Impostora
5 DESEJOS E MENTIRAS
Bella continuava encostada na porta do quarto, os dedos sobre os próprios lábios e o coração batendo tão depressa que parecia impossível Edward não conseguir ouvi-lo do outro lado. Não sabia quanto tempo havia permanecido naquela posição desde que fugira do corredor, talvez alguns segundos, talvez minutos, mas o beijo ainda estava presente em sua boca e, pior do que isso, estava presente em seus pensamentos. Ela havia correspondido. Não podia culpar Edward, Rebeka ou o acordo que a colocara naquela casa. Quando ele começou a se afastar, fora Bella quem segurara sua camisa e o trouxera de volta. Pela primeira vez desde que entrara naquela mansão, não havia interpretado ninguém. Não pensara no que Rebeka faria, não escolhera palavras ou gestos para convencer alguém de que era outra mulher. Naqueles poucos segundos tinha sido simplesmente Isabella Swan, beijando um homem que jamais poderia saber quem realmente estava em seus braços.
A culpa veio logo depois. Edward era marido de sua irmã e acreditava ter acabado de beijar Rebeka. Tommy e Chloe acreditavam que ela era sua mãe. Esme a olhava como se finalmente tivesse recebido de volta uma filha que nunca existira, e até Carlisle, a única pessoa naquela casa que conhecia toda a verdade, começava a depositar nela uma confiança que Bella temia não merecer. Tudo aquilo deveria ser temporário. Rebeka resolveria o problema de Charlie, Bella devolveria aquela vida e voltaria para a sua. Era simples quando fora explicado em um quarto de hotel. Agora havia crianças esperando que ela conferisse suas tarefas, uma família começando a enxergar nela alguém diferente e um homem do outro lado daquela porta que acabara de despertar sentimentos que ela não tinha o direito de sentir.
Bella afastou-se quando ouviu duas batidas.
— Rebeka?
Ela fechou os olhos.
— O que foi?
— Podemos conversar?
— Amanhã.
Houve silêncio.
— Você sempre diz amanhã quando não quer conversar comigo.
Bella respirou fundo. — Então considere uma tradição do nosso casamento.
Esperava que Edward desistisse, mas ouviu a maçaneta se mover e lembrou tarde demais que não havia trancado a porta. Ele entrou devagar, fechando-a atrás de si, e por alguns segundos os dois apenas se encararam.
— Por que você fugiu?
— Eu não fugi.
Edward arqueou uma sobrancelha. — Você literalmente entrou no quarto e fechou a porta na minha cara.
— Eu estava cansada.
— Depois de me beijar.
Bella cruzou os braços. — Você me beijou.
— E você me puxou de volta.
Ela ficou sem resposta. Edward aproximou-se alguns passos.
— É exatamente disso que estou falando. Durante anos eu sabia quando você queria alguma coisa e quando não queria. Agora não sei mais. Em um momento você mal suporta que eu toque no seu braço, no outro me beija como se...
— Como se o quê?
Ele parou.
— Como se fosse a primeira vez.
Bella sentiu o estômago apertar.
Tecnicamente, para ela, era.
— Talvez você tenha esquecido como eu beijo.
— Não esqueci.
A resposta veio rápida demais.
Bella desviou o olhar.Edward continuou se aproximando até restar pouco espaço entre eles.
— Olhe para mim.
— Edward...
— Olhe para mim.
Ela obedeceu. Havia algo diferente nele naquela noite. Não era apenas desejo, tampouco a desconfiança que Bella se acostumara a encontrar em seus olhos. Havia uma espécie de esperança que a assustava muito mais. Edward parecia estar começando a acreditar que talvez ainda existisse alguma coisa para salvar naquele casamento.
— Eu não entendo você — ele confessou. — Não entendo o que aconteceu, não entendo por que começou a tratar minha mãe como uma pessoa, por que de repente se importa com Tommy e Chloe, por que decidiu trabalhar ou por que parece desconfortável toda vez que chego perto demais. Eu deveria estar desconfiando de tudo isso.
Bella sentiu a garganta apertar. — E não está?
— Estou. Mas existe outro problema.
— Qual?
Edward levou a mão ao rosto dela. — Eu gosto dessa mulher.
Bella perdeu a respiração.
— Não diga isso.
— Por quê?
— Porque não sabe o que está dizendo.
— Sei exatamente.
