​A luz alaranjada da manhã atravessava as fendas superiores da caverna, cortando a névoa fina que subia da lagoa termal. O ar, antes denso e opressivo, parecia limpo, trazendo o aroma marcante de pedra molhada e cedro.

​Aos poucos, o calor morno onde eu apoiava o meu rosto me fez despertar. Pisquei devagar, ainda tonta de sono, sentindo o movimento contínuo e compassado de uma superfície que subia e descia a cada respiração.

​Foi quando a minha mente clareou e o choque fez o meu sangue gelar.

​Eu não estava encostada na rocha. Estava deitada diretamente sobre o peito nu de Sasuke. Minha perna esquersa cruzava a dele, um dos meus braços rodeava o seu tórax e a minha bochecha descansava firme bem acima do seu coração. Para piorar, a mão dele continuava espalmada na minha cintura, mantendo o meu corpo colado ao dele de um jeito que não deixava espaço para o frio da manhã.

​Prendi o ar, sentindo o pulso dele acelerar sutilmente sob a minha bochecha.

​Olhei para o rosto dele primeiro. Os olhos estavam fechados, as sobrancelhas relaxadas sem a habitual vinco de tensão, e a respiração saía serena pelos lábios estreitos. Parecia dormir fundo.

​Aproveitando o silêncio, deixei o meu olhar baixar devagar.

​A pele dele era alva, pálida pelo clima rigoroso das Montanhas do Norte, contrastando forte com a atadura branca que eu tinha enrolado em volta do seu ombro e do lado esquerdo do tórax. O contorno das clavículas marcadas, a definição dos músculos do peitoral e o desenho do abdômen revelavam o porte rigoroso de alguém que passava a vida em treinamento pesado. Cicatrizes finas e antigas cortavam a sua pele clara em pequenos traços prateados.

​Senti um arrepio involuntário subir pela minha espinha. A proximidade fazia a minha pele formigar, e o calor que emanava dele parecia atravessar o tecido do meu casaco, fazendo meu próprio coração dar dois batimentos desordenados no peito.

​Acompanhei com os olhos o ritmo lento com que a caixa torácica dele subia e descia.

​— Gostando do que vê?

​A voz dele veio grave e arrastada pelo sono, vibrando direto contra a minha bochecha e fazendo meu corpo inteiro dar um sobressalto.

​O sangue subiu para o meu rosto tão rápido que senti minhas orelhas queimarem. Subi os olhos num estalo.

​Sasuke já me encarava do alto. Nem sequer tinha mudado de posição; continuava com a cabeça apoiada na rocha, mas os olhos negros estavam abertos e o canto dos lábios desenhava uma linha levemente inclinada de pura ironia.

​Tentei me puxar para trás no mesmo segundo, arrastando os joelhos na rocha lisa, mas o aperto firme da mão dele na minha cintura travou o meu movimento.

​— Você... você estava acordado?! — a pergunta saiu quase num estrangulamento, enquanto eu tentava me apoiar nos cotovelos para criar distância.

​— Há algum tempo — respondeu ele, a voz ainda rouca, sem soltar o meu quadril. — E você parecia bastante ocupada analisando os detalhes do meu corpo para perceber.

Arregalei os olhos.

​— Eu... eu estava verificando a sua temperatura! — murmurei de uma vez, a voz falhando enquanto sentia uma onda de calor queimar do pescoço até a ponta das orelhas. — Para ver se a febre tinha voltado! O seu ombro podia ter... inflamado de novo...

​Sasuke continuou me encarando do alto por alguns segundos. A expressão dele permanecia calma, parecendo ler meur pensamentos intrusivos, mas o olhar exalava aquela ironia divertida.

​— E para checar a minha febre você precisa usar o meu peito de travesseiro? — perguntou ele, a voz rouca ressoando baixinho.

​— N-não! Claro que não! — atropelei as palavras, tentando desesperadamente recuperar a pouca dignidade que me restava. — Foi a rocha! A rocha estava muito fria e... e eu devo ter adormecido sem perceber! É uma reação involuntária do corpo procurar calor!

Ele arqueou levemente a sobrancelha.

​— Entendi — murmurou ele, com um canto da boca levemente erguido. — Reação involuntária. E a sua perna trançada na minha também foi um reflexo médico?

