Impostora

2 O Peso da Verdade


​A suíte principal da mansão Cullen não era apenas um quarto; era um santuário de opulência fria e silenciosa. O centro do cômodo era dominado por uma cama king-size colossal, com uma cabeceira de veludo cinza-chumbo que alcançava quase o teto. Os lençóis, de um cetim negro tão profundo que pareciam absorver a luz dos abajures, deslizavam como água gelada contra a pele de Bella.

​Ela estava vestida com um baby doll de seda preta, uma peça de luxo da coleção particular de Rebeka. O tecido caía sobre suas curvas como se tivesse sido esculpido para ela, ajustando-se à cintura e acentuando o colo com uma renda francesa delicada e cara. ​Bella caminhou descalça sobre o tapete persa, cujas fibras macias mal faziam barulho sob seus pés, até o espelho de corpo inteiro emoldurado por prata polida. O reflexo que a encarava era o de uma estranha: a mesma mulher que aterrorizava a cidade, agora vestida com a sua própria pele. Ela parecia linda, inegavelmente, mas sentia-se uma intrusa em um mundo de luxo que não lhe pertencia. Era o mundo de Rebeka, um império de vaidade onde cada objeto — do lustre de cristal aos móveis planejados — exalava uma riqueza que ela ainda tentava processar.

​O silêncio do quarto foi rompido pelo som da maçaneta girando. A porta pesada se abriu e Edward entrou, a silhueta alta e imponente projetando uma sombra longa sobre o assoalho de madeira nobre. ​Ele não disse nada de imediato. Seus passos firmes e decididos cessaram logo atrás dela. Sem pedir permissão, Edward envolveu os ombros de Bella com suas mãos grandes, os dedos longos e firmes apertando a carne com uma possessividade que a fez estremecer. Ele inclinou a cabeça e, com uma lentidão torturante, abaixou a alça fina do baby doll de seda, expondo o ombro de Bella antes de depositar ali um beijo quente, macio, mas carregado de uma tensão elétrica.

​Bella soltou um suspiro involuntário, encolhendo-se levemente, o corpo travado pela confusão de ser tocada por um estranho que acreditava ser seu marido.

​— Ora, Rebeka... — a voz de Edward, um barítono rouco e profundo, soou a centímetros do seu ouvido, causando arrepios na nuca da jovem. — O que você tem? Nunca fugiu de mim dessa forma. O que está havendo? — Ele apertou os ombros dela com mais força, forçando-a a virar-se para encará-lo. O olhar dele era uma lâmina, buscando uma verdade que ela não podia dar. — Me diga, ou terei que descobrir por conta própria. Está me traindo?

​O coração de Bella martelava contra as costelas, mas ela obrigou a máscara de indiferença a permanecer em seu rosto. Ela se afastou um passo, mantendo a postura ereta.

​— Te traindo, Edward? — ela soltou um riso seco, que soou mais forçado do que desejava. — Que loucura é essa? Eu jamais faria isso. Lembre-se do nosso contrato pré-nupcial. Se eu me arriscasse por um amante, perderia o acesso a tudo o que construímos. E você sabe muito bem que eu nunca seria burra o suficiente para jogar a minha vida no lixo por um capricho.

​Edward a encarou por um longo segundo, medindo a verdade em suas palavras. A pragmática Rebeka sempre fora movida pelo dinheiro, e o argumento do pré-nupcial era a única coisa que faria sentido naquele comportamento estranho. ​Ele soltou os ombros dela e caminhou até o criado-mudo de mogno maciço, cujos veios da madeira escura brilhavam sob a luz indireta do quarto. Ele abriu a gaveta com um puxão firme, revelando uma caixa de cedro, de onde retirou um charuto importado. Com movimentos precisos, ele o cortou, colocou-o nos lábios e acendeu.

​O aroma denso e amargo da fumaça do tabaco invadiu o ambiente, irritando instantaneamente as narinas de Bella. Ela começou a tossir, um reflexo visceral, e cobriu o rosto com as mãos.

