O som de terra e rocha desabando ainda zunia nos meus ouvidos. A poeira densa invadia minha garganta, me fazendo tossir secamente, enquanto a escuridão absoluta nos engolia por completo. Quando o silêncio finalmente assentou, a única coisa que eu conseguia ouvir era o ritmo descontrolado e ensurdecedor do meu próprio coração batendo na garganta e o gotejar distante de água. Era um breu tão denso que, se eu colocasse a mão na frente do rosto, não enxergaria nada.

Tentei puxar o ar, mas o meu peito simplesmente travou.

A adrenalina do desabamento começou a ceder e a realidade me atropelou. Eu nunca tinha passado por nada parecido. No Japão, minha maior preocupação eram as horas de estudo e trabalho; no romance, eu apenas lia sobre guerras através de páginas de papel. Eu nunca tinha ouvido o estouro de bombas reais, nunca tinha sentido o chão ruir sob meus pés e nem a ameaça iminente de morrer soterrada.

Uma onda avassaladora de pavor tomou conta de mim. Minhas mãos começaram a tremer incontrolavelmente, o suor frio escorria pelo meu pescoço e uma agitação desordenada tomou conta do meu corpo. Levei as mãos à cabeça, a respiração ficando cada vez mais curta e entrecortada.

— Respira... respira... — murmurei para mim mesma, a voz embargada e trêmula, dando um passo desajeitado no escuro antes de quase tropeçar nas próprias pernas. Eu estava à beira de uma crise de pânico total.

Ouvi o som de passos firmes e o metal da armadura dele ressoando perto de mim. Acompanhei o barulho no escuro até ouvi-lo mexer em algo na parede de pedra. Em seguida, o som seco de uma faísca ecoou pelo ambiente.

Uma chama alaranjada ganhou vida.

Ele havia encontrado e acendido uma antiga tocha de resina presa ao suporte da parede. A luz vacilante do fogo finalmente rasgou a escuridão, projetando sombras longas pelas paredes de pedra rústica.

Ele virou devagar na minha direção, empunhando a tocha. Sob a luz alaranjada da chama, o rosto dele parecia esculpido em mármore gélido — limpo de qualquer emoção calorosa, tomado pela rigidez da dor e da traição que acabara de descobrir. Os olhos negros dele desceram lentamente pela minha postura encurvada, notando os meus braços trêmulos e a minha respiração descompensada.

A postura dele não era de crueldade, mas de uma racionalidade fria e cirúrgica de quem já havia passado por horrores muito piores. Para um guerreiro criado no meio do sangue, o pavor em uma situação de risco era um erro fatal; a única resposta correta era manter a mente calma e agir. Além disso, destroçado por dentro após descobrir a verdade sobre a morte do irmão e a traição do Conselho, ele simplesmente não tinha condições emocionais de oferecer consolo a ninguém. Ele estava anestesiado pela própria dor.

— Controle-se — a voz dele veio baixa, cortante e terrivelmente fria, cortando o silêncio como uma lâmina de gelo. — Ficar hiperventilando no escuro só vai consumir o pouco oxigênio que temos aqui dentro. Não há tempo para pânico.

Senti um choque térmico com as palavras dele. Olhei para cima, o peito ainda subindo e descendo rápido, sentindo a dureza do método dele, mas entendendo que, no fundo, aquela lógica implacável era a única coisa mantendo nós dois vivos.

Eu já sabia que iríamos parar nas catacumbas — afinal, era esse o caminho de fuga que eu lembrava de ter lido no livro. Mas, assim que a luz iluminou o local e eu vi a pilha gigantesca de pedras bloqueando a passagem por onde viemos, o meu estômago afundou ainda mais.

Aquele não era o corredor amplo e direto que levava à saída do vale de pinheiros. A minha interferência no enredo, ao expor Danzo antes da hora e provocar o desabamento precipitado do castelo, tinha mudado o rumo da rota. As pedras haviam bloqueado o caminho principal e nos jogado para um setor completamente diferente das catacumbas: uma ala esquecida, gélida e muito mais profunda, sem qualquer sinal do vento da superfície.

Nós estávamos no lugar errado.

Minhas mãos continuavam a tremer, mas a sobriedade dura dele me forçou a tentar engolir o medo. Esse era o Sasuke em um ambiente de guerra.