— Não, Edward. Não sabe.
Ele percebeu a tristeza em sua voz, mas antes que pudesse perguntar qualquer coisa Bella o beijou. Talvez porque estivesse com medo das perguntas, talvez porque soubesse que um beijo impediria Edward de continuar procurando respostas ou talvez porque, por mais errado que fosse, desejasse sentir novamente aquilo que sentira no corredor.
Edward correspondeu imediatamente. Dessa vez não havia crianças por perto, nem Jasper observando de algum canto, nem uma porta para Bella atravessar rapidamente. Havia apenas os dois e uma intimidade que crescia depressa demais. Edward a abraçou pela cintura e Bella permitiu que ele se aproximasse, esquecendo durante alguns instantes todas as razões pelas quais deveria interromper aquilo. Quando percebeu, estava sentada na beirada da cama com Edward diante dela, ainda beijando-a, e a consciência finalmente começou a lutar contra o desejo.
Ela precisava parar. Mas cada vez que pensava em fazê-lo, Edward a beijava novamente e Bella adiava por mais alguns segundos.
— Edward...
Ele afastou-se apenas o suficiente para olhá-la.
— Quer que eu pare?
A pergunta atingiu Bella de uma maneira inesperada.
Era a oportunidade. Bastava dizer sim. Entretanto, ela balançou a cabeça.
— Não.
Edward voltou a beijá-la e Bella fechou os olhos, permitindo-se esquecer por mais alguns instantes que ele acreditava estar com outra mulher. Os dois se deitaram e, à medida que a intimidade avançava, o medo começou a superar tudo o que ela estava sentindo. Bella nunca havia chegado tão longe com homem algum. Aquilo que para Edward era a aproximação natural entre marido e mulher seria, para ela, sua primeira vez. Ele não sabia disso. Não podia saber. Se percebesse sua inexperiência, poderia descobrir tudo.
E, quando Bella compreendeu que estavam prestes a ultrapassar definitivamente aquele limite, entrou em pânico.
— Ai!
Edward parou imediatamente.
— O que aconteceu?
Bella levou a mão à lateral do abdômen.
— Minha barriga.
A preocupação substituiu qualquer outra expressão no rosto dele. — Está doendo?
— Muito.
Edward afastou-se e sentou-se. — Desde quando?
— Desde a fábrica. Acho que bati quando fui separar aqueles idiotas.
A mentira saiu tão depressa que Bella quase se odiou por isso.
— Por que não me contou?
— Porque não parecia importante.
— Você quase dobrou de dor agora e não parecia importante?
Bella sentou-se lentamente, mantendo a mão sobre o lado do corpo. — Eu achei que tivesse passad.
Edward levantou-se. — Vou chamar Carlisle.
— Não!
Ele parou. Bella percebeu que respondera rápido demais.
— Não precisa chamar ninguém. É só uma pancada.
— Então deixa eu ver.
— Edward, não.
— Rebeka, se você se machucou...
— Eu disse que estou bem!
O silêncio que surgiu foi pesado. Edward afastou-se. Bella soube imediatamente que havia estragado tudo.
— Claro — respondeu ele friamente.
— Edward...
— Você faz isso sempre.
— Faço o quê?
— Me puxa para perto e depois encontra alguma maneira de me afastar.
— Não foi isso.
— Não? Porque parece exatamente isso.
Bella levantou-se. — Eu senti dor.
— E cinco segundos depois está em pé discutindo comigo.
Ela percebeu o erro tarde demais. Edward soltou uma risada sem humor e pegou a camisa.
— Inacreditável.
— Não precisa agir assim.
Ele virou-se. — Como você espera que eu aja? Há anos você me afasta, me humilha, trata nossos filhos como inconvenientes e minha família como se estivesse abaixo de você. Então, de repente, muda completamente. Começa a cuidar das crianças, ajuda minha mãe, entra na empresa, me beija no corredor e me faz acreditar por algumas horas que talvez alguma coisa entre nós ainda possa funcionar. E quando finalmente estamos juntos novamente, você inventa uma dor.
— Eu não inventei.
Edward encarou-a. Bella não conseguiu sustentar o olhar.
— Olhe para mim e diga isso.
Ela permaneceu calada. Ele assentiu lentamente.
— Foi o que pensei.
Edward caminhou em direção à porta.
— Onde você vai?
— Dormir em outro quarto.
— Edward...