​— Apague isso, Edward! Por favor! — ela exclamou, com os olhos lacrimejando.

​Edward parou, o charuto a meio caminho da boca. A Rebeka de sempre teria gritado, jogado o charuto pela janela ou feito um escândalo. A reação de Bella fora de pura repulsa, um reflexo de alguém que nunca convivera com aquele vício. Ele observou-a por um momento, a perplexidade substituindo a desconfiança imediata. Ele apagou o charuto no cinzeiro de cristal com um movimento lento e resignado.

​— Tudo bem — ele resmungou, caminhando até a cama e sentando-se na borda, a madeira do móvel rangendo suavemente sob seu peso. — Venha, deite-se.

​Bella hesitou, mas aproximou-se, mantendo uma distância segura.

​— Rebeka, não pretende deitar de camisola, não é? — ele comentou, observando o tecido fino cobrindo o corpo dela. — Você adora dormir nua ou, no mínimo, com aquela sua lingerie de grife que você tanto gosta de exibir.

​Bella sentiu o calor subir pelo pescoço, tingindo suas bochechas de um vermelho vivo.

— Eu deito do jeito que me sinto bem, Edward. E hoje prefiro ficar assim. Sem nudez.

​Edward resmungou algo ininteligível, claramente frustrado, mas não insistiu. Ele se deitou, deixando um espaço vazio entre eles. Bella deitou-se de costas para ele, encolhida, o corpo tenso como uma corda de violino. ​No entanto, a distância durou pouco. Edward deslizou para mais perto, abraçando-a por trás. Ele encaixou seu quadril firmemente contra o bumbum de Bella, e ela sentiu, com um choque de terror absoluto, a rigidez da ereção dele contra o seu corpo.

​O aviso estava claro: a noite estava apenas começando, e ele esperava muito mais do que apenas dormir ao lado dela. Bella fechou os olhos com força, prendendo a respiração. Ela se passaria por Rebeka, enfrentaria o conselho da madeireira e jogaria aquele jogo perigoso, mas ali, no silêncio do quarto, ela traçou sua linha final: ela protegeria sua pureza a qualquer custo.

​O silêncio na suíte era denso, pontuado apenas pelo ritmo constante e pesado da respiração de Edward. Bella esperou que o tempo parecesse uma eternidade antes de deslizar para fora do colchão de molas ensacadas. Seus pés descalços tocaram o piso de madeira clara, sentindo o choque térmico contra a pele aquecida pelo calor de Edward. Ela caminhou na ponta dos pés, com o corpo magro envolto na seda do baby doll de Rebeka, que parecia uma segunda pele, até a porta do corredor.

​A mansão, à noite, era um labirinto de sombras. As luzes principais estavam apagadas, deixando apenas as luminárias de parede emitindo um brilho alaranjado e fantasmagórico. Ela desceu a escadaria, sentindo o corrimão de madeira polida sob os dedos, até chegar à cozinha de serviço. ​O ambiente era enorme, uma ilha de aço escovado e mármore negro que contrastava com a luz suave dos abajures de teto. Ali, o som do metal contra a porcelana denunciou a presença de Lilith e Charlotte. Elas estavam de costas, polindo os talheres de prata — parte de um jogo de faqueiro italiano que custava mais do que a casa do pai de Bella.

​Quando Bella entrou, as duas pararam no mesmo instante. O tilintar da prata cessou. Elas se viraram, os rostos pálidos, enrijecendo-se instantaneamente, como se esperassem um grito ou um insulto pela demora na limpeza. ​Bella não gritou. Ela caminhou com uma suavidade quase etérea, aproximando-se da bancada central onde Lilith, a funcionária mais nova, terminava de secar as taças.

​— A noite está fria, não é? — a voz de Bella quebrou o silêncio, soando baixa e estranhamente acolhedora.