Senti o meu rosto arder tanto que tive certeza de que dava para ver a cor vermelha no escuro da caverna. Tratei de desenrolar a perna no mesmo instante, quase tropeçando nos meus próprios pés ao tentar recuar na rocha.

— V-Vossa Majestade... — gaguejei, a vergonha me paralisando enquanto o título oficial escapava pela minha garganta na tentativa desesperada de erguer uma barreira formal.

​Mas Sasuke não me deu tempo para erguer escudo nenhum.

​Antes que eu conseguisse dar o menor impulso para trás, a mão dele se fechou na minha cintura com uma firmeza avassaladora. O susto me fez soltar um ganido baixo quando o mundo girou num piscar de olhos. Ele puxou meu quadril sem esforço e virou o corpo, me prendendo suavemente contra o chão macio de musgo e ficando por cima de mim antes que o meu cérebro conseguisse processar o movimento.

​Toda a minha defesa ruiu num segundo. Fiquei paralisada, com o peito subindo e descendo num ritmo acelerado e as palmas das minhas mãos coladas contra a pele nua e quente do peitoral dele. O peso controlado do corpo dele sobre o meu e o espaço reduzido a zero fizeram meu coração disparar de um jeito descontrolado, ao ponto de eu jurar que ele podia sentir a vibração sob minhas mãos.

​Ele apoiou o cotovelo ao lado da minha cabeça, me cercando por completo. A proximidade era avassaladora; o cheiro forte de cedro e a respiração morna dele roçavam a curva do meu pescoço.

​Ele se aproximou ainda mais, inclinando o rosto devagar até que os lábios dele quase tocassem a minha orelha. A voz dele veio baixa, grave e arrastada, enviando um arrepio direto pela minha espinha:

​— É Sasuke. — fez uma pausa que pareceu eterna — Se você quer ficar tão perto assim, o mínimo que pode fazer é ... me chamar pelo nome.

​A provocação e a intimidade daquela fala me deixaram sem ar. Minha garganta secou por completo e senti meu rosto queimar ainda mais quando ele recuou o suficiente para olhar diretamente nos meus olhos.

​Ele foi reduzindo a distância entre nossos rostos bem devagar, sustentando aquele olhar compenetrado até que a ponta do nariz dele quase tocou a minha. Minha cabeça girava, tomada por um turbilhão de nervosismo e por uma expectativa inevitável. Sem forças para resistir, fechei os olhos devagar e inclinei o rosto ligeiramente para cima, prendendo a respiração enquanto esperava pelo toque dos lábios.

​Em vez do beijo... veio um sopro baixo de ar.

​TOC.

Dois dedos firmes deram um leve estalinho no centro da minha testa, empurrando minha cabeça suavemente para trás.

​Abri os olhos num estalo. Sasuke estava com a mão erguida no ar, os dois dedos estendidos e um sorriso vitorioso e brincalhão estampado no rosto.

​— O quê? Achei que você gostasse de provocar — disse ele, com o tom baixo e terrivelmente divertido. — Só estou retribuindo o favor.

​— V-você... — protestei, empurrando-o e sentando num golpe só. Coloquei a mão na testa, o rosto pegando fogo e o peito ainda disparado pela química absurda. — Você é simplesmente insuportável!

​Sasuke soltou uma risada baixa e genuína, o som grave e divertido ressoando pelo espaço enquanto ele se afastava com uma facilidade irritante e sentava-se na rocha.

​— Para alguém que só estava checando a minha febre — provocou ele, pegando o cantil com a maior calma do mundo —, você pareceu bem desapontada por ser só um toque na testa.

​Minha boca se abriu em um "O" perfeito, e a vergonha me fez cobrir o rosto com as mãos, sem ter absolutamente nada para responder a uma verdade tão escancarada. Mas a leveza que se instalou entre nós era um alívio palpável — a primeira trégua real desde a nossa briga.


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​Enquanto ele checava o próprio ombro — que finalmente tinha parado de sangrar graças aos meus curativos improvisados —, tentei reorganizar os meus pensamentos e desacelerar os batimentos descontrolados do meu peito.

​Olhei para ele de canto de olho enquanto ajeitava as minhas coisas. A névoa de desconfiança, o peso sufocante do luto e aquela postura defensiva que nos acompanhavam desde a nossa briga tinham finalmente evaporado. Ele estava ali, inteiro, com aquele brilho afiado no olhar e aquela ironia calma que lhe eram tão naturais. Ele tinha voltado ao normal. Aquele era o Sasuke provocador e atento que eu conhecia, e perceber aquilo trouxe um alívio tão grande ao meu peito que quase eclipsei a vergonha de meio segundo atrás.

