Impostora

1 O Reflexo do Destino


​O céu cinzento de Seattle despejava uma chuva implacável contra as imensas janelas de vidro do Grand Hotel, o refúgio mais luxuoso e exclusivo de Washington. Nos bastidores daquele palácio de mármore e lustres de cristal, Isabella Swan ajustava o avental surrado de seu uniforme de camareira, sentindo o peso do mundo esmagar seus ombros.

​Sua mente não estava nos corredores atapetados ou nos hóspedes bilionários. Estava na delegacia da pequena cidade de Forks. Seu pai, o incorruptível Xerife Charlie Swan, havia sido vítima de uma armadilha criminosa impecável. Acusado de corrupção e desvio de verbas, com provas forjadas que o incriminavam até o pescoço, Charlie aguardava um julgamento que certamente o mandaria para uma penitenciária federal por vinte anos. Bella precisava de dinheiro para os melhores advogados de Seattle, e precisava agora.

​— Swan, leve a pasta com os relatórios da gerência para a Suíte Presidencial. Imediatamente — ordenou o supervisor, tirando-a de seus pensamentos sombrios.

​Bella obedeceu, equilibrando a pesada pasta de couro enquanto subia pelo elevador de serviço. O silêncio do último andar era denso e opressor. Com a cabeça latejando de exaustão e preocupação, ela virou o corredor apressadamente, calculando suas gorjetas da semana.

​Foi então que o desastre aconteceu. ​Ela esbarrou violentamente em uma mulher que vinha na direção oposta. A pasta voou, espalhando dezenas de papéis pelo tapete escuro, junto com a bolsa de grife da hóspede.

​— Olha por onde anda, sua desastrada! — uma voz feminina e ríspida estalou pelo corredor, carregada de arrogância. — Você tem ideia de quanto custa este trench coat?

​— Me desculpe, senhora, eu... — Bella começou a pedir perdão, ajoelhando-se para juntar os papéis.

​Ao erguer os olhos, porém, as palavras morreram em sua garganta. O ar sumiu de seus pulmões. Bella piscou repetidas vezes, as mãos tremendo incontrolavelmente. ​Parada diante dela estava uma mulher que a encarava com o mesmo choque paralisante. Mas não era a raiva que aterrorizava Bella. Era o rosto. Os mesmos traços, o mesmo nariz, os mesmos olhos castanhos. A mulher era uma cópia exata de Isabella Swan. A única diferença era a embalagem: enquanto Bella usava um uniforme desbotado e não usava maquiagem, a desconhecida transpirava poder, com batom vermelho-sangue, diamantes no pescoço e uma postura felina.

​A mulher rica piscou lentamente, seu choque inicial dando lugar a um sorriso frio e calculista.

​— Inacreditável... — ela sussurrou, fascinada, avaliando Bella de cima a baixo. — Existem duas de mim. Só que você tem exatamente a mesma cara de sonsa que eu detesto ver no espelho.

​— Quem... quem é você? — Bella recuou, aterrorizada.

​— Levante-se do chão. Você está me dando pena — ela ordenou, agarrando o braço de Bella com força e puxando-a para dentro da Suíte Presidencial, trancando a porta em seguida.

​O quarto era um caos de luxo e malas abertas da Louis Vuitton. A mulher caminhou até o frigobar, servindo-se de uma taça de vinho com a naturalidade de uma predadora.

​— Meu nome é Rebeka Cullen. E, pelo visto, o destino acaba de entregar a minha liberdade de bandeja nas suas mãos trêmulas — ela disse, girando a taça. — Você vai assumir o meu lugar.

​— O quê?! Você enlouqueceu! — Bella balançou a cabeça freneticamente, caminhando para a porta. — Eu tenho um emprego, uma família, eu não posso simplesmente fingir ser outra pessoa!

​— Você pode, e você vai — Rebeka retrucou, a voz ganhando um tom perigoso. Ela caminhou até Bella, encurralando-a com sua presença imponente. — Escute bem, garota. Eu estou farta da minha vida patética. Farta daquela cidade chuvosa e deprimente de Forks, farta do meu marido moralista, Edward, e, acima de tudo, farta da maldita Madeireira Cullen.

​Rebeka revirou os olhos com puro nojo ao mencionar a empresa.

​— Eu sou obrigada a ser a esposa troféu e a administradora exemplar daquele império de serragem e caminhões. O Conselho de Administração da madeireira exige que eu cumpra o meu papel e mantenha as aparências. Se eu simplesmente pedir o divórcio agora e fugir para Paris com o homem que eu realmente amo, perderei metade da minha fortuna graças a um contrato pré-nupcial asqueroso atrelado às minhas ações na empresa. Eu preciso de um ano. Um ano de fachada para transferir meus ativos sem que Edward ou os acionistas percebam.

​— Isso é fraude. É crime! Eu não sei administrar uma madeireira e não conheço o seu marido! — Bella protestou, indignada.

