Impostora
4 Entre a Máscara e o Coração
O silêncio que se instalou no setor de paletes parecia impossível em uma fábrica onde dezenas de máquinas continuavam trabalhando ao mesmo tempo, mas Bella mal conseguia ouvir qualquer coisa além das próprias batidas do coração. Continuou andando sem olhar para trás, ainda sentindo o peso dos olhares dos funcionários depois de ter explodido com os dois homens que quase provocaram um acidente. Sabia que tinha errado, não por ter defendido o rapaz que poderia ter sido esmagado, porque faria aquilo novamente sem pensar duas vezes, mas pela maneira como havia reagido. Durante alguns segundos não precisou pensar no que Rebeka faria, não precisou consultar mentalmente nenhuma informação que Carlisle lhe dera e muito menos representar aquela mulher arrogante que todos conheciam. Apenas perdeu a paciência. O problema era que, por uma coincidência cruel, sua raiva havia sido tão parecida com a da irmã que até Edward parecera acreditar que a antiga Rebeka estava de volta.
— Impressionante — a voz de Jasper surgiu ao seu lado, fazendo Bella retirar um dos abafadores e virar o rosto para ele.
— O quê?
— Nada — respondeu ele com aquele sorriso que dizia exatamente o contrário.
Bella revirou os olhos e voltou a caminhar. — Então pare de me seguir.
— Estamos na empresa da família, lembra?
— Ótimo. Escolha qualquer outro lugar dela.
Jasper soltou uma risada baixa enquanto continuava acompanhando seus passos. — Agora você realmente conseguiu me deixar confuso. Ontem eu estava praticamente convencido de que você tinha sido substituída por outra pessoa.
Bella sentiu o sangue gelar, mas não diminuiu o passo. Precisava aprender a controlar as próprias reações perto daquele homem porque Jasper parecia observar coisas que ninguém mais percebia. — E hoje?
Ele olhou por cima do ombro para os dois funcionários, que naquele momento recebiam uma bronca do gerente de produção. — Depois daquilo? Digamos que acabei de rever algumas teorias.
— Que bom. Talvez agora consiga trabalhar em vez de investigar minha personalidade.
— Tem apenas um problema — disse Jasper, fazendo Bella finalmente parar. Ele se aproximou um pouco e abaixou a voz. — A Rebeka que eu conheço teria deixado aquele garoto ser esmagado e depois provavelmente encontraria uma maneira de colocar a culpa nele.
Bella sustentou o olhar dele por alguns segundos. — Então decida, Jasper. Ou estou diferente demais ou estou igual demais. As duas coisas ao mesmo tempo começam a parecer obsessão.
O sorriso desapareceu lentamente do rosto dele. — Talvez sejam justamente as duas coisas que estejam me incomodando. Você tem a crueldade dela quando precisa, fala como ela quando está com raiva e até olha para as pessoas da mesma maneira. Mas não tem a indiferença.
Bella sentiu o estômago apertar, mas apenas recolocou o abafador. — Quando terminar sua investigação, me entregue um relatório.
Ela voltou a caminhar sem esperar resposta, embora pudesse sentir os olhos de Jasper acompanhando cada movimento seu. Aquele homem era perigoso, e não porque a odiasse. Seria muito mais fácil se Jasper simplesmente não gostasse dela. O verdadeiro problema era sua curiosidade. Ele queria descobrir o que havia acontecido com Rebeka e, mais cedo ou mais tarde, se continuasse observando cada pequeno erro, acabaria chegando perto demais da verdade.
— Rebeka! — Bella reconheceu a voz de Edward e virou-se. Ele vinha em sua direção acompanhado por Emmett, que parecia fazer um esforço enorme para não rir. Assim que os dois se aproximaram, porém, Emmett não conseguiu se controlar. — “Carcaças inúteis”? Sério?
Bella fechou os olhos por um instante. — Emmett...
— Não, eu gostei. Faz anos que ninguém consegue calar aqueles dois tão rápido.
— Não incentive — Edward advertiu o irmão.
— Eu? Jamais. — Emmett ergueu as mãos em rendição e olhou novamente para Bella. — Mas foi bonito.