​— O sangramento estancou de vez — comentei, ajustando a postura e tentando adotar uma voz estritamente profissional ao me aproximar para examinar as ataduras. — Não tem sinal de infecção e a febre cedeu.

​Sasuke tocou o pano limpo sobre o corte no ombro, sentindo a firmeza do curativo antes de subir os olhos negros devagar para o meu rosto, com o canto da boca levemente inclinado.

​— Não sabia que você era médica — provocou ele, a voz baixa e serena.

​— Quem dera! — soltei uma risada curta, balançando a cabeça e ajeitando os panos restantes na bolsa. Era o meu maior sonho no Japão. — Sou só uma aprendiz que teve que se virar como pôde para não ver um Uchiha morrer sangrando na minha frente.

Sorriu de canto.

​— Para uma simples aprendiz... você se vira bem até demais — disse ele, sem encarar meus olhos diretamente.

​Ele fez uma pausa curta, observando o vapor subir da água termal, até que o tom da conversa mudou sutilmente.

​— No Conselho... quando foi interrogada... — ele não completou.

Olhei, pega de surpresa pela transição súbita para um assunto tão sério.

​— O que tem?

​— Você tinha prometido me dar apenas o nome do Danzo — disse Sasuke, a voz firme e desprovida de acusação, encarando-me com intensidade. — Era a sua moeda de troca... Mas você entregou a estrutura da Akatsuki... Entregou os passos do Kabuto... Me deu informações suficientes para desarmar metade do tabuleiro antes de eles moverem as peças. — sua expressão era séria. — Por que fez isso?

​Sustentei o olhar dele. Um sorriso fraco e sincero surgiu no canto dos meus lábios.

​— Porque quando eu disse "combinado", Sasuke...

A reação espontânea dele me pegou levemente de surpresa. ​Ele parou no mesmo instante.

​O som do seu nome saindo da minha boca daquele jeito — sem o título formal de antes, sem a hesitação gaguejada de minutos atrás ou a defensiva irritada de um protesto — pareceu ecoar com um peso totalmente novo no silêncio da caverna. Não era uma provocação e nem uma concessão forçada.

​Os olhos negros dele se dilataram sutilmente por uma fração de segundo, pegos de surpresa pela firmeza natural da minha voz. A postura rígida dele relaxou por completo, e o olhar compenetrado que ele mantinha sobre mim pareceu afundar um pouco mais, absorvendo o impacto daquela mudança sutil entre nós.

​Sustentei o olhar dele, mantendo a voz calma ao continuar:

​— ...não era um acordo temporário de barganha. Eu não estava guardando trunfos para usar contra você se as coisas dessem erradas. — falei — Claro... eu não queria acabar morta... Mas a partir do momento em que você me tirou daquele lugar pavoroso... — ajeitei uma mecha de cabelo para trás — Eu entendi que... Estávamos do mesmo lado... Que eu cuido das suas costas e você cuida das minhas.

​Sasuke permaneceu em silêncio por longos segundos, processando cada palavra com um respeito absoluto e sem reservas. Ele inclinou a cabeça num aceno lento e contido, e o canto dos lábios desenhou um esboço quase imperceptível de sorriso.

​— Combinado — repetiu, a voz baixa, grave e carregada de uma certeza absoluta.

Logo após, suas orbes negras miraram em algum ponto incerto. O ar em suas narinas soltou-se em um suspiro silencioso.

​— Ontem, nas catacumbas... — começou ele, a voz baixa, o tom frio e pausado. Ele fez uma breve pausa, mantendo os olhos fixos no vapor, como se medir as próprias palavras fosse uma tarefa difícil. — Eu disse algumas coisas...

​Engoli em seco, mantendo os olhos nele, sentindo o eco daquela discussão ainda fresco no peito.

​Sasuke voltou os olhos negros para mim. Não havia pedido de desculpas explícito na expressão dele, mas a intensidade do olhar carregava o peso da retratação.

​— O que você fez no Conselho... nenhuma espiã faria — disse ele, encarando-me fixamente.

Sorri. Traduzindo as desculpas implícitas em suas palavras.

Ele deu de ombros antes de soltar um comentário quase imperceptível.