​Rebeka sorriu de lado e caminhou até a bolsa que Bella havia deixado cair no corredor. De lá de dentro, puxou a velha carteira de couro desgastada de Bella. Antes que a camareira pudesse impedir, Rebeka tirou um recorte de jornal guardado com cuidado.

​A manchete dizia: "Xerife de Forks é Indiciado por Corrupção".

​O sangue de Bella gelou instantaneamente.

​— Falando em crimes... — Rebeka balançou o papel no ar, os olhos brilhando com uma crueldade sádica. — Parece que o seu amado pai está com um pé na cadeia. Uma armadilha muito bem feita, eu diria. E, a julgar por esse seu uniforme barato, você jamais conseguirá pagar um advogado para tirá-lo dessa.

​— Não envolva o meu pai nisso! — Bella avançou, mas Rebeka ergueu a mão, imperativa.

​— Eu posso salvá-lo num estalar de dedos — Rebeka sussurrou, inclinando-se para perto do rosto idêntico ao seu. — Eu tenho poder, influência e dinheiro suficientes para mandar os melhores advogados criminais do país afogarem esse caso. As acusações sumirão antes do fim de semana. Mas, se você recusar a minha oferta... eu juro por Deus que usarei a mesma influência para garantir que o Xerife Charlie pegue pena máxima em uma prisão de segurança máxima. E nós duas sabemos que policiais não duram muito lá dentro.

​Bella sentiu o chão desaparecer sob seus pés. O som da chuva contra o vidro parecia o tic-tac de um relógio marcando o fim de sua vida. Ela olhou para Rebeka e não viu uma irmã, mas um monstro de batom vermelho e unhas afiadas. ​A escolha era impossível. Assumir o lugar de uma tirana na poderosa Madeireira Cullen, enganar um bilionário e conviver com os inimigos de Rebeka, ou assinar a sentença de morte de seu próprio pai.

​— Então, Isabella? — Rebeka estendeu a mão, segurando uma aliança de diamantes ofuscante. — Você será Rebeka Cullen... ou vai deixar o seu paizinho apodrecer no inferno?

​O silêncio que se abateu sobre a luxuosa Suíte Presidencial era sufocante. O único som era o da tempestade de Seattle açoitando os vidros imensos, ecoando a tempestade muito pior que destruía o interior de Isabella Swan. ​Bella olhou para a aliança de diamantes que Rebeka estendia em sua direção. Aquela joia brilhante e obscenamente cara representava o fim de sua identidade, de sua liberdade e de sua alma. Mas, ao fechar os olhos por um breve segundo, não foi o seu reflexo no espelho que ela viu. Foi o rosto de Charlie. O sorriso orgulhoso do pai, o distintivo que ele usava com tanta honra, o cheiro de café forte nas manhãs de domingo.

​Deixá-lo ser devorado por um sistema prisional impiedoso, cercado pelos mesmos criminosos que ele havia colocado atrás das grades, não era uma opção. ​Uma lágrima solitária e quente escorreu pelo rosto pálido de Bella. Ela ergueu o queixo, os olhos castanhos endurecendo com uma determinação desesperada.

​— Você é um monstro — Bella sussurrou, a voz embargada, porém firme.

​Rebeka Cullen abriu um sorriso largo e vitorioso, exibindo dentes perfeitamente brancos.

​— Eu sou a sua salvação, querida. E, a partir de hoje, você é a minha. — Ela jogou o recorte de jornal sobre a cama e caminhou até o imenso closet. — Agora, tire esse uniforme deprimente. Meu voo para Paris sai em três horas e nós temos muito trabalho a fazer.

​Os trinta minutos seguintes foram um borrão de humilhação e transformação meticulosa. Bella foi despida de sua essência, camada por camada. O cabelo castanho, antes preso de qualquer jeito, foi solto, escovado e modelado por Rebeka até ganhar ondas perfeitamente alinhadas.

​— Postura, Isabella! — Rebeka repreendeu, dando um tapa seco nas costas da irmã. — Os Cullen não andam curvados como se pedissem desculpas por existirem. Nós somos donos do mundo. Erga esse queixo. Se você entrar naquela mansão de cabeça baixa, Jasper vai farejar o seu medo a quilômetros de distância.

​— Jasper? — Bella engoliu em seco, vestindo o tecido frio e luxuoso de um vestido de seda preta que Rebeka lhe entregara.

​— Meu adorável cunhado — Rebeka revirou os olhos, o tom carregado de veneno. — Ele e Edward dividem a presidência da Madeireira Cullen. Jasper é um cão de guarda paranoico. Ele me odeia desde o dia em que coloquei os pés naquela casa, e não faz questão de esconder. Quando ele latir para você, lata de volta mais alto. Nunca abaixe a cabeça para ele.

​Bella calçou os sapatos de salto agulha que imediatamente fizeram seus calcanhares protestarem, sentando-se rígida diante da penteadeira. ​Rebeka agarrou a mão esquerda de Bella com força, sem a menor delicadeza, e deslizou a pesada aliança de casamento pelo seu dedo anelar. O metal era gelado. Parecia uma algema.