​Lilith, com as mãos trêmulas segurando um pano de prato, gaguejou:

— D-dona Rebeka? Desculpe-nos... nós estamos acabando...

​Bella ignorou o pedido de desculpas e apoiou os quadris na borda da bancada de granito, os olhos observando a organização impecável dos utensílios. Ela precisava de uma pista. Precisava aprender a ser a mulher que todos temiam.

​— Não se desculpem. Na verdade, estou com uma fome atroz — Bella lançou um desafio com um sorriso leve. — Quero que preparem o meu prato preferido. Aquele que eu sempre peço quando não quero ninguém me olhando. Se vocês são boas cozinheiras, sabem exatamente o que é.

​Charlotte e Lilith trocaram um olhar perplexo. Rebeka Cullen nunca entrava na cozinha, e muito menos comia algo que não fosse trazido em uma bandeja de prata no quarto. Mas, sob aquele olhar fixo e calmo, elas não ousaram recusar. ​Charlotte, com seus anos de experiência, suspirou e começou a buscar os ingredientes. A cozinha ganhou vida: o barulho do acendedor do fogão, o som da faca cortando o alho sobre a tábua de madeira, e o aroma característico.

​Bella observou, hipnotizada, enquanto Charlotte preparava uma macarronada incomum. O cheiro de álcool subiu quando a cozinheira despejou o rum na panela, flambando o molho que recebia um fio generoso de azeite extra virgem de oliva prensada a frio. ​Enquanto o macarrão era servido em uma louça de cerâmica pintada à mão, Charlotte limpou a garganta, a hesitação dando lugar a uma coragem que vinha de décadas servindo aquela casa.

​— Sabe, Senhora... a senhora está muito diferente — Charlotte começou, a voz áspera. — Eu estou aqui há vinte anos. Eu vi a senhora fazer coisas terríveis com a Dona Esme.

​Bella ficou tensa, mas manteve a postura.

​— Eu via a senhora ordenar que eu colocasse vinte gotas de Rivotril na água da Dona Esme toda noite. E quando ela acordava zonza e confusa pela manhã, a senhora gritava com ela, acusando-a de estar escondendo bebida alcoólica no quarto, de ser uma alcoólatra. A senhora destruiu a reputação da pobre mulher nesta casa. Mas hoje... hoje a senhora pediu para parar. Por quê?

​O clima na cozinha mudou. O som da geladeira parecia um trovão. Bella olhou para Charlotte, sentindo o peso da maldade que sua gêmea havia deixado para trás. A impostora suspirou, sentindo um gosto amargo que nada tinha a ver com a comida.

​— Charlotte — Bella disse, sua voz perdendo a doçura e ganhando uma firmeza gélida que ela não sabia que possuía. — Não me cabe explicar as minhas razões. O que eu fiz ou deixei de fazer é passado. Se eu decidi mudar a conduta nesta casa, você deveria agradecer, não questionar. Agora, faça o seu trabalho e não se meta na minha vida. Entendido?

​A cozinheira baixou os olhos, claramente intimidada pela mudança brusca de tom. Bella pegou o prato de macarronada e saiu da cozinha sem olhar para trás, deixando as duas mulheres estupefatas. Ela tinha a comida favorita de Rebeka, mas o preço daquela informação havia deixado um gosto de bile em sua garganta. Ela não era apenas uma usurpadora; ela estava herdando o pecado de um monstro.

​Assim que o clique da porta da cozinha ecoou, sinalizando que a "Senhora Cullen" havia partido, o silêncio que se instalou entre as duas mulheres foi ainda mais tenso do que antes. Lilith, com os olhos brilhando de entusiasmo juvenil, começou a guardar os panos de prato, com um sorriso sonhador no rosto.

​— Você viu, Charlotte? — Lilith comentou, quase saltitando. — Ela me chamou pelo nome! E me pediu "por favor". Eu estou adorando essa nova Dona Rebeka. Se for sempre assim, trabalhar nesta mansão vai deixar de ser um pesadelo e virar um sonho.

