finalmente cedeu contra o chão.
— Você teima demais... — murmurou ele, a voz baixinha sumindo pela exaustão. Mas o canto da boca dele deu um leve espasmo, quase um esboço de sorriso aliviado.
— É a minha maior virtude — respondi com um sorriso caloroso, passando a faixa final pelo peito dele e dando o nó com cuidado e firmeza. — Descansa. O sangramento parou.
Terminado o último nó na atadura, o silêncio da caverna pareceu nos envolver como um manto denso. O vapor morno que subia da nascente termal afastava o frio congelante da montanha, criando uma atmosfera abafada e perigosamente íntima. O preço da batalha, da perda de sangue e da febre cobrou seu tributo de vez: os olhos negros de Sasuke fecharam-se devagar, a respiração pesada encontrando um ritmo lento.
Movi-me com cuidado na rocha lisa e sentei-me bem ao lado dele, encostando as costas na parede da caverna. Sem a armadura e sem o manto pesado, a presença física de Sasuke ali, a poucos centímetros de mim, parecia avassaladora. Puxei o ombro direito dele para se apoiar no meu, oferecendo abrigo para que ele não precisasse ficar curvado sobre a pedra fria.
O corpo dele tensionou por meio segundo, mas a exaustão o venceu. Aos poucos, a postura rígida cedeu e Sasuke tombou a cabeça na curva do meu pescoço. O arfar morno da respiração dele bateu direto na minha pele, fazendo um arrepio elétrico subir pela minha espinha.
Fiquei imóvel por um momento, quase sem me atrever a respirar. Ele parecia tão diferente assim. Sempre o via como uma tempestade inalcançável, um guerreiro intocável e perigoso. Ter a proximidade crua do seu corpo — a pele quente, o peito desnudo subindo e descendo devagar, as feições finalmente relaxadas sem a carranca de combate — exercia uma atração magnética que eu não conseguia ignorar.
Lentamente, como se estivesse testando os limites de um sonho, ergui a mão. Hesitei a milímetros do rosto dele, meus dedos tremendo de incerteza, antes de finalmente tomar coragem e tocar a base do seu pescoço.
Deslizei os dedos para cima, afundando-os nos cabelos negros dele. Os fios eram macios, surpreendentemente finos, e o calor da pele dele queimava a ponta dos meus dedos. Movi a mão em um carinho lento, sentindo a textura do cabelo e afastando as mechas escuras que caíam sobre a testa dele. Era um gesto guiado por uma fascinação pura, a necessidade quase febril de confirmar que aquele homem tão complexo e físico estava ali, entregue ao meu toque.
Inclinei a cabeça devagar, tocando a testa contra os fios macios dele. O aroma marcante de cedro, chuva e a pele quente pelo vapor envolveu todos os meus sentidos.
Foi quando aconteceu.
Meio adormecido, afundado no delírio do cansaço e sem o filtro do seu orgulho consciente, Sasuke se moveu. Em um gesto puramente instintivo de quem busca abrigo na penumbra, ele virou o rosto um pouco mais contra a curva do meu pescoço. A mão livre dele escorregou pela rocha e envolveu a minha cintura com firmeza, puxando o meu corpo ainda mais contra o dele, colando nossos ombros sem deixar espaço para o frio.
O ar faltou nos meus pulmões. Não era um movimento calculado de defesa ou de ataque; era um aperto cru de necessidade, o corpo dele reivindicando o meu calor como um refúgio.
Ajustei os dedos nos cabelos negros dele, sentindo os batimentos fortes e ritmados do coração do Imperador ecoarem direto contra as minhas costelas.
A inscrição na entrada do salão dizia que para ter o poder era preciso renunciá-lo primeiro. Mas, ali na penumbra daquela caverna, envolta pelo calor do homem que jurara me manter longe, percebi a verdade: a maior renúncia do Sasuke não fora a sua espada ou a sua armadura. Fora a sua própria solidão.
E, pela primeira vez em anos, nenhum de nós dois estava sozinho.
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