​— A regra de ouro é simples: fale o mínimo possível e seja fria — Rebeka instruiu, aplicando o batom vermelho-sangue nos lábios trêmulos da irmã. — Edward e eu somos estranhos vivendo sob o mesmo teto. Dormimos em quartos separados e ele passa quinze horas por dia enfiado na empresa. Você não precisa bancar a esposa apaixonada, apenas a administradora impecável e a socialite intocável.

​— E o resto da família? — Bella perguntou, a voz soando estranha e artificial para si mesma, agora disfarçada sob aquela máscara de maquiagem cara.

​— Esme, a matriarca, é uma velha sentimental. Ignore-a. E as crianças...

​Os olhos de Bella se arregalaram pelo espelho.

— Crianças?! Você não disse que tinha filhos!

​Rebeka soltou uma risada seca e sem humor.

— Não se desespere, santinha. Tommy e Chloe são filhos do primeiro casamento de Edward. A mãe deles morreu no parto da caçula. Tommy tem oito anos e é um selvagem revoltado; Chloe tem seis e chora pelos cantos. Eles têm uma babá muito bem paga para lidar com isso. Eu mantenho distância absoluta deles, e sugiro que você faça o mesmo.

​O estômago de Bella revirou violentamente. Além de enganar um marido e uma empresa inteira, ela estaria ocupando o espaço fantasma de uma mãe em uma casa com duas crianças órfãs. A frieza de Rebeka era monstruosa. Com a transformação concluída, Rebeka fechou os zíperes de suas malas Louis Vuitton. Ela vestiu um sobretudo sofisticado, colocou óculos escuros imensos que cobriam metade do rosto e caminhou até a porta.

​— Meu advogado em Seattle já recebeu minhas ordens. O caso do Xerife Charlie será arquivado por "falta de provas" em até 48 horas. — Rebeka olhou por cima do ombro, os olhos escuros cruzando com os de Bella no espelho. — O motorista da família está te esperando na garagem subterrânea, em um Mercedes preto. Ele não faz perguntas.

​Bella levantou-se lentamente. O salto alto a deixou imponente; a maquiagem endureceu suas feições doces. Ela já não parecia a garota humilde que servia mesas para pagar contas.

​— O que acontece quando o ano acabar? — Bella perguntou, instintivamente imitando o tom gélido da irmã.

​Rebeka deu um meio sorriso enigmático.

— Eu volto, tomo a minha coroa de volta, e você retorna para a sua vidinha medíocre com o seu pai são e salvo. Faça exatamente o que eu mandei, senhora Cullen. Não ouse arruinar o meu império.

​A porta bateu com um baque seco, trancando o destino de Bella. ​Ela estava sozinha. Caminhou até o espelho de corpo inteiro, tocando levemente o próprio rosto, o colar de diamantes, o vestido impecável. Eu não sou mais Isabella Swan, pensou, engolindo o nó na garganta para não borrar a maquiagem. Rebeka Cullen não chorava.

​Minutos depois, Bella desceu até a garagem. O Mercedes escuro a aguardava, como um carro fúnebre luxuoso. O motorista de terno abriu a porta em silêncio.

​— Para Forks, senhora? — ele murmurou, sem olhá-la nos olhos.

​— Sim — ela respondeu com a voz firme. — Para casa.

​Durante as três horas de trajeto, a paisagem urbana de Seattle foi engolida pela escuridão claustrofóbica da floresta de pinheiros. A chuva batia contra os vidros blindados, isolando Bella em sua própria prisão de couro e silêncio. A cada quilômetro que a aproximava da Mansão Cullen, o pânico ameaçava rasgar sua garganta.

​Quando os gigantescos portões de ferro forjado finalmente surgiram na neblina, abrindo-se lentamente para revelar a fachada gótica e intimidadora da mansão, Bella prendeu a respiração. ​O show estava prestes a começar, e um único deslize custaria a vida de seu pai. ​As portas pesadas de carvalho da Mansão Cullen se fecharam atrás de Bella com um baque abafado, isolando-a do mundo exterior. O saguão era imponente, iluminado por um lustre de cristal que lançava reflexos frios sobre o piso de mármore polido.

​Próximo à lareira apagada, Jasper Cullen aguardava com os braços cruzados, o semblante fechado em uma carranca de desconfiança. Mas antes que ele pudesse desferir qualquer comentário sarcástico, passos leves e arrastados ecoaram pelo corredor lateral.

​Esme Cullen, a matriarca da família, aproximou-se devagar. Os cabelos acobreados estavam presos frouxamente, mas o que chamou a atenção de Bella foi o estado da senhora: Esme parecia permanentemente exausta, com os olhos castanhos velados por uma névoa de sonolência, as pálpebras pesadas e as mãos levemente trêmulas.

​— B-bem-vinda de volta, querida... — Esme murmurou com uma voz frágil e mansa, estendendo os braços de forma hesitante, como se temesse que "Rebeka" a repelisse com um insulto, como costumava fazer.

​Ao lado de Esme, uma governanta carregava uma pequena bandeja de prata com um copo d'água e um frasco escuro de tarja preta — um sedativo psiquiátrico extremamente forte.