Edward lançou outro olhar para ele, e Emmett finalmente se afastou ainda rindo. Bella então voltou sua atenção para o marido e percebeu que ele a observava de uma maneira estranha, como se ainda estivesse tentando entender a mulher diante dele. — O que foi?
— Você poderia ter se machucado.
Bella franziu a testa. — Como?
— Aqueles homens estavam com barras de ferro nas mãos, Rebeka. Você simplesmente caminhou na direção deles.
— Havia um funcionário prestes a ser esmagado.
— Existem supervisores para resolver esse tipo de situação.
— Que claramente estavam fazendo um trabalho maravilhoso — respondeu ela, cruzando os braços. — Edward, eles trabalham para nós. Se alguém morrer dentro desta fábrica porque dois idiotas resolveram medir masculinidade ao lado de uma pilha de madeira, o problema também será nosso.
Edward permaneceu em silêncio e Bella percebeu tarde demais a palavra que havia usado. Nosso. A empresa não era dela, aquela família não era dela, aquela casa não era dela e o homem parado à sua frente muito menos. Tudo pertencia a Rebeka. Ela estava apenas ocupando temporariamente um lugar que outra mulher abandonara, mas cada dia naquela vida fazia essa fronteira parecer um pouco menos clara.
— Você está mesmo levando isso a sério — Edward comentou.
— Isso o quê?
— A empresa. Você nunca se importou com o que acontecia aqui. Aparecia nas reuniões importantes, assinava o que precisava assinar e desaparecia. Para você, esta madeireira sempre foi apenas uma conta bancária gigantesca.
Bella guardou mentalmente cada informação. Ainda havia tanto sobre Rebeka que ela desconhecia que qualquer conversa podia se transformar em uma armadilha. — Talvez eu tenha cansado disso.
— Você cansou de muitas coisas de uma vez.
Ela ergueu os olhos para ele. — Isso te incomoda?
Edward demorou alguns segundos para responder. — Ainda não decidi.
— Quando decidir, mande sua secretária me enviar um memorando.
Bella tentou passar por ele, mas Edward segurou delicadamente seu braço. O corpo dela enrijeceu imediatamente e ele percebeu, soltando-a quase no mesmo instante.
— Desculpe. Eu só queria dizer... obrigado.
— Pelo quê?
Edward olhou na direção do funcionário que quase havia sido atingido. O rapaz devia ter pouco mais de vinte anos e ainda parecia assustado com o que acontecera. — Por ter percebido antes de todos nós.
— Não precisa agradecer por isso.
— A antiga você teria exigido uma medalha.
Bella não conseguiu evitar um pequeno sorriso. — Talvez eu esteja ficando modesta.
— Não exagere. Aí eu realmente vou começar a me preocupar.
Ela riu, e por alguns segundos nenhum dos dois disse nada. Edward apenas a observou, sem aquela expressão desconfiada que carregava desde que ela chegara à mansão. Havia algo diferente naquele olhar, algo que Bella não queria interpretar, porque interpretar significaria admitir que também estava começando a olhar para ele de uma maneira que não deveria. Desviou os olhos e anunciou que precisavam ir para a reunião, mas, quando começou a caminhar, Edward a chamou novamente.
— Rebeka.
— O quê?
— Ficou serragem no seu cabelo.
Antes que Bella pudesse fazer qualquer coisa, Edward aproximou a mão e retirou delicadamente um pequeno fragmento de madeira preso entre seus fios. O gesto não durou mais do que dois segundos, mas foi suficiente para fazê-la prender a respiração. Quando os olhos dos dois se encontraram novamente, Bella sentiu o coração acelerar de uma forma que não tinha absolutamente nada a ver com medo de ser descoberta.
— Pronto — disse ele.
— Obrigada.
Edward sorriu discretamente antes de seguir em direção à saída do galpão, deixando Bella parada por alguns segundos. Aquilo precisava parar antes mesmo de começar. Edward era marido de Rebeka, pai dos filhos de Rebeka e, independentemente do tipo de casamento que os dois tivessem, Bella não podia esquecer que estava usando o rosto da irmã para receber olhares que nunca deveriam ter sido destinados a ela.
— Cuidado — Jasper disse atrás dela.