— E descobrir a localização da Câmara da Aliança não é o tipo de feito de alguém que está jogando às cegas.

​O elogio veio afiado, disfarçado de constatação analítica, mas caiu no meu peito com a força de um abraço. Reconhecer a minha capacidade estratégica e a minha inteligência era o maior crédito que o Sasuke poderia dar a alguém.

​Um sorriso canto de boca, fraco e genuíno, acabou escapando dos meus lábios. Uma onda de alívio quente percorreu minhas veias, espantando de vez toda a angústia e o nó na garganta que me acompanhavam desde ontem. A provocação, a ironia contida, aquele olhar atento e agora o reconhecimento do meu valor... Ele não estava mais desconfiado ou distante. Estávamos de volta ao nosso normal.

​— É bom ver que a sua razão finalmente voltou — murmurei, mantendo o tom leve.

​— Não abuse — retrucou ele, a sobrancelha levemente erguida e o canto da boca esboçando aquela ironia seca e familiar.

​Ele se levantou da rocha sem pressa, ajustando a túnica com cuidado sobre o ombro enfaixado, e estendeu a mão na minha direção. Olhei para os dedos dele por um segundo antes de aceitar o apoio, sentindo o calor firme da sua pele ao me puxar para cima.

​Tínhamos um acordo. E, finalmente, estávamos do mesmo lado.


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​Ajeitei o tecido da minha túnica para afastar o vento gelado que começava a soprar das galerias mais profundas. Não tínhamos nada conosco — nenhum pertence, bolsa ou suprimento —, apenas a roupa do corpo. Sasuke continuava sem nada da parte de cima, exibindo o tórax definido e o ombro com o curativo bem preso feito dos trapos do seu antigo traje. Ele parecia perfeitamente indiferente à queda de temperatura, movendo-se com a postura firme de sempre.

​Olhei para o ombro exposto dele e perguntei:

​— Você não está com frio?

​Sasuke nem sequer desacelerou o passo. Apenas lançou um olhar de canto, com a sobrancelha levemente erguida.

​— Alguém resolveu fatiar as minhas roupas.

​Soltei um ar de riso com o tom dele, balançando a cabeça.

​— Eu salvei a sua vida, Uchiha. De nada.

​— E... um Uchiha não passa frio por tão pouco — retrucou ele, o tom calmo e categórico, mantendo os olhos fixos na penumbra à frente.

— Claro... perdoe a minha preocupação — murmurei, sorrindo de leve com a postura inabalável dele.

Olhei ao redor, prestando atenção com muito mais calma e precisão na imensidão daquela câmara subterrânea do que quando tínhamos chegado. Embora o calor das poças termais amenizasse o ambiente mais próximo, a vastidão da caverna continuava cortada por rajadas gélidas que desciam das fendas mais altas, mantendo o ar gelado no peito a cada respiração. Paredes altas de basalto escuro erguiam-se como colunas cobertas por veios avermelhados de minério. A água borbulhava suavemente em poças rasas, soltando colunas lentas de vapor que subiam até o teto em abóbada. O contraste entre o vapor quente e o frio úmido impregnado na pedra criava uma atmosfera densa.

Sasuke tomou a frente, os olhos negros varrendo a parede oposta até fixarem em uma fissura íngreme na rocha escurecida pela fuligem, de onde soprava uma corrente de ar incrivelmente seco.

— Por ali — disse ele, apontando com o queixo. — O ar está circulando. Deve nos levar para o nível superior ou para fora do complexo vulcânico.

Entramos pelo túnel estreito. Conforme deixávamos o vapor da água termal para trás, a temperatura mudou drasticamente: o ar úmido deu lugar a uma secura gélida e constante. A rocha vulcânica escura foi substituída por paredões de arenito áspero, e o chão sob nossos pés tornou-se cada vez mais coberto por uma camada fina de poeira e grãos soltos.

Nada disso estava no livro..., pensei, sentindo a textura áspera do arenito sob a sola das botas enquanto avançávamos pela escuridão. Na obra original de Império das Cinzas, o Selo do Norte era diferente... Era uma imensa caverna de gelo. Isso não é um bom sinal. Minhas intromissões... Tomar minhas próprias decisões... Interferir no destino dos personagens. Eu estava alterando os rumos da história — e o próprio mundo parecia se reconfigurar em resposta. Minhas escolhas estavam distorcendo a linha do tempo, criando caminhos inéditos e perigos que nem a própria autora havia chegado a conceber.