​Charlotte, porém, não compartilhava do otimismo. Ela parou de secar a travessa de porcelana, seus olhos cinzentos fixos no ponto onde Bella desaparecera. Ela deixou o pano de lado, respirando fundo e aproximando-se de Lilith.

​— Abra os olhos, menina — a cozinheira sibilou, com uma autoridade que fez a mais jovem recuar. — Você acha mesmo que alguém muda o caráter da noite para o dia? A Rebeka Cullen que conhecemos era podre por dentro. O que você viu agora... aquilo não é a nossa patroa.

​— Mas Charlotte, ela é igualzinha! — Lilith insistiu, gesticulando. — O mesmo tamanho, a mesma voz, o mesmo perfume de jasmim e âmbar, o mesmo jeito de andar. É a Dona Rebeka, só que... boazinha. Talvez ela tenha se convertido, ou o Edward tenha dado um susto nela.

​— Ou talvez — Charlotte sussurrou, aproximando-se ainda mais e baixando o tom de voz — ela tenha sido substituída. E se for isso, estamos servindo uma estranha. E estranhos perigosos são muito piores do que monstros conhecidos.

​Enquanto isso, Bella encontrou refúgio em um pequeno escritório privado anexo à ala leste, uma sala revestida em madeira de carvalho escuro, com poltronas de couro capitonê que cheiravam a tabaco e história antiga. Ela sentou-se à mesa de mogno maciço e começou a comer. O sabor era intenso, uma mistura inebriante do álcool do rum flambado com a acidez do azeite extra virgem, uma combinação refinada que dançava no paladar.

​Mas, à medida que mastigava, seus pensamentos vagavam para longe daquele prato caro. ​Ela repousou o garfo de prata, os olhos fixos na chama bruxuleante de uma luminária de mesa estilo Tiffany. A questão que a atormentava desde o momento em que Rebeka abriu a porta do hotel não era apenas sobre o crime de usurpação. Era sobre biologia.

Como é possível? Ela se levantou e caminhou até o espelho decorativo que pendia acima da lareira de mármore carrara. O reflexo que a encarava era tão perturbador quanto fascinante. Bella passou a mão pelo próprio rosto, sentindo o formato dos ossos da face, a linha do maxilar, a curva da sobrancelha. Eram idênticas.

​— Minha irmã gêmea... — ela sussurrou para a penumbra do escritório.

​Sua infância em Forks sempre fora pautada pela simplicidade. Charlie nunca comentara sobre um hospital, um parto difícil, ou uma criança perdida. Não havia fotos de bebês, nem relatos de parentes distantes que pudessem explicar uma separação. Ela sempre fora a filha única do Xerife, a menina da foto na moldura de madeira barata da sala.

Será que eu fui sequestrada? Ou será que ela foi a levada? ​Uma angústia fria começou a subir por sua espinha. Se havia uma gêmea, havia um segredo. E se Rebeka sabia da existência de Bella — o que parecia óbvio, já que ela a encontrou no Grand Hotel como se estivesse apenas esperando o momento certo —, então a sua família, o seu pai, o seu passado... tudo poderia ser uma mentira cuidadosamente construída.

​Bella sentiu uma necessidade urgente de investigar. Ela precisava encontrar o registro de nascimento, os documentos da adoção, algo que ligasse Isabella Swan àquela mulher que vivia uma vida de luxo e veneno. ​Ela olhou para a própria mão, sentindo o peso da aliança de diamantes que, agora, parecia um símbolo de uma conexão muito mais profunda e sombria do que um simples casamento por contrato. Ela não estava apenas roubando a vida de uma vilã; ela estava, talvez, tentando desvendar a sua própria origem.

​Bella respirou fundo, limpou a boca com o guardanapo de linho e tomou uma decisão: amanhã, na Madeireira Cullen, além de aprender a gerenciar o império, ela usaria os recursos do escritório de Edward para investigar quem, exatamente, eram as gêmeas Cullen. Ela descobriria por que, e como, a vida as separara.

