Impregnada
1 21 de Janeiro :capítulo 1
Notas iniciais
Ah, qual é, vocês nem se importam ahuahua
Espero que gostem especialmente dessa, meu amorzinho *-*
- Você não vai fazer essa faculdade de letras, Alyson! – gritou meu pai.
— Você pode uma vez na vida parar de pensar em si mesmo e focar no que eu quero? – perguntei.
— O que você quer? Acha que eu já não foquei demais nisso?
— Não! Você me enche de presentes, mas isso é um vazio. Nenhuma dessas coisas, por mais legais que sejam, são desejos meus. E falando desse jeito, parece que você faz isso só para que eu te dê ouvidos no final.
— Vá para o seu quarto, Alyson! Nada de letras, e mais nenhuma palavra sobre isso.
Com lágrimas nos olhos, corri para o meu quarto e bati a porta com força para trancá-la. Eu me joguei na cama e liguei o celular na playlist com músicas depressivas – a que eu estava escutando muito.
Alguns segundos se passaram até eu começar a chorar de verdade, com as lágrimas escorrendo pelo meu rosto, o peito doído, os soluços escapando. Encolhi-me e abracei os joelhos com força. Na minha mente, flashes sobre minha vida surgiam e permaneciam.
Pois bem. Perdoe-me a falta de educação. Deveria ter me apresentado desde o início. Mas não quero apresentar eu, Alyson Brunner, a jovem de dezoito anos prestes a terminar seu primeiro ano da faculdade (oh, my God, eu estou na faculdade *-*). Meu professor pediu como trabalho que contássemos (através de cartas, livros, diários, tanto faz) a parte mais marcante da nossa vida. Escolhi usar um blog porque quero que não só ele leia, mas que outras pessoas tenham acesso aos meus segredos que sempre ficaram guardados dentro de mim.
Não, é sério. O que pretendo escrever nunca contei a mais ninguém, e já nem me importo mais. Minha nota final depende disso – e minha consciência também.
Bem, voltando. Quero falar sobre Alyson Brunner, a garota de dezesseis anos que só tinha um sonho desentendido e um amor super hiper mega impossível. Porque essa foi de longe a parte mais marcante da minha vida, tanto que lembro de cada detalhe e as anteriores parecem muito vagas agora.
O diálogo que contei no início já tornou-se rotina na minha casa. Sinceramente, tudo aquilo já era rotina. Meu pai queria que eu virasse advogada ou algo assim, mas eu queria mesmo era fazer qualquer coisa que envolvesse a faculdade de letras. Contudo, quando eu falava isso, ele sempre vinha com o mesmo discurso de “seu futuro não está garantido com essa especialidade” ou “e como você pretende sustentar seus filhos com um salário de professora?”.
— Pai, eu não me importo com o dinheiro. Quero estudar letras e ponto.
Algumas semanas depois ele começou a irritar-se e simplesmente quis me obrigar a fazer de direito. Minha mãe, diagnosticada com autismo, não mostrava-se disposta a defender nenhum dos dois lados. Então, parecia ser eu contra ele.
Naquele mesmo dia, horas mais tarde, ouvi batidas na porta enquanto escrevia um texto aleatório. Ainda deitada na cama, diminuí a música e gritei “quem é”.
— Alyson, abra essa porta – ele respondeu.
Resmungando, levantei-me da cama e destranquei. Vi a maçaneta girar e a porta se abrir, revelando meu pai de blusa social e calça jeans. Olhei no relógio: 17:45. Era domingo. Só podia significar uma coisa.
Hora de ir para a igreja.
— Você ainda não se arrumou? – perguntou.
— Pareço arrumada para você?
Ele me encarou, e fui obrigada a contemplar meu próprio reflexo naqueles olhos verdes. Percebi que já estava passando dos limites.
— Desculpe – murmurei.
— Vá se arrumar. Temos de estar no culto em quinze minutos, fora...
— Eu não vou.
Percebi que ele chocou-se por conta daquelas três palavras que eu disse.
— Hã, não entendi.
— Eu. Não. Vou – repeti.
Sua respiração voltou ao normal e sua pele começou a enrubescer ainda mais.
— Você não pode simplesmente dizer que não vai.
— Posso sim. Observe.
Recuei e bati a porta, sem trancá-la desta vez. Enquanto ele gritava, coloquei os fones de ouvido e voltei a ler. Meu único objetivo naquele momento era ignorá-lo o máximo de tempo possível. Minutos depois, ouvi a porta da sala fechar e ser trancada e percebi que já havia desistido.
Suspirei de alívio. Apertei a almofada, fechei o livro e peguei meu celular. Algumas mensagens piscavam na tela de notificações. Passei o dedo por todas elas até parar em uma conversa.