Após longos minutos subindo a passagem de pedra seca, o túnel finalmente desaguou em uma abertura colossal.

Estávamos na borda de uma vasta câmara circular. No centro dela, em vez de pisos trabalhados, havia uma depressão profunda preenchida por uma areia dourada e densa, suspensa em um silêncio absoluto. No meio desse "mar" de grãos, erguia-se uma coluna enegrecida.

Sasuke parou a poucos passos da borda, os olhos negros varrendo a extensão de areia com o habitual ceticismo frio antes de virar o rosto na minha direção:

— Você me disse que sabia a localização exata do Selo do Norte — começou ele, a voz baixa e afiada, ao ver meu rosto estupefato. — Mas pelo visto, você não fazia ideia de que encontraria exatamente isto aqui.

Sustentei o olhar dele, soltando um suspiro curto antes de admitir:

— Eu sabia a posição teórica — balancei a cabeça — Mas as coisas mudaram... A estrutura real não condiz com o que eu sabia, e encontramos um caminho completamente desconhecido.

Um brilho irônico e calculista surgiu no olhar dele. Sasuke deu meio passo à frente, ajustando a postura com a calma de quem acabou de recalcular o jogo ao ver as falhas do meu conhecimento.

— Então, na prática... você não tem mais nada para barganhar?

Um sorriso de canto acabou escapando dos meus lábios.

— Quem disse que não? — respondi, o tom leve, mas carregado de uma certeza tranquila ao me aproximar da margem de areia. — E se você quiser passar do selo do norte sem acionar as defesas, pelo que já vimos, ainda precisa de mim.

Sasuke manteve o olhar fixo no meu por um segundo, a sobrancelha levemente erguida, aceitando o contra-ataque em silêncio antes de dar um passo para testar o terreno.

Assim que a sola do seu calçado tocou a borda da areia, os grãos reagiram instantaneamente — afundando e se agitando em um redemoinho violento de ar e pressão que o obrigou a recuar no mesmo segundo.

Sasuke me olhou. A comunicação entre nós sem precisar de palavras ditas.

Aproximei-me da borda tomada por um impulso inexplicável. Me ajoelhei devagar, estendendo a mão espalmada até a superfície da areia... Talvez ela reagisse à mim, assim como na Câmara da Aliança.

No momento em que meus dedos tocaram os grãos, o redemoinho cessou imediatamente. A areia dourada debaixo da minha mão começou a pulsar e, do ponto de contato, uma luz verde brilhante começou a se espalhar em ranhuras e caracteres luminosos pelo chão inteiro. O brilho verde corria pela areia como veios de água pura, desenhando marcas misteriosas. O espanto tomou conta de mim; nem Império das Cinzas mencionava aquela afinidade estranha e pulsante que parecia despertar de dentro da minha própria energia. Era completamente novo.

— Essa areia... ela respondeu a mim — murmurei, encarando a luz verde acalmar a tempestade de grãos com o coração acelerado. — Apenas eu consigo pisar aqui sem ativar as defesas.

O silêncio do vasto salão de arenito pareceu ficar ainda mais denso, interrompido apenas pelo sopro sibilante do vento seco que se esgueirava pelas fendas superiores da rocha. A luz esmeralda que brotava da minha palma desenhava veias pulsantes sobre o solo, transformando a armadilha mortal.

A olhada que Sasuke me deu foi instantânea, e a rigidez na postura dele entregou o tormento silencioso que o dominou. A frase gravada na entrada da catacumba — aquela mesma inscrição ancestral do Norte entalhada em rúnicas escuras que só ele soubera traduzir — voltou à minha mente.

Ele sabia o que o Selo exigia. Algo de mesmo valor em troca. Mas, pelo brilho sombrio, tenso e quase descontrolado em suas pupilas, a ficha caiu dentro de mim: ele acha que eu vou morrer. No mundo brutal dele, a coisa mais valiosa que alguém tem é a própria vida. Na cabeça do Sasuke, eu estava prestes a entregar minha alma para a estrutura em troca de abrir o caminho para ele.

Para mim, a morte era outra. E doía de um jeito sufocante.