Ele abriu a porta.
— Desculpa.
Edward parou.
Bella respirou fundo. — Eu não queria machucar você.
Ele permaneceu de costas.
— Então me diga o que está acontecendo.
Bella sentiu vontade de contar.
Naquele instante, mais do que em qualquer outro desde que chegara à mansão, desejou dizer seu verdadeiro nome. Queria contar sobre Charlie, sobre o Grand Hotel, sobre Rebeka e sobre o acordo. Queria explicar que aquele beijo no corredor tinha sido verdadeiro justamente porque fora Bella quem o beijara, não sua esposa.
Mas lembrou-se do telefonema de Rebeka.
Lembrou-se de Charlie.
— Eu não consigo.
Edward fechou os olhos por um instante.
— Então eu também não consigo continuar tentando adivinhar.
A porta se fechou. Bella ficou sozinha.
Sentou-se na cama e abraçou os próprios joelhos, sentindo as lágrimas finalmente surgirem. Tinha conseguido impedir que a intimidade avançasse antes que houvesse qualquer relação sexual entre eles, preservando um segredo que Edward jamais imaginaria: apesar de carregar o nome de uma mulher casada e mãe de dois filhos, Bella continuava virgem. Nada havia acontecido além daquele limite. Ainda assim, tinha a sensação de ter traído Edward de uma maneira muito pior, porque os sentimentos que começava a nutrir por ele eram verdadeiros.
Quase uma hora depois, Bella ainda estava acordada quando a porta tornou a abrir.
Edward entrou. Ela levantou os olhos surpresa. Ele trazia um copo de água e um comprimido.
— O que está fazendo aqui?
— Esta também é minha cama.
Bella enxugou discretamente o rosto. — Achei que fosse dormir em outro quarto.
— Eu também.
Edward colocou o copo sobre o criado-mudo.
— Carlisle disse que isso serve para dor muscular.
Bella arregalou os olhos. — Você falou com ele?
— Disse apenas que você bateu a lateral do corpo na fábrica.
Bella pegou o comprimido. — Obrigada.
Edward contornou a cama e deitou-se do outro lado.
— Edward...
— Não quero discutir mais hoje.
— Eu só queria dizer...
— Eu sei.
Bella olhou para ele.
— Sabe o quê?
Edward permaneceu alguns segundos em silêncio.
— Que existe alguma coisa que você ainda não consegue me contar. Não sei se é sobre nós, sobre a empresa ou sobre você. E não vou fingir que isso não me incomoda.
Bella abaixou os olhos.
— Mas?
Ele virou o rosto para ela.
— Mas hoje eu vi você entrar na frente de um funcionário que poderia se machucar. Vi nossos filhos correrem para você quando chegamos em casa. Vi Tommy feliz porque a mãe finalmente olhou a tarefa dele. Talvez eu esteja sendo idiota, mas prefiro essa Rebeka cheia de segredos à mulher que você era antes.
Bella sentiu os olhos se encherem novamente.
— Você me perdoa?
Edward respirou fundo.
— Pela mentira sobre a dor?
Ela assentiu.
— Sim.
— Por quê?
Ele apagou o abajur.
— Porque pela primeira vez em muito tempo eu acho que vale a pena descobrir quem é a mulher que está dormindo ao meu lado.
Bella ficou imóvel no escuro. Edward não fazia ideia de quão literal aquela frase era.
Poucos minutos depois, sua respiração se tornou tranquila. Ele havia adormecido. Bella, porém, continuou acordada.
Virou lentamente o rosto e observou o contorno dele na escuridão. Edward a perdoara por uma mentira sem saber que existiam dezenas de outras escondidas atrás dela.
Então o telefone sobre o criado-mudo vibrou. Bella pegou-o rapidamente para não acordá-lo. Havia uma mensagem de um número desconhecido.
Num Desconhecido: Pare de investigar os carregamentos.
Bella sentou-se devagar. Outra mensagem chegou.
Num Desconhecido: Você recebeu uma vida para representar. Não para fazer perguntas.
O coração dela disparou. Então surgiu uma fotografia. Charlie.
Seu pai estava saindo do tribunal, completamente alheio ao homem que o fotografava do outro lado da rua. A última mensagem apareceu segundos depois.
Num Desconhecido: Lembre-se do que está em jogo.