Dave: Alyson para com isso
Dave: Nao seja mais idiota q o normal, sua idiota
Dave: Me responde fdp
Dave: Eh assim então? Blz
Dave: Me esquece vadea
Não conseguindo me conter, comecei a digitar.
Alyson: Não, valeu.
Dave: Vai embora
Dave: Te quero mais nao
Alyson: Que foi?
Dave: Acha isso bonito? Ficar ignorando o namorado?
Dave: Ou melhor falando “os namorados”
Dave: A nao ser eh claro q eu ja nao seja digno desse titulo
Alyson: Me desculpa, amor.
Alyson: O que houve?
Dave: Nao vem com essa pra cima de mim
Dave: Cansei do seu joguinho
Alyson: Que joguinho?
Dave: Nao se faça de inocente, o harold me contou tudo
Alyson: Que que ele te contou?
Alyson: Sabe que não pode confiar nele.
Alyson: E eu que sou a idiota...
Dave: Ele me disse que vc tava dando em cima do henry
Alyson: Henry?
Alyson: Meu Deus
Alyson: Isso foi há muito tempo.
Dave: E esse print?
Dave: Imagem.
Abri a imagem e ali vi o tal print. Era realmente uma conversa entre eu e Henry, metade das mensagens sendo corações. Logo no final ele disse “minha” e eu respondi “sua”.
Eu me lembrava daquela conversa. Ainda a tinha salva no celular, no histórico de mensagens. Na verdade, até hoje. Ela está lá, como um vestígio de qualquer coisa que eu talvez tenha tido com Henry Gave.
Mas vê-la naquele momento, naquele contexto, deixou meu coração a mil.
É geralmente assim que as pessoas ficam quando se veem pegas no flagra.
Dave, meu querido Dave, havia descoberto. Não, eu nunca tinha beijado nenhum outro cara quando estava com meu namorado. Mas, no dia em que tive aquela conversa, ele estava longe e eu amargurada de saudades. Na minha extensa carência, precisava de alguém que me acomodasse em seu ombro.
E lá estava Henry, disposto a me abrigar.
Não respondi àquela mensagem. Não como ele estava fazendo. Digitei seu número e liguei. O ruído dos pis era insuportável. Durou por muito tempo. Impossível, já que alguns segundos antes ele estava com o celular em mãos, mandando mensagens. Percebi que se decidia se o melhor realmente era me atender.
E o fez.
— Vadia – foi a primeira palavra que ouvi.
— Espero que não esteja se referindo a mim – respondi.
— Vai esperar eternamente então.
— Dave, eu...
— Não quero mais saber. Nem sei porque te atendi.
— Me desculpa, tá? Naquele dia eu...
— Cala a boca, Alyson. Tá bom? Cala a boca.
— Dave Ninchester Hudson. Me escuta. Você tava naquela viagem e eu, morta de saudades, precisava de alguém. Foram só mensagens, nunca tivemos nada físico. Eu nunca disse que o amava. Só você é digno disso, meu amor.
Ouvi-o suspirar do outro lado.
Um silêncio ficou entre nós. Apenas os ruídos por fora, mais nada. Ele nada falou, eu apenas esperei. Isso estava tomando conta do meu coração, eu estava ficando vazia. E tudo o que tomava meu vazio era uma dor, uma dor enorme, sufocante.
Através desse silêncio, pude ouvir o som dos seus pensamentos, bem ao longe. Mas ainda estavam nebulosos, incompreensíveis. Muitos fortes, mas impossíveis. Talvez estivesse considerando meu pedido de perdão, talvez o estivesse rejeitando. Contudo, isso acabava comigo. Fazia com que eu criasse esperanças, e já havia aprendido ao longo da vida que esperanças são inúteis no meio de um poço de nada.
E então, eu o ouvi falar. Sua voz, sua incrível voz encantadora, com a resposta que eu tanto ansiava. Ele dizia, daquele seu jeito enfático, o que eu precisava ouvir, o que eu precisava saber. Ele disse:
— Vai se foder.
E desligou.
Eu não precisava daquilo. Não podia ouvi-lo. Mas o ouvi. Claro e audível, a voz que eu tanto amava. Não estava mais lá. Não importa se ele estava me dispensando, ainda era a sua voz.
Tudo o que pude fazer foi segurar o celular nas mãos, paralisada. Encarei a tela, já apagada, como se não tivesse mais nenhum motivo para continuar ali.
Mas eu tinha. Precisava recuperar meu relacionamento.