Os olhos negros dele se voltaram para as paredes e depois para mim. Desta vez, porém, havia uma desconfiança sombria e perigosa. Ele fechou o maxilar com força, a tocha erguida mais alto. Afinal, eu tinha surgido do nada, sabia segredos demais sobre o castelo, o havia guiado até aquele túnel e agora os dois estavam presos em um lugar desconhecido e sem saída. Para a mente de alguém que acabara de ser traído pela própria elite, a possibilidade de que tudo aquilo fosse uma armadilha orquestrada por mim piscou como um sinal de alerta vermelho.

— Este é o mesmo lugar que você jurou que conhecia? — perguntou ele, a voz ríspida, perigosamente baixa e carregada de uma suspeita velada.

Engoli em seco, sentindo o peso do julgamento dele enquanto tentava segurar meus próprios pulsos para disfarçar o tremor.

— São as catacumbas... mas não a rota principal — respondi, a voz falhando e saindo atropelada antes que eu conseguisse recuperar o controle. — O... o desabamento lá atrás bloqueou o caminho que dava para o vale. Fomos forçados a pegar um desvio no escuro...

— Uma rota errada conveniente — cuspiu ele, a voz fria como neve.

Ele deu um passo lento e ameaçador na minha direção. A luz da tocha projetou sua sombra gigante sobre mim, me encurralando contra a rocha fria. O olhar dele era afiado, transbordando uma raiva reprimida e corrosiva.

— Você sabia sobre os papéis do Conselho — começou ele, a voz baixa, pausada, cada palavra pesando como uma sentença. Ele deu mais um passo, encurtando o espaço entre nós. — Sabia sobre a passagem secreta no salão... Sabia exatamente para onde correr quando a estrutura começou a ceder.

A respiração dele veio mais densa. Ele franziu o cenho, encarando meu rosto com uma repulsa velada e investigativa.

— E agora quer que eu acredite que "sem querer" nos jogou em uma armadilha sem saída?

Engoli seco. Ele não estava no seu estado normal. Mas eu tinha que ser cautelosa... Aquilo poderia não acabar muito bem.

— Eu já disse que não estou contra você! — tentei me defender, o tom trêmulo, encostando as costas na parede dura. — Eu só queria evitar que você caísse na armadilha daqueles velhos!

Ele soltou uma risada curta e seca, totalmente desprovida de humor, balançando a cabeça de forma sombria.

— Evitar que eu caísse na armadilha deles para me jogar na sua? — o tom dele subiu, cortante. Os nós dos dedos dele ficaram completamente brancos de tanto apertar o cabo da espada. — Quem é você de verdade? De onde tirou cada uma dessas informações?

Tentei puxar o ar, mas o olhar dele queimava meu rosto. A pressão do ambiente gélido e a suspeita implacável dele começaram a dar um nó em minha garganta.

— Quem te mandou aqui? — ele encurtou o resto da distância, a presença física dele me sufocando contra a pedra. Os olhos negros pareciam buscar a menor falha na minha postura. — Veio me seduzir? Jogar com o meu luto para garantir um lugar ao meu lado como imperatriz de um reino em ruínas? Ou é apenas mais uma espiã a serviço de Sasori para me entregar de bandeja para o Sul?

O ar sumiu dos meus pulmões. Meu rosto esquentou com tamanhas acusações. As insinuações venenosas dele bateram como golpes físicos no meu peito. Sentia os olhos queimando e as lágrimas se acumulando no limite das minhas pálpebras, mas travei o maxilar, engolindo o choro com todas as forças para não demonstrar fraqueza diante daquela frieza brutal.

— Eu não sou espiã de ninguém! — minha voz saiu arranhada, no limite da pressão, a raiva e a dor lutando dentro do meu peito. — Eu cheguei aqui sem pedir por nada disso! Se eu sei de coisas demais, é porque eu vi, porque eu arrisquei a minha pele e falei muito mais do que o combinado só para te impedir de morrer cego!

Ele não piscou. Sustentou a acusação no olhar, a respiração pesada enquanto digeria a minha explosão. Mas a menção a um "combinado" só fez a mandíbula dele trincar com ainda mais fúria.

— "Combinado"? — ele murmurou, a voz caindo para um sussurro perigosamente baixo, aproximando o rosto a poucos centímetros do meu. — Então existe um acordo. Um plano.

— Não é o que você está pensando... — tentei gaguejar, mas a pressão simplesmente me esmagou.

