Impregnada

12 4 de Fevereiro :capítulo 12


Minha cabeça doía. Latejava, na verdade.

Eu me sentia pra baixo, mais do que nos últimos dias. Desde a festa, algo em mim havia mudado. Como um vazio que não conseguia ser preenchido.

Era verdade que eu tinha passado meu número para o Andrew. Ele me ligou algumas vezes e pediu para sair comigo. Na quinta tentativa, cedi e concordei em sair para comer um hambúrguer. Ansiava por falta de segundas intenções, pelo menos naquele momento.

Até que o encontro tinha sido bom. A gente parou numa lanchonete, comemos hambúrguer com fritas e milkshake e depois ele me levou para andar um pouco. Fez-me rir até meu estômago doer e perceber que na verdade estava passando mal. Acompanhou-me até em casa e me deu um beijo de despedida. No começo, fiquei com vergonha porque tinha estado chapada na primeira vez em que nos vimos, mas depois ele me mostrou que não se importava. No fim das contas, era um cara legal. Continuou me ligando e saímos mais vezes, para cinemas, parques, pizzarias. Só eu não conseguia ainda voltar para outra festa.

Mas, ainda assim, estava mal. Clary percebeu isso logo de cara e tentou me animar. Todas as vezes em que apertei um baseado desde a festa acabavam comigo depois que o efeito passava. Meu corpo pedia por mais, minha mente pedia por mais, minhas emoções pediam por mais. No entanto, eu não queria mais. Algumas semanas, me afastei de lá. Ouvia Clary teimando, insistindo, mas eu estava certa do que fazer. Não podia me drogar por um bom tempo.

Em compensação, minha vida voltava a ficar mal. Acabava passando mais tempo em casa ouvindo as reclamações do meu pai e sendo obrigada a assistir as viagens mentais da minha mãe enquanto tentava pensar um pouco. Às vezes, quando ficava de saco cheio, saía andando pela rua com um livro na mão e parava em uma praça para poder ler.

Ainda assim, não me sentia bem.

Tinha recebido uma outra mensagem. “Os olhos são como uma luz para o corpo: quando os olhos de vocês são bons, todo o seu corpo fica cheio de luz. (Lucas 11:34).” Quando a li, comecei a chorar. Como se tivesse algum significado para mim.

Mas, na verdade, pensei bastante nela. Era como se me dissessem que se eu enxergasse bem, meu corpo ficaria bom. Imaginei como isso poderia acontecer.

Pensei em todas as mensagens. Perguntei-me quem que as mandava e o porquê. O que levaria uma pessoa a fazer isso?

Minha vida estava uma droga. E eu não sabia como melhorá-la.

Então, certo dia, quando estava sentada em cima de uma árvore na praça, tremendo de frio, pensei em investigar o que me matava. Certamente não era algo biológico. Estava precisando de alguém que investigasse minha mente.

Claro que não contei para o meu pai. Ele me mataria se soubesse que busquei ajuda psicológica ao invés de recorrer a ele. Mas falei para a minha mãe depois de ter marcado a primeira consulta. Perguntei se via algum problema, porém nem me respondeu. Ainda não tenho certeza se prestava atenção no que eu falei.

Era uma quarta-feira. A porta do consultório de psicologia havia se aberto e de lá uma voz chamou o meu nome. Quando levantei-me senti os olhares de todos na recepção sobre mim, como se fosse a pessoa mais anormal de lá. Podia ouvi-los pensando Que tipo de problema essa garota tem? ou Tão novinha e já enlouqueceu. Estava sendo pressionada pela opinião alheia da mesma maneira que era pressionada pelo meu pai.

Ainda assim, com as costas curvadas e os braços cruzados, andei o mais rápido possível até a sala e entrei, fechando a porta com força atrás de mim. Respirava com dificuldade enquanto tentava controlar a mim mesma.

A psicóloga olhou-me de trás da mesa e fez um sinal, pedindo que me aproximasse. Devagar, dei alguns passos até a cadeira e me sentei, os braços ainda cruzados.

– Boa tarde – ela saudou, calorosa.

– Boa – murmurei.

– Você é a Alyson, não?

– Sim, sou.

– Meu nome é Mary. Pode me chamar assim, ok? Estou aqui para te ajudar e nunca se esqueça de que foi você quem me pediu ajuda.

– Tá.

– Então, comece. Conte-me o que te trouxe até aqui.

Expliquei-lhe sobre estar passando mal emocionalmente e precisar descobrir o que me causava esse mal-estar. Contei-lhe sobre boa parte dos meus problemas e, após umas perguntas, ela percebeu como que eu procurava refúgio.

O que doeu não foi o fato de eu estar contando tudo para uma mulher que mal conhecia. Nem que tudo aquilo estava me sendo arrancado tão de repente. Nem como eu me sentia desconfortável enquanto sentada na sua cadeira macia. Nem todos os artigos que encontrava naquele consultório para fazer com que eu me sentisse bem.

Foi ver pela sua expressão que eu era mais uma. Que tantas pessoas já haviam passado pelo mesmo que eu e até pior e aquela mulher já tinha ouvido histórias como a minha. Foi ver em seus olhos que não se importava nem um pouco com o meu estado emocional e ouvir a sua maneira de falar mecânica e automática, como se já soubesse exatamente o que fazer. Foi não escutar nenhum resquício de pena ao ter me dito que eu estava em depressão. Foi vê-la anotar com uma cara de tédio num papel pedindo-me para encontrar um modo de me expressar.

Assim que saí do consultório, percebi. Precisava de alguém que soubesse me escutar. Alguém que soubesse me ajudar. E alguém que não estivesse interessado no meu dinheiro.

Mas tinha aquela dúvida martelando no meu cérebro: quem poderia fazer isso? Quem poderia me ajudar a passar por todos os obstáculos sem cobrar nada em troca? Quem poderia me dar a mão sem pensar na retribuição? Quem poderia demonstrar que se importa comigo porque realmente se importa?

Eu não tinha respostas. Eu não conseguia pensar em ninguém.

Fui para casa carregando aquela enorme dor que o meu peito não era capaz de suportar, imaginando quando que iria explodir.

Notas finais
Espero que tenham gostado, amores :3