Impregnada
8 31 de Janeiro :capítulo 8
Lembro de termos andado por várias ruas de mochilas nas costas até chegarmos ao que parecia ser o objetivo de Clary. Era um portão cinza desgastado no canto de uma rua sem saída e deserta. Foi quando segurou na mochila para jogá-la no chão e sentar-se na soleira que percebi que ela largou a minha mão naquele momento. Sentei-me ao seu lado.
– É aqui que você mora? – perguntei.
Clary olhou por trás do ombro e depois para mim.
– Não, não – respondeu – Aqui é só o ponto de encontro. Peter deve estar vindo.
– Pet...
– Você vai ver.
Ficamos alguns minutos sentadas conversando sobre algo que eu não lembro muito bem, talvez sobre o cadáver de rato do outro lado da rua. Mas foi ali que percebi o quanto Clary era engraçada – o tipo de garota que você adoraria conviver todos os dias.
Ainda sentia dores incômodas na cabeça e o meu nariz latejava, mas tentava não pensar naquilo. Quanto mais se pensa na dor, mais ela se aprofunda.
Então um garoto de cabelos avermelhados se aproximou de nós, também com uma mochila. Não era muito corpulento e tinha um sorriso amigável, mas feições assustadoras. Assim que ficou de frente pra gente, Clary pulou e o abraçou. Fiquei sem graça diante daquela cena.
Assim que se separaram do abraço, ele olhou para mim, aparentemente confuso.
– Ah, Alyson, este é o Peter. Peter, Alyson, a vadia que fica levando surra na escola.
– Então é assim que eu sou conhecida? – perguntei.
Clary riu baixo, mas não falou nada.
– Por que trouxe ela para cá? – perguntou Peter.
– A garota tá precisando de uns curativos, sei lá. Imaginei que você fosse ter alguma coisa do tipo.
A maneira como Peter me olhou deu a entender que estava prestes a terminar o trabalho que Kandice começou. Me encolhi ligeiramente e tentei não demonstrar que estava com medo.
Ele jogou a mochila no chão e se sentou de frente para a gente. A abriu e tirou de lá uma caixa branca. Pegou gaze e bandaid e se aproximou de mim.
– As marcas são só no rosto?
– Ela bateu também nos braços e acho que nas pernas – respondeu Clary.
– Bem, vou precisar de que você tire o casaco, Alyson.
– Hã, pra quê?
– Pra ver o estado dos seus braços, ora.
Suspirei e lentamente tirei o casaco. Senti o vento frio bater na minha pele e nas marcas dos meus pulsos. Meu coração acelerou – nunca tinha mostrado aquilo para ninguém.
Mas a reação deles que me assustou mais. Eles não fizeram exatamente nada. Clary mostrou-se um pouco incomodada, mas pareceu guardar tudo para si.
– Ela também fez isso? – perguntou.
Balancei a cabeça, enrubescida. Peter soltou um suspiro.
– Cara, aqui não tem nada para fazer. É tudo hematoma, exceto o nariz, que parece estar quebrado. Vocês têm dinheiro pra gelo?
Clary olhou para ele, sarcasticamente.
– Eu tenho cara de quem tem dinheiro pra gelo?
Peter revirou os olhos e se levantou. Deixou uma toalha comigo e correu para algum lugar distante. Pouco depois, voltou com uma lata de Coca-Cola na mão.
– Sério que você vai botar Coca-Cola nela? – perguntou Clary.
– Você que a trouxe até mim, me deixa fazer meu trabalho.
Envolveu a lata com a toalha e sujou as gazes com um pouco do refrigerante. Colocou uma no meu braço e outra numa bochecha. Depois pegou a toalha úmida e a colocou na bochecha esquerda, onde estava pior.
– Vai ter que ficar assim, cara – ele falou – Depois, é só ver a situação do nariz.
Bebeu um pouco da Coca-Cola e ficou olhando para nós duas.
– Hã, então – disse ele – O que você arranjou para acabar com isso?
– Passa logo as coisas e deixa a história pra depois – Clary interrompeu – Acho que não consigo aguentar nem mais um segundo.
– Pera – falei – Que coisas?
Eles se entreolharam.
– Não contou pra ela? – perguntou Peter.
