Impostora

6 UMA ESTRANHA EM MINHA VIDA


Bella entrou no quarto encontrando Edward sentado diante da pequena escrivaninha, com o notebook ainda aberto e uma expressão séria que imediatamente chamou sua atenção. Depois da conversa com Jasper, tudo o que desejava era tomar um banho e tentar organizar a quantidade absurda de coisas que haviam acontecido em apenas dois dias, mas bastou observar o marido para perceber que alguma coisa estava errada. Edward fechou o computador assim que ela se aproximou, num gesto discreto demais para parecer proposital e rápido demais para passar despercebido. — Aconteceu alguma coisa? — perguntou Bella enquanto deixava a bolsa sobre uma poltrona.

— Nada que não possa esperar até amanhã — respondeu ele, levantando-se.

Bella sustentou seu olhar por alguns segundos, sabendo que era mentira, mas também consciente de que não tinha o direito de exigir sinceridade enquanto escondia dele praticamente toda a própria existência.

— Tudo bem. Então amanhã você me conta.

Edward pareceu surpreso. — Só isso? Não vai perguntar onde eu estava, com quem falei e por que fechei o computador quando você entrou?

Bella começou a retirar os brincos diante do espelho. — Se quiser me contar, vai contar. Se não quiser, provavelmente vai inventar alguma coisa e eu vou perder meu tempo tentando descobrir.

— Você realmente não está bem.

— Por quê?

— Porque a Rebeka que eu conheço já teria arrancado esse computador das minhas mãos.

Bella sorriu discretamente para o espelho, mas por dentro aquela frase pesou. Edward falava cada vez mais sobre duas versões da mesma mulher, a antiga e a nova Rebeka, sem imaginar que sua percepção estava muito mais próxima da verdade do que poderia supor.

— Talvez a Rebeka que você conhecia estivesse cansada de viver brigando com todo mundo — respondeu enquanto soltava os cabelos.

Edward aproximou-se por trás e os olhos dos dois se encontraram pelo reflexo.

— E quem é essa Rebeka agora? — perguntou ele.

Bella sentiu um arrepio, mas manteve a expressão tranquila.

— Talvez você precise descobrir sozinho.

— É exatamente o que estou tentando fazer — respondeu Edward, e dessa vez havia algo naquela frase que Bella não conseguiu interpretar.

Ele não mencionou as credenciais da empresa, nem contou que alguém utilizara a conta de Rebeka naquela mesma manhã a partir de Seattle. Em vez disso, beijou delicadamente sua testa e anunciou que tomaria banho. Bella esperou a porta do banheiro fechar antes de respirar com alívio. Ainda não sabia que Edward começara sua própria investigação, mas percebia claramente que as perguntas dele estavam mudando. Antes, queria saber por que sua esposa estava diferente. Agora parecia querer descobrir quem aquela nova mulher havia se tornado.

Na manhã seguinte, Bella encontrou Carlisle e Jasper conversando na biblioteca antes do café. Fechou a porta e, pela primeira vez, não precisou se preocupar em imitar a postura ou a maneira de falar da irmã.

— Eu praticamente não dormi por culpa de vocês dois — reclamou, aproximando-se.

Jasper levantou os olhos de alguns documentos e sorriu.

— Interessante. Ontem você culpou Edward por isso.

Bella lançou um olhar mortal.

— Carlisle contou?

— Não precisei contar nada — respondeu Carlisle, contendo um sorriso.

— As paredes desta casa não são exatamente grossas e vocês discutiram bastante.

— Maravilhoso. Agora minha falsa vida conjugal virou entretenimento familiar.

Jasper empurrou uma cadeira para ela.

— Sente, Bella. Precisamos estabelecer algumas regras antes que você cometa outro erro.

— Eu sobrevivi sem suas regras até agora.

— Você também quase foi descoberta umas quinze vezes.

— Foram no máximo quatro.

Carlisle precisou esconder um sorriso, mas Jasper continuou sério.

— A primeira regra é justamente essa. Aqui dentro, quando estivermos sozinhos, você é Bella. No momento em que houver outra pessoa conosco, você volta a ser Rebeka. Não importa se estamos no meio de uma conversa sobre Charlie ou sobre sua irmã. Se alguém entrar por aquela porta, acabou.

Bella assentiu. — Isso eu já sei.

— Então segunda regra: não tente aprender tudo sobre Rebeka de uma vez. Quando alguém mencionar alguma coisa que você desconhece, não invente uma resposta complicada. Rebeka era arrogante o suficiente para ignorar metade das pessoas ao redor dela. Use isso.

— Finalmente a personalidade horrível dela serve para alguma coisa.

Carlisle sentou-se diante dos dois.

— Existe uma terceira regra mais importante. Edward não pode descobrir ainda.

Bella ficou séria. — Eu sei.

— Agora Jasper também sabe, o risco aumentou. Quanto mais pessoas carregam um segredo, mais difícil escondê-lo.

Jasper apoiou os braços sobre a mesa.

— E antes que pergunte, não mudei de opinião. Edward merece saber, mas não enquanto Rebeka estiver usando Charlie para controlar você e enquanto não soubermos o que está acontecendo com a empresa. Se ela realmente colocou você aqui para assumir as consequências de alguma coisa que fez, revelar a troca agora pode ser exatamente o que ela espera.

Bella olhou para ele. Ainda era estranho ouvi-lo falando sobre protegê-la. Menos de vinte e quatro horas antes, Jasper era a pessoa que mais temia dentro daquela casa. Agora se tornara a segunda pessoa que conhecia seu verdadeiro nome.

— Obrigada.