​O silêncio na cozinha era absoluto, interrompido apenas pelo som suave da cerâmica sendo depositada sobre a bancada. Lilith e Charlotte mal conseguiam processar a cena: a Sra. Cullen, que sempre exigia ser servida com sinetas e nunca sequer entrava naquele recinto, estava ali, lavando o próprio prato com uma naturalidade desconcertante.

​— Obrigada pela comida. Estava excelente — Bella disse, dando um sorriso breve antes de se virar para sair.

​Ela não ouviu o suspiro de alívio das duas, nem o murmúrio atônito sobre o "milagre" que parecia ter tomado conta da patroa. Bella estava distraída, mergulhada em seus pensamentos sobre sua origem, quando, ao dobrar o corredor escuro em direção às escadas, sua pressa a traiu. ​Ela trombou com força em alguém que vinha do corredor principal. Foi um impacto sólido; a pessoa era alta e firme.

​— Oh, meu Deus! Me perdoe, eu não vi por onde andava — Bella exclamou, estendendo a mão para se apoiar, seus olhos castanhos brilhando com uma sinceridade que o Cullen ali presente não estava acostumado a ver.

​O homem diante dela parou. Ele era alto, de cabelos grisalhos impecavelmente alinhados, vestindo um robe de seda bordô sobre um pijama de algodão. Era Carlisle Cullen, o patriarca, o homem que construíra aquele império com as próprias mãos. Ele possuía um olhar que parecia enxergar através da alma de qualquer um.

​Carlisle não se moveu imediatamente. Ele observou a jovem à sua frente, analisando a forma como ela se desculpou, como o medo era real em seus olhos, mas não o medo arrogante da nora que ele conhecia há anos.

​— "Me perdoe"? — ele repetiu, a voz calma e profunda. — Rebeka, você não pede desculpas nem quando comete erros graves. Venha comigo. Agora.

​Ele não gritou, mas o comando foi uma ordem inquestionável. Ele a guiou pelo braço até o seu escritório privado, um santuário de intelecto cercado por estantes de mogno repletas de livros antigos, com uma mesa de carvalho maciço onde ele despachava decisões que moviam milhões. ​Carlisle fechou a porta pesada, abafando qualquer som do resto da mansão. Ele caminhou até sua poltrona de couro e indicou uma cadeira para ela.

​— Vamos acabar com isso — disse Carlisle, cruzando as mãos sobre a mesa. — Eu observei você desde ontem. A forma como tratou a Esme, como se aproximou das crianças, a sua recusa em tocar no seu marido, a sua ida à cozinha... Você não é Rebeka.

​Bella sentiu o ar sair de seus pulmões. Ela tentou negar, a voz falhando.

— Eu... eu não sei do que está falando, senhor Cullen. Eu sou...

​— Não minta — ele interrompeu, mantendo a calma. — Eu conheço aquela mulher há cinco anos. Ela é egoísta, cruel e cínica. Você é vulnerável, temerosa e, o mais importante: você tem uma consciência.

​A fachada de Bella desabou. O peso daquelas 24 horas, o pânico por Charlie, a exaustão da farsa... tudo explodiu. Ela não aguentou. Com um soluço engasgado, ela se jogou no chão, aos pés da poltrona de Carlisle, chorando desesperadamente.

​— Por favor! — ela soltou, em meio aos soluços. — Eu não queria! Ela me obrigou! Meu pai... o Xerife Charlie Swan... ela forjou provas, ela vai mandá-lo para a cadeia se eu não fizer isso! Eu só queria salvá-lo! Ela é minha gêmea, eu nem sabia que ela existia até ontem... por favor, não me entregue para a polícia, não me expulse daqui!

