Impregnada
16 8 de Fevereiro :capítulo 16
Notas iniciais
Eu estava exausta. Não sabia exatamente por que. Só não me sentia nem um pouco bem, com uma vontade louca de ficar deitada na minha cama, dormindo. Uma dor crescia no meu peito e eu não sabia controlá-la.
Não conseguia entender como estava indo meu relacionamento com Andrew. Havíamos acabado de completar um mês de namoro, e ele não comentou nada; eu também não quis relevar isso. Não estávamos indo de mal a pior, mas era como se estivéssemos decaindo. No começo, por mais culpada que eu me sentisse, ainda tinha uma chama que me fizesse lembrar do motivo pelo qual ainda estava ali. Mas então, naquele momento, eu não sentia nada.
E não era só isso. Clary nunca tinha me falado nada, mas os outros sim. Sempre que eu e Peter nos víamos, ele gostava de voltar a esse assunto, e falava:
– Alyson, isso não é para você. Larga esse cara.
E eu queria, queria mesmo. Só que não conseguia. Não conseguia imaginar um motivo para terminar, não conseguia ver através das sombras que cobriam os meus olhos. Queria tanto terminar com aquela dor que surgia no meu peito de repente, mas não sabia como fazê-lo.
Até mesmo os livros. Eu não conseguia ler. Estava sendo distraída de tudo o que fazia, de tanto pensar nessas dores loucas. Eu estava desesperada. Precisava de ajuda, precisava de atenção. Precisava encontrar o meu pedaço que faltava.
A música não era a mesma. Ela servia para fazer com que eu pensasse, com que eu lembrasse quem eu supostamente era. Fazia com eu refletisse sobre todas as minhas atitudes e me sentisse mais bosta do que realmente era.
Mas isso ainda não era nada. O pior de tudo era que eu não conseguia escrever. Estava completamente desesperada para deixar com que aquela dor saísse de mim, mas, quando colocava o lápis no papel, não conseguia deixar que as palavras saíssem desesperadamente de mim, como sempre fazia. Elas estavam bloqueadas. E eu me senti deficiente. A única coisa que eu realmente era boa tinha sido me tirada à força, tinha me abandonado sem deixar qualquer bilhete, tinha enfim morrido. Eu não era mais capaz de ver nenhum único motivo para a minha existência, e isso estava prestes a me matar.
E foi então que aconteceu.
Sabe quando você está, digamos, evacuando? E então as fezes enfim saem do seu orifício anal e caem na água da privada. Segundo a física, é normal que, com o choque da matéria sólida, a água líquida se espalhe. E então essa água bate nas suas nádegas. Foi mais ou menos assim que eu fiquei. Igual a essa droga de bosta que faz a água se espalhar.
Certo dia, então, quando eu estava tentando me animar, resolvi fazer uma surpresa para o meu namorado e ver se isso poderia me deixar um pouco melhor. Mas, é claro, só piorou. No meio do caminho, decidi que tinha que terminar com ele. Não estava confiando o suficiente e era isso que fazia com que nós não fôssemos tão perfeitos quanto eu e o Dave.
E desse jeito, de repente, eu pensei de novo no Dave. Comecei a sentir falta de quando estávamos juntos, de quando éramos lindos e nos completávamos tão bem. Era como se ele fosse o que eu estava esperando, e ele fazia com que eu me sentisse assim. Eu precisava do Dave, e o Dave precisava de mim.
Mas, na real, nunca precisamos um do outro. Como se todos os segundos que tínhamos passado tivessem sido um desperdício, e que eu deveria tentar esquecê-lo e esquecer que houve algo entre nós dois. Contudo, ainda assim, eu não conseguia esquecer. Eu nunca consegui esquecer.
E isso fez com que eu acreditasse que nunca tinha amado o Henry o suficiente, muito menos o Andrew. E então, ali, bem na ponta do meu nariz, estava o motivo perfeito.
As coisas pareciam estar ótimas, de repente. Consegui a confiança, a coragem e o motivo. Estava determinada a fazer algo e não poderia falhar. Não poderia falhar. Não poderia falhar.
Acabou falhando. Contudo, não por culpa minha. Eu estava pronta, determinada e preparada. Era capaz de conquistar meus objetivos e realizar meus sonhos. Por um segundo, eu voltei a ser a Alyson Brunner de catorze anos, que sabia muito bem como ser feliz.
No entanto, claro, só durou um segundo.
Estava ali. Na minha frente. Diante dos meus olhos. Eu vi. Bem na porta da casa do Andrew. Uma loirona oxigenada com o corpo mais bonito que eu já tinha visto em toda a minha vida. A boca dela...
na boca dele.
Eu paralisei do outro lado da rua. Não sabia o que fazer, não sabia como agir. Aquela dor do meu peito tinha voltado, e estava pior do que antes.
Então eu consegui. Eu consegui desabafar, e desabafei de uma maneira melhor do que ouvindo música ou lendo ou escrevendo.
Eu gritei. Não muito alto, mas gritei. O suficiente para que os dois se soltassem e se virassem para mim e vissem o que estava acontecendo. Eu gritei e comecei a xingar. Chamei ela de puta e mandei o Andrew se fuder. E não atravessei a rua, não cheguei a voltar a olhar para ele depois da explosão. Para ser mais sincera, nunca mais o vi desde então.
Comecei a correr, sem rumo. Fui para a primeira direção que surgira na minha cabeça e me senti louca, mas livre. Eu estava bem. Eu estava repentinamente bem. Com uma puta de uma dor no coração, mas incrivelmente bem. Como se nunca tivesse estado melhor.
Meu peito estava louco e sofrendo. Mas minha mente se sentia leve, e eu estava morrendo e voltando a viver ao mesmo tempo.
E me sentia tão bem que não conseguia olhar para onde andava. Não me incomodei com onde estava nem com as pessoas ao meu redor. Esbarrei em várias e recebi seus xingamentos e exclamações. Não gritei nenhuma “desculpa” de volta.
E eu estava tão bem que não tinha ligado para o carro se aproximando de mim enquanto atravessava alguma rua. Muito menos com a dor que se sucedera.
Contudo, depois disso, eu tive que me importar.
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