Bella levou a mão à boca. Ao seu lado, Edward continuava dormindo. Ela apagou a tela e permaneceu imóvel na escuridão. Agora tinha certeza. Rebeka estava observando. E Charlie ainda era a coleira que sua irmã mantinha presa ao pescoço dela.
Na manhã seguinte, Jasper encontrou Carlisle sozinho na biblioteca. Fechou a porta.
— Preciso fazer uma pergunta.
Carlisle levantou os olhos do jornal.
— Faça.
Jasper aproximou-se da mesa.
— Quem é Bella?
Por uma fração de segundo, Carlisle não reagiu. Mas Jasper viu. E sorriu.
— Interessante.
Carlisle dobrou lentamente o jornal.
— Por que está me perguntando isso?
Jasper colocou as mãos nos bolsos.
— Porque ontem à noite Edward chamou a própria esposa por esse nome.
Carlisle permaneceu em silêncio. Jasper inclinou a cabeça.
— E pela sua cara, pai...
O sorriso desapareceu.
— ...acho que acabei de descobrir que você sabe exatamente quem ela é.
Carlisle permaneceu sentado atrás da escrivaninha, segurando o jornal dobrado entre as mãos enquanto tentava decidir quanto Jasper realmente sabia. O filho continuava diante dele com aquela expressão que conhecia desde que era adolescente, a mesma que surgia sempre que encontrava uma informação aparentemente insignificante e começava a ligá-la a outras até formar uma resposta.
— Por que está me perguntando quem é Bella? — repetiu Carlisle, escolhendo cuidadosamente as palavras, mas Jasper aproximou-se mais da mesa e apoiou uma das mãos sobre a madeira.
— Porque ontem à noite Edward chamou a própria esposa por esse nome e, pelo que acabei de ver na sua reação, você sabe exatamente quem é essa pessoa. Então podemos perder alguns minutos fingindo que não aconteceu nada ou você pode facilitar as coisas e me explicar por que Rebeka voltou para casa sem saber dirigir o próprio carro, sem reconhecer pessoas que conhece há anos e agindo como se tivesse conhecido os próprios filhos pela primeira vez.
— Você está tirando conclusões absurdas a partir de mudanças de comportamento — respondeu Carlisle, deixando o jornal sobre a mesa. — Rebeka passou por muita coisa e talvez tenha finalmente percebido que estava destruindo a própria família.
Jasper soltou uma pequena risada e começou a caminhar lentamente pela biblioteca. — Foi exatamente isso que tentei acreditar. Uma crise de consciência explicaria ela tratar melhor Esme, poderia explicar a aproximação com as crianças e até o interesse repentino por Edward. O problema é que não explica o restante. Uma pessoa pode mudar de personalidade, pai, mas não esquece como dirigir um carro que usa há anos. Não esquece o nome de um homem que trabalhou com a família durante tanto tempo e muito menos olha para documentos com a própria assinatura como se estivesse vendo aquela assinatura pela primeira vez.
Carlisle percebeu que negar tudo apenas aumentaria a curiosidade do filho. — E o que exatamente você acredita que aconteceu?
Jasper parou diante da janela e virou-se. — Ainda não sei. Ontem eu teria dito que estava ficando louco, mas agora tenho um nome. Bella. E tenho você tentando me convencer de que tudo não passa de uma mudança de personalidade quando sua expressão acabou de confirmar que existe alguma coisa que não está me contando.
— Cuidado com as acusações que faz dentro desta casa.
— Não estou acusando ninguém. Estou tentando proteger meu irmão. Edward está começando a se envolver novamente com uma mulher que talvez nem seja quem afirma ser, e existem duas crianças no meio disso. Se você sabe alguma coisa, eu preciso saber.
Carlisle levantou-se e contornou a mesa. — Se eu soubesse de algo que colocasse Edward, Tommy ou Chloe em perigo, você realmente acredita que ficaria calado?
Jasper observou o pai por alguns segundos. — Não. É justamente por isso que ainda não contei nada para Edward. Se você está protegendo essa mulher, existe uma razão. Só ainda não descobri qual.
— Então talvez devesse parar de procurar problemas onde não existem.
— Talvez. — Jasper caminhou até a porta, mas antes de sair voltou a olhar para Carlisle. — Só existe uma coisa que você precisa entender. Eu não quero machucar Rebeka, Bella ou seja lá quem estiver vivendo naquela casa. Quero apenas descobrir a verdade antes que Edward descubra da pior maneira possível.