Bella virou-se rapidamente e percebeu que ele estava alguns metros distante. Não sabia havia quanto tempo estava observando.
— Com o quê?
Jasper passou por ela sem parar. — Com a parte da mentira que você começa a desejar que fosse verdade.
Bella permaneceu imóvel.
— Jasper...
Ele continuou andando como se não tivesse dito nada.
Vinte minutos depois, Bella estava sentada em uma das extremidades da enorme mesa da sala de reuniões. Edward ocupava uma cadeira próxima, Jasper estava do outro lado, enquanto Rosalie e Emmett conversavam discretamente mais adiante. Diante deles, seis diretores aguardavam o início da apresentação, e uma enorme tela mostrava gráficos de produção, custos, exportações e números que Bella tentava compreender sem demonstrar qualquer dificuldade. Naquele momento começou a perceber o tamanho do erro que havia cometido ao demonstrar tanto interesse pela empresa. A verdadeira Rebeka podia não trabalhar de verdade, mas certamente conhecia aquele negócio muito melhor do que uma mulher que, poucas semanas antes, sequer imaginava que algum dia entraria em uma madeireira daquela proporção.
Marcos, um dos diretores, levantou-se e abriu uma pasta. — Senhora Cullen, como solicitado, trouxemos os dados do lote de exportação.
Bella apenas assentiu. — Prossiga.
Um novo gráfico apareceu na tela. — Tivemos uma diferença de quatrocentos e oitenta metros cúbicos entre o volume registrado na saída do pátio e o volume declarado no terminal.
Edward imediatamente se inclinou para frente e Jasper parou de mexer na caneta que segurava. Bella percebeu a mudança dos dois e compreendeu que aquilo era importante. — Qual o valor da diferença? — Edward perguntou.
— Aproximadamente cento e oitenta mil dólares.
Marcos mudou novamente o slide e continuou explicando que inicialmente acreditavam se tratar de um erro de pesagem, porém a mesma diferença havia aparecido em outros três carregamentos. Jasper ergueu os olhos imediatamente. — Outros três? Por que estamos sabendo disso somente agora?
O diretor pareceu desconfortável. — Porque os relatórios anteriores foram autorizados como perdas operacionais?
— Autorizados por quem? — Edward perguntou.
O silêncio que surgiu fez Bella sentir alguma coisa ruim antes mesmo da resposta. Marcos olhou diretamente para ela.
— Pela senhora Cullen.
Bella permaneceu imóvel.
— Por mim?
— Sim, senhora.
Marcos colocou uma pasta diante dela. Bella abriu e encontrou relatórios, planilhas, autorizações de saída e documentos de transporte. No final de cada página havia a mesma assinatura elegante: Rebeka Cullen. Ela sentiu o sangue abandonar o rosto. Aquela era justamente a assinatura que havia evitado fazer na agenda de Tommy por não saber reproduzi-la, mas agora esse parecia ser o menor dos problemas.
Edward pegou um dos documentos. — Você classificou cento e oitenta mil dólares em madeira desaparecida como perda operacional?
Bella abriu a boca, mas nenhuma resposta surgiu imediatamente. Jasper inclinou-se discretamente para frente e ela percebeu seus olhos fixos nela. Ele estava observando a hesitação, a surpresa e principalmente a ausência de reconhecimento diante daqueles documentos. Bella sabia que precisava dizer alguma coisa antes que o silêncio se transformasse em uma confissão.
— Antes de me acusarem de qualquer coisa, quero entender para onde essa madeira foi.
Rosalie soltou uma pequena risada. — Finalmente alguma coisa que parece com você.
Edward ignorou a irmã. — Os documentos têm sua assinatura.
— Eu consigo enxergar isso, Edward.
Bella começou a folhear as páginas, procurando desesperadamente alguma coisa que pudesse ajudá-la. Datas, valores, destinos, empresas de transporte. Não entendia metade das informações, mas percebeu um padrão. Todos os carregamentos haviam passado pelo mesmo terminal.
— Marcos, quem fazia a conferência final desses carregamentos?
O diretor consultou algumas folhas. — Era um funcionário terceirizado.
— Nome.
Ele verificou novamente.
— Laurent Moreau.