Uma primeira lágrima quente finalmente escapou, rasgando a poeira do meu rosto, seguida por um soluço contido que não consegui mais segurar. O nó na garganta explodiu por completo. Eu tinha mudado o rumo de uma história, arriscado minha vida sob escombros para tirá-lo de lá, e tudo o que recebia em troca era o desprezo e a acusação cega de um homem afundado no próprio luto.

Ao ver a lágrima cortar minha pele e ouvir o som abafado do meu choro, o olhar dele vacilou por uma fração de segundo.

A expressão dele não virou um gesto de carinho — ele ainda estava ferido, traído e alerta —, mas a agressividade imediata dele estancou. O cenho franzido perdeu o tom ríspido de um interrogador cruel, cedendo lugar a uma hesitação quase imperceptível. Ele franziu os lábios, encarando o meu rosto desmoronando diante dele, e percebeu que não havia cálculo ou encenação ali; era apenas exaustão e mágoa genuínas.

Desconfortável com aquela vulnerabilidade e incapaz de lidar com qualquer traço de emoção, ele deu dois passos para trás, quebrando a proximidade sufocante.

Ele desviou o olhar para a escuridão do corredor por um breve instante, soltando um suspiro pesado pelo nariz para reorganizar a postura antes de voltar os olhos negros para mim — agora com uma frieza controlada, sem a agressividade de antes.

— Se tudo o que você disse for verdade, teremos tempo para acertar isso — disse ele, a voz baixa, num tom de aviso solene e distante. — Mas se for mentira... se você estiver me usando ou trabalhando para quem destruiu a minha casa, eu mesmo garanto que essas ruínas serão o seu túmulo.

A ameaça pairou no ar, mas já não tinha aquele tom sádico de paranoia; era apenas uma regra dura de sobrevivência para um homem que não podia se dar ao luxo de errar de novo.

— Limpe o rosto — ordenou ele, virando de costas e apontando a tocha para o caminho à frente, a postura rígida voltando ao normal. — Ande na minha frente e não se afaste. Precisamos achar um abrigo antes que o ar acabe.

Enxuguei as lágrimas rapidamente com a manga, o peito ainda trêmulo, mas engoli o resto do choro para não fraquejar na frente dele. Passei à sua frente em silêncio, mantendo o queixo erguido e a guarda alta.

Mais adiante, a luz do fogo revelou uma pequena dependência de apoio: um antigo posto de batedores com móveis cobertos de poeira e baús rústicos. Ele prendeu a tocha no suporte da parede, e a claridade suave preencheu o quarto.

Ele se escorou contra uma mesa pesada de madeira, a respiração contida e pesada. Agora, sob a luz da chama, eu conseguia ver a rigidez nos ombros dele, as marcas de fuligem no rosto e a túnica manchada de sangue sob a armadura. Mas eu não dei um único passo na direção dele. Nem sequer perguntei se ele estava bem.

A mágoa e a raiva pela forma como fui acusada e ameaçada queimavam dentro do meu peito, virando uma muralha fria de ressentimento. Eu já tinha arriscado a minha vida por um homem que só me retribuía com paranoia e desprezo. Não faria o papel de tola novamente.

Passei direto por ele sem olhar no seu rosto, indo direto até o baú de madeira no fundo da sala.

— O que você está fazendo? — a voz dele veio baixa, ríspida e em alerta, os olhos negros me acompanhando com desconfiança.

Girei o corpo devagar para encará-lo. Minha garganta ainda raspava e o peito queimava com o choro preso, mas segurei as lágrimas com todas as minhas forças, sustentando o olhar dele sem vacilar. O tom da minha voz saiu seco, áspero e cortante:

— Vou procurar a porcaria de uma roupa prática antes que você arrume mais um motivo para brigar comigo ou dizer que estou atrasando os seus passos.

Ele piscou devagar, pego de surpresa. Houve uma sutil hesitação na postura dele — o cenho franzido vacilou por uma fração de segundo, pego desprevenido pelo tom afiado e pela audácia da minha resposta. Ele não esperava que eu reagisse com tanta raiva e altivez logo após desmoronar.

Sem esperar por uma resposta, virei de costas, abri o baú de madeira pesada e comecei a revirar o conteúdo com impaciência.

Retirei de lá um uniforme tático completo de batedor: uma calça ajustada de tecido grosso e resistente, botas de couro escuro de cano alto, uma túnica simples e um casaco azul-escuro estruturado, ideal para suportar a umidade e o frio gélido das profundezas. No fundo do baú, entre alguns panos velhos, meus dedos encontraram dois rolos de atadura de linho cru, relativamente limpos e secos.