Quando a porta finalmente se fechou, Carlisle permaneceu imóvel durante alguns segundos. Esperou até ter certeza de que Jasper havia se afastado e então pegou o telefone, mas desistiu antes de ligar. Avisar Bella imediatamente poderia deixá-la ainda mais nervosa perto dele e Jasper perceberia. Precisavam agir normalmente, embora a palavra normalmente estivesse começando a perder qualquer significado naquela família.
Bella acordou com o braço de Edward sobre sua cintura e levou alguns segundos para compreender onde estava. A luz da manhã atravessava parcialmente as cortinas, e ele continuava dormindo atrás dela, tão próximo que Bella podia sentir sua respiração contra seus cabelos. A lembrança da noite anterior voltou de uma só vez e fez seu rosto esquentar. Ela havia permitido que a intimidade entre os dois avançasse muito mais do que pretendia e só interrompera tudo antes que efetivamente tivessem uma relação. A dor que inventara conseguira preservar seu segredo mais íntimo, mas não poderia repetir aquela desculpa para sempre. Edward acreditava estar casado com uma mulher experiente, mãe de seus dois filhos, enquanto Bella ainda era virgem e não fazia ideia de como continuaria escondendo isso se os dois permanecessem cada vez mais próximos.
Tentou retirar cuidadosamente o braço dele, mas Edward despertou e a puxou novamente. — Aonde pensa que vai?
— Levantar.
— Ainda está cedo.
— Algumas pessoas trabalham.
Edward abriu os olhos e olhou para ela com um sorriso sonolento. — Você dizendo isso continua sendo uma experiência estranha.
Bella tentou esconder o constrangimento. — Acostume-se.
— Estou tentando.
Por alguns segundos ele apenas permaneceu olhando para ela, e Bella percebeu que a discussão da noite anterior não havia desaparecido completamente. Edward levou a mão até a lateral de seu corpo, exatamente onde ela fingira sentir dor, mas parou antes de tocá-la. — Melhorou?
Bella sentiu culpa imediatamente. — Melhorou.
— Então realmente não precisa chamar Carlisle?
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho.
Edward assentiu, embora sua expressão mostrasse que ainda não acreditava totalmente. Em vez de insistir, aproximou-se e beijou sua testa. — Tudo bem. Não vou pressionar você.
Aquela compreensão era pior que qualquer discussão.
— Edward...
— Não precisa explicar agora. Só não invente outra dor quando não quiser alguma coisa. Você pode simplesmente me dizer não.
Bella abaixou os olhos.
— Você ficaria bravo?
— Talvez frustrado, dependendo da situação — respondeu ele com um pequeno sorriso. — Mas prefiro um não verdadeiro a uma desculpa.
Bella assentiu e se levantou. Antes de entrar no banheiro, olhou discretamente para o telefone sobre o criado-mudo. As mensagens da noite anterior ainda estavam ali, assim como a fotografia de Charlie. Não podia contar aquilo para Edward, mas também não podia obedecer cegamente à irmã. Se Rebeka havia colocado Charlie em perigo, Bella precisava descobrir exatamente o tamanho da armadilha antes de decidir o que fazer.
No café da manhã, a mansão parecia estranhamente tranquila. Esme conversava com Chloe sobre uma atividade da escola enquanto Tommy tentava convencer Emmett de que poderia faltar à aula porque estava com uma doença misteriosa que aparentemente não possuía nenhum sintoma. Rosalie lia alguma coisa no telefone, Alice falava sobre uma festa beneficente e Carlisle permanecia mais silencioso do que o habitual.
Bella percebeu imediatamente. Também percebeu Jasper. Ele estava sentado do outro lado da mesa, bebendo café e observando-a sem qualquer tentativa de disfarçar.
— Tem alguma coisa no meu rosto? — perguntou Bella.
— Não. Só estou pensando.
— Experimente fazer isso olhando para outro lugar.
Emmett riu. — Ela acordou simpática.
— Sempre fui.
Rosalie nem levantou os olhos do telefone. — Essa é provavelmente a maior mentira que você já contou.
Bella estava prestes a responder quando Chloe derrubou o copo de suco. A menina arregalou os olhos e imediatamente ficou imóvel, como se esperasse uma bronca. Bella pegou um guardanapo e começou a limpar a mesa. — Não aconteceu nada. Só levanta o copo antes que derrame no chão também.
