Impregnada
9 1 de Fevereiro :capítulo 9
As coisas estavam começando a mudar de novo. Clary já se considerava minha nova melhor amiga e duas vezes por semana me levava para a boca. Ela tinha me ensinado a enrolar, então eu me sentia mais independente para fazer as coisas.
E não era só ela e o Peter. Tinha também uma amante de tatuagens chamada Madeline e dois irmãos, Heric, de dezenove anos, e Nate, de quinze e era o mais novo do “bando” – como gostavam de chamar. Cada um deles tinha um parceiro da mesma área mas que tinha o próprio bando; eu era a única que não convivia com mais ninguém.
Na escola, eu me sentia melhor porque sabia que não ia chegar e ficar sozinha como acontecia antes. Pela primeira vez em semanas, eu me sentia confiante.
Mas então chegou esse dia. Quando eu escrevia a data no caderno, a ficha caiu. 16 de Outubro. Dois meses desde que terminamos.
Foi como se eu nunca tivesse ficado com o Henry depois do Dave. Como se ele fosse o único, último e eterno. Como se eu sempre o tivesse o amado, e sempre o amaria. Como se os últimos meses em que estivemos separados tivessem sido os mais dolorosos da minha vida.
Uma dor enorme tomou conta do meu peito e joguei a cara sobre o caderno para abafar as lágrimas. De repente, percebi que meu pulso doía ainda mais que qualquer outro dia.
Senti uma mão cutucar meu ombro e me remexi. Então a professora sussurrou no meu ouvido:
– Não é hora de dormir, senhorita Brunner.
Levantei a cabeça e olhei para ela. Ficou paralisada ao ver minha expressão.
– Por que está chorando, Brunner? – ela perguntou.
– 16 de Outubro.
– O que que tem?
– Hoje. É 16 de Outubro.
– Sabemos disso, está escrito no quadro onde há coisas que você deveria copiar.
– Me desculpa, professora. Só tô esperando a ficha cair.
– Enquanto espera, copie. Mas antes vá ao banheiro lavar esse rosto. Não aguento te dar aula com essa cara de choro.
Abri um leve sorriso e corri para fora, em direção ao banheiro. Me joguei dentro de um cubículo e, uma vez ajoelhada, comecei a chorar. De verdade, com direito a lágrimas e a soluços. Senti meu coração acelerado e meu rosto ainda mais molhado.
As pessoas dizem que choram para aliviar a dor. Isso não funciona comigo, pelo menos não só chorar. O que dá certo são os meus pensamentos enquanto choro, eles fazem com que a dor no meu peito diminua. Mas, claro, depende muito do que penso.
Naquele momento, resolvi pensar em como minha vida estava diferente. Se não tivéssemos terminado, eu não teria conhecido a Clary, nunca teria fumado, não teria percebido que a Kandice queria ficar com o meu namorado. Talvez teria sido pior do que realmente foi – e eu nem ao menos conseguia imaginar como.
Isso me aliviou. Senti meu peito relaxar e o coração desacelerar e as lágrimas cessarem vagarosamente. Levantei-me e lavei o rosto enfim.
Enquanto voltava para a sala, cruzei com ele. Meu peito arfou de novo, mas me controlei para não desabar novamente. Nos olhamos por alguns segundos e movi os lábios sem fazer som.
“Dois meses.”
Ele olhou para mim e concordou. Então saiu.
No final do dia, pedi a Clary que me levasse ao ponto porque tava precisando ficar chapada. Ela riu de mim e falou:
– Hoje é sexta-feira. Vamos mais do que ao ponto. Temos uma festa. Te busco às 7 p.m. Beleza?
Concordei com a cabeça e fui vagando para casa.
O ar de certa forma parecia mais denso, mesmo que aquele dia em especial não estivesse frio. Me encolhi e caminhei vagarosamente quando dei de cara com Henry.
Não sei com o que estava na cabeça. Mas era como se eu precisasse ir até ele, falar com ele. Corri e gritei seu nome. Automaticamente, Henry se virou com uma expressão desanimada ao me reconhecer. Ignorei aquilo e me aproximei ainda mais.
– Olá – falei.
– O que você quer?
Revirei os olhos.
– Será que não posso simplesmente vir e falar com o meu amigo?
– Ah, deixa eu adivinhar: vai falar também que eu não sou a Kandice? Porque se for, já me retiro. Aquela garota é uma puta, e das grandes.
Ri, concordando internamente.
– Não vim te comparar com ninguém. Só quis saber se você queria companhia para casa. Sua casa é no caminho da minha, lembra?