​Carlisle permaneceu em silêncio absoluto. Ele observava a garota aos seus pés, o desespero dela era tão genuíno quanto a maldade da nora era calculada. Ele pensou em sua esposa, Esme, que hoje acordara sorrindo pela primeira vez em anos. Pensou em Tommy e Chloe, que voltaram a brincar nos corredores. Pensou em Edward, que, apesar da confusão, parecia menos tenso desde que a "esposa" mudara o comportamento.

​Ele sabia que, se denunciasse aquela menina, a verdadeira Rebeka voltaria, o inferno seria restaurado na mansão e a sanidade de sua família seria destruída novamente. ​Carlisle suspirou, levantando-se e caminhando até Bella. Ele estendeu a mão e, gentilmente, a ajudou a se levantar.

​— Levante-se, minha filha — ele disse, com uma voz que não continha ódio, mas uma resolução pragmática. — A Rebeka que eu conheço é uma praga nesta família. Você, por outro lado, trouxe uma paz que eu não via há muito tempo.

​Bella o encarou, surpresa, secando as lágrimas com as costas das mãos.

​— Você... você vai me deixar ficar?

​— Eu vou te proteger — Carlisle corrigiu, olhando-a nos olhos. — Mas com uma condição: você vai continuar sendo a Sra. Cullen. Vai cuidar da minha esposa, vai ser mãe das minhas netas e vai colocar meu filho nos eixos. Em troca, usarei os melhores advogados da nossa empresa para resolver a situação do seu pai e manter a Rebeka bem longe daqui.

​Bella sentiu o peso do mundo sair de suas costas. Ela havia encontrado o seu primeiro aliado na Mansão Cullen.

​— Obrigado, senhor Cullen... — ela sussurrou, ainda trêmula.

​— A partir de agora, chame-me de pai — Carlisle respondeu, voltando para sua mesa. — E tente dormir. Amanhã teremos muito trabalho na madeireira. A verdadeira Rebeka nunca soube gerenciar nada além da própria vaidade, mas você... você vai aprender. E será melhor do que ela jamais foi.

​Bella levantou-se, limpando o rosto com o lenço de seda que Carlisle lhe oferecera. A determinação em seus olhos havia substituído o medo. Ela não era apenas uma impostora; ela era a única chance de redenção daquela casa.

​— Eu prometo, pai... — a palavra ainda soava estranha, mas ela a disse com convicção. — Eu serei a Rebeka Cullen que esta família merece. Se preciso ser ela para proteger quem eu amo, eu serei a melhor atriz que este mundo já viu. Mas preciso de ajuda. Preciso saber os detalhes. O que ela gostava? O que ela detestava? Como ela mantinha as pessoas à distância sem ser óbvia?

​Carlisle, visivelmente satisfeito com a força de espírito da jovem, indicou a poltrona de couro marrom-claro à frente da mesa.

​— Rebeka era uma mestre na arte da indiferença calculada — começou ele, a voz austera. — Ela odiava ser tocada, exceto em momentos estratégicos. Ela nunca pedia nada, ela ordenava, mas sempre com um tom de voz que não precisava de volume para ser temida. Ela detestava chá, preferia café expresso duplo, sem açúcar, a qualquer hora do dia. E sobre as caridades... ela detestava o trabalho de campo. Se você quiser manter a farsa, continue doando cheques gordos para os eventos, mas não coloque a mão na massa publicamente.

​Bella absorveu cada detalhe, memorizando-os como se fossem as linhas de um roteiro.

​— Eu entendi. Serei elegante, serei firme, mas... — ela hesitou, os olhos fixos na chama da lareira que projetava sombras dançantes na parede revestida de carvalho — ...e quanto a ela? Minha gêmea. Como isso aconteceu? Por que eu nunca soube? Por que ela é assim?

​Carlisle suspirou, um som profundo que parecia carregar o peso de décadas. Ele se levantou e caminhou até a janela, observando o reflexo da lua sobre os jardins bem cuidados da mansão.