– Tava querendo fazer uma surpresa, mas a garota é muito curiosa.
– Como assim? – disse eu.
Clary abriu um sorriso de lado e olhou para mim.
– Você já fumou, Alyson? – ela perguntou.
A pergunta me atingiu em cheio. Por alguns segundos, fiquei estupefata, mas então respirei fundo e me acalmei um pouco. Aquilo já deveria ser normal para muita gente, mas não para mim. Eu tinha crescido na igreja; só estava deixando de ir naqueles dias, desde o término com o Dave. Mas mesmo com a minha idade, ninguém nunca tinha me oferecido drogas. E eu sabia que era aquilo que eles estavam prestes a fazer.
– Pelo jeito não – e riu.
– Desculpa – falei – É que... não, nunca fumei.
Peter guardou a caixa e pegou outra, tirando dela um saco com pó dentro e alguns papéis.
– Você sabe para que serve isso, né? – ele perguntou.
– Não sou tão idiota – e abri um sorriso.
Observei os dois enquanto enrolavam os baseados e acendiam com o isqueiro da mochila de Clary. Ela olhou para mim e ofereceu o seu.
– Não, valeu – respondi.
– Qual é, Alyson? Você é depressiva e se corta, cara, mas isso não adianta. Isso aqui – e apontou para o baseado – te ajuda a fugir do mundo. Experimenta. Depois te ensino a enrolar.
Olhei para o que tinha em mãos e pensei um pouco. Na igreja, viviam ensinando que drogas são só um prazer momentâneo e logo passa, trazendo as dores. Mas eu já lidava tanto com as dores que não ligava mais se elas voltariam, desde que pudesse, nem por um segundo, me sentir bem novamente.
Fiz o que via muitas pessoas fazendo: suguei o que estava dentro daquele papel – fumaça –, mas acabei começando a tossir. Respirei fundo e pus o baseado na boca de novo. Suguei devagar e depois de uns segundos soltei toda a fumaça.
No começo, foi incômodo, mas depois me aliviei. Mais do que isso; o mundo parecia lento e distante, parecia que tudo era meu. Meu coração acelerou e meu peito arfou, absorvendo aquela sensação nova. Comecei a rir e me senti agitada, mas cansada para fazer qualquer coisa. Traguei mais um pouco e mais e mais, ansiosa para fugir logo de tudo e qualquer coisa.
Era como se meu nariz nunca tivesse sido machucado, como se ninguém tivesse jamais me batido, como se eu nunca tivesse sido largada por algum namorado. Era só eu e aquela felicidade dentro de mim, e o mundo não existia mais.
O tempo parecia não passar nunca, cada pensamento meu do tipo “eu jurava que essa blusa fosse menos preta” demorava uma eternidade para ser processado. Ao mesmo tempo, fiquei refletindo sobre a blusa ser mais preta do que antes e acabei não chegando a lugar algum.
Olhei para o lado para pedir que enrolasse mais um para mim, mas Clary parecia estar distante. Uma pontada de dor surgiu no meu peito ao imaginar que ela talvez estivesse fugindo de mim e comecei a gritar pelo seu nome.
– Cale a boca – ela sussurrou no meu ouvido, mas o som parecia mais baixo que deveria.
– Eu quero mais – falei.
– Você já está doidona. Se tragar mais, vai começar a ver aquele rato voar e eu juro que não é legal ver ratos voarem em plena luz do dia.
Ri alto e uma sensação poderosa tomou conta do meu corpo. Eu estava tão certa de que iria valer a pena, que não ia doer nunca mais, que iria ser assim sempre.
Peguei a lata da mão de Peter e bebi tudo que estava ali. Sentia uma sede indefinível e aquilo ainda parecia não saciar tudo. Clary pôs a mão nos meus ombros e me ajudou a levantar. Algumas horas depois, eu me via indo para casa sozinha e com frio, o casaco incapaz de me esquentar. Lembro de ter chegado já indo para o meu quarto e levando um tapa por ter ignorado o meu pai, mas podendo ficar em paz logo depois disso.
E lembro também de ter visto uma notificação de mensagem no meu celular. Não sei no que estava pensando, mas a abri ansiosa.
“O Teu amor é melhor do que a própria vida,
por isso eu Te louvarei”
Salmos 63:3
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