Impregnada
2 22 de Janeiro :capítulo 2
Notas iniciais
Quem me conhecesse naquele momento, não iria acreditar que eu amara ir para a escola, estudar e tudo mais. Contudo, naquela época, deixei de amar muita coisa. A única coisa da minha rotina que eu mantinha era escutar música, e nem eram as mesmas de antes. Estavam ocupando tanto espaço no celular que resolvi apagar algumas e baixar outras.
Depressivas, é claro. Do tipo “estou me afogando no rio das minhas próprias lágrimas” ou “os cacos do meu coração me cortam”.
Lembro muito bem. Deixava de pentear o cabelo muitas vezes, mal lavava o rosto, colocava uma calça jeans larga, enfiava no pé um tênis completamente preto, não passava maquiagem.
Por um tempo, engordei. Só comia sorvetes, chocolates, hambúrgueres. As pessoas apontavam para mim nos corredores da escola e uma professora até chegou a me entregar um bilhete sobre dieta. Respondi ao bilhete, mandando ela tomar naquele lugar.
Então, emagreci. Voltei à forma anterior e fiquei mais magra ainda. Sempre que me viam, comentavam que eu parecia um palito. Me irritava profundamente e passava as horas seguintes sem falar nada. Por essas razões e mais outras, desisti de aparecer em público.
Imaginei que pelo menos uma pessoa fosse se revelar, perguntando o porquê de eu estar completamente ausente da escola. Um dia fui, de repente parei de ir sem dar satisfações. Eu acordava com uma pequena esperança de ver uma mensagem.
Mas não. Nunca. Nenhuma. Ninguém nem ao menos fingia se importar.
E isso só piorou as coisas. As pessoas não estavam nem aí para o meu humor, meu estado emocional ou físico. Não. Ninguém queria que eu me sentisse bem, nem ao menos tentar.
Então percebi. Estava sozinha. Deveria enfrentar sozinha minha tempestade – a que eu própria criara. Ninguém iria emprestar um guarda-chuva ou doar uma capa. Era só eu.
Não quis melhorar. Me sentia muito bem no meu próprio sofrimento. Ele era tudo o que eu tinha, a única coisa que eu podia chamar de “minha”.
Ah, mas também haviam as lembranças. Uma vez me disseram que um dos sintomas da depressão é viver o passado. Eu estava fazendo aquilo: dane-se o presente, o meu bem mais precioso é o passado. É porque tinha ficado para trás todos os meus momentos com o Dave, tudo o que nós dois tínhamos tido. Eu queria aquilo de volta.
Como não estava na escola, começava minhas manhãs deprimentes lendo a conversa. Toda, do início ao grande fim. Já estava decorando-a por completo. Reli também todos os meus prints, status. Editei as fotos, criei legendas magníficas para elas.
Não conseguia mais ler. Quando pousava o olhar na primeira linha de qualquer coisa que fosse, minha mente girava. Minha atenção não estava ali, não conseguia se prender.
Mas continuava escrevendo. Enchi uma gaveta inteira só com folhas onde havia escrito meus textos. Cada um com todas as minhas emoções juntas. Eu praticamente dedicava minha alma a eles.
À noite, antes de dormir, eu gostava de esperar a madrugada chegar e escrever no meu diário. Então adormecia agarrada a ele, encharcado com as minhas lágrimas.
Uma manhã, duas semanas depois do início da fuga à escola, batidas na porta me acordam. Não eram batidas normais, leves, educadas. Eram fortes, abruptas, como se mandassem que eu abrisse logo a porta.
Pulei da cama e corri, abrindo-a. Meu pai estava parado, de terno, provavelmente saindo para o trabalho. Antes de começar a falar, me encarou duramente.
– Você não tem ido para a escola ultimamente – ele falou – Vá se arrumar.
– Bom dia, pai. Teve uma boa noite?
– Olha só – ergueu o dedo, tocando-o na ponta do meu nariz – Não me faça perder ainda mais a paciência com você. Vá se arrumar para ir pra escola.
Continuei ali, olhando nos seus olhos cinzentos, sem mover um músculo.
Então ele empurrou o dedo com força contra o meu nariz, fazendo meu rosto inclinar para o lado.