Jasper arqueou uma sobrancelha.

— Não se acostume.

— Pronto, voltou a ser insuportável.

Carlisle levantou-se quando ouviu passos no corredor.

— Rebeka.

Uma única palavra foi suficiente. Bella imediatamente compreendeu. A porta se abriu e Alice entrou.

— Bom dia! O que vocês três estão fazendo escondidos aqui?

A transformação foi instantânea. Bella cruzou as pernas, encostou-se na cadeira e assumiu a expressão indiferente que aprendera a usar sempre que precisava parecer sua irmã.

— Tentando ter cinco minutos de paz antes de você começar a falar.

Alice levou a mão ao peito.

— Bom dia para você também.

Jasper quase sorriu.

— Eu disse que ela estava melhorando — comentou.

Bella lançou um olhar para ele que possuía dois significados completamente diferentes. Para Alice, era apenas Rebeka irritada com Jasper. Para Jasper, era Bella avisando que poderia matá-lo.

Alice aproximou-se da mesa.

— Enfim, vim avisar que Esme quer todo mundo no café porque tem uma coisa para contar.

— Se for outro evento beneficente, diga que morri.

— Engraçado você mencionar isso.

Bella fechou os olhos.

— Alice...

— Café. Agora.

Quando Alice saiu, Jasper começou a rir.

— Não diga nada — Bella advertiu.

— Você foi perfeita.

— Odeio você.

— Essa parte também foi perfeita.

Esme aguardava todos na sala de jantar com uma animação que Bella ainda não tinha visto desde que chegara à mansão. Havia passado tanto tempo sedada pelos medicamentos que Rebeka lhe dava que aquela mulher alegre, elegante e cheia de energia parecia quase outra pessoa. Carlisle sentou-se ao lado dela, Edward ocupou seu lugar próximo a Bella, enquanto Alice, Jasper, Rosalie e Emmett continuavam discutindo alguma coisa sobre uma viagem. Tommy e Chloe tomavam café antes da escola e, durante alguns minutos, Bella simplesmente observou aquela família funcionando ao seu redor.

— Agora que finalmente todos resolveram aparecer, posso falar? — perguntou Esme.

Emmett apontou para Alice. — Eu estava pronto há dez minutos. Ela que começou.

— Ninguém perguntou — Rosalie respondeu.

Esme bateu delicadamente a colher na xícara.

— Chega. Este sábado acontece o jantar anual da Fundação Cullen e, antes que alguém invente uma doença, todos nós vamos.

Bella percebeu Alice sorrir imediatamente.

— Eu sabia!

— O que é a Fundação Cullen? — Tommy perguntou.

Bella quase fez a mesma pergunta. Edward respondeu antes que ela precisasse improvisar.

— É uma fundação criada pelo seu avô para ajudar hospitais, escolas e famílias que precisam.

Esme olhou para Bella.

— E este ano quero que sua mãe participe de verdade.

Bella sentiu todos os olhares se voltarem para ela.

— Eu?

Rosalie soltou uma pequena risada.

— Isso eu quero ver.

Esme ignorou.

— Durante anos você apareceu, tirou fotografias, fez um discurso escrito por outra pessoa e foi embora antes da sobremesa. Desta vez quero que fique conosco.

Bella respirou fundo.

— Tudo bem.

O silêncio foi imediato. Alice deixou o garfo cair no prato. Emmett arregalou os olhos.

— Desculpa, acho que ouvi errado.

— Eu disse que vou.

Esme parecia emocionada. — Mesmo?

— Se é importante para você, eu vou.

Bella percebeu a expressão de Edward mudar ao seu lado. Rosalie, entretanto, cruzou os braços.

— Agora quero realmente saber o que aconteceu com você.

Bella olhou diretamente para ela. — Talvez eu simplesmente tenha percebido que passei tempo demais sendo uma pessoa desagradável.

— Isso seria um milagre.

— Rosalie — Carlisle advertiu.

— O quê? Todo mundo está pensando.

Bella respirou fundo e decidiu não responder. Era exatamente aquilo que precisava aprender: melhorar aquela família sem transformar cada mudança em um espetáculo. Esme sorriu e segurou sua mão sobre a mesa.

— Obrigada, querida.

Bella apertou delicadamente seus dedos. Do outro lado, Jasper observava em silêncio. Ele agora entendia por que todas aquelas mudanças pareciam impossíveis.

A mulher diante dele não estava se tornando uma Rebeka melhor. Nunca fora Rebeka.

Depois que as crianças saíram para a escola, Edward alcançou Bella no corredor e segurou seu braço antes que ela subisse.

— Você realmente vai ao jantar?

— Acabei de dizer que sim na frente de oito pessoas.

— Você odeia esses eventos.

— Talvez eu esteja tentando não odiar tudo.

Edward sorriu. — Essa frase deveria entrar na história da família.

Bella tentou seguir, mas ele não a soltou.

— Tem mais uma coisa.

— O quê?

— Quero levar você a um lugar antes do jantar.

— Onde?

— É surpresa.

Bella estreitou os olhos. — Eu odeio surpresas.

— Essa parte de você não mudou.

— Edward...

— Sexta-feira, depois do almoço. Reserve algumas horas.

— Eu trabalho.

Ele começou a rir.

— Pare de rir toda vez que eu digo isso.

— Desculpa, ainda estou me acostumando.

Bella empurrou seu ombro e continuou andando. Edward permaneceu observando-a subir as escadas com um sorriso que desapareceu assim que ela dobrou o corredor.

Então pegou o telefone. Havia recebido uma nova mensagem da equipe de segurança digital. Identificamos o dispositivo utilizado no acesso de Seattle.

