Impregnada
13 5 de Fevereiro :capítulo 13
Tentei me matar três vezes.
A primeira foi com overdose. Quando estava decidida a fazer isso, deixei que Clary me levasse até a boca e peguei da bolsa de Peter uma seringa com heroína. Esperei até que os dois se distraíssem para poder posicioná-la no meu braço. Quando o polegar estava quase injetando, Madeline chegou e me parou, fazendo com que eu me sentisse uma completa idiota.
A segunda foi pulando de um lugar alto. Escondida, fui até o telhado da escola e subi no parapeito. Abri os braços e senti o vento leve bater em mim e no meu rosto, sentindo seu frio. Tirei o casaco e, tremendo, o joguei. Vi-o chegar no chão do pátio vazio e ninguém notá-lo. Estava prestes a pular quando alguém me abraçou por trás e me puxou.
– Para de palhaçada, Aly – sussurrou Clary no meu ouvido – Você não vai morrer.
Virei para encará-la e, quando vi seus olhos, comecei a chorar. Solucei no seu ombro e tentei murmurar desculpas, mas tudo saiu embolado da minha boca. Respirei fundo e tentei me acalmar.
A terceira foi em casa, sozinha, com uma faca novamente. Tinha me preparado melhor: escrevi uma carta de suicídio.
Vocês não repararam?
Ela estava sentindo dor,
E só queria um ombro.
Ela estava sofrendo,
E só queria que a entendessem.
Ela estava morta,
E só queria que a revivessem.
* * *
Essa garota, ela não sabe continuar.
Ela perdeu a noção da vida.
Essa garota está vazia
E não sabe o que pode preenchê-la.
E ainda assim está cheia
Das emoções que só sabem corrompê-la.
* * *
Você sabe como revivê-la?
Você sabe como demonstrar que a ama?
Você sabe como protegê-la?
Você sabe como guardá-la?
* * *
Se soubesse, ela ainda estaria aqui,
Viva, rindo, te amando.
Ela ainda poderia sorrir,
Ela ainda poderia te fazer rir.
* * *
Mas agora, já é tarde demais.
Agora o tempo já passou.
Agora ela não vive mais
Porque ninguém a amou.
Reli a carta, tirei-a do caderno e a pus em cima da minha cama e embaixo do celular para que não voasse. Respirei fundo antes de fechar a porta do meu quarto e fui até a cozinha. Peguei a faca e a levei para o banheiro.
Mas então olhei em volta. Olhei para as manchas nas paredes, os quadros pendurados, os porta-retratos. Vi a marca no sofá onde me sentava. No banheiro, encontrei os meus produtos de beleza. Encarei meu reflexo no espelho e percebi o que havia m e tornado. Comparando à garotinha que usava uma blusa azul de borboleta, uma saia rodada preta e tênis brancos, eu não era mais a mesma. E ali estava a prova disso. Se mudara para chegar até ali, porque não poderia mudar para ir ainda mais além?
Eu tentei. Eu juro que tentei. Lembro-me das noites em claro, dos passeios com livros nas mãos, das folhas passadas sobre árvores, das conversas animadoras. Tinha largado as drogas, as festas, a bebida. Não vivia com Clary para cima e para baixo, inventava desculpas para não encontrar mais com Andrew. Fiz tanto para mudar, para me tornar melhor, para provar pelo menos um pouquinho da felicidade. Contudo, era como se a felicidade não quisesse ser experimentada.
Eram tantas horas largada na cama com as lágrimas encharcando meus lençóis e fronhas, porém não me sentia melhor. Dizem que as lágrimas carregam hormônios do estresse e por isso que chorar alivia. Não me aliviava mais. Parecia que só piorava a minha situação. Às vezes, parava para pensar e me perguntava como conseguia aguentar toda aquela dor que me consumia.
Então percebi a verdade. Eu aguentava porque não era mais tão humana. Eu aguentava porque meu sistema protetor não possuía limites.
Eu aguentava porque estava morta.
Não literalmente. Meu coração ainda batia, meus pulmões respiravam, meu sangue circulava. Todos os meus órgãos funcionavam normalmente como sempre tinham funcionado.