– Mandei você ir, vadia.
Recuei e bati a porta. Me joguei no chão ali mesmo e agarrei minhas pernas, enfiando a cabeça entre elas. Então comecei a chorar, baixo. O peso do meu corpo impedia que a porta fosse aberta mesmo sem estar trancada.
Alguns minutos depois, ouvi outras batidas, desta vez mais suaves. As ignorei.
– Aly – falou uma voz feminina – Por favor, me deixe entrar.
Suspirei. Ignorar meu pai era uma coisa; mas minha mãe era diferente. Ela ia fazer com que eu me sentisse muito culpada mais tarde.
Deixei que ela entrasse e me sentei na cama. Ficou ao meu lado.
Sempre admirei muito ela. Foi diagnosticada com autismo aos vinte anos de idade, dois anos antes de eu nascer. Era muito bonita e inteligente, herdei seus olhos verdes, mas o cabelo ficou por conta do meu pai (castanho escuro).
Minha mãe me observava com uma expressão triste, como se estivesse decepcionada comigo.
– Já acabou? – perguntei.
– Hã, o quê?
Revirei os olhos.
– Aly, preciso falar com você.
– Nota-se.
– Vá para a escola.
– Por quê?
– O Dave terminou com você, né?
Percebi que estava prendendo a respiração.
– Sim.
– A maneira como você tem agido ultimamente. Por que tentou se matar?
Estava com lágrimas nos olhos.
– Ele me chamou de vadia. E mandou que eu fizesse isso.
– Ai meu Deus, Aly. Você não pode sair enfiando facas na barriga porque um garoto...
E sua voz sumiu. De repente.
– Vai se arrumar.
Minha mãe saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Fiquei sozinha no meio dos meus lençóis, não acreditando no que estava prestes a fazer.
Vesti a primeira coisa que achei, agarrei minha mochila e, sem comer nada nem falar com mais ninguém, saí de casa correndo.
Cheguei na escola atrasada, mas podia pegar ainda o segundo tempo. Duas garotas estavam se agarrando no pátio, como se não se importassem com quem visse. Um ligeiro incômodo surgiu no meu peito para logo depois sumir.
As aulas estavam o mais entediante possível e passaram-se lentamente. Todo mundo agiu como se eu fosse um fantasma, até mesmo Kandice Hindney, que era minha melhor amiga.
Nada naquele dia parecia ser capaz de me chamar atenção. Exceto a cena na hora do intervalo. Kandice estava sendo pressionada contra a parede por um cara alto que devorava seus lábios e agarrava sua cintura. Ri por dentro, entendendo porque ela parecia me ignorar.
Mas não era o que eu imaginava. Aquele garoto alto era ninguém mais ninguém menos que Dave.
PORRA. MEU EX-NAMORADO TAVA AGARRANDO MINHA MELHOR AMIGA.
Me tranquei no banheiro pelo resto do tempo.
O rosto dele, o peito dele. Enquanto eu estava presa naquele minúsculo cubículo, ele ainda parecia perfeito. Lembrei-me de quando tentara tirar minha virgindade, quando me mostrara seu grande "amiguinho", como eu recusara. E ali mesmo, tentei satisfazer meus próprios desejos.
Eu queria Dave de volta. De qualquer forma.
Imaginei, é claro, que nada poderia ficar pior. Os professores não recebiam minha atenção, eu não conseguia me concentrar em mais nada. Só ficava me lembrando da maneira como ela gemia baixo, das mãos dele apertando sua cintura, seus seios batendo no peito dele.
Nada nunca mais seria como antes.
Então, quando cheguei na sala de aula, lá estava dentro do meu caderno: dez folhas cheias da mesma palavra.
Vadia.
Aceitei aquilo. Passivamente. Tentei esquecer. A caligrafia, certamente era dele. Deixei aquilo ali, passei o resto das aulas encarando cada uma daquelas dez folhas. Esperei que o tempo acabasse, todos eles. Esperei chegar em casa e ouvi-las, sentindo dores físicas e emocionais ao mesmo tempo.
Eu estava daquele jeito. Sujeita a fazer nada, somente esperar.
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