Chloe obedeceu rapidamente. Bella percebeu tarde demais que todos estavam olhando para ela.
— O que foi agora?
Emmett apontou para o suco. — Estou apenas imaginando o funeral que teríamos realizado há alguns meses se alguém derramasse isso perto de você.
— Pessoas mudam, Emmett.
— Algumas parecem mudar de espécie — Jasper comentou.
Carlisle lançou um olhar discreto para ele. Bella percebeu.
— Tem alguma coisa que queira me perguntar?
Jasper colocou a xícara sobre a mesa. — Na verdade, tenho. Você conhece alguma Bella?
Carlisle fechou os olhos por uma fração de segundo. Edward ergueu o rosto imediatamente. Bella sentiu o corpo inteiro gelar.
— Bella? — perguntou Alice. — Quem é Bella?
Jasper não desviou os olhos dela. — É exatamente isso que estou tentando descobrir.
Edward encostou-se na cadeira. — Foi por causa de ontem?
— O que aconteceu ontem? — Rosalie perguntou, agora finalmente interessada.
Bella precisava reagir.
— Edward me chamou de Bella por engano.
Alice sorriu. — Durante o quê?
— Alice — Edward advertiu.
— Só perguntei.
Emmett começou a rir. — Isso está ficando interessante.
Jasper continuava esperando uma resposta. Bella pegou tranquilamente a xícara de café, embora suas mãos estivessem geladas.
— Não conheço nenhuma Bella. Talvez Edward esteja tendo sonhos com outra mulher e tenha resolvido me colocar no meio.
Rosalie riu. Edward balançou a cabeça.
— Eu sabia que isso acabaria virando problema.
— Você chamou sua esposa pelo nome de outra mulher — Emmett comentou. — Em qualquer casamento normal isso seria problema.
— O nosso nunca foi normal — Bella respondeu.
A conversa começou a se dissolver entre piadas, mas Jasper não riu. Bella percebeu que sua resposta não o convencera.
Então Tommy levantou-se.
— Vamos nos atrasar.
Bella olhou o relógio. — Tem razão. Peguem as mochilas.
As crianças correram para fora da sala, e ela aproveitou a oportunidade para levantar. Quando passou por Jasper, porém, ele falou baixo o suficiente para que somente ela ouvisse.
— Você mente melhor quando tem tempo para pensar.
Bella parou.
— E você é muito mais agradável quando está calado.
Ela continuou andando sem olhar para trás.
Horas depois, Bella estava sozinha no escritório da madeireira analisando os documentos dos carregamentos. Havia pedido cópias de tudo e começara a organizar as informações por data, tentando encontrar qualquer coisa que pudesse explicar a ligação entre Rebeka e Laurent. Não possuía experiência com empresas, exportações ou contabilidade, mas sabia procurar padrões, e quanto mais analisava aqueles papéis, mais estranha a situação parecia.
Os quatro carregamentos tinham passado pelo mesmo terminal, haviam sido conferidos pelo nome de Laurent e possuíam autorização de Rebeka. Entretanto, havia uma quinta remessa.
Bella aproximou o documento. Aquele carregamento não aparecera na apresentação. Estava programado para a semana seguinte. E também tinha sua assinatura.
— Não pode ser...
Pegou o telefone e fotografou o documento. Uma batida na porta a assustou.
— Entre.
Jasper entrou. Bella imediatamente fechou a pasta.
— Não tem trabalho?
— Tenho.
— Então por que está aqui?
Ele fechou a porta atrás de si. — Porque meu trabalho ficou muito mais interessante.
— Se veio falar sobre Bella novamente, pode economizar seu tempo.
— Não vim perguntar quem é Bella.
Jasper aproximou-se da mesa e colocou uma folha diante dela. Era uma cópia do registro de nascimento de Rebeka.
Bella perdeu a cor.
— Onde conseguiu isso?
— Arquivos públicos.
— E por que está investigando meu nascimento?
— Porque comecei procurando uma mulher chamada Bella.
Bella tentou manter a expressão neutra.
Jasper apontou para o documento. — O interessante é que praticamente não existe nada sobre Rebeka antes dos primeiros meses de vida. O registro original foi feito por um médico chamado Halloway, que curiosamente também aparece ligado a outro nascimento ocorrido no mesmo hospital e no mesmo dia.
Bella sentiu dificuldade para respirar.