Bella não conhecia aquele nome, mas imediatamente percebeu que os outros conheciam. Edward ficou imóvel, Jasper ergueu lentamente o rosto e até Rosalie perdeu a expressão debochada.
Bella olhou de um para outro. — Quem é Laurent?
Ninguém respondeu.
— Eu fiz uma pergunta
Edward fechou lentamente a pasta. — Alguém que não deveria aparecer em nenhum documento desta empresa.
— Por quê?
Ele olhou diretamente para Bella.
— Porque Laurent Moreau morreu há três anos.
A sala ficou completamente silenciosa. Bella tornou a olhar para os documentos e percebeu que as autorizações assinadas por Rebeka eram recentes. Uma delas havia sido emitida apenas duas semanas antes de Rebeka aparecer no Grand Hotel e oferecer a ela dinheiro suficiente para salvar Charlie em troca de assumir sua identidade.
Bella sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Desde o começo acreditara que Rebeka simplesmente queria fugir. Fugir de Edward, dos filhos, de Esme, de Carlisle e daquela vida que aparentemente odiava. Entretanto, enquanto observava a assinatura da irmã ao lado do nome de um homem morto, outra possibilidade começou a surgir em sua cabeça.
Talvez Rebeka não tivesse fugido daquela família. Talvez estivesse fugindo de alguma coisa que Bella ainda desconhecia.
E, pela primeira vez desde que aceitara aquela proposta, Bella se perguntou se sua irmã realmente a escolhera apenas porque eram idênticas ou se havia uma razão muito mais perigosa para colocar outra mulher exatamente em seu lugar.
Bella continuou olhando para o nome de Laurent Moreau impresso no documento enquanto tentava entender por que a simples menção daquele homem havia mudado completamente o clima da sala. Edward já não parecia irritado com as assinaturas de Rebeka, Jasper havia abandonado a postura provocadora que mantivera durante toda a visita à fábrica e até Rosalie, que poucos segundos antes parecia satisfeita por finalmente encontrar alguma prova de que a cunhada continuava sendo a mesma mulher de sempre, agora permanecia em silêncio. Bella fechou a pasta lentamente e voltou os olhos para Edward. — Se esse homem morreu há três anos, alguém está usando o nome dele. — Ou alguém está usando documentos antigos — respondeu Rosalie. — Documentos antigos com autorizações emitidas há duas semanas? — Bella rebateu, apontando para a data. Rosalie não respondeu, e Bella percebeu Jasper observando-a novamente. Precisava ter cuidado, mas naquele momento havia algo muito maior que sua identidade em jogo. Se Rebeka estava envolvida com aqueles carregamentos, Bella precisava descobrir antes que alguém decidisse cobrar dela uma dívida que pertencia à irmã.
— Quero todos os documentos relacionados a esses carregamentos na minha sala até o final do dia — ordenou Bella, olhando para Marcos. — Notas fiscais, registros de entrada e saída, câmeras, nomes dos motoristas, transportadoras e qualquer autorização assinada por mim. Ninguém apaga nada, ninguém altera nada e, principalmente, ninguém comenta sobre esta reunião fora desta sala.
Marcos assentiu imediatamente. — Sim, senhora Cullen.
Edward a observou por alguns segundos antes de se levantar. — A reunião acabou. Marcos, faça exatamente o que ela pediu.
Os diretores começaram a recolher seus documentos, e Bella permaneceu sentada enquanto tentava organizar os próprios pensamentos. Assim que a porta se fechou, Rosalie foi a primeira a quebrar o silêncio. — Então vamos simplesmente ignorar que todos aqueles papéis têm a assinatura dela?
— Ninguém está ignorando — Edward respondeu.
— Parece que estão. Se fosse qualquer outra pessoa desta empresa, Jasper já teria chamado os advogados.
— E provavelmente a polícia — completou Jasper.
Bella ergueu os olhos para ele. — Então chame.
Todos olharam para ela.
— O quê? — perguntou Rosalie.
— Se vocês acreditam que eu roubei a empresa, chamem a polícia. Mandem investigar cada carregamento, cada assinatura e cada centavo que desapareceu. — Bella empurrou a pasta para o centro da mesa. — Eu não tenho nada para esconder.
Jasper arqueou uma sobrancelha. — Essa é uma declaração bastante corajosa.