Ele olhou para mim e eu não pude de forma alguma entender a sua expressão, por mais que tentasse.
Andamos alguns minutos em silêncio até que por fim eu disse:
– Escrevi um texto dia desses.
– Você é mesmo teimosa, hein? Não falei que isso não vai dar em nada?
– Era só para matar a saudade. Você não sabe como é ter tanta coisa presa aí dentro e de repente esvaziar tudo só com algumas palavras.
– Verdade, não sei. Não faço ideia e nem quero fazer.
Olhei para ele, tentando não chorar.
– Quer ler? – perguntei, tirando o papel da mochila.
Ele pegou a folha nas mãos e a analisou enquanto andava. Então a desdobrou e começou a ler em voz alta.
– A dor é como uma faísca. Se você não controla, ela cresce e se torna uma chama e destruirá tudo o que encontrar pela frente. E então já será incontrolável. Quando você voltar, encontrará todas as coisas que amava destruídas e consumidas pelo fogo. Não haverá nem mesmo um vestígio dos seus pertences, somente as cinzas. Elas dominariam todo o lugar e espaço e você percebe que não tem mais onde ficar. Precisa achar um lugar para morar, mas não tem como trocar a sua mente, muito menos depois de devastada. Terá que conviver com ela pelo resto da sua vida.
“E então será apenas um vasto vazio onde você percorrerá lentamente, sem rumo. Então percebe que só havia uma coisa que a chama não queimou: as lembranças. Só elas que permaneceram ali e só delas que você tem posse. E precisa aprender a conviver com suas memórias ou morrer. Às vezes, você não sabe qual é a melhor alternativa.
“Então se pergunta se esse vazio realmente vale a pena. Se pergunta se esse vazio é mesmo um vazio ou apenas um tudo fantasiado de nada. Percebe que já não faz sentido se locomover no meio do nada como se estivesse indo para algum lugar. E tenta sair, tenta fugir daquele lugar. Mas o nada é um nada, um vazio, e em vazios não tem para onde fugir.”
Quando terminou de ler, ficou me olhando como se eu fosse um ser de outro planeta. Tentei retribuir o olhar, mas não consegui.
– O que você achou? – perguntei.
– Acho que você não precisa perder mais tempo com isso – e jogou a folha em cima de mim, indo embora rápido.
Corri atrás dele, porém ele começou a correr também, como se fugisse de mim.
– Henry, entenda! – gritei, tentando ultrapassar a distância — Não posso fugir do meu sonho. Você não faz ideia de como isso é importante para mim. Não pode me ignorar simplesmente porque não posso te obedecer.
Então ele parou e se virou para me encarar.
– Esse é o problema, Alyson. Você sempre tira as conclusões erradas.
Retribuí o olhar, confusa.
Ele continuou:
– Eu não quis roubar o lugar do Dave. Sabia que ele tinha um espaço especial no seu coração e não quis tomar isso dele. Eu só queria ter o meu espaço garantido também. Eu só queria poder ser especial para você, Alyson. E não parei de falar com você porque “você não me obedece”. É porque eu sei que não vou conseguir me segurar diante dos seus lábios novamente, porque eu sei que você é atraente e logo vai arranjar outro cara e me largar na friendzone. Prefiro não te ter novamente, Alyson, a passar por toda essa dor de novo.
Meus olhos arderam. Senti as lágrimas lhe tomarem conta de novo e ali, frente a frente com Henry, comecei a chorar. Meu rosto ficou molhado, minha boca ficou para baixo, eu estava chorando. E os olhos dele pareciam diferentes.
– Também sinto dor, Henry – falei – Você acabou de lê-la.
Guardei o papel na mochila e percebi que ele se afastava de mim novamente, mas devagar. O alcancei e fiquei na sua frente.
– Por favor – disse – Não me abandone. Mais uma vez, por favor.
Ele entendeu o recado. Enlaçou as mãos na minha cintura e eu deitei a cabeça no seu ombro. Senti o seu cheiro invadir minhas narinas com violência e percebi o quanto sentia falta dele.
Nunca tinha conseguido admitir antes, mas mesmo que Dave tivesse sido especial, Henry também conseguira. Mesmo que aquele dia nós completássemos dois meses, eu tivera Henry e o estava tendo naquele momento.
Ao desfazermos nosso abraço, nossos rosto ficaram a apenas alguns centímetros de distância. Como se pretendêssemos fazer aquilo.
Henry me beijou. Uma última vez. E então foi embora. Mais uma vez.
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