​— Eu investiguei há anos, quando a Rebeka começou a demonstrar a frieza que a definia. Eu queria entender se era algo genético, ou se era o ambiente — ele começou, a voz baixa. — Houve um obstetra, um homem ganancioso chamado Dr. Halloway, na cidade de Forks. Ele foi pago por uma família influente — uma família que não podia ter filhos e queria uma herdeira perfeita. Eles não queriam adotar; eles queriam "comprar" uma criança.

​Bella sentiu um frio gélido percorrer sua espinha.

​— Halloway forjou os registros. Disse à sua mãe, Renee, que você havia nascido sozinha. Ele levou a outra criança, a Rebeka, antes mesmo que seus pais pudessem vê-la. O pagamento foi uma fortuna, o suficiente para Halloway desaparecer. Charlie e Renee nunca souberam da existência de uma segunda filha.

​Bella sentiu a garganta apertar. A revelação foi um verdadeiro soco no estômago. Ela não era apenas uma camareira azarada; ela era o fruto de um crime, uma vida roubada antes mesmo de começar.

​— Veja a ironia do destino, Isabella — Carlisle virou-se para ela, com uma expressão de melancolia. — Você foi criada na escassez, na humildade, cercada por um homem de princípios como Charlie. Apesar da falta de recursos, você floresceu, tornou-se uma mulher bondosa, empática, capaz de amar. Rebeka... ela cresceu em um ambiente de privilégio, mas cercada por pessoas que a trataram como um objeto de status. Ela se tornou fria, ambiciosa, egoísta. O dinheiro e o poder que a cercaram foram o veneno que a moldou.

​Bella sentou-se na poltrona, sentindo-se tonta. O choque da descoberta a deixou com a respiração curta. Todas as suas lutas, as contas atrasadas, o trabalho duro no Grand Hotel, o amor que tinha pelo pai... tudo fazia parte de uma história que ela mal conhecia.

​— Ela é minha irmã... — Bella sussurrou, as lágrimas voltando a marejar, mas desta vez, não eram lágrimas de tristeza por si mesma, mas de uma compaixão estranha pela mulher que a odiara à primeira vista. — Ela teve tudo, pai, e mesmo assim se tornou um monstro.

​— Às vezes — Carlisle disse, aproximando-se e colocando uma mão reconfortante sobre o ombro dela — ter tudo é o caminho mais curto para perder a si mesmo. Você descobriu quem é, Isabella. Agora, o desafio é sobreviver sendo a pessoa que o mundo acredita que você não é.

​Bella olhou para ele, a firmeza voltando ao seu olhar. Ela não era Rebeka. Ela jamais seria a Rebeka. Mas, para salvar seu pai e proteger aquela família que Carlisle tentava manter unida, ela vestiria a pele da irmã com uma maestria que a própria Rebeka jamais sonhou possuir.

​— Amanhã, na Madeireira — Bella disse, levantando-se com a postura de uma verdadeira herdeira Cullen — o jogo muda. Eles querem uma Rebeka? Eles terão. Mas, para o bem de todos, eles conhecerão a Rebeka que eu decidir mostrar.

​Bella respirou fundo, o ar parecia pesado naquela sala repleta de livros. Ela sentia uma necessidade visceral de entender a profundidade da maldade de sua irmã.

​— Pai... — ela começou, a palavra soando mais natural agora — ...como foi possível deixar que ela maltratasse Esme daquela forma? Por tanto tempo?

​Carlisle desviou o olhar para a lareira apagada, os ombros caindo sob o peso de uma culpa que ele carregava há anos.

​— Eu fui cego, Isabella. Ou talvez, complacente demais — ele confessou, a voz rouca. — Rebeka é uma mestre do teatro. Esme sempre foi sensível, e Rebeka a convenceu de que ela estava tendo lapsos de memória, que estava se perdendo na própria tristeza. Eu via a garrafa de whisky na cabeceira de Esme quase toda manhã. Eu acreditava no que Rebeka dizia: que a bebida era a causa do comportamento errático da minha esposa. Eu nunca soube do Rivotril. Eu nunca suspeitei que a garrafa de whisky fosse plantada ali pela própria Rebeka para forjar o alcoolismo de Esme.