— Isso não prova nada.
— Eu sei. Por isso continuei procurando.
Ele colocou uma segunda folha sobre a mesa. ISABELLA MARIE SWAN. Bella ficou imóvel. Abaixo do nome estavam a data de nascimento e os nomes dos pais. Charlie Swan e Renee Swan.
Jasper observou cada mudança em seu rosto.
— Isabella — disse ele lentamente. — Bella.
Ela ergueu os olhos. Não havia mais como fingir que aquele nome era desconhecido.
— Jasper...
— Vocês nasceram no mesmo dia, no mesmo hospital e possuem fotografias praticamente idênticas. Então vou perguntar uma única vez e quero que desta vez você não tente me tratar como idiota.
Ele aproximou-se.
— Onde está Rebeka?
Bella sentiu os olhos se encherem de lágrimas. Jasper finalmente tinha chegado à verdade. Ou perto o suficiente dela.
— Eu não sei.
A resposta o surpreendeu.
— O quê?
Bella respirou fundo. Talvez Carlisle a odiasse por aquilo, talvez Rebeka cumprisse a ameaça contra Charlie e talvez tudo terminasse naquele instante, mas continuar mentindo para Jasper já não parecia possível.
— Eu realmente não sei onde ela está.
Jasper permaneceu olhando para ela. Bella segurou o registro de nascimento com as mãos trêmulas.
— Meu nome é Isabella Marie Swan.
O silêncio se prolongou, mas dessa vez Jasper não pareceu satisfeito por ter acertado. Olhou para o rosto de Bella, depois para os documentos e novamente para ela, como se a confirmação fosse muito mais difícil de aceitar que a suspeita.
— Então você é irmã dela.
Bella assentiu.
— Gêmea.
Jasper passou a mão pelos cabelos e se afastou alguns passos. — Meu Deus.
— Eu descobri praticamente da mesma maneira.
— Carlisle sabe?
Bella permaneceu calada.
Jasper soltou uma risada incrédula. — É claro que sabe. Então era isso que ele estava escondendo.
— Ele descobriu depois que eu cheguei.
— Edward sabe?
— Não.
Jasper virou-se imediatamente. — Então vamos contar.
Bella levantou-se e segurou seu braço.
— Não!
Ele olhou para a mão dela. Bella soltou-o.
— Você não entende.
— Então me faça entender, porque neste momento tudo o que eu vejo é uma desconhecida fingindo ser esposa do meu irmão e mãe dos meus sobrinhos.
Aquelas palavras atingiram Bella com força.
— Eu fiz isso pelo meu pai.
Jasper permaneceu em silêncio enquanto ela contava. Bella falou sobre Charlie, a acusação, o dinheiro necessário para ajudá-lo, o encontro com Rebeka no Grand Hotel e a proposta para assumir temporariamente sua vida. Contou sobre a ameaça, sobre a promessa de que Charlie seria salvo e finalmente mostrou as mensagens que recebera na noite anterior, incluindo a fotografia dele saindo do tribunal.
Quando terminou, Jasper já não parecia furioso. Parecia preocupado.
— Ela está ameaçando seu pai.
— Desde o começo.
— E você acredita que Rebeka armou tudo contra Charlie?
— Não sei. Mas depois dos documentos da madeireira comecei a pensar que talvez meu pai seja apenas a maneira que ela encontrou de me controlar.
Jasper pegou o telefone e analisou a fotografia.
— Você respondeu?
— Não.
— Ótimo. Não responda.
Bella franziu a testa. — O que vai fazer?
— Descobrir quem tirou essa foto.
— Jasper, não.
— Você acabou de me contar que alguém está seguindo seu pai e espera que eu simplesmente ignore?
— Se Rebeka descobrir que contei...
— Ela não vai descobrir por mim.
Bella observou-o, surpresa.
— Você não vai contar para Edward?
Jasper demorou a responder. — Ainda não.
— Por quê?
Ele caminhou até a janela. — Porque, se tudo o que você contou for verdade, Edward descobrir sua identidade agora pode colocar Charlie em risco e alertar Rebeka de que perdemos o controle da situação. Primeiro vamos descobrir o que ela está fazendo.
Bella quase não acreditou.
— Você acredita em mim?
— Acredito nos documentos, nas mensagens e no fato de Carlisle estar protegendo você. Sobre o restante, ainda estou decidindo.