— Ou bastante simples quando alguém não fez nada.
A resposta saiu naturalmente e, por um instante, Bella esqueceu que tecnicamente estava defendendo Rebeka, uma mulher sobre a qual não podia garantir absolutamente nada. Edward, porém, pareceu satisfeito. Rosalie apenas pegou a bolsa e saiu da sala sem dizer mais nada, seguida por Emmett, que lançou um último olhar para Bella antes de acompanhar a esposa.
Jasper esperou os dois desaparecerem e se aproximou da mesa. — Posso fazer uma pergunta?
— Você nunca espera autorização mesmo.
— Você realmente não sabe quem é Laurent Moreau, não é?
O coração de Bella disparou.
Edward olhou para o irmão. — Jasper.
— Estou perguntando para ela.
Bella sustentou o olhar dele. — Eu sei exatamente o necessário para perceber que um homem morto não deveria estar conferindo carregamentos.
Jasper sorriu discretamente. — Bela resposta. Não respondeu absolutamente nada, mas foi bela.
— Chega — Edward interrompeu. — Laurent prestava serviços para nossa família anos atrás. Fazia intermediação de exportações, conhecia fornecedores, portos, transportadoras. Morreu em um acidente de carro quando voltava de Seattle.
Bella olhou novamente para o documento. — E alguém continuou usando o nome dele.
— É o que parece — respondeu Edward.
— Então vamos descobrir quem.
Ela se levantou e deixou a sala antes que Jasper pudesse fazer outra pergunta. Edward permaneceu observando a porta fechada por alguns segundos, mas Jasper continuava olhando para a cadeira vazia onde Bella estivera sentada.
— O que foi? — Edward perguntou.
— Nada.
— Conheço esse seu “nada”.
Jasper girou a caneta entre os dedos. — Você não acha estranho?
— O quê?
— Rebeka assina documentos envolvendo um homem que conheceu durante anos e depois pergunta quem ele é.
Edward ficou em silêncio.
— Ela acabou de dizer que não lembrava dele? — perguntou.
— Não precisou.
Jasper caminhou até a porta. — Seu problema, Edward, é que você está gostando demais dessa nova versão da sua esposa para fazer as perguntas certas.
Quando retornaram à mansão, o céu já começava a escurecer e Bella sentia como se tivesse vivido uma semana inteira dentro de um único dia. Tudo o que desejava era encontrar Carlisle e contar sobre os documentos, mas mal atravessou a porta e duas crianças surgiram correndo pelo corredor.
— Mamãe!
Bella parou.
Chloe chegou primeiro e abraçou suas pernas. Tommy veio logo atrás, mas diminuiu a velocidade ao perceber o que a irmã havia feito, como se ainda não soubesse se tinha permissão para demonstrar a mesma intimidade.
Bella sentiu o peito apertar.
— Oi, meu amor.
Abaixou-se e abraçou Chloe. Depois estendeu discretamente um braço para Tommy.
O menino hesitou. Bella não insistiu. Foi ele quem deu o último passo. Tommy aproximou-se e entrou no abraço.
Bella fechou os olhos por um instante enquanto envolvia os dois. Talvez aquilo fosse justamente o mais cruel de toda aquela mentira. No início pensara apenas em Charlie. Precisava salvar o pai e depois desapareceria daquela vida assim que Rebeka cumprisse sua parte. Não havia pensado que Tommy e Chloe existiriam, que Esme precisaria dela, que Carlisle confiaria nela ou que aquelas crianças começariam a procurar seu colo como se finalmente tivessem encontrado uma mãe.
Edward entrou na mansão alguns segundos depois e parou ao vê-los.
— Vocês dois não deveriam estar fazendo a tarefa? — perguntou Bella.
Tommy afastou-se. — Já terminei.
— Toda?
— Toda.
Bella estreitou os olhos. — Posso conferir?
A expressão do menino mudou imediatamente.
— Você vai conferir?
— Claro.
— Minha tarefa?
— Tommy, normalmente é isso que significa conferir sua tarefa.
Ele olhou para Edward como se precisasse confirmar que aquela situação estava realmente acontecendo.
Edward quase sorriu. — Não olhe para mim. Foi você quem disse que terminou.