​Bella sentiu um calafrio. A crueldade de sua gêmea não tinha limites; ela não apenas destruía as pessoas, ela as desacreditava sistematicamente.

​— E as crianças? — Bella perguntou, a voz trêmula. — Tommy e Chloe. Como ela os tratava?

​Carlisle fechou os olhos por um instante, como se lembrasse de cenas dolorosas.

— Como se fossem mobília velha. Algo que ela era obrigada a carregar por conveniência, mas que a incomodava. Ela nunca os abraçava, nunca perguntava como foi o dia, nem mesmo se estavam doentes. Se choravam, ela os mandava para o quarto com a babá imediatamente. Ela lhes dava presentes caros — brinquedos de última geração, roupas de grife — mas nunca lhes deu um minuto de atenção genuína. Ela os moldou com frieza, Isabella. Tommy, o mais velho, tornou-se defensivo e agressivo, tentando se proteger. Chloe... Chloe tornou-se silenciosa, com medo até de respirar perto dela.

​Bella sentiu o peito arder. Ela pensou na cena do jantar, na pequena Chloe tropeçando e no medo no olhar do menino. Ela não estava apenas assumindo um papel; ela estava entrando em um campo de batalha emocional onde o trauma era a moeda corrente.

​— E a madeireira? — ela insistiu, querendo saber o tamanho do abismo que precisaria atravessar. — Como ela trata os funcionários?

​Carlisle soltou um riso amargo.

​— Para ela, os operários da madeireira não são pessoas, são números. Ela nunca ia lá, e quando era obrigada a comparecer para alguma cerimônia de conselho, o desprezo era palpável. Ela caminhava pelo chão da fábrica como se estivesse cruzando um chiqueiro, sem nunca tocar em nada, sem nunca olhar um funcionário nos olhos. Ela tratava os gerentes com desdém, sempre apontando falhas e humilhando-os na frente de todos para mostrar seu poder. O clima na fábrica sempre foi de medo, não de respeito. A rotatividade de funcionários lá é a mais alta de toda a região, justamente por causa dela.

​Bella ouviu tudo aquilo, processando cada informação. A cada palavra de Carlisle, ela entendia que ser Rebeka não seria apenas uma questão de vestir roupas caras e ser fria. Ela teria que, secretamente, realizar uma operação de resgate: resgatar a dignidade de Esme, o coração das crianças e a motivação daquelas centenas de trabalhadores que viviam sob o terror de seu sobrenome.

​Ela se levantou, a postura firme, os olhos castanhos brilhando com uma nova centelha de determinação.

​— Eu não serei ela — Bella declarou, a voz firme e inabalável. — Eu serei a mulher que ela deveria ter sido se tivesse o coração no lugar certo. Vou consertar o estrago, pai. Vou cuidar de Esme, vou dar a Tommy e Chloe o amor que lhes foi roubado, e vou transformar a Madeireira Cullen em um lugar onde as pessoas sintam orgulho de trabalhar.

​Carlisle a observou com algo que beirava a admiração. Ele estendeu a mão, e Bella a segurou com firmeza.

​— Se você conseguir fazer metade disso, Isabella, terá dado a esta família o maior presente que já recebemos. Mas cuidado... Alice e Jasper estão vigiando cada movimento seu. Eles sabem, ou pelo menos desconfiam, que há algo errado. Não abaixe a guarda.

​— Eles podem vigiar o quanto quiserem — Bella respondeu, caminhando em direção à porta do escritório com a elegância de uma verdadeira dama. — Eles só vão ver o que eu permitir que vejam. A "Rebeka" que eles conheciam morreu. Agora, eles vão ter que aprender a lidar com a nova dona da casa.