Edward abriu o relatório. O aparelho havia acessado a conta de Rebeka Cullen diversas vezes durante as últimas semanas. Havia ainda um endereço aproximado associado às conexões, localizado nas proximidades de um hotel no centro de Seattle.

Edward respondeu imediatamente. Não bloqueiem a conta. Não avisem ninguém. Quero saber quando esse dispositivo acessar novamente.

Guardou o telefone quando ouviu Bella descendo outra vez. Ela apareceu usando um casaco e carregando a bolsa.

— Vai sair? — perguntou Edward.

— Madeireira.

— Posso ir com você.

— Não precisa.

— Eu também trabalho lá, lembra?

Bella sorriu. — Às vezes esqueço.

Edward acompanhou-a até a porta, mas uma ideia já começava a tomar forma em sua cabeça. Se alguém em Seattle estava utilizando as credenciais de Rebeka enquanto sua esposa permanecia diante dele em Forks, havia apenas algumas possibilidades, e nenhuma delas era boa.

No carro, Jasper esperou até estarem longe da mansão antes de falar. — Agora pode parar de ser Rebeka.

Bella soltou o ar e relaxou contra o banco. — É cansativo ser aquela mulher.

— Está ficando boa nisso.

— Não sei se isso é elogio.

— Não foi.

Bella olhou pela janela durante alguns segundos antes de pegar o telefone. A fotografia de Charlie continuava ali. — Preciso vê-lo.

Jasper ficou sério. — Seu pai?

— Faz dias que só recebo informações através dos advogados. Depois daquela fotografia, preciso saber se ele está bem.

— Você não pode simplesmente aparecer.

— Eu sei.

— Para Charlie, Rebeka Cullen é uma desconhecida. Se alguém estiver observando vocês...

— Eu sei, Jasper.

Ele ficou alguns segundos em silêncio.

— Posso ir até ele.

Bella virou imediatamente. — Você faria isso?

— Posso dizer que estou ajudando na investigação do processo. Converso com ele, vejo se alguém estranho apareceu e descubro quem anda fazendo perguntas.

Bella sorriu pela primeira vez naquela manhã sem precisar pensar se Rebeka sorriria daquela maneira.

— Obrigada.

— Ainda não agradeça. Talvez seu pai me odeie.

— Charlie odeia praticamente todo mundo nos primeiros dez minutos.

— Então vamos nos dar muito bem.

Bella riu. Nenhum dos dois percebeu o carro que permanecia alguns veículos atrás.

Em Seattle, Rebeka estava diante do espelho quando recebeu as novas fotografias. Passou uma por uma até encontrar Bella entrando no carro de Jasper, depois outra dos dois conversando dentro do veículo e finalmente uma imagem em que sua irmã sorria para ele.

Rebeka franziu a testa.

— O que você está fazendo, Bella?

O telefone tocou.

— Fale.

— Temos movimentação no processo de Charlie novamente.

— Quem?

— Ainda não descobrimos. Mas existe outra coisa. Jasper Cullen começou a fazer perguntas fora da empresa.

Rebeka permaneceu em silêncio por alguns segundos enquanto observava novamente a fotografia dos dois no carro. Jasper não costumava ajudar Rebeka. Muito menos conversar com ela daquela maneira.

Aquilo não combinava com a relação que conhecia.

— Ele sabe — murmurou.

— O quê?

Rebeka aproximou a fotografia do rosto.

— Jasper descobriu quem ela é.

— Tem certeza?

— Não. Mas vou descobrir.

Rebeka caminhou até a janela enquanto pensava. Se Jasper soubesse da troca e ainda assim não tivesse contado a Edward, alguma coisa havia mudado. Talvez Bella tivesse conseguido convencê-lo a ajudá-la, o que seria inconveniente, mas ainda administrável. Carlisle era mais preocupante. Se os dois começassem a investigar juntos, poderiam chegar aos carregamentos e, consequentemente, a coisas que Rebeka precisava manter enterradas.

— Não façam nada com Jasper — ordenou. — Quero saber primeiro até onde ele chegou.

— E Bella?

Rebeka sorriu enquanto observava a fotografia da irmã.

— Bella continua exatamente onde eu preciso dela. Por enquanto, deixem minha querida irmã brincar de senhora Cullen.

Desligou e voltou a olhar para a imagem. Bella estava usando suas roupas, carregando seu sobrenome, administrando sua empresa, cuidando de seus filhos e dormindo ao lado de seu marido. Rebeka sempre acreditara que conseguiria abandonar tudo aquilo sem sentir absolutamente nada.

Entretanto, começava a descobrir uma sensação inesperada. Não era saudade. Era posse.

E perceber que outra mulher estava conseguindo ser amada dentro de uma vida que sempre lhe pertencera começava a incomodá-la muito mais do que imaginara.

Na madeireira, Bella e Jasper mal haviam entrado quando Marcos surgiu carregando uma pasta.

— Senhora Cullen, encontramos uma coisa sobre o quinto carregamento.

Bella olhou para Jasper antes de pegar os documentos.

— O quê?

— A transportadora solicitou alteração do destino ontem à noite.

— Para onde?

Marcos abriu a pasta e apontou para uma linha. Bella leu o endereço. Port Angeles.

Jasper aproximou-se.

— Quem autorizou?

Marcos virou a página. Havia uma autorização eletrônica. REBEKA CULLEN.

Bella sentiu um arrepio.

— Eu não autorizei isso.

Marcos pareceu confuso.

— Senhora?

Bella percebeu o erro imediatamente.

Jasper interferiu antes que ela precisasse corrigir.