Peguei tudo e caminhei até o canto mais escuro e distante do posto, usando uma pilastra de pedra como divisória para me isolar completamente da vista dele.

Com os dedos trêmulos de raiva e o nó na garganta ainda me sufocando, desmantelei com raiva o vestido que ele mesmo havia providenciado. Nem dava para acreditar que era a mesma pessoa... mas era. As camadas pesadas de tecido, agora cobertas de poeira e escombros, caíram no chão de pedra em um monte inútil. Cada movimento meu parecia um ato de libertação. Vesti a calça resistente, ajustei as fivelas das botas de couro até ficarem firmes e vesti a túnica e o casaco azul. Por fim, dividi o cabelo ao meio e o amarrei em um coque alto e firme, deixando meu pescoço livre de qualquer fio solto.

Trocar aquela roupa pesada por um traje prático me devolveu o controle. Eu já não era mais a garota indefesa vestindo roupas de gala em um mundo de guerra.

Voltei até a mesa central a passos firmes e sem ruído.

Quando saí da penumbra, os olhos negros dele varreram a minha nova figura por inteiro. Senti uma mudança sutil no olhar dele — as pupilas se estreitaram levemente, impressionadas com a transformação imediata. Sem aquele vestido incômodo e com o cabelo preso, eu parecia alguém completamente diferente: tática, leve e pronta para o combate. Era um ajuste prático de veterana, algo que um guerreiro como ele não podia deixar de notar e respeitar em silêncio. Mas, no segundo seguinte, ele franziu o cenho e desviou o olhar para a parede, fechando a expressão de novo para não demonstrar absolutamente nada.

Sem trocar uma palavra, joguei com força os rolos de atadura de linho na madeira com um som seco que ecoou no ambiente silencioso, bem na frente do lugar onde ele estava apoiado.

Era o meu limite: a ajuda médica que meu instinto exigia estava ali, mas eu não moveria um único dedo para tocar na pele dele ou consolá-lo.

Dei meia-volta em silêncio e fui para o canto oposto da sala. Sentei-me no chão, encolhendo as pernas e encostando as costas na rocha fria. Cruzei os braços sobre o peito e mantive os olhos fixos na entrada do túnel, ignorando a presença dele como se ele fosse parte da mobília abandonada.

O silêncio na câmara ficou denso e sufocante, quebrado apenas pelo estalar suave da chama da tocha na parede.

Ele ficou encarando o linho cru sobre a mesa por alguns segundos longos. Eu não olhei para ele, mas ouvi o ranger metálico das fivelas da armadura sendo soltas com agressividade e um grunhido baixo e abafado escapando da garganta dele enquanto lutava sozinho no escuro para enfaixar o próprio ombro. Ele não pediu ajuda, e eu não a ofereci.


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Aos poucos, a noite lá fora avançou e as primeiras luzes da manhã começaram a se infiltrar por frestas sutis no teto de rocha, misturando-se ao tom alaranjado da tocha quando voltamos a andar.

Seguindo a ordem ríspida que ele havia me dado, caminhei à frente, sentindo a presença pesada e vigilante dele logo atrás de mim. A tocha erguida por ele projetava a minha sombra longa no chão de pedra, enquanto a mão dele se mantinha próxima ao cabo da espada. Ele controlava a distância e cada movimento meu no escuro. A atmosfera entre nós continuava tomada por um silêncio pesado e gélido.

Eu não fazia a menor ideia de onde estávamos. A autora do romance nunca tinha dado detalhes sobre aquele setor nas páginas do livro; para ela, as catacumbas eram apenas um mero túnel de fuga rápido até a saída do vale. Aquele lugar onde pisávamos parecia um espaço subterrâneo secreto, totalmente esquecido pelo enredo original.

Parei subitamente quando o túnel estreito se abriu em uma câmara colossal.

Prendi a respiração.

Ele deu dois passos lentos até emparelhar comigo, erguendo a tocha o mais alto que pôde. A luz do fogo revelou o centro do salão gigante: havia uma mesa redonda esculpida em pedra negra. Mas o que realmente chamou a atenção foram os relevos majestosos nas paredes gigantescas iluminados pelas chamas. De um lado, o leque Uchiha esculpido sobre um azul enegrecido; do outro, a espiral da família imperial Uzumaki em tons avermelhados. Ao centro, unindo as duas dinastias, havia o entalhe de duas espadas imperiais cruzadas sobre um círculo, sob o qual repousavam duas coroas seladas na própria rocha.