Um nó cego se formou na minha garganta. Minhas memórias. A lembrança detalhada de cada capítulo de Império das Cinzas, o meu mapa mental do futuro, os segredos de cada facção. Se eu perdesse tudo aquilo, a única razão pela qual Sasuke me mantinha ao seu lado desapareceria. O medo brutal de me tornar um fardo inútil, de ser descartada por ele assim que deixasse de servir à estratégia da guerra, apertou meu peito de um jeito quase físico. Se já tinha sido um inferno sobreviver até aqui sabendo exatamente tudo o que iria acontecer... como eu sobreviveria a este mundo completamente cega? E o que restaria de mim para ele?

Mas a lembrança do enredo original me golpeou. No livro, se Sasuke falhasse contra Sasori... milhares de pessoas morreriam em uma guerra. Eu não podia deixar aquela carnificina acontecer.

— Depois deste Selo... o próximo objetivo são as Terras da Areia — declarei, a voz contida por uma determinação dolorosa. — É para lá que você precisa ir.

Eu não conseguiria explicar todos os próximos fatos importantes do livro. Ele também não entenderia como eu saberia do futuro. Se bem que... até o meu futuro ali era incerto.

Balancei a cabeça. Pelo menos eu evitaria uma guerra. Ao menos nisso eu poderia ajudá-lo.

Dei o primeiro passo sobre a areia, mas uma mão firme e gélida fechou-se ao redor do meu pulso com uma força desmedida.

Voltando o rosto, dei de cara com Sasuke. Os olhos negros dele estavam cravados em mim e arregalados em um raro e cru vislumbre de desacordo. A respiração dele estava pesada, os dedos pressionando minha pele a ponto de machucar. Ele não estava me avaliando; estava me segurando como se eu estivesse prestes a saltar em um abismo.

— Você ficou louca? — a voz dele veio baixa, áspera, rasgando o silêncio. — Você ouviu a tradução na entrada. Esse altar não aceita barganhas rasas. Não vou deixar você dar a sua vida por essa passagem.

Foi então que um tremor profundo fez a câmara inteira estremecer. A areia dourada sob meus pés começou a girar em um redemoinho faminto; a estrutura do selo despertara, cobrando o seu tributo. Os grãos afundavam rapidamente, criando um turbilhão que começava a tracionar minhas botas para baixo, puxando-me com uma força implacável em direção ao centro do altar. O tempo tinha acabado. O altar não esperaria mais.

Encarei o rosto dele enquanto a areia subia pelas minhas canelas. A certeza de que ele achava que eu estava me matando por ele estava ali, escancarada na firmeza desesperada do aperto. Eu não saberia se ele continuaria assim após eu entregar minhas informações para o Selo. O pavor de perder meu único trunfo e o pavor ainda maior de não significar mais nada para Sasuke se misturaram no meu peito.

— Pessoas inocentes irão morrer — murmurei, a voz oscilando contra a força do redemoinho antes de encontrar um tom firme, sustentando o olhar negro dele. — Então encara isso como uma dívida... Mas... eu só espero que, depois que eu não tiver mais nada para oferecer, eu... ainda tenha algum valor para você.

Sasuke paralisou, mesmo enquanto a areia engolia minhas pernas até quase a altura dos joelhos. A combinação daquela renúncia com o meu medo escancarado de ser descartada bateu nele com uma força devastadora. O olhar negro dele travou no meu, a mandíbula rígida tensionando por uma fração de segundo antes de ele se inclinar contra a corrente de areia, a pressão no meu pulso tornando-se um toque firme, solene.

— Você nunca foi só uma utilidade para mim — disse ele, a voz baixa, afiada e terrivelmente sincera, cortando qualquer dúvida entre nós acima do roncado do solo.

O significado daquelas poucas palavras reverberou no meu peito, fazendo meu coração disparar no meio do desespero. O redemoinho deu um solavanco violento, querendo nos arrastar juntos.

Antes que ele pudesse se projetar para a areia perigosa e me arrastar à força para a borda, girei meu corpo para dentro, flexionando o cotovelo e projetando a articulação do pulso no ângulo exato do polegar dele. Era o golpe seco de libertação de preensão que o próprio Sasuke tinha me ensinado.

O encaixe perfeito da técnica pegou-o de surpresa. O aperto dele cedeu por uma fração de segundo, e eu desvencilhei minha mão com um movimento rápido e limpo.

— Obrigada pelo treino — disse.

Sem dar tempo para ele reprimir o choque ou se lançar no abismo, deixei a força do redemoinho me puxar de vez, afundando completamente no mar de areia dourada e luminosa.