— Ela quis dizer que não se lembra de ter autorizado. Cancele qualquer movimentação até verificarmos a origem do acesso.

Marcos assentiu e saiu. Assim que ficaram sozinhos, Bella olhou para Jasper.

— Foi ela.

— Provavelmente.

— Rebeka está movimentando a empresa enquanto eu estou aqui usando o nome dela.

Jasper fechou a pasta. — E isso significa que, se alguma coisa der errado, todos os documentos apontam para você.

Bella sentiu o medo crescer.

— Então o que fazemos?

Jasper pegou o telefone.

— Pela primeira vez, fazemos exatamente o que sua irmã espera.

— Como assim?

— Deixamos o carregamento seguir.

Bella arregalou os olhos.

— Você enlouqueceu?

— Se cancelarmos, Rebeka saberá que descobrimos. Se deixarmos seguir e acompanharmos sem que ela perceba, talvez finalmente descubramos quem está recebendo essa madeira.

Bella permaneceu em silêncio enquanto compreendia o plano.

— E se for perigoso?

Jasper guardou o telefone e abriu a porta.

— Bella, alguém colocou você dentro da vida de outra mulher, está ameaçando seu pai e movimentando centenas de milhares de dólares usando o nome que você está fingindo possuir. Acho que já podemos parar de trabalhar com a hipótese de que isso seja seguro.

Antes de saírem, Jasper voltou a olhá-la e reforçou que, dali em diante, até mesmo dentro da empresa ela deveria se lembrar de que qualquer funcionário poderia estar ligado à irmã. Para todos os outros, sem exceção, Isabella Swan não existia. Havia somente Rebeka Cullen, e continuaria assim até que eles descobrissem por que a verdadeira dona daquele nome havia colocado a irmã em seu lugar.

Do outro lado da cidade, Edward recebeu naquele mesmo instante um alerta no telefone informando que o dispositivo localizado em Seattle havia acessado novamente a conta de sua esposa.

Dessa vez, ele decidiu que não esperaria outro relatório. Na manhã seguinte iria pessoalmente a Seattle. E não contaria nada a Rebeka.

____

Na manhã seguinte, Edward saiu da mansão antes que o restante da família terminasse o café. Disse a Bella que precisava resolver um problema com um fornecedor e provavelmente voltaria somente no final da tarde, explicação que ela aceitou sem fazer perguntas, embora tenha percebido certa inquietação em seu comportamento. Edward beijou rapidamente sua testa antes de sair e, durante alguns segundos, Bella ficou observando o carro desaparecer pela estrada. Não sabia que o destino dele era Seattle e muito menos que, dentro do bolso do paletó, Edward carregava o endereço aproximado de onde as credenciais de Rebeka haviam sido utilizadas. Se soubesse, teria encontrado alguma maneira de impedi-lo, pois naquele momento duas pessoas diferentes estavam investigando a mesma mulher sem que uma soubesse da outra: Bella procurava entender por que a irmã a colocara naquela vida, enquanto Edward começava a suspeitar que havia alguém agindo em nome de sua esposa.

Edward dirigiu durante boa parte do caminho em silêncio, repassando mentalmente tudo o que acontecera desde que Rebeka voltara para casa. Por mais que tentasse encontrar uma explicação racional, as peças pareciam pertencer a histórias diferentes. Sua esposa havia mudado praticamente todos os hábitos, começara a tratar os filhos com carinho, preocupava-se com Esme, interessava-se pela madeireira e até sua maneira de reagir ao toque dele parecia diferente. Ao mesmo tempo, alguém em Seattle utilizava as credenciais de Rebeka para autorizar carregamentos suspeitos. Edward não acreditava em coincidências, mas ainda estava muito longe de imaginar a verdadeira explicação. A possibilidade que mais o incomodava era outra: talvez sua esposa estivesse envolvida em alguma coisa perigosa e sua mudança de comportamento fosse consequência disso.

Quando chegou a Seattle, estacionou algumas quadras antes do endereço indicado pelo relatório e continuou a pé. O local correspondia a um hotel sofisticado no centro, frequentado principalmente por empresários e turistas, e Edward permaneceu alguns minutos do outro lado da rua observando a entrada. Não sabia exatamente o que esperava encontrar. Talvez alguém ligado a Laurent, talvez um funcionário da madeireira ou simplesmente a confirmação de que a localização digital estava errada. Entrou no hotel e aproximou-se da recepção, apresentando-se como empresário e dizendo que procurava uma pessoa que poderia estar hospedada ali. Sem um nome, porém, a funcionária se recusou educadamente a fornecer qualquer informação.

— Eu entendo — respondeu Edward, retirando o telefone do bolso. — Talvez consiga me ajudar de outra maneira. Estou procurando alguém que utilizou a rede deste hotel ontem pela manhã. Preciso falar com o responsável pela segurança.

A recepcionista pareceu desconfiada. — O senhor é policial?

— Não.

— Então acredito que somente com uma ordem poderíamos fornecer esse tipo de informação.

Edward assentiu. — Imaginei que diria isso.

Guardou o telefone e se afastou, mas antes que alcançasse a porta percebeu uma mulher entrando no elevador ao fundo. Viu apenas cabelos castanhos, um casaco escuro e parte do perfil antes que as portas começassem a se fechar. Edward parou imediatamente, sentindo uma estranha familiaridade naquela imagem, e caminhou depressa na direção do elevador, porém chegou tarde demais. Observou os números subirem até o décimo primeiro andar e permaneceu parado por alguns segundos, tentando convencer a si mesmo de que estava procurando semelhanças onde provavelmente não existiam.