— A Câmara da Aliança... — murmurei, chocada ao perceber que havíamos pisado em uma história que nem o próprio livro tinha revelado.

É onde os líderes do Norte e a família imperial do Sul se reuniam em tempos de paz... antes de as guerras destruírem tudo.

Ele caminhou em direção à mesa central, a passos lentos e calculados. A luz da tocha fez brilhar um mecanismo rúnico cravado no meio do tampo, emitindo um pulso sutil de magia ancestral.

Ele olhou para a estrutura e depois se virou na minha direção, a expressão ainda severa e gélida, mas agora tomada pela gravidade da descoberta.

— O Selo do Norte... — disse ele, a voz soturna ecoando pelo salão de pedra.

Ele caminhou até a mesa central com passos firmes, embora a rigidez no ombro traísse o esforço. Ergueu a mão sobre o tampo de pedra negra e concentrou a própria energia. Um pulso de geada azulada e gélida escorreu pelos seus dedos, espalhando-se pelas ranhuras do leque Uchiha cravado na mesa. A rocha vibrou, os símbolos ancestrais brilharam por um segundo, mas logo emitiu um estalo seco e metálico.

O brilho vacilou e apagou completamente.

O silêncio voltou a esmagar o salão.

— Droga! — esbravejou ele, a frieza gélida ruindo de vez para dar lugar a uma raiva crua e explosiva.

A casca de líder inabalável tinha se partido; diante de mim estava um homem no limite das forças, encurralado, traído por todos e incapaz de abrir a própria porta da sua casa ancestral.

— Por que essa droga não responde?! — rosnou ele para o nada, os olhos negros queimando de fúria enquanto encarava a mesa inerte.

Permaneci no meu lugar, no canto da sala, mantendo os braços cruzados e o queixo erguido. Mas, apesar da mágoa que ainda queimava no meu peito, a minha mente analítica não conseguiu evitar olhar para a estrutura. A luz vacilante da tocha iluminava o alto da parede atrás da mesa.

Olhei com atenção para o relevo. De um lado, o leque Uchiha associado ao gelo. Do outro, a espiral dos Uzumaki associada ao fogo. Mas no centro exato... não havia uma divisão simples. Havia o entalhe de um círculo perfeito, esculpido em alto-relevo, emoldurando e unindo os dois símbolos ancestrais.

Senti um arrepio na espinha.

Eu tinha lido aquele romance de cabo a rabo. Sabia os detalhes das casas nobres, a geografia do reino, as guerras e os segredos do Conselho. Mas nunca, em nenhuma página do livro, a autora mencionou a existência daquele brasão circular no centro da Aliança. Aquele detalhe não existia no enredo original. Eu tinha mudado a história a tal ponto que o próprio mundo estava revelando camadas esquecidas.

— Não é só o seu elemento que falta — minha voz saiu seca, cortando a respiração pesada dele.

Ele se virou devagar na minha direção, o olhar afiado transbordando irritação.

— O que você disse? — perguntou ele, o tom perigosamente ríspido.

— Olhe para a parede — respondi, sem dar um passo na direção dele, apenas apontando para o entalhe superior. — Você está tentando forçar o mecanismo usando apenas o gelo Uchiha. Mas aquele círculo no centro une os dois lados. É uma matriz de fusão. O Selo só vai abrir se um embro Uzumaki estivesse aqui... Ou... — um pensamento cruzou minha mente — Ou se o elo central for preenchido.

Ele encarou o relevo na parede e depois olhou para o centro da mesa negra, onde havia uma pequena cavidade circular vazia, conectando todas as canaletas rúnicas. Ele franziu o cenho, o rosto tomado por uma mistura de dúvida e frustração.

— Isso é impossível — disse ele, a voz ríspida. — A Aliança foi destruída há séculos. Não há nenhum artefato ou chave para aquele círculo aqui. — arfou — Estamos presos.

Rolei os olhos mentalmente, irritada com a teimosia dele. A minha sobrevivência dependia de sair daquele buraco, e ficar parada não nos levaria a lugar nenhum.

