Impregnada
17 9 de Fevereiro :capítulo 17
Eu nunca tinha chegado nem perto de me sentir daquela forma. Não sei se você já esteve prestes a morrer, mas se já, provavelmente sabe como eu me senti.
Fiquei inconsciente por muito tempo. Não soube dizer e não sei até hoje. Contudo, enquanto a consciência voltava, a dor começava a aparecer. Ela estava por todo o meu corpo e o meu corpo estava todo consumido por ela. Até mesmo abrir os olhos doía e eu não conseguia mover um músculo. O bater do coração no meu peito me machucava.
Dizem que eu tenho talento para descrever dor. Que, às vezes, até consigo fazer o leitor sentir a dor. No entanto, isso só serve quando a dor é emocional, pois sou especialista nesse tipo. Quando é física, eu não consigo ter todos os detalhes. Então, para não ter algo incompleto, prefiro apenas dizer isso: estava doendo muito.
Os primeiros dias se passaram lenta e dolorosamente. Eu ficava na cama, ou gemendo ou dormindo, com a minha mãe ao meu lado com a mão sobre a minha cabeça, confortando-me. Ela parecia preocupada comigo de uma forma que eu nunca tinha imaginado que poderia ficar. Levara Uma Curva Na Estrada1 para mim, mas o livro acabou ficando a primeira semana toda apenas acumulando poeira sobre a mesa. Meu pai visitava-me de vez em quando, todavia dizia que precisava “trabalhar para poder nos sustentar caso eu sobrevivesse” (sim, ele usou exatamente essas palavras).
Pelo que parecia, um osso do fêmur havia sido quebrado e que eu ia precisar ficar bastante tempo para conseguir me recuperar o suficiente para poder ser liberada do hospital. Enquanto isso, deveria ficar largada na minha maca com romances trágicos para ler.
Quando vi a tela rachada do meu celular, quase comecei a chorar. Liguei-o, revistei todos os aplicativos em busca de algum erro e consegui a prova de que o único dano causado havia sido aquele. Visualizei as quinze mensagens de Clary, perguntei para a enfermeira quais os dias e horários de visita e enviei uma mensagem com a resposta, recebendo outra com uma promessa de me visitar assim que pudesse.
Algumas vezes, quando minha mãe ia para casa um pouco durante duas horas, eu ficava sentada na cama ouvindo música e encarando o nada. Gostava de pensar naqueles momentos. Lembrava-me de como tinha chegado até ali e todos os motivos. Então comecei a estabelecer uma teoria sobre como cada mínimo detalhe faz a diferença.
Se o motorista prestasse mais atenção na rua, se não tivesse acelerado tanto, se não estivesse indo exatamente para aquele destino naquele momento, se eu olhasse para o lado e não corresse igual uma doida pela rua, se alguém tivesse me abordado no meio do caminho.
Se eu não tivesse tido a ideia de visitar Andrew, se não ficassem o tempo todo falando sobre ele não ser certo para mim, se tivesse mais confiança, se ele não estivesse me traindo, se eu não gritasse nem fugisse, se não aceitasse o seu pedido de namoro, se não deixasse ele me levar para um armário na festa, se ficasse perto de Clary, se não estivesse chapada, se nem ao menos tivesse ido para a festa.
Se não fosse para a boca de fumo com Clary, se não procurasse outra pessoa para tratar dos meus ferimentos, se ela não estivesse passando por perto do banheiro naquela hora, se eu soubesse me defender de Kandice, se não deixasse Dave me beijar.
Se não tivesse terminado com Henry, se soubesse superar Dave, se me sentisse bem naquele relacionamento, se continuasse a escrever, se parasse de ficar pensando tanto no ex quando estava com outro, se não tivéssemos começado.
Se Dave soubesse perdoar, se fosse mais compreensivo, se não tivesse mandado aquela mensagem, se o Harry não contasse para ele, se eu não tivesse conversado com Henry daquela forma, se Dave não tivesse ficado tanto tempo fora, se eu soubesse superar a saudade sozinha.
Se nunca tivéssemos começado, se eu ainda fosse bv2, se Dave e eu não nos falássemos.
Eu não teria sido atropelada. Eu nem ao menos estaria em depressão.
E sempre concluía aquele pensamento com lágrimas nos olhos e a enfermeira perguntava se estava tudo bem e eu a encarava ironicamente como se dissesse: “parece estar tudo bem?”, e ela me oferecia uma xícara de chocolate quente porque sabia que era a minha bebida favorita e perguntava se eu não queria assistir televisão e eu dizia que não porque ia acabar me distraindo e lembrando tudo de novo e chorando mais uma vez e esquecendo como se superava aquela enorme dor física que parecia nunca acabar e também a emocional que crescia a cada segundo mais no meu peito. E esquecendo também como ser feliz.
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