No décimo primeiro andar, Rebeka saiu do elevador sem imaginar que havia passado a poucos metros do próprio marido. Estava irritada desde a noite anterior porque o homem que contratara para acompanhar Bella ainda não conseguira descobrir quanto Jasper sabia. Entrou na suíte, jogou a bolsa sobre a cama e pegou o telefone para verificar as mensagens, encontrando uma fotografia recente de Bella saindo da mansão acompanhada pelas crianças. Observou a imagem por mais tempo do que pretendia. Tommy segurava a mão da irmã enquanto Chloe caminhava do outro lado, e os três pareciam formar uma família perfeitamente comum. O que começou a incomodar Rebeka não era propriamente saudade daquela vida, pois durante anos fizera tudo o que podia para permanecer distante dela, mas a percepção de que Bella começava a ocupar seu lugar com uma facilidade que não havia previsto. Aquela casa, o sobrenome Cullen, as crianças, a posição social e até Edward sempre haviam sido coisas que Rebeka considerava suas, mesmo quando não demonstrava qualquer desejo de cuidar delas. Ver outra mulher recebendo carinho justamente por fazer tudo aquilo que ela própria nunca quisera fazer despertava um sentimento de posse cada vez mais desagradável.

— Aproveite enquanto pode — murmurou enquanto deixava a fotografia sobre a mesa, sem imaginar que Edward estava naquele mesmo prédio.

Bella chegou à madeireira acompanhada por Jasper e encontrou Marcos esperando os dois no corredor administrativo. Depois do que acontecera no dia anterior, haviam combinado que o quinto carregamento seguiria aparentemente sem qualquer alteração, embora Jasper tivesse colocado duas pessoas de confiança para acompanhar discretamente cada etapa. Para todos os funcionários, entretanto, Rebeka Cullen continuava sendo a responsável pelas decisões, e Bella precisava representar aquele papel com ainda mais cuidado agora que sabiam existir alguém dentro ou próximo da empresa repassando informações à verdadeira Rebeka.

— O caminhão sai às três — explicou Marcos enquanto entregava uma prancheta. — A transportadora confirmou o destino em Port Angeles e solicitou que não façamos nenhuma alteração adicional.

Bella analisou o documento. — Quem fez a solicitação?

— O sistema registra sua conta novamente.

Ela ergueu os olhos, mas dessa vez lembrou-se de não cometer o mesmo erro. — Quero saber de onde partiu o acesso antes de alguém presumir que fui eu. Até descobrirmos o que está acontecendo, nenhuma autorização eletrônica em meu nome deve ser considerada suficiente sem confirmação pessoal.

— Entendido, senhora Cullen.

Quando Marcos se afastou, Jasper sorriu discretamente. — Melhorou.

— Estou aprendendo.

— Ainda acho assustador como consegue soar exatamente como ela quando está irritada.

Bella continuou andando. — Talvez seja coisa de família.

Entraram no escritório e fecharam a porta. Somente então Jasper deixou de chamá-la pelo sobrenome da irmã.

— Bella, antes que o caminhão saia preciso contar outra coisa. Pedi para um conhecido verificar a fotografia de Charlie e conseguimos identificar aproximadamente de onde ela foi tirada.

Bella imediatamente ficou séria. — Onde?

— Do estacionamento de uma cafeteria em frente ao tribunal. Estou tentando conseguir as imagens das câmeras, mas pode levar algum tempo.

— E meu pai?

— Falei com ele esta manhã.

Bella arregalou os olhos. — Você foi até Charlie?

— Fui.

— E não me contou?

— Se tivesse contado, você passaria a noite inteira me dando instruções.

— É meu pai, Jasper.

— Eu percebi isso nos primeiros cinco minutos.

Apesar da preocupação, Bella quase sorriu. — Como ele está?

Jasper encostou-se na mesa. — Desconfiado, mal-humorado e absolutamente convencido de que consegue resolver tudo sozinho. Então imagino que esteja normal.

Bella finalmente riu. — Esse é Charlie.

— Disse que estava ajudando a revisar algumas informações do processo. Ele não sabe quem você é para mim e muito menos que está vivendo na nossa casa.

— Ele falou alguma coisa sobre Rebeka?

— Não conhece nenhuma Rebeka Cullen pessoalmente, o que facilita bastante. Mas existe algo estranho no processo. A testemunha principal que colocou Charlie no local onde supostamente aconteceu o crime alterou o depoimento duas vezes.

Bella franziu a testa. — Meu advogado nunca falou disso.

— Porque as alterações foram pequenas, mas mudam horários importantes. Vou conseguir as cópias antes de tirar qualquer conclusão.

Bella aproximou-se. — Jasper, se Rebeka armou isso...

— Ainda não sabemos se foi ela.

— Mas você também está pensando.

— Estou pensando que sua irmã precisava de alguma coisa suficientemente importante para convencer uma desconhecida a abandonar a própria vida e assumir a dela. O problema de Charlie apareceu exatamente quando ela precisava de você desesperada. Isso merece ser investigado.

Bella permaneceu em silêncio enquanto tentava afastar a possibilidade mais dolorosa. Se Rebeka realmente tivesse provocado a situação de Charlie apenas para obrigá-la a aceitar a troca, tudo desde o primeiro encontro no hotel teria sido planejado muito antes de Bella sequer saber que possuía uma irmã.

Uma batida na porta interrompeu a conversa. Jasper imediatamente mudou de postura.

— Entre.

Rosalie apareceu. Bella sentiu o corpo enrijecer.

— Estou interrompendo alguma coisa?

