Impregnada
3 23 de Janeiro :capítulo 3
Notas iniciais
Lá estava eu de novo. Deitada na cama com o celular em mãos, com um sorriso bobo no rosto. Já estava com saudades daquela sensação louca de estar falando com alguém no meio da noite.
Henry: Ja te falei q vc é linda?
Alyson: Umas dez vezes hoje.
Henry: Haha desculpa
Henry: É q vc é linda
Alyson: Ai mds :3
Henry: Vai dormir amor
Henry: Amanha tem aula
Alyson: Tem razão. Boa noite
Henry: Boa noite
Desliguei o celular e dormi, sentindo-me em paz novamente.
Lembro que no dia seguinte fui para a escola animada. Não vesti as mesmas roupas escuras e sombrias de sempre, resolvi alternar um pouco. Coloquei um jeans apertado e uma blusa azul decotada. Penteei o cabelo com todo o cuidado e saí de casa.
Não falei com ninguém durante umas duas horas, até a professora de história me pedir para responder a uma pergunta sobre reformas religiosas. Olhei em seus olhos e, com um sorriso confiante, respondi.
Os outros ao meu redor me encararam, surpresos ou indignados. Talvez com saudade da minha voz, talvez não. Mas eu os entendia; também estava meio surpresa comigo mesma.
Quando a professora se virou para o quadro, me passaram um bilhete.
A vadia despertou, é?
Apertei os punhos, mas tentei disfarçar isso. Uma dor aguda surgiu no meu peito, fazendo com que qualquer sentimento de confiança evaporasse.
Olhei para trás, tentando deduzir qual tinha sido o remetente daquelas palavras. Mas não, não pude imaginar qualquer pessoa por ali que tivesse escrito aquilo.
Revirei o bilhete, tentando encontrar qualquer pista que denunciasse que o seu destino não era comigo. Eu precisava descobrir os motivos e tudo mais.
Por que tanto ódio?
Quando o sinal tocou, arrumei as minhas coisas e saí da sala. Depois do último incidente, não me atrevi mais a deixar muitos pertences meus lá enquanto saía para o intervalo.
Agarrei meu caderno e o estojo com força e vaguei por todo o espaço livre, procurando algum lugar onde poderia ficar. Quando enfim avistei um local maneiro, senti dois braços me envolverem por trás e sua respiração no meu pescoço.
Era Henry.
Ele deu um beijo na minha bochecha e ficou de frente para mim. Olhou para os objetos que eu abraçava e os pegou.
– Ei! – exclamei.
– Fala sério, Alyson – ele falou – Larga essas coisas pelo menos uma vez na vida. Você ama mais esses seus textos do que eu.
– Nunca mais pense assim, idiota.
– Então acaba logo com isso. Sabe que as chances de conseguir qualquer coisa com esse seu hobby maluco são mínimas.
Baixei a cabeça, tentando esconder as lágrimas nos olhos. Aquilo me atingiu como uma flecha no peito – de repente e com força, causando dor.
Acreditei naquilo. Acreditei que suas afirmações fossem verdadeiras, que escrever não me levaria a lugar algum. Deixei que ficasse com meu caderno com metade dos textos que havia escrito durante as aulas entediantes.
Mas não era só por isso. Dave já tinha tentado me fazer parar tantas vezes, mas eu não conseguia lhe dar ouvidos. Internamente, vi isso como uma chance para atrai-lo de volta a mim.
Até hoje não sei que destino teve aquele caderno. Muito provavelmente, Henry o teria jogado no lixo sem nem ao menos ler uma linha.
Nos sentamos, ele com as duas mãos na minha cintura, eu com o olhar vago. Aquele abraço, aquele carinho, aqueles elogios... Nada daquilo tinha significado para mim. Eu sabia desde o início: nunca senti nada pelo Henry.
A gente se conhecia desde o sétimo ano. Nunca tínhamos tido uma conversa de verdade, normal. Mal nos considerávamos colegas. No máximo, ficávamos na mesma equipe de futebol. Mas então, no nono ano, ele declarou que estava apaixonado por mim e que faria de tudo para conquistar a minha atenção. Então tirou o meu BV.
Mas, é claro, eu o conhecia. Não aceitei seu pedido de namoro. Ele prometeu que comigo seria diferente, que eu era especial. Contudo, mesmo assim, não quis. Na mesma época, surgiu o Dave e toda a nossa história começou.
Talvez tenha sido exatamente por isso que eu usei o Henry naquela noite para consolar o meu coração vazio. Se você está carente de atenção, carinho e uns “eu te amo”, por que não vindos do cara que diz ter um abismo por você faz três anos?
Quando cheguei em casa naquela tarde, resolvi ler alguns dos meus textos antigos que guardava na gaveta. Poderia estar desistindo de adicionar novos à coleção, mas não iria abrir mão dos antigos. O texto que escolhi guardo até hoje. Eu o tinha escrito no dia da minha formatura para o Ensino Médio. Era o menor de todos, mas um dos mais emotivos.
Perdida estou. Não sei mais o que faço, não sei mais quem eu sou. Ainda me procuro no meio do passado, das lembranças obscuras que possuo de mim mesma. Mas ainda não encontro nada, nem ao menos um vestígio. Aquilo não sou eu, não pode ser.
Lágrimas? Mas o que seria isso?
Tristeza? Desconheço essa palavra. Diz-me ser um sentimento angustiante, totalmente contrário à felicidade. Mas agora só tenho olhos para ela.
Ah, a felicidade. Recebo-a de braços abertos. Nela, tenho paz. Encontro tudo o que precisava para viver. Minha vida, minha fé, todas são consequências da alegria que nutro até hoje. Vejo que nunca mais vou perdê-la.
Assim que terminei de ler, notei que meus olhos estavam cheios d'água. Lembrava-me das circunstâncias que tinham me levado a escrevê-lo. Dave estava disposto a me assumir, eu estava com umas das melhores médias no boletim, arrumava-me para uma viagem à Austrália. Eu me sentia bem, em paz.
E, realmente, aquele sentimento permaneceu no meu coração durante o ano seguinte inteiro. Até então, minhas angústias começarem a me preocupar.
Mas, naquele dia em especial, eu não senti saudades. Nenhum vestígio dela. Estava chorando por causa de quem eu era e quem tinha me tornado. Mas não sentia falta. Estava acostumada com aquela dor presente, acreditava que seria um vazio me livrar dela.
Me lembrava. Até mesmo meu gosto musical tinha mudado. Sempre tinha sido viciada em modinhas pop, mas elas perderam seu gosto. O rock, esse sim parecia estar disposto a me receber. Gritos, gemidos, letras sufocantes. Era exatamente o que eu sentia, o que eu era.
Então era isso. Percebi a minha função no mundo. Sujeita apenas a reações, esperar as coisas acontecerem. E eu não poderia mudar nada, nem mesmo uma vírgula. Meus sentimentos, tudo seria apenas sobre o que me acontecesse.
Meus dedos formigaram. Eu precisava escrever, precisava passar aquilo para o papel. Mas respirei fundo. Fiquei sentada na cama, de olhos fechados, esperando aquela súbita inspiração passar e me abandonar.
Estava batucando com os dedos na perna quando meu celular vibrou, sinalizando uma mensagem.
Henry: Linda.
Encarei a tela por alguns segundos, decidindo se escreveria uma resposta ou não.
Imaginei que seria injusto o que estava fazendo com ele. Usá-lo para que eu não precisasse conviver com a solidão parecia ruim. Odiaria que fizessem o mesmo comigo.
Mas simplesmente não conseguia. Quando eu estava pronta para mandar qualquer mensagem, ele dizia que me amava. E jamais seria capaz disso pessoalmente. Não sou muito boa em lidar com a dor alheia.
Até cheguei a digitar “Talvez, mas não mais sua”, mas achei muita crueldade. Então escrevi “Acho melhor pararmos por aqui. Não tá dando certo. Desculpa. Amigos?”.
Fiquei encarando as letras na caixa de escrita, suas formas, sua cor, o espaço entre elas. As admirei por muito tempo. Meu coração parecia estar querendo saltar para fora do meu corpo.
Talvez seja melhor, pensei. Assim não preciso terminar com ele.
Suspirei e desliguei a tela. Em outra ocasião, eu enviaria aquela mensagem. Mas naquele momento, não. Ainda não estava preparada para ficar sozinha de novo.
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