Ela assentiu. Era mais do que esperava. Jasper pegou novamente o registro de nascimento e guardou dentro da pasta. — Mas existe uma codição.
— Qual?
— Você não mente mais para mim. Se eu perguntar alguma coisa relacionada a Rebeka, Charlie ou esses carregamentos, quero a verdade.
Bella respirou fundo. — Tudo bem.
— E outra coisa. Pare de tentar imitar minha cunhada quando estivermos sozinhos. É irritante.
Bella quase sorriu.
— Você também é irritante.
— Pelo menos finalmente concordamos em alguma coisa.
Naquela mesma tarde, em Seattle, Rebeka entrou em um restaurante discreto usando óculos escuros e um casaco comprido. Escolheu uma mesa no fundo e esperou poucos minutos até um homem se sentar diante dela.
— Você demorou — reclamou.
— Tive que garantir que não estava sendo seguido.
Rebeka retirou os óculos. — E estava?
— Não.
— Então perdeu meu tempo por nada.
O homem colocou um envelope sobre a mesa.
— Temos um problema maior.
Rebeka abriu o envelope e encontrou fotografias de Bella entrando na madeireira, Edward ao seu lado e Jasper alguns passos atrás.
— Isso eu já sei.
— Não estou falando da fábrica.
Ele entregou outra fotografia. Charlie. Rebeka observou por alguns segundos.
— O que tem ele?
— Alguém começou a fazer perguntas sobre o processo.
Ela ergueu os olhos.
— Quem?
— Ainda não sabemos. Mas solicitaram cópias de documentos que deveriam continuar arquivados.
Rebeka apertou os lábios.
— Bella?
— Talvez.
— Ela não teria coragem.
— Talvez você esteja subestimando sua irmã.
Rebeka guardou as fotografias no envelope. — Bella passou a vida inteira servindo outras pessoas. Não sabe jogar esse tipo de jogo.
— Pelo que ouvi, está aprendendo rápido.
Ela lançou um olhar frio.
— Então faça com que pare.
— Como?
Rebeka permaneceu alguns segundos pensando. Não queria retirar Bella daquela casa ainda. A irmã continuava sendo útil, especialmente enquanto os problemas da madeireira permanecessem ligados ao nome de Rebeka Cullen. Além disso, se Edward e a família acreditassem que ela continuava em Forks, ninguém teria motivos para procurá-la.
— Não toque nela. Ainda preciso que continue sendo Rebeka por algum tempo.
— E Charlie?
Um sorriso discreto surgiu no rosto dela.
— Charlie é diferente. Não precisamos machucá-lo. Só precisamos lembrar Bella de que podemos.
Naquela noite, Edward estava no escritório da mansão quando recebeu um e-mail da equipe responsável pela auditoria dos carregamentos. Abriu o arquivo sem grande expectativa e começou a ler, mas uma informação chamou sua atenção.
As autorizações eletrônicas haviam sido feitas com as credenciais de Rebeka. Entretanto, o endereço de acesso não pertencia à mansão. Nem à madeireira.
O sistema registrava uma localização em Seattle. Edward franziu a testa e verificou as datas.
Uma das autorizações havia sido realizada enquanto Rebeka estava comprovadamente em Forks com ele. Aquilo era impossível. Ou alguém tinha acesso às credenciais dela.
Edward pegou o telefone e ligou para o responsável pela segurança digital.
— Preciso que rastreie todos os acessos dessa conta nos últimos seis meses. Não quero apenas cidade. Quero horários, dispositivos e qualquer informação que consiga recuperar.
Depois de desligar, permaneceu olhando para a tela. Havia outra coisa.
O acesso mais recente tinha acontecido naquela manhã. Enquanto Rebeka estava sentada diante dele no café da manhã. Edward fechou lentamente o notebook.
Pela primeira vez, a pergunta que o perseguia desde que sua esposa voltara para casa deixou de ser apenas uma sensação. Talvez Rebeka não tivesse simplesmente mudado. Talvez existissem duas pessoas usando o nome dela.
E, enquanto Edward tentava descobrir quem estava do outro lado daquela conta, Bella entrou no quarto sem imaginar que agora havia três pessoas dentro da mansão guardando partes diferentes do mesmo segredo: Carlisle sabia quem ela era, Jasper acabara de descobrir, e Edward finalmente começava a procurar sozinho pela verdade.
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