— Sempre — respondeu Bella, voltando automaticamente ao papel de Rebeka.

Rosalie entrou e fechou a porta. — Curioso. Ultimamente você e Jasper passam bastante tempo juntos.

— Estamos trabalhando.

— Vocês dois? Sem tentar se matar?

Jasper levantou-se. — Também estou surpreso.

Rosalie olhou para os documentos espalhados pela mesa. — Edward sabe dessa investigação?

Bella respondeu antes que Jasper pudesse fazê-lo. — Não preciso pedir autorização ao meu marido para investigar dinheiro desaparecendo da empresa da minha família.

— Nossa família — corrigiu Rosalie.

Bella sustentou seu olhar. — Foi exatamente o que eu quis dizer.

Rosalie permaneceu alguns segundos observando-a e depois colocou uma pasta sobre a mesa. — Então talvez queira investigar isto também. Encontrei três pagamentos feitos para uma empresa chamada Victoria Consulting durante os últimos oito meses. Quase novecentos mil dólares.

Jasper abriu a pasta.

— Que tipo de serviço?

— Oficialmente, consultoria internacional. Na prática, ninguém sabe dizer o que fizeram.

Bella folheou os documentos. — Quem autorizou?

Rosalie sorriu de uma maneira que Bella já aprendera a detestar.

— Você.

Em Seattle, Edward ainda estava no saguão do hotel quando decidiu tentar outra abordagem. Sentou-se próximo ao bar e pediu café, mantendo os olhos nos elevadores enquanto verificava no telefone o último horário de acesso às credenciais. O dispositivo continuava conectado à rede do hotel. Isso significava que quem estivesse utilizando a conta de Rebeka provavelmente ainda permanecia no prédio.

Quase quarenta minutos depois, o elevador abriu. Edward levantou os olhos. Rebeka saiu acompanhada por um homem alto de cabelos escuros. Estava de perfil, usando óculos e conversando enquanto caminhava na direção de uma saída lateral. Edward sentiu o coração acelerar porque, durante uma fração de segundo, poderia jurar que estava olhando para a própria esposa. Levantou-se imediatamente e atravessou o saguão, mas um grupo de hóspedes passou entre eles e bloqueou sua visão. Quando conseguiu alcançar a saída lateral, viu apenas um carro preto deixando a rua.

Edward permaneceu na calçada. Aquilo não podia ser Rebeka. Ele havia deixado sua esposa em Forks naquela manhã.

Pegou o telefone e ligou. Bella ainda analisava os pagamentos apresentados por Rosalie quando seu celular começou a tocar. Ao ver o nome de Edward na tela, sentiu uma preocupação inexplicável.

— Oi.

Do outro lado, Edward demorou alguns segundos para falar.

— Onde você está?

Bella franziu a testa. — Na madeireira. Por quê?

Edward fechou os olhos enquanto observava a rua de Seattle.

— Com quem?

— Jasper e Rosalie. Edward, aconteceu alguma coisa?

Ele permaneceu em silêncio.

— Edward?

— Não. Só queria saber onde você estava.

Bella olhou para Jasper, que percebeu imediatamente que alguma coisa estava errada. — Onde você está?

— Resolvendo o problema que falei.

— Com o fornecedor?

Edward hesitou.

— Sim.

Bella percebeu a mentira, mas não insistiu.

— Tudo bem. Nos vemos em casa.

— Rebeka?

— O quê?

Edward olhou novamente para a direção em que o carro desaparecera. — Nada. Depois conversamos.

Ele desligou. Bella continuou olhando para a tela.

Rosalie cruzou os braços. — Problemas conjugais?

— Cuide do seu casamento que eu cuido do meu.

— Essa resposta parece mais com você.

Bella colocou o telefone sobre a mesa, mas Jasper percebeu a preocupação em seus olhos. Precisariam conversar quando Rosalie saísse.

No início da tarde, o quinto carregamento deixou a madeireira conforme programado. Jasper havia colocado um carro a uma distância segura para acompanhar o caminhão, enquanto Bella permaneceu na empresa com Rosalie analisando os pagamentos para Victoria Consulting. Quanto mais examinavam os documentos, mais evidente ficava que alguém havia construído uma estrutura para movimentar grandes quantidades de dinheiro utilizando as autorizações de Rebeka, mas Bella não conseguia determinar se a irmã era autora do esquema, cúmplice ou simplesmente tivera sua identidade empresarial utilizada por terceiros.

— Não entendo uma coisa — disse Bella enquanto observava uma das planilhas. — Se eu autorizei tudo isso, por que ninguém questionou?

Rosalie lançou um olhar estranho. Bella percebeu tarde demais como a pergunta soara.

— Você realmente quer que eu responda?

— Quero.

Rosalie fechou a pasta. — Porque ninguém questionava Rebeka Cullen.

Bella sustentou seu olhar.

— Por medo?

— Por dinheiro, medo, conveniência... escolha um. Você fazia o que queria e Carlisle passava metade do tempo tentando impedir que seus escândalos chegassem aos jornais. Edward desistiu de discutir com você há anos e os diretores aprenderam que era mais fácil assinar qualquer coisa do que enfrentar sua raiva.

Bella abaixou os olhos para os documentos.

— Então talvez tenha sido exatamente por isso.

— Por isso o quê?

— Alguém sabia que poderia usar meu nome porque ninguém teria coragem de perguntar.

Rosalie ficou em silêncio. Pela primeira vez desde que Bella chegara à mansão, as duas pareciam estar chegando à mesma conclusão.

— Talvez — admitiu Rosalie.

Bella entregou uma das folhas. — Quero descobrir quem é dono dessa Victoria Consulting.