— Está no meu quarto — respondeu o garoto.
— Então vá buscar.
Os dois correram escada acima e Bella soltou uma risada quando Chloe quase perdeu um chinelo no primeiro degrau.
— Não corram na escada! — gritou.
— Sim, mamãe! — responderam os dois ao mesmo tempo.
Quando Bella se virou, encontrou Edward olhando para ela.
— O quê?
— Nada.
— Hoje todo mundo resolveu responder “nada”.
Edward tirou o paletó. — Eu nunca vi Tommy pedir para você olhar a tarefa dele.
Bella tentou parecer indiferente. — Talvez porque eu nunca tenha perguntado.
— Exatamente.
Ele se aproximou, mas dessa vez manteve certa distância. — Você sabe que não precisa fazer isso para me impressionar, não sabe?
— Fazer o quê?
— Fingir interesse nas crianças.
A expressão de Bella mudou imediatamente. — Eu não estou fingindo.
Edward percebeu que havia tocado em alguma coisa.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Então escolha melhor as palavras.
Ela começou a subir as escadas, mas Edward a chamou.
— Rebeka.
Bella parou no terceiro degrau.
— Eu estava falando da mulher que você era, não da mulher que está sendo agora.
Ela olhou para ele por alguns segundos sem saber o que responder.
Edward continuou. — Eu passei tanto tempo esperando você olhar para Tommy e Chloe como uma mãe olha para os filhos que acho que esqueci como seria quando finalmente acontecesse.
Bella sentiu os olhos arderem e virou o rosto antes que ele percebesse.
— Eles sempre foram meus filhos.
— Eu sei.
Aquela resposta doeu mais do que uma acusação. Porque não eram.
Carlisle estava em seu escritório quando Bella entrou sem bater e fechou a porta atrás de si. Ele ergueu os olhos do livro que estava lendo e percebeu imediatamente sua expressão.
— Aconteceu alguma coisa.
Bella colocou a pasta que trouxera escondida da fábrica sobre a mesa. — Você conhece Laurent Moreau?
Carlisle ficou imóvel.
A reação foi pequena, mas Bella percebeu.
— Conheço.
— Ele morreu?
— Há aproximadamente três anos. Por quê?
Bella abriu a pasta e mostrou os documentos. Carlisle colocou os óculos e começou a analisá-los enquanto ela explicava tudo o que havia acontecido na reunião. Quando terminou, ele permaneceu em silêncio durante alguns segundos.
— Essas assinaturas são de Rebeka — disse finalmente.
— Tem certeza?
— Convivi com ela tempo suficiente para reconhecer.
Bella sentou-se diante dele. — Então ela sabia.
— Não necessariamente.
— Carlisle, são quatro carregamentos.
— Eu disse que as assinaturas são dela. Não disse que sei em quais circunstâncias foram feitas.
Bella passou as mãos pelo rosto. — Isso muda tudo. Rebeka apareceu no hotel duas semanas depois dessa última autorização. Ela me encontrou, me ofereceu dinheiro para salvar Charlie e desapareceu. E se ela já soubesse que alguma coisa estava prestes a acontecer?
Carlisle fechou a pasta.
— É possível.
— E se foi por isso que ela me colocou aqui?
Ele levantou os olhos.
Bella continuou antes que perdesse coragem. — Desde o início achei que ela queria liberdade. Que estava cansada de Edward, das crianças e dessa família. Mas e se ela precisava de alguém para ficar no lugar dela porque sabia que alguém viria atrás de Rebeka Cullen?
Carlisle não respondeu imediatamente.
— Então precisamos descobrir antes dessa pessoa — disse finalmente.
Bella respirou fundo. — Jasper está muito perto.
— Eu sei.
— Hoje ele perguntou diretamente se eu sabia quem era Laurent. Ele percebeu que não reconheci o nome.
Carlisle levantou-se e caminhou até a janela. — Jasper sempre foi observador. Durante o tempo em que serviu no exército, aprendeu a perceber pequenas mudanças no comportamento das pessoas. Não tente convencê-lo de que você não mudou, porque isso seria impossível. Faça-o acreditar que existe outra explicação para a mudança.
— Qual?
