“I ask not to be alone” (Eu peço para não ficar sozinha)

Gabrielle sentiu um nó na garganta ao reler o poema.

“Xena, onde você está agora?”

Os sentimentos eram tantos que pareciam lhe transbordar a alma. Sua mão tremia, a garganta estava apertada, uma lágrima brotou em seus olhos.

Alguém bateu à porta de seu quarto.

-Gabby? Posso entrar? – A voz de Lila lhe perguntou.

-Entra. – Gabrielle secou a lágrima e tentou esconder a cara de choro.

A irmã entrou.

-Tudo bem? Desde o almoço que você está no quarto. Pensei que você estivesse aqui para nos ver.

-E estou. Mas quis descansar um pouco. Já estava indo falar com vocês.

As duas saíram do quarto e decidiram dar uma volta por Potédia, para que Gabrielle pudesse rever as pessoas. Ela aproveitou para tentar abafar as histórias que os aldeões contavam sobre ela. Não podia deixar que continuassem. Era por sua família que fazia aquele sacrifício.

Apesar de tudo, não prestava muita atenção. Só pensava em Xena, Xena, Xena. O tempo todo. Cada vez que fechava os olhos via os olhos azuis que tanto amava. Não conseguia tirá-la da cabeça.

“Xena, venha logo para me buscar aqui em Potédia... Sem você é a mesma coisa de estar sozinha. Por favor.”

O sol começava a se por quando Lila e Gabrielle voltaram para casa.

Um cavalo estava parado por perto. Um cavalo ou uma égua...

“Argo?”, pensou Gabrielle, com seu coração acelerando. Se realmente fosse Argo, isso significaria que Xena estava ali, três horas mais cedo do que o previsto.

As duas irmãs entraram em casa. Hécuba e Heródoto conversavam com uma visitante.

“You don’t have to ask me for my hand/ I already know where I stand” (Você não precisa pedir para segurar a minha mão/ Eu já sei onde eu me encontro)

Alta.

Cabelos negros e compridos.

Olhos azuis.

-Xena! – Gabrielle gritou, tentando não correr em sua direção para abraçá-la. – Pensei que você chegaria só mais tarde.

Xena não respondeu nada, só sorriu.

-Xena, por que você não passa a noite aqui? – Hécuba lhe perguntou – Lila pode emprestar o quarto dela para você e ela dorme no quarto de Gabrielle.

-Olha, Hécuba, eu sei que vocês estão com saudade de Gabrielle, mas nós estamos indo para a Índia, e quanto mais cedo começarmos nossa caminhada, melhor vai ser.

Heródoto, com um tom de reclamação, perguntou:

-Por que a pressa? Os deuses não vão tirar a Índia do lugar onde ela está!

-Pai, eu concordo com Xena. É melhor sair agora...

Alguns minutos mais tarde, Xena e Gabrielle já se despediam da família da barda. Hécuba, ao abraçar a filha, disse:

-Gabrielle, por favor, não mude muito. Nem mesmo cabelo, viu?

-Independente das mudanças que eu sofra, eu sempre vou ser a mesma pessoa, mãe.

Xena assobiou e Argo rapidamente apareceu. Prenderam as bolsas e mantimentos na égua e logo deixavam Potédia para trás.

-Xena, por que você chegou mais cedo?

-Não gostou da surpresa?

-Claro que gostei... Mas não respondeu a minha pergunta.

As duas caminhavam lado a lado. Com uma das mãos, Xena puxava