Rosalie pegou o documento. — Já pedi.

— Quando?

— Antes de vir aqui.

Bella sorriu discretamente. — Talvez você seja útil afinal.

Rosalie devolveu o mesmo sorriso. — Não se acostume.

Edward voltou para Forks no final da tarde carregando mais perguntas do que respostas. Durante toda a viagem tentou convencer a si mesmo de que a mulher no hotel poderia apenas se parecer com Rebeka, mas havia alguma coisa naquela maneira de caminhar, no perfil e até no gesto de retirar os óculos que conhecia bem demais. Ainda assim, Bella atendera o telefone na madeireira e Rosalie confirmara indiretamente sua presença ao falar ao fundo durante a ligação.

Ao chegar à mansão, encontrou Esme organizando detalhes do jantar beneficente com Alice. — Onde está Rebeka?

Esme levantou os olhos. — Ainda na empresa. Desde quando você pergunta por ela assim que chega?

Edward ignorou a provocação.

— Jasper está lá?

— Acho que sim.

Ele subiu para o escritório e abriu o notebook. O relatório de segurança mostrava que o dispositivo de Seattle havia se desconectado da rede do hotel poucos minutos depois do momento em que vira aquela mulher sair.

A coincidência era grande demais. Edward abriu uma pasta antiga de fotografias. Começou a procurar imagens de Rebeka tiradas alguns anos antes, ampliando uma fotografia em que ela aparecia de perfil.

Comparou mentalmente com a mulher do hotel. Era o mesmo rosto. Ou pelo menos parecia ser.

Edward permaneceu sentado por muito tempo, tentando encontrar uma explicação que não parecesse absurda. Se a mulher em Seattle era realmente Rebeka, então quem estava vivendo em sua casa? Entretanto, a própria pergunta parecia tão impossível que ele se recusou a formulá-la dessa maneira. Preferiu considerar hipóteses mais razoáveis: uma irmã desconhecida, alguém extremamente parecido ou algum tipo de fraude envolvendo imagens e documentos. Ainda assim, nenhuma explicava por que sua esposa havia mudado exatamente no mesmo período em que outra mulher com sua aparência começara a utilizar suas credenciais em Seattle.

Fechou o notebook ao ouvir a porta principal. Bella havia chegado.

Naquela noite, o jantar transcorreu normalmente para quase todos. Tommy contou alguma coisa sobre a escola, Chloe insistiu para que Bella visse um desenho novo, Alice falava sem parar sobre o vestido que pretendia escolher para o evento da Fundação Cullen e Emmett provocava Rosalie sobre a quantidade de tempo que ela passara trabalhando com Rebeka sem que as duas discutissem seriamente.

Edward praticamente não falou. Bella percebeu. Jasper também. Carlisle foi o único que parecia perceber os dois percebendo.

Depois do jantar, Bella ajudou Chloe a guardar alguns brinquedos e encontrou Edward esperando no corredor quando saiu do quarto das crianças.

— Podemos conversar?

— Claro.

Ele entrou com ela no quarto e fechou a porta.

Bella deixou a bolsa sobre a poltrona. — Agora vai me contar o que aconteceu hoje?

Edward observou-a atentamente. — Primeiro quero perguntar uma coisa.

— Pergunte.

— Você tem alguma irmã?

Bella sentiu o chão desaparecer sob os pés.

Durante uma fração de segundo, não conseguiu respirar. Edward viu.

— Rebeka?

Ela virou-se lentamente para ele. — Por que está perguntando isso?

— Responda primeiro.

Bella precisava pensar. Carlisle dissera para não inventar histórias complicadas, e Jasper havia reforçado a mesma coisa. Para Edward, ela continuava sendo Rebeka e precisava permanecer assim.

— Não que eu saiba.

Edward franziu a testa.

— Não que saiba?

Bella cruzou os braços. — Fui adotada, Edward. Você sabe disso. Se está perguntando se meus pais biológicos tiveram outros filhos, não faço ideia.

Aquilo era verdade o suficiente para não soar ensaiado.

— Por que a pergunta?

Edward caminhou até a janela e permaneceu alguns segundos olhando para fora. — Hoje eu vi uma mulher.

Bella sentiu o coração disparar.

— Parabéns.

Ele virou-se, sem humor para a provocação.

— Uma mulher igual a você.

Bella não respondeu.

— Não parecida. Igual.

Ela tentou controlar a respiração. — Onde?

— Seattle.

O medo tomou conta dela. Rebeka. Edward havia visto Rebeka.

— E você falou com ela?

— Não consegui alcançar.

Bella sentiu um alívio imediato, mas não podia demonstrar.

— Então provavelmente viu alguém parecido comigo.

— Foi o que tentei acreditar durante toda a viagem.

Edward aproximou-se.

— Mas existe outra coisa que você precisa saber. Alguém está usando suas credenciais da empresa em Seattle.

Bella o encarou. Agora não precisava fingir surpresa.

— Como sabe?

— Mandei rastrear.

— Desde quando?

— Desde que descobrimos as autorizações.

Bella ficou irritada de verdade. — E não me contou?

— Você também não me conta muitas coisas.

A resposta atingiu exatamente onde deveria.

— Isso não te dá o direito de investigar minhas contas escondido.

— São contas da empresa, Rebeka. E alguém está movimentando dinheiro e madeira usando seu nome.

— Então deveria ter me contado.

— Talvez. Mas depois de hoje, fiquei feliz por não ter contado.

Bella aproximou-se. — O que isso significa?

Edward permaneceu olhando para ela por alguns segundos. — Significa que quero descobrir quem é aquela mulher.