Carlisle voltou-se para ela. — Ainda não sei.
Bella soltou uma risada nervosa. — Excelente plano.
Ele sorriu. — Ninguém disse que seria fácil.
— Na verdade, Rebeka fez parecer muito fácil.
— Esse foi seu primeiro motivo para desconfiar dela.
Bella abaixou os olhos.
— Carlisle...
— Sim?
— Estou começando a gostar deles.
Ele compreendeu imediatamente.
— Das crianças?
Bella assentiu. — Delas, de Esme... de você. Até Emmett consegue ser suportável quando não está falando. — Carlisle sorriu, mas Bella continuou séria. — Isso não fazia parte do acordo. Eu deveria salvar meu pai, fingir ser Rebeka por algum tempo e depois ir embora. Mas Tommy me abraçou hoje.
— Bella...
— Ele hesitou antes de fazer isso. Como se tivesse medo de eu rejeitá-lo. Chloe não hesitou. Simplesmente correu para mim. — Bella sentiu uma lágrima escapar e limpou rapidamente. — O que vai acontecer com eles quando Rebeka voltar?
Carlisle não conseguiu responder. Porque ambos sabiam.
Mais tarde, Bella estava sentada na cama de Tommy conferindo os exercícios de matemática enquanto Chloe desenhava no chão. Para sua surpresa, Tommy havia acertado praticamente tudo, e o único erro estava em uma multiplicação simples. Bella explicou novamente, fez outra conta parecida e esperou até que ele encontrasse a resposta sozinho.
— Quarenta e oito?
— Isso.
O sorriso do menino surgiu imediatamente.
— Então acertei?
— Acertou.
Tommy fechou o caderno satisfeito. — Mamãe?
— Hum?
— Você vai continuar assim?
A pergunta fez Bella parar.
— Assim como?
Ele deu de ombros. — Assim.
Bella olhou para Chloe, que continuava desenhando sem prestar atenção na conversa.
— Não entendi.
Tommy abaixou a cabeça. — Legal.
Bella sentiu alguma coisa se partir dentro dela. Antes que pudesse responder, Chloe levantou uma folha.
— Olha!
Bella pegou o desenho. Havia cinco pessoas feitas com traços coloridos. Carlisle, Esme, Edward, Tommy e Chloe. Ao lado de Edward havia uma mulher de cabelos castanhos.
— Essa sou eu?
Chloe assentiu.
Bella sorriu, mas então percebeu uma coisa.
A mulher estava segurando a mão de Edward.
— E por que estamos de mãos dadas?
Chloe respondeu com a simplicidade cruel que somente uma criança poderia ter.
— Porque agora você gosta do papai.
Bella ficou sem reação. Tommy soltou uma risadinha.
— Cala a boca — Chloe reclamou.
— Eu não falei nada.
Bella devolveu o desenho. — Está lindo.
— Pode ficar.
— Tem certeza?
Chloe assentiu.
Bella beijou sua testa. — Então vou guardar.
Quando saiu do quarto alguns minutos depois, encontrou Edward encostado na parede do corredor.
— Há quanto tempo você está aí?
— O suficiente.
Bella sentiu o rosto esquentar. — Crianças inventam coisas.
— Eu sei.
Ela tentou passar por ele.
— Bella...
Seu corpo inteiro congelou.
Edward também. O corredor pareceu ficar silencioso demais. Bella virou lentamente o rosto.
— O que você disse?
Edward franziu a testa, como se ele próprio não entendesse por que aquele nome havia saído de sua boca.
— Eu disse Rebeka.
— Não. — A voz dela saiu baixa. — Você disse Bella.
Os dois permaneceram se olhando. Edward afastou-se da parede.
— Não sei por que disse isso.
Bella sentiu o coração bater violentamente.
— Conhece alguma Bella?
— Não que eu me lembre.
Ele deu um pequeno sorriso, tentando transformar aquilo em algo sem importância.
— Deve ter sido algum nome que ouvi hoje.
— Provavelmente.
Bella começou a caminhar.
— Rebeka.
Dessa vez ele pronunciou o nome correto. Ela parou.
Edward aproximou-se e colocou delicadamente a mão em seu rosto. Bella deveria afastá-lo. Sabia disso. Entretanto, não conseguiu.
— Tommy perguntou se você vai continuar assim — disse Edward.
Bella abaixou os olhos.
— Eu ouvi.
— Eu também queria saber.
Ela voltou a encará-lo.
— Você prefere como eu era antes?
Edward demorou alguns segundos para responder.
— Não.
Uma única palavra. Mas foi suficiente. Ele se aproximou lentamente. Bella percebeu o que aconteceria antes que acontecesse. E poderia ter impedido. Deveria ter impedido. Mas não o fez.
Os lábios de Edward tocaram os seus com cuidado, quase como se ele esperasse que ela o afastasse. Bella permaneceu imóvel por um instante, sentindo a culpa gritar dentro dela que aquele beijo não lhe pertencia, que aquele homem acreditava estar beijando sua esposa e que ela não era Rebeka.
Então Edward começou a se afastar. E Bella segurou sua camisa. Foi um gesto pequeno. Instintivo. Mas suficiente para fazê-lo voltar.
Dessa vez, quando Edward a beijou, Bella correspondeu. Por alguns segundos não existiram Rebeka, Charlie, Jasper, documentos falsos ou acordos. Existiam apenas os braços de Edward envolvendo sua cintura e uma sensação que Bella havia prometido a si mesma que jamais permitiria sentir.
Quando finalmente se afastaram, ela percebeu o que tinha feito.
— Eu preciso dormir.
Edward ainda parecia surpreso.
— Rebeka...
— Boa noite.
Bella entrou no quarto e fechou a porta antes que ele pudesse responder. Encostou as costas na madeira e levou os dedos aos próprios lábios enquanto tentava controlar a respiração.
Do outro lado da porta, Edward permaneceu parado. Pela primeira vez em anos havia beijado a própria esposa e sentido que estava beijando alguém completamente diferente.
E, pela primeira vez, isso não o assustou. Muito longe dali, em um quarto de hotel em Seattle, uma mulher de cabelos castanhos estava sentada diante de um espelho enquanto observava pelo notebook uma transferência bancária ser concluída. Ao lado do computador havia uma taça de vinho, um passaporte e um telefone que deveria ter permanecido desligado.
Rebeka Cullen sorriu ao ver o dinheiro entrar na conta. Tudo estava acontecendo como planejara.
Ou quase tudo. O telefone vibrou. Rebeka olhou para a tela. NÚMERO DESCONHECIDO. Ela ignorou.
O aparelho vibrou novamente. Na terceira vez, irritada, atendeu.
— Eu disse para não me procurar.
Durante alguns segundos ninguém respondeu. Então uma voz masculina falou do outro lado.
— Encontramos os documentos de Laurent.
O sorriso desapareceu do rosto de Rebeka.
— Onde?
— Na madeireira.
Ela levantou-se imediatamente.
— Quem encontrou?
— Seu marido estava na reunião. Jasper também.
Rebeka apertou o telefone.
— E ela?
O homem demorou um instante para responder.
— Sua irmã estava com eles.
Rebeka caminhou até a janela e observou as luzes de Seattle lá embaixo.
— Ela suspeita de alguma coisa?
— Ainda não sabemos.
Rebeka fechou os olhos por alguns segundos. Quando tornou a abri-los, não havia medo em sua expressão, apenas irritação.
— Então descubra.
— E se ela continuar investigando?
Rebeka olhou para o próprio reflexo no vidro. O mesmo rosto. Os mesmos olhos.
A mesma mulher que naquele momento dormia em sua cama, abraçava seus filhos e começava a conquistar um marido que ela nunca havia desejado.
— Bella foi colocada naquela casa para ocupar o meu lugar — respondeu friamente. — Não para investigar a minha vida.
— E se ela descobrir demais?
Rebeka pegou a taça de vinho.
— Então vamos lembrá-la de por que aceitou esse acordo.
— Charlie?
Rebeka sorriu.
— Charlie.
Ela desligou. Por alguns segundos permaneceu olhando para a própria imagem refletida na janela. Então ergueu a taça em direção ao reflexo.
— Aproveite enquanto pode, irmãzinha.
Bebeu um gole.
— Porque tudo o que você está começando a amar ainda é meu.
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