Mas era como se eu estivesse morta. Como se estivesse apenas vagando, esperando algo sem esperanças. Um peso morto, algo sem importância. Minha vida não fazia mais sentido e suportar aquela dor era tudo o que tinha para fazer.
Mesmo assim, não era algo com que você amava conviver. Queria muito largar aquilo e voltar a viver. No entanto, eu não sabia como reviver.
Comecei voltando a escrever. Deixava tudo fluir, todas as minhas emoções passarem para o papel. Concentrava minhas forças para poder escrever cada palavra, cada frase, cada linha/verso.
Se aquilo adiantou? Muito. Não estava mais cheia demais nem vazia demais. Era muito melhor do que chorar, muito melhor do que ficar vagando. Pelo menos eu tinha um propósito na minha vida. E ele era escrever.
Certo dia, eu estava escrevendo na sala enquanto meus pais assistiam televisão. Escrevia com rapidez no caderno e minha letra acabava como um garrancho. Então meu pai virou-se para mim e começou a ler minhas palavras. Fingi que não me importava e tentei continuar do mesmo modo, mas não consegui na verdade. Sou tímida demais para deixar que observem-me enquanto trabalho.
– O que é isso, Alyson? – perguntou ele.
Algo que sempre me incomodou em relação a ele é o seu tom profissional que usava enquanto falava comigo, como se eu fosse uma colega de trabalho e não a sua filha. E também a maneira como pronunciava meu nome. Normal, como todas as outras falavam, mas de maneira aguda e alta, como se estivesse sempre me repreendendo.
Ele nunca me chamou por um apelido.
– Um texto – respondi.
– Sobre...?
“Sobre algo que não é da sua conta”, pensei.
Gaguejei por um momento por não ter palavras para responder.
– Para de palhaçada, Alyson – ele disse – Você está me escondendo algo?
– N-não – falei – É só que eu não sei como responder.
– Diga-me a verdade.
Seu olhar era duro e eu não sabia como sustentá-lo. Desviei os olhos para a folha de papel onde eu escrevia e murmurei:
– Sobre eu.
– Como assim?
– Esse texto. Conta quem eu sou, o que faço, o que penso. Esse texto mostra a minha vida. E mesmo que você o leia mil vezes, não irá me conhecer de verdade.
Não consegui virar a cabeça para ver a sua expressão. Sentia medo de que o que tinha dito fizesse com que adquirisse ainda mais raiva de mim. Respirei fundo e esperei que fizesse qualquer coisa.
Ele rasgou a folha. Tomou o meu caderno em suas mãos e o jogou no chão com força. Então puxou-me pelo pulso, fazendo que eu sentisse uma dor tremenda ali por causa das cicatrizes, e ergueu a minha cabeça para que pudesse encará-lo.
– Você está me dizendo que não a conheço?
Uma onda de raiva me invadiu e a joguei toda sobre a próxima palavra:
– Sim.
– Eu, o seu pai, que convive com você desde que nasceu, que te criou e educou. Não te conheço?
– Nem um pouco.
Virou-se para trás e pegou o caderno no chão brutalmente. Levou-o para a cozinha e permaneci de pé no mesmo lugar.
Até começar a sentir o cheiro de algo queimando. Meu coração batia com força no meu peito e já sentia as lágrimas arderem nos meus olhos. No entanto, não me movi. Esperei que o meu pai chegasse e mostrasse-me as cinzas e olhasse nos meus olhos. Eu iria enfrentá-lo. Estava disposta.
Ouvi a sua voz me chamar da cozinha. Com os pés firmes, fui até lá, preparando-me emocionalmente a cada passo para o que estava prestes a encontrar.
Foi exatamente o que eu esperava. Folha em chamas, ele encarando-as com brilho nos olhos, ansiando pelo meu choro e desespero.
Mas fiz o contrário do que ele esperava. Ergui a cabeça, cruzei os braços e falei:
– Obrigada pai. Agora mesmo que você não vai conseguir me conhecer.
E me afastei.
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