Alyson: Eu te amo
Alyson: Te amo te amo te amo te amo te amo
Alyson: Me desculpa
Alyson: Você sabe o que é a carência
Alyson: I'm so sorry
Alyson: Volta pra mim, amor
Alyson: Sabe que você é meu tudo
Alyson: Não me deixa
Alyson: Não sei mais como viver sem você
E, por um instante, parei por aí. O rosto, já inundado pelas lágrimas. Os lábios, já secos. O coração, doído. A mente, confusa. Não soube mais o que fazer. Nenhuma das mensagens que mandasse iriam adiantar de algo, não ia mudar em nada me humilhar, ele não me perdoaria.
Mas, quando ouvi o som da notificação de uma mensagem – o som reservado somente para Dave – tive um último vestígio de esperança. Talvez meu incrível amor eterno fosse capaz de ter compaixão e me ouvir, me perdoar.
Dave: Entao se mata vadia
Foi a gota d'água. Tudo tinha acabado, tudo estava perdido num escuro. Dave não era mais meu, estava longe disso. Nunca mais tornaríamos a nos encarar, muitos menos nos abraçar, nos beijar.
Com o rosto cheio de lágrimas, joguei a cara no travesseiro e chorei. Chorei mesmo, de soluçar. Meus gritos acabavam com todo o silêncio que impregnava a minha casa.
Reli aquela última mensagem diversas vezes. Até reli a conversa, para ver se havia deixado escapar algum detalhe. Mas não; era tudo real.
Saí do meu quarto, em soluços. Ouvi o ruído do vento entrando pelas janelas. Também, era só isso que eu ouvia. Caminhei em direção à cozinha, segurando o celular em uma das mãos. Abri a gaveta do armário, vendo a bela coleção de facas que meus pais tinham. Segurei a maior com uma das mãos, alisando sua superfície cortante de aço. Senti o seu cheiro, frio. Ela parecia tão... fatal.
Exatamente o que eu sentia precisar.
Sentei-me no chão da cozinha, em frente à pia. Não estava com cabeça para escrever uma carta de suicídio. Mas deixei o celular desbloqueado ao meu lado e reli a mensagem.
Entao se mata vadia
Estava pronta para fazer isso. Dave não iria voltar pra mim por causa disso, talvez nem sentiria algum remorso. Mas eu não me importava. Minha vida também não parecia fazer diferença nesse mundo.
Com as duas mãos, segurei o objeto na frente da minha barriga. Respirei fundo, o coração acelerado. Quando enfim tomei coragem, ouvi ruídos do lado de fora. Foi quando me dei conta: não fazia ideia da hora.
Não tinha nada a ver. Era só enfiar e pronto. Eles não poderiam me salvar, eu ia morrer em paz.
Mas então por que parecia tão difícil? Por que eu não enfiava de uma vez e pronto?
Quando decidi ir logo de uma vez, a porta da sala abriu e vi meu pai bem ali. Desviei o olhar para a faca, como se não tivesse notado sua presença. Mas ele me notou.
Foi até mim, deixando minha mãe paralisada para trás, e me segurou pela camisa na região do peito. Tirou a faca da minha mão e a jogou no chão, o que fez soar um barulho metálico pelo ar quieto da cozinha.
— Por acaso, Alyson Jane, você sabia que um suicida não consegue a salvação?! – gritou no meu ouvido, erguendo-me alguns centímetros do chão – Ele joga fora o maior presente que Deus lhe concedeu, e isso é pecado. Matar a si próprio!
E, com força, me empurrou para o piso engordurado da cozinha. Bati com a cabeça na pia e bloqueei meu celular para que ele não visse a mensagem.
Quando ergui a cabeça para me levantar, só pude ver a sola do seu sapato atingindo a minha face. Fechei os olhos e comecei a gemer, ainda mais quando senti a mesma dor no meu peito e na perna.
- O fato de eu não me salvar não vai mudar em nada na sua vida! Da mesma maneira que a minha faculdade de letras também não!
Ele me segurou de novo e me ergueu, muito mais alto desta vez. Entre soluços, senti seu tapa na minha cara e me deixou cair no chão de novo. Desta vez, imobilizou minhas pernas e começou a bater na minha bunda, com toda a força.
- Me obedeça. Me obedeça. Me obedeça. Seja fiel a Deus e não se largue de novo. Não deixe o mundo te dominar. Nunca mais ouse tocar naquela faca, tá me entendendo?
A dor era tanta que eu não me via capaz de formular nenhuma frase.
- Eu decido o que é melhor para a sua vida.
Continuei em silêncio, apenas recebendo suas agressões. Permaneci quieta, como se estivesse em paz, conformada com aquilo tudo.
- Você tá me entendendo?!
Um último tapa, mais forte que todos.
- Estou sim, senhor.
Ele saiu de cima de mim e caminhou para fora da cozinha.
- Ótimo – se referindo à minha mãe, falou: – E você? Vai ficar parada aí? Estou com fome, vadia.
E ouvi o estalar de um tapa.
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