Bella sentiu medo, mas também percebeu uma oportunidade. Se tentasse impedir Edward, ele desconfiaria ainda mais.

— Então descubra.

Ele pareceu surpreso.

— O quê?

— Você ouviu. Se existe alguém usando meu nome e se parece comigo, quero saber quem é.

Edward procurou qualquer sinal de mentira em seu rosto.

Bella sustentou o olhar.

— E se descobrir alguma coisa que você não vai gostar?

A pergunta era muito mais perigosa do que ele imaginava.

Bella respirou fundo. — Então eu lido com isso quando acontecer.

Edward assentiu lentamente.

— Certo.

Ele se afastou. Bella sentiu que sobrevivera à conversa por pouco.

Horas depois, quando Edward finalmente adormeceu, Bella saiu silenciosamente do quarto e caminhou até a biblioteca. Encontrou Carlisle e Jasper esperando por ela. Bastou fechar a porta para abandonar completamente a postura de Rebeka.

— Temos um problema enorme.

Jasper levantou-se. — Edward?

— Ele foi a Seattle hoje.

Carlisle franziu a testa. — Por quê?

— Rastreou os acessos da empresa até um hotel. E viu Rebeka.

Os dois ficaram sérios. Bella explicou tudo o que Edward havia contado e, quando terminou, Jasper começou a andar pela biblioteca enquanto pensava.

— Isso muda as coisas. Se ele viu sua irmã, vai continuar investigando.

— Eu sei.

Carlisle aproximou-se. — Ele suspeita de você?

— Perguntou se tenho uma irmã.

Jasper parou.

— E o que respondeu?

— Que não sei. Rebeka foi adotada, então seria possível existir algum irmão biológico desconhecido.

Jasper assentiu. — Boa resposta.

Bella passou as mãos pelos cabelos. — Não posso continuar fazendo isso para sempre. Agora Edward sabe que existe outra mulher igual a mim.

Carlisle segurou delicadamente seus ombros. — Você não precisa fazer isso para sempre. Só precisamos de tempo suficiente para entender o que Rebeka está planejando e garantir que Charlie esteja seguro.

Bella abaixou os olhos. — E depois?

Carlisle não respondeu imediatamente. Jasper também permaneceu calado.

Bella olhou para os dois. — Depois eu simplesmente vou embora?

A pergunta ficou no ar por alguns segundos, mas sua verdadeira preocupação não precisava ser explicada. Ir embora já não significava apenas voltar para Charlie. Significava abandonar Tommy e Chloe, deixar Esme, perder a família que começava a tratá-la com carinho e, principalmente, desaparecer da vida de Edward justamente quando os dois começavam a construir algo que ele acreditava estar reconstruindo com a esposa.

Carlisle percebeu.

— Quando chegar esse momento, nós encontraremos uma maneira.

Bella sorriu tristemente. — Não existe maneira de devolver uma vida depois de começar a amá-la.

Jasper desviou os olhos, respeitando uma dor que finalmente compreendia.

Em Seattle, Rebeka estava prestes a dormir quando recebeu uma ligação.

— Ele esteve aqui — informou o homem.

— Quem?

— Edward.

Rebeka sentou-se imediatamente na cama. — Tem certeza?

— Foi visto no hotel. Fez perguntas na recepção e tentou descobrir informações sobre a rede.

Ela ficou em silêncio enquanto reconstruía mentalmente os acontecimentos daquela manhã. Então se lembrou do homem que quase alcançara a saída lateral quando entrou no carro.

— Ele me viu.

— Provavelmente.

Rebeka levantou-se e começou a caminhar pelo quarto. Aquilo era ruim, mas não necessariamente desastroso. Edward podia suspeitar de uma irmã, uma fraude ou qualquer outra explicação antes de imaginar uma troca de identidade. Ainda havia tempo para conduzi-lo na direção errada.

— Preciso que prepare uma coisa.

— O quê?

Rebeka explicou lentamente o que queria.

O homem ficou em silêncio.

— Isso pode colocar sua irmã em uma situação complicada.

Rebeka sorriu enquanto observava o próprio reflexo no espelho. — Essa é justamente a ideia. Edward está procurando uma mulher igual à esposa. Então vamos dar a ele uma mulher para encontrar, mas não serei eu.

— E Bella?

— Bella continuará sendo Rebeka enquanto for útil. Se fizer tudo direito, meu marido vai terminar a investigação acreditando exatamente no que eu quiser que ele acredite.

Depois de desligar, Rebeka permaneceu diante do espelho. Durante anos nunca se importara quando Edward saía de casa irritado, quando as crianças evitavam sua presença ou quando Esme a observava com decepção. Agora, porém, bastava imaginar Bella sentada à mesa no seu lugar, recebendo o carinho dos filhos e dormindo ao lado de Edward para que aquela indiferença começasse a se transformar em um ciúme que ela própria se recusava a admitir. Não queria necessariamente recuperar aquela vida naquele momento, mas também não suportava a ideia de que Bella pudesse transformá-la em algo melhor e, principalmente, que a família Cullen descobrisse que preferia a impostora à mulher verdadeira.

Na Mansão Cullen, Bella dormia ao lado de Edward sem saber que Rebeka acabara de decidir interferir diretamente na investigação. E Edward, mesmo de olhos fechados, ainda não havia adormecido.

Continuava pensando na mulher que vira em Seattle e na esposa deitada a poucos centímetros dele. Pela primeira vez, estava começando a considerar seriamente que talvez existisse uma segunda mulher com o mesmo rosto. O que ele ainda não imaginava era qual delas estava em sua cama.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.