Engoli o orgulho e caminhei até a mesa a passos firmes, parando do lado oposto ao dele. Ele se tensionou no mesmo instante, a mão descendo para o cabo da espada, mas eu nem me dei ao trabalho de encará-lo. Fixei meus olhos apenas no círculo gravado na pedra negra.

Instintivamente, sem saber ao certo o que estava fazendo, estendi a mão.

— Não toque nisso — ordenou ele, em tom de aviso.

Ignorei a ordem dele por completo e encostei as pontas dos meus dedos no centro do entalhe circular.

No milissegundo em que minha pele tocou a pedra fria, um choque elétrico percorreu o meu braço, fazendo todo o meu corpo estremecer. Prendi a respiração.

Da ponta dos meus uma luz verde-esmeralda vibrante e profunda irrompeu do contato, acompanhada por um brilho que parecia poeira de cristal de jade fluindo pela pedra. O brilho verde preencheu a cavidade circular e começou a correr feito água luminosa pelas calhas da mesa, acendendo o leque Uchiha e a espiral Uzumaki ao mesmo tempo.

Um zumbido magnético e ancestral ressoou por todo o salão.

A grande parede de relevos no fundo do salão deslizou pesadamente para os lados com um estrondo monumental, poeira e pequenos fragmentos de pedra caindo do teto enquanto a estrutura se abria. Uma corrente de ar fresco atingiu nossos rostos, dissipando a poeira sufocante daquele ambiente.

Puxei a mão de volta em um movimento rápido, encarando a palma da minha própria mão. A pele ainda formigava sutilmente, e os últimos resquícios do brilho esmeralda evaporavam no ar.

Eu estava estática. Não fazia o menor sentido. Sakura não era uma guerreira e nem possuía magia naquele mundo. Ela nao tinha nenhuma habilidade... Até àquele momento. E eu, na minha cabeça, eu era apenas uma pessoa comum de Tóquio, presa nas páginas de um livro. Como o meu corpo tinha conseguido reagir àquele mecanismo ancestral?

Olhei para a mesa e em seguida para o Sasuke.

O silêncio entre nós não era mais feito de raiva ou acusações. A postura agressiva e desconfiada dele tinha desaparecido por completo, cedendo lugar a um choque emudecido. Ele encarava a luz verde que ainda crepitava nas canaletas da mesa e depois o meu rosto, o cenho franzido em uma perplexidade profunda. A mente tática dele, que até um segundo atrás me via como uma ameaça ou uma espiã, simplesmente não conseguia processar o que acabara de presenciar.

A paranoia gélida dele tinha ruído — não por empatia, mas porque a realidade do que eu era tinha acabado de atropelar todas as teorias dele.

— Quem é você? — a pergunta dele veio baixa, a voz soturna e gélida, mas sem o tom de ameaça de antes. Era uma dúvida genuína, de quem percebia que estava diante de algo muito maior do que guerras civis ou conspirações políticas.

Sustentei o olhar dele, mantendo o peito ereto e a voz firme, sem qualquer sombra de submissão:

— Eu não sei — respondi com honestidade, o tom seco e direto. — Mas se o seu Selo do Norte não funcionou e isso aqui abriu... — estreitei os olhos — É melhor você parar de procurar inimigos onde não tem e focarmos em sair daqui vivos.

Ele fechou o maxilar, a expressão endurecia devagar enquanto absorvia minhas palavras. Mas não houve tréplica ríspida, nem ameaças. A raiva e o ressentimento da nossa discussão anterior pareciam ter evaporado, engolidos pela gravidade daquela descoberta. Ele aceitou o fato em silêncio.

Ele se virou devagar para a nova passagem, onde a névoa fria fluía do interior de um corredor ladeado por pilares antigos. A tocha na mão dele iluminou o início de uma escadaria de pedra que descia para a escuridão daquela ala esquecida.

Ele deu o primeiro passo na direção da abertura, a guarda ainda alta, mas agora encarando o caminho.

— Mantenha a atenção — disse ele, a voz neutra e pragmática, o tom de comando voltando de forma estritamente profissional. — Se este setor não consta em nenhum mapa da Aliança, não sabemos o que está guardado lá dentro.

Ajustei as luvas da nova roupa de batedor e o acompanhei a passos firmes, deixando a antiga câmara para trás. O clima pesado da briga tinha dado lugar a uma trégua silenciosa e pragmática, unida pela única coisa que nos restava: a busca por respostas e pela sobrevivência.