​— A sua medicação da noite, senhora Cullen... — a governanta murmurou de cabeça baixa, entregando o vidro. — A patroa exigiu que a senhora nunca falte uma dose.

​O estômago de Bella despencou. Seus instintos de cuidadora, moldados pelos anos em que cuidara de si mesma e de Charlie, gritaram em protesto. A verdadeira Rebeka estava dopando a própria sogra para mantê-la dócil, frágil e incapaz de interferir em qualquer coisa na mansão! ​Sem pensar nas regras que havia decorado minutos antes, sem lembrar do aviso de que "Rebeka nunca demonstra fraqueza ou bondade", Bella deu dois passos rápidos à frente.

​Sob o olhar estupefato de Jasper e da governanta, Bella arrancou o frasco de tarja preta das mãos trêmulas de Esme. Sem hesitar um segundo sequer, ela caminhou até o lavabo anexo ao saguão, abriu a pia e despejou todos os comprimidos ralo abaixo, acionando a descarga em seguida.

​O som da água correndo ecoou pelo silêncio sepulcral do saguão. Bella voltou, limpando as mãos com um guardanapo de papel, e olhou nos olhos arregalados de Esme com uma doçura infinita, segurando as mãos frias da senhora.

​— A senhora nunca mais vai tomar esse veneno. Nunca mais — disse Bella, com a voz embargada por uma revolta genuína, esquecendo completamente que estava interpretando um papel.

​Esme piscou, as lágrimas brotando instantaneamente em seus olhos cansados. Pela primeira vez em anos, não havia veneno ou escárnio no olhar daquela mulher. Havia calor. Havia proteção. Esme, sem saber que abraçava uma impostora, levou as mãos trêmulas ao rosto de Bella e soluçou baixinho, puxando-a para um abraço apertado.

​— Obrigada... minha filha... obrigada... — Esme sussurrou, sentindo um alívio que não experimentava há muito tempo.

​No canto do saguão, Jasper congelou. Ele apoiou as costas na parede, os olhos claros arregalados em choque absoluto. Ele conhecia Rebeka melhor do que ninguém; ela desprezava Esme, zombava de sua fragilidade e fazia questão de mantê-la medicada para que a casa vivesse sob o terror psicológico.

O que diabos está acontecendo? — Jasper pensou, o cérebro girando a mil por hora. Rebeka jogou os remédios fora? Rebeka abraçou a velha e chorou?!

​Jasper se desencostou da parede, dando passos lentos e felinos em direção a Bella, o olhar afiado como uma lâmina cortando o ar.

​— Muito dramático, Rebeka — Jasper sibilou, a voz pingando veneno e suspeita contida. — Jogar fora os remédios da mamãe no minuto exato em que põe os pés em casa? Que tipo de jogo sádico você está inventando agora? O que você ganhou com essa ceninha patética?

​Bella sentiu o sangue gelar. Ela havia cometido seu primeiro erro. Tinha agido com o coração, esquecendo-se de que a verdadeira Rebeka jamais faria algo bondoso. ​Ela endireitou a postura abruptamente, puxando de volta a máscara de gelo que havia treinado no espelho. Virando-se para Jasper, ela ergueu o queixo com toda a soberba que conseguiu reunir e disparou:

​— Cuidado com o tom ao falar comigo, Jasper. Se eu decidi mudar a rotina desta casa, o problema é inteiramente meu. Agora, se me dão licença, estou exausta e subindo para o meu quarto. Não ousem me perturbar pelo resto da noite.

​Sem esperar resposta, Bella girou nos saltos altos e começou a subir a imponente escadaria de mármore, com o coração disparado na garganta. ​Atrás dela, no piso térreo, Jasper permaneceu imóvel, observando cada movimento da cunhada. Ele apertou os punhos com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.

​— Tem algo muito errado com ela... — Jasper murmurou para o vazio, estreitando os olhos na direção em que Bella havia sumido. — E eu vou descobrir o que é, custe o que custar.

​Enquanto isso, no escritório principal da mansão, o clima era de guerra fria. ​Jasper Cullen andava de um lado para o outro diante da lareira apagada, com as mãos nos bolsos da calça social. Seus olhos claros faiscavam de pura desconfiança. Ele pegou o telefone fixo da mesa e discou rapidamente para o consultório do médico particular da família.

​— Doutor Cullen... sim, sou eu, Jasper. Preciso te fazer uma pergunta rápida sobre os sedativos da Esme... Sim, a prescrição que a Rebeka faz questão de renovar toda semana... Escute, e se alguém parasse de medicá-la de repente? Quais seriam os efeitos? ...Entendi. Obrigado.

​Jasper desligou o aparelho com força, o maxilar trancado. O médico confirmara: interromper o remédio de uma vez só causaria uma leve tontura inicial, mas logo traria de volta a lucidez e a energia que Esme havia perdido há anos.

​— Ela jogou fora o remédio sabendo disso... — Jasper murmurou para si mesmo, um sorriso irônico e gélido curvando seus lábios. — Rebeka nunca deu a mínima para a saúde da sogra. O que você está tramando, cunhadinha? Qual é a sua nova máscara?

​Decidido a desenterrar cada segredo daquela farsa, Jasper jurou vigiar cada passo da mulher que dizia ser Rebeka Cullen. Mas ele não era o único cujas certezas estavam prestes a desabar.

​No segundo andar, dentro da imensa suíte master — um quarto decorado com tons de cinza, prata e linho branco, Bella Swan caminhava de um lado para o outro como um animal enjaulado.

​Ela havia tirado os sapatos de salto agulha que castigavam seus pés, mas continuava vestida com o caro vestido de seda preta. Suas mãos tremiam enquanto ela tentava processar o peso de sua loucura: em poucas horas, ela havia enganado a governanta, jogado fora remédios controlados, enfrentado o temido Jasper e agora estava trancada no quarto do bilionário que acreditava ser seu marido. ​O som de passos firmes e pesados ecoou pelo corredor. A maçaneta da porta girou. ​Bella parou de respirar.

​A porta se abriu revelando Edward Cullen. Ele tirava o paletó de grife com um movimento cansado, afrouxando a gravata de seda preta no pescoço forte. Sob a luz suave do abajur, Edward era de tirar o fôlego: alto, com cabelos cor de bronze levemente desgrenhados e feições esculpidas por uma beleza quase irreal. Mas o que mais intimidava eram seus olhos — intensos, profundos, carregados de um cansaço crônico e de uma frieza distante que parecia congelar o ar ao seu redor.

​Edward parou ao cruzar a porta, percebendo a presença de Bella no meio do quarto. Ele franziu levemente a testa. Habitualmente, a verdadeira Rebeka estaria jantando fora com amigos da alta sociedade ou trancada em seu próprio closet fazendo exigências fúteis. Encontrá-la ali, parada, com um olhar que misturava pânico e inocência, o desarmou por um segundo.

​— Você não saiu hoje? — a voz de Edward era um barítono aveludado, mas gélido, carregado de indiferença.

​— Eu... eu decidi voltar mais cedo. Estava cansada — Bella respondeu, esforçando-se para manter a voz firme, lembrando-se das ordens de Rebeka para falar o mínimo possível.

​Edward soltou um suspiro abafado, jogando o paletó sobre a poltrona. Ele caminhou lentamente em sua direção, desabotoando os primeiros botões da camisa social branca. Havia uma rotina mecânica em seus movimentos, uma obrigação conjugal fria que eles arrastavam há anos.

​— Ótimo. Pelo menos evitou mais um escândalo nos jornais de Seattle — Edward murmurou, parando a apenas alguns centímetros de Bella.

​O cheiro de perfume amadeirado misturado com o calor do corpo dele envolveu Bella por completo. Ela nunca havia estado tão perto de um homem daquela maneira. O peito de Bella subia e descia rapidamente; seu coração batia tão forte que ela tinha certeza de que Edward podia ouvi-lo.

​Sem notar o terror nos olhos castanhos dela, Edward ergueu a mão, os dedos longos e frios tocando levemente o contorno do seu queixo. Ele inclinou o rosto, aproximando os lábios para um beijo de cumprimento mecânico, protocolar, o tipo de toque sem alma que dividiam há meses.

​Instintivamente, tomada por um pavor irracional e por uma onda de pudor, Bella virou a cabeça bruscamente para o lado. ​O beijo de Edward roçou apenas de raspão em sua bochecha. ​O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.

​Edward congelou. A mão dele permaneceu estagnada no rosto de Bella. Ele recuou um passo, os olhos verdes escuros estreitando-se com uma perplexidade absoluta. Nos últimos cinco anos de casamento, Rebeka jamais recusara um toque seu — fosse por desdém ou por conveniência social. Recuar daquela forma, com os olhos arregalados como os de uma corça acuada, era algo inédito.

​— O que foi isso? — Edward perguntou, a voz cortante e baixa, rompendo o gelo do quarto.

​Bella sentiu o sangue sumir de seu rosto. Ela era virgem; nunca havia beijado ninguém, muito menos compartilhado a intimidade de um leito com um homem casado e bilionário. A ideia de que Edward pudesse tocá-la de verdade, de que a farsa pudesse exigir dela algo que pertencia apenas à sua inocência, a aterrorizava mais do que qualquer coisa no mundo.

​— N-nada... eu só... estou com enxaqueca, Edward. Uma dor de cabeça horrível — Bella gaguejou, dando dois passos para trás até esbarrar na borda da cama, os olhos implorando em silêncio para que ele se afastasse.

​Edward a encarou longamente. Havia algo fundamentalmente errado ali. Aquela mulher diante dele, embora tivesse o rosto, o corpo e a voz de sua esposa, exalava uma energia completamente oposta. Não havia o veneno habitual de Rebeka, nem o cinismo calculado. Havia apenas uma vulnerabilidade crua, quase infantil.

​Por um instante, o orgulho ferido e a exaustão falaram mais alto em Edward. Ele não insistiu.

​— Faça o que quiser — Edward disse com um tom de desdém controlado, virando as costas e caminhando em direção à porta que dava para o seu próprio escritório privativo dentro da suíte. — Durma no seu quarto. Eu tenho relatórios para terminar.

​A porta se fechou com um clique suave, deixando Bella sozinha no quarto escuro. ​Ela desabou de joelhos na beirada da cama, puxando o ar com dificuldade pelos pulmões, as lágrimas que segurara o dia todo finalmente rompendo a barreira. Ela havia escapado por pouco. Mas, enquanto enxugava o rosto, Bella percebeu aterrorizada: o maior perigo em sua nova vida não era a ameaça de Rebeka, nem a desconfiança de Jasper. O maior perigo era o homem no quarto ao lado, cujos olhos intensos já haviam percebido que ela não era quem dizia ser.

​Horas antes do jantar, trancada no banheiro da suíte enquanto a chuva caía implacável lá fora, Bella havia encontrado um tablet sobre a pia. A tela brilhava com um arquivo digital enviado de um número criptografado: o dossiê de sobrevivência deixado por Rebeka.

​Eram dezenas de arquivos contendo fotos em alta resolução, nomes completos, cargos, manias e perfis psicológicos detalhados de cada membro da família Cullen. Rebeka sabia que a irmã não podia errar o nome de ninguém se quisesse manter a farsa viva.

​Bella memorizara cada rosto com a precisão de quem estuda para uma prova de vida ou morte:

Edward Cullen: O marido bilionário, frio, distante e analítico.

Jasper Cullen: O cunhado paranoico e investigativo, CEO conjunto da madeireira.

Esme Cullen: A matriarca dócil, fragilizada e outrora dopada por sedativos.

Tommy e Chloe: Os enteados de oito e seis anos.

Alice Cullen: Esposa de Jasper. Uma mulher elegante, de cabelos curtos espetados e um sorriso que escondia a alma de uma verdadeira víbora. Alice era a única confidente e parceira de fofocas e maldades da verdadeira Rebeka na alta sociedade.

​Quando o relógio marcou o horário do jantar formal, Bella respirou fundo, alisou o tecido impecável do vestido e abriu a porta do quarto. Suas pernas tremiam, mas, ao pisar no topo da escadaria de mármore, ela empurrou o medo para o fundo da alma e assumiu a máscara gélida. ​O som de taças de cristal tilintando vinha da imensa sala de jantar. Assim que Bella entrou no recinto, o burburinho de conversas cessou instantaneamente.

​Todos os olhares se voltaram para ela. ​Sentado à cabeceira da mesa longa de carvalho escuro estava Edward, que ergueu os olhos das anotações em seu tablet, examinando-a com uma intensidade cirúrgica. Ao lado dele, Esme sorriu timidamente, parecendo muito mais alerta e desperta do que na noite anterior, um reflexo direto dos remédios que Bella havia jogado fora.

​Do outro lado da mesa, Jasper observava cada movimento seu com os braços cruzados, os olhos estreitados como lâminas. E, ao lado dele, estava Alice Cullen. ​Alice recostou-se na cadeira, um sorriso irônico e cortante curvando seus lábios pintados de escuro. Ela deu um gole lento em sua taça de vinho antes de disparar:

​— Ora, ora... Mudar de ideia e voltar correndo para o quarto mais cedo ontem à noite, e agora descer para o jantar usando essa pose de santa intocável? O que aconteceu, Rebeka? O ar de Forks de repente purificou a sua alma podre, ou você bateu a cabeça no teto do carro?

​O veneno pingava das palavras de Alice. Na dinâmica anterior, as duas eram aliadas em crueldade, competindo para ver quem era mais cínica na alta sociedade. Alice esperava que a cunhada respondesse com um xingamento ou um escândalo. ​Bella paralisou por um segundo, sentindo o suor frio escorrer pela espinha. Ela lembrou-se das fotos do dossiê, da advertência de Rebeka sobre Alice ser uma cobra venenosa, e endireitou ainda mais os ombros.

​Caminhando com elegância felina até a cadeira vaga ao lado de Edward, Bella puxou o assento e sentou-se sem pressa. Ela olhou diretamente nos olhos de Alice, mantendo uma expressão de tédio absoluto, e respondeu com a voz gélida e arrastada:

​— Cuide da sua própria vida, Alice. A menos que a sua própria rotina esteja tão vazia a ponto de você precisar se preocupar com a minha.

​O silêncio na mesa tornou-se absoluto. ​Alice engoliu seco, os olhos arregalados de choque por receber uma resposta tão cortante e distante da "amiga". Jasper reprimiu um sorriso irônico, intrigado com a postura completamente alterada da cunhada. ​Na outra ponta da mesa, Edward continuava a encará-la em silêncio. Ele não havia tocado na comida. Os olhos verdes escuros de Edward queimavam a pele de Bella, analisando cada microexpressão, cada respiração, cada detalhe daquela mulher que dizia ser sua esposa, mas que a cada minuto parecia ser uma estranha absoluta.

​O jogo de xadrez havia começado, e Bella estava jogando com a vida de seu pai em um tabuleiro cercado de predadores. ​O jantar prosseguiu sob uma camada de gelo e eletricidade contida. Cada garfada parecia vir acompanhada de um olhar analítico ou de uma alfinetada venenosa.

​— Sabe, Rebeka... — Alice cantarolou, girando o vinho na taça com um sorriso falso nos lábios. — É fascinante como você consegue mudar de humor da água para o vinho de um dia para o outro. Primeiro joga os remédios da Esme no lixo como uma salvadora da pátria, e agora está aí com essa pose de quem nunca quebrou um prato. O que planeja fazer a seguir? Distribuir sua fortuna para a caridade?

​O tom de Alice era um teste aberto, uma provocação calculada para ver se a "amiga" explodia e revelava as garras de sempre. ​Bella manteve a compostura, cortando um pedaço de carne com calma exasperante. Ela ergueu os olhos para Alice e devolveu com a mesma moeda:

— Se eu decidir doar minha fortuna, Alice, tenha certeza de que você será a última pessoa da lista a receber alguma coisa. Agora, se faça o favor de mastigar em silêncio; o som da sua voz está estragando a minha noite.

​Alice engasgou com a própria saliva, arregalando os olhos em choque absoluto. Ao lado dela, Jasper conteve um sorriso torto, achando graça da humilhação da aliada, embora sua desconfiança estivesse em nível máximo. ​Na outra ponta da mesa, Edward continuava em silêncio. Ele não havia participado de nenhuma das provocações, mas seus olhos verdes escuros não desviavam de Bella nem por um segundo. Havia algo no modo como ela falava, na postura altiva, mas sutilmente diferente, que fazia os instintos de Edward gritarem que havia algo errado ali.

​Foi nesse exato momento de tensão que as portas da sala de jantar se abriram um pouco mais. ​Tommy e Chloe entraram na ponta dos pés. A babá parecia vir logo atrás, tentando contê-los, mas a menininha de seis anos acabou tropeçando na barra do próprio pijama e caiu de joelhos no piso de mármore, derrubando o pequeno urso de pelúcia que carregava.

​O silêncio na mesa tornou-se sepulcral. ​Na rotina da verdadeira Rebeka, aquele incidente seria o estopim para um inferno na terra: gritos histéricos, insultos cruéis chamando a menina de desastrada e castigos severos por interromperem o jantar dos adultos.

​Alice abriu um sorriso sutil, antecipando o espetáculo de crueldade habitual. Tommy deu um passo à frente, fechando os punhos com força, pronto para avançar e defender a irmãzinha dos gritos que com certeza viriam. ​Mas o que aconteceu congelou todos na mesa.

​Antes que qualquer outra pessoa pudesse se mover, Bella largou o guardanapo de pano sobre a mesa, levantou-se rapidamente da cadeira e contornou o móvel. Ela se ajoelhou no chão de mármore frio bem ao lado de Chloe, ignorando completamente o vestido de grife caro.

​— Querida, você se machucou? — a voz de Bella saiu doce, repleta de uma preocupação genuína e de um calor maternal que jamais havia habitado aquela casa.

​Chloe encolheu os ombros, fechando os olhos com força e esperando pelos gritos, mas abriu-os devagar ao sentir mãos gentis enxugando uma lágrima solitária em seu rosto. Bella pegou o ursinho encardido do chão, limpou a poeira imaginária e o entregou à menina com um sorriso suave.

​— Está tudo bem. Ninguém se machucou de verdade. Venha aqui...

​Sem hesitar, Bella puxou Chloe para um abraço terno, beijando o alto da cabeça da menina. Em seguida, ergueu o olhar para Tommy, que a encarava estupefato, com os olhos arregalados e o corpo tenso como uma mola. Bella estendeu a mão livre para o garoto, com um olhar de pura acolhida.

​— Você também quer vir, Tommy? O jantar já vai acabar, vocês podem ficar comigo na sala se quiserem.

​O menino recuou um passo, com o coração disparado, incapaz de processar o que estava acontecendo. Aquela não era a mãe dele. A mulher que o rejeitava e o ignorava havia desaparecido. ​Ao redor da mesa, o choque era total.

​Esme levou as mãos à boca, com os olhos marejados de uma emoção profunda e sincera, vendo pela primeira vez um vislumbre de verdadeira maternidade naquela casa. ​Jasper endireitou-se na cadeira, a mandíbula travada, encarando Bella como se ela fosse um enigma impossível de decifrar. Rebeka odiava crianças. Rebeka nunca, em hipótese alguma, abraçara os próprios enteados. ​E Edward... Edward sentiu o ar sumir de seus pulmões. Ele observava a cena com uma intensidade avassaladora. Os olhos do bilionário percorriam cada traço do rosto de Bella, a suavidade de seus gestos, o brilho genuíno em seus olhos castanhos.

​Edward levantou-se lentamente da cadeira. O arrastar dos pés no chão fez o barulho ecoar pela sala. ​Ele deu dois passos na direção de Bella, que se levantava com Chloe no colo, e a encarou de cima a baixo, com uma mistura de perigo, fascinação e uma pergunta silenciosa queimando em sua mente:

Quem é você... e o que fez com a minha esposa? ​Assim que os últimos pratos foram retirados e Alice e Jasper se despediram com olhares venenosos, a atmosfera na mansão tornou-se irrespirável.

​Assim que a porta do quarto principal se fechou, trancando-os longe dos olhares curiosos da casa, Edward Cullen perdeu o pouco de paciência que lhe restava. Ele puxou a gravata com força, jogando-a sobre a poltrona, e deu dois passos largos até encurralar Bella contra a parede fria do corredor interno da suíte.

​As mãos grandes de Edward apoiaram-se na parede de cada lado da cabeça dela, bloqueando qualquer fuga. Seus olhos verdes escuros queimavam com uma fúria contida e uma confusão palpável.

​— Chega de joguinhos — Edward sibilou, a voz grave e cortante ecoando a centímetros do rosto de Bella. — O que está acontecendo com você, Rebeka?

​Bella sentiu o ar faltar nos pulmões, mas forçou os olhos castanhos a encararem os dele, mantendo o queixo erguido.

​— Eu não sei do que você está falando, Edward. Sai daqui, estou cansada.

​— Não, você não vai escapar agora — Edward riu sem humor, a mandíbula travada. — Você joga os remédios da minha mãe no lixo, algo que você odiava e fazia questão de manter para controlá-la. Você abraça as crianças, chora por uma queda idiota, age com uma suavidade que eu jamais vi em cinco anos de casamento... Quem é você? O que fizeram com a minha esposa?!

​O pânico ameaçou rasgar a garganta de Bella. Por um segundo, ela pensou que ele havia descoberto tudo. Mas, respirando fundo e lembrando-se das instruções calculistas de Rebeka sobre como a irmã lidava com o desdém do marido, Bella mudou de tática. Ela colocou as mãos com delicadeza — mas com firmeza — no peito dele, empurrando-o de leve para criar espaço.

​Com um sorriso irônico e frio nos lábios pintados de vermelho, ela sibilou:

​— Se acalme, Edward. Quer dizer que agora se importar com a sua mãe e ser decente com as crianças virou crime? Talvez eu esteja cansada de ser a megera fria que você sempre desprezou. Talvez eu tenha decido mudar. Ou prefere que eu volte a ser a mulher insuportável que você passava os dias ignorando no escritório?

​Edward recuou um passo, atônito. A frieza repentina na voz dela, misturada com aquela ponta de verdade amarga sobre o casamento deles, o desarmou completamente. Era um argumento lógico, embora bizarro vindo de Rebeka. Ele a encarou em silêncio, buscando qualquer falha na máscara dela, mas Bella mantinha-se impassível.

​Vendo que havia conseguido plantar a dúvida na mente dele, Bella deu o golpe final. Ela ajeitou a gola do vestido, virou-se para caminhar em direção à cama e soltou a bomba:

​— A propósito... descanse bem esta noite, Edward. Porque amanhã de manhã eu vou com você para a Madeireira Cullen. Quero ver de perto como o nosso império é administrado.

​O quarto inteiro pareceu silenciar de forma absoluta. ​Edward congelou no lugar. Seus olhos se arregalaram em um choque genuíno, o maxilar caindo levemente.

​A verdadeira Rebeka nunca havia posto os pés na madeireira. Em anos de casamento, ela repudiava qualquer assunto relacionado à empresa, zombava do cheiro de serragem e tratava os negócios da família com absoluto desprezo, limitando-se a estampar cartões de crédito e esbanjar os lucros gerados pelo trabalho duro de Edward e Jasper. Pedir para ir à madeireira era algo tão fora da realidade de Rebeka quanto voar.

​Edward deu um passo à frente, a voz falhando pela primeira vez na noite:

​— Você... o que disse? Você quer ir à madeireira? Desde quando você se importa com a empresa?

​Bella virou-se por cima do ombro, exibindo um sorriso enigmático, perfeitamente calculado para parecer uma provocação sofisticada.

​— As coisas mudam, Edward. É bom você ir se acostumando.

​Ela virou as costas e caminhou em direção ao quarto de hóspedes que Rebeka havia indicado como seu, deixando Edward plantado no meio do quarto escuro, completamente transtornado.

​Enquanto isso, encostado na parede do corredor do lado de fora, ouvindo tudo através da fresta da porta com a ajuda de sua audição apurada, Jasper Cullen cerrou os punhos com tanta força que os nós dos dedos sangraram. Um sorriso perigoso e gélido curvou seus lábios na penumbra.

​— Madeireira...? Ela nunca pisou lá em cinco anos — Jasper sussurrou para si mesmo, os olhos brilhando com uma certeza implacável. — Tem uma impostora debaixo do meu teto. E amanhã, na fábrica, eu vou arrancar essa máscara dela.