Impregnada

4 27 de Janeiro :capítulo 4


Notas iniciais
Deliciem-se com essa leitura e espero que ouçam um pouco de música :v

Eu estava chorando. Já me acostumara a isso. Parecia já ter se tornado normal chegar em casa e começar a chorar, daquele jeito soluçante, digno de pena. Quem me olhasse, pensaria que minha vida estava indo de mal a pior. Mas estava mesmo. Ah, claro, se eu lhe contasse meus problemas, iria me olhar torto e falar que não tinha motivos para chorar.

Esse é o problema deles: acreditam que dores emocionais não são reais. Rio deles. Tenho uma teoria: se há um nome, um nome conhecido – de preferência, introduzido no dicionário – é porque é real. Se a expressão “dor emocional” é conhecida, então é de verdade.

Mas foi isso. Lá estava eu, de novo, largada na minha cama, envolta no meio dos panos, sufocando-me sozinha. Afundava no lençol, a cabeça mergulhava no travesseiro. As lágrimas molhavam tudo o que tocavam, e eram muitas.

Então eu cansei. Cansei de chorar, de ficar gemendo, lamentando. Chega uma hora que a gente cansa, cansa mesmo. Mas, ainda assim, não queria mudar. Não conseguia pensar em nada que pudesse fazer para me sentir melhor.

Levantei da cama e enxuguei o rosto. Fiquei um tempo parada, só encarando meu reflexo no espelho. Não sei se eu já falei isso, mas agora sou completamente apaixonada pela minha aparência dos dezesseis. Cabelo castanho, nem escuro nem claro, nem liso nem enrolado. Olhos verdes – estes eu preservo até hoje –, grandes. Sardas, espalhadas por todos os cantos da bochecha direita, e só. Talvez fosse bem simples, mas eu amo. Na época, talvez não, mas agora sim.

Enfim. Continuei me observando. Cada detalhe, cada mecha. Passei os dedos por baixo dos olhos, nas olheiras. Então respirei fundo e saí de lá.

Comecei a caminhar pela casa, vendo se estava mesmo sozinha. Não havia nem mesmo um inseto para me fazer companhia. Então peguei as chaves, dinheiro e celular e saí de casa.

O ar estava frio e eu não usava casaco. Eu não saía mais de casa, só para ir para a escola. O resto do tempo passava trancada no meu quarto, e às vezes na sala.

Andei, andei, andei. Não sabia para onde estava indo. Só queria continuar andando, abraçando a mim mesma para me proteger do vento frio que cismava em bater.

Quando dei por mim, estava parada em frente a uma farmácia de esquina, lágrimas tentando sair dos olhos, os braços arrepiados. Abaixei a cabeça e entrei.

Vaguei pelo meio dos corredores, sem saber exatamente o que procurava até que a encontrei. Em uma caixa bem pequena, estava escrito que haviam cinco unidades. Eu já me contentaria com apenas uma.

Paguei pelas giletes – era depressiva, não ladra – e voltei para casa. Não parecia ter passado muito tempo, mas nem me importava mais.

Escondi a caixinha no meio da minha gaveta de textos e resolvi escutar música, bem alta. Não usei os fones; deixei no último volume e voltei a deitar na cama.

Mas um dos objetos metálicos estava na minha mão.

Antes de qualquer coisa, quis escrever. Peguei papel e lápis e os deixei no meu colo por um tempo, pensando no que poderia passar.

Então desisti. Talvez o tempo que tinha ficado longe da escrita havia acabado com qualquer vestígio de inspiração que vivia em mim. Frustrada comigo mesma, os joguei no chão.

Mas tinha tanta coisa dentro de mim, tanta coisa que precisava sair de alguma forma. Eu não aguentava mais. Sentia como se estivesse prestes a explodir, a deixar pedaços de Alyson por todo o meu quarto e cada um que os visse, entendesse como eu me sinto.

Peguei o celular e, inconscientemente, mandei uma mensagem para Henry. Se eu não falava com o papel, que seria pelo teclado mesmo.

Não pude falar tudo. Imaginei que aquilo iria machucá-lo mais do que a mim, e não conseguiria fazer isso. Sei que tava doendo, e muito, mas mesmo naquela época eu não desejava minhas dores a mais ninguém. Aprendi que você precisa suportar o que tem, aprender a conviver com o que lhe foi dado de nascença e lidar com as consequências das suas atitudes. Eu era madura o suficiente para entender que era tudo culpa minha.

Escrevi que não conseguia mais continuar, que não era ele e sim eu (clichê, sei). Mas ainda não enviei. Não pude enviar.

Precisava fazer aquilo. De um jeito ou de outro.

Liguei.

Sabia que se ligasse, precisaria falar.

Ele estava já do outro lado da linha, esperando que eu falasse.

Devagar, eu disse:

– Precisamos conversar.

– Aconteceu alguma coisa, Alyson – a menção ao meu nome me fez sentir um frio na barriga. Só o meu pai que me chamava de Alyson.

– Hã, a gente pode se encontrar agora?

– Na minha casa?

– Tô indo pra aí agora.

Desliguei o telefone e respirei fundo. Teria que ser naquele momento, ou nunca. Eu não amava o Henry, estar perto dele fazia com que eu me lembrasse do Dave, dos nossos momentos, do que éramos antes e o que nos tornamos.

Olhei para o relógio. Precisava ser rápida.

Coloquei um casaco e saí correndo. Inclinei a cabeça contra o vento, já pensando exatamente em cada palavra que iria dizer. Acho que não sou a única que possui um roteiro perfeito sobre cada coisa da sua vida – e que nunca dá certo.

Cheguei na casa dele – já tinha ido lá antes para fazer um trabalho e nunca mais esqueci. Parei em frente ao portão, pousando o punho cerrado, me preparando para bater.

Respirei fundo. Teria que fazer aquilo, de um jeito ou de outro.

Bati fraco, mas o metal do portão soou agudo.

Segundos depois, ele se abre, revelando Henry, com o cabelo bagunçado, usando uma camiseta amarela (que, por sinal, é a minha cor favorita). Abriu um sorriso e colocou as mãos na minha cintura, puxando-me para perto. Sussurrei seu nome.

– Me desculpe – ele respondeu – O que foi?

– Eu... é...

– Aly, você tá legal.

Deitei a cabeça no seu ombro e comecei a respirar. Sem parar de me abraçar, ele me puxou para dentro e trancou o portão. Levou-me para a casa e fez com que eu sentasse no sofá.

– Você quer alguma coisa? – ele perguntou – Água, talvez. Não parece nem um pouco bem.

Neguei com a cabeça, sem conseguir articular palavras. Um nó surgiu na minha garganta e comecei a respirar fundo. Ele sentou-se do meu lado e me abraçou mais uma vez, daquela forma que só ele consegue fazer. Tentei arrancar da minha memória já enevoada se Dave alguma vez havia feito isso comigo.

Henry beijou minha bochecha e respirou no meu rosto. Ele estava sendo delicado e carinhoso, e eu não conseguia me afastar.

Então eu me sentei no seu colo e o beijei por alguns minutos, até parar e deitar a cabeça no seu ombro. Senti suas mãos percorrerem todo o meu corpo e percebi: mesmo sendo carinhoso, ele só queria isso.

Lembrei que Henry tinha me feito parar de escrever. Que ele dava em cima de mim, mesmo sabendo que eu tinha namorado. Que, quando estava sozinho, gostava de sair e ficar com todas as garotas que conseguisse, como se fosse uma competição.

E ainda tinha o Dave. Eu não conseguia tirar meu pensamento dele. Sabia que oficialmente estava namorando a Kandice, mas ainda não conseguia esquecer.

Começou a beijar meu pescoço, fazendo com que eu me arrepiasse levemente.

– Estamos sozinhos? – sussurrei no seu ouvido.

Ele concordou com a cabeça.

O beijei de novo, devagar. Tentava usar aquilo para conseguir pensar bem, entender o que estava fazendo.

Então, cochichei:

– Precisamos terminar.

Henry parou o beijo e me encarou, estupefato.

– Por quê?

– Porque... eu não sei. Mas precisamos.

– Alyson, por favor. Você é a única mulher para quem eu tenho olhos, tenha certeza disso.

– Hã, mas eu não falei que suspeitava de que você estivesse me traindo.

Ele arregalou os olhos, mas logo depois voltou a me beijar. Me afastei.

– Você me traiu, Henry – falei.

– Não, Alyson.

– Não estou perguntando, e sim afirmando. Me conta a verdade. Desde o início.

Ele suspirou e devagar começou a me contar.

Havia uma garota que supostamente gostava dele, e não era eu. Ela sabia da minha existência, mas parecia estar louca para conseguir falar com ele. E, quando enfim, mandou o primeiro oi e ele respondeu, ela surtou. Um tempo depois, pediu que fosse ao cinema com ele, mas respondeu que tinha uma namorada.

Ela disse: não, sem segundas intenções.

Depois do filme, segurou na mão dele e confessou que estava perdidamente apaixonada. Quando percebeu que ele ia negar, o beijou.

Saí de cima dele e me sentei no lado mais longe o possível no sofá. Ele tentou se aproximar de novo, mas me levantei.

– Tô falando sério, Alyson.

– E eu mais ainda.

Saí da casa, indo parar no jardim. Não corri, mas também não fui muito lerda. De propósito, deixei que me alcançasse e segurasse meu braço.

– Alyson, por favor. Olha pra mim.

Virei o rosto e o encarei. Nossas faces ficaram a centímetros de distância e pude sentir a respiração dele perto de mim.

– Eu te amo – ele falou.

– Me desculpa – respondi – Mas não dá pra continuarmos.

– Você não acredita em mim?

Ele me abraçou de novo, mas nos separei. Abaixei a cabeça e fiquei olhando para os meus pés.

– Acredito – sussurrei – Acredito sim.

– Isso não parece sincero – ele disse.

Ergui o rosto com o máximo de dignidade que se pode ter quando se está com lágrimas nos olhos e, mordendo os lábios, falei:

– Então veja se isso parece sincero: eu não te amo. Eu nunca te amei. Você nunca será o Dave.

Henry me puxou para o portão e me colocou para fora.

– Eu nunca quis ser o Dave – falou – Só imaginei que pudesse te fazer esquecê-lo. Mas, sabe, ele tava certo. Você é mesmo uma vadia.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Se sim, comentem. Se não, comentem também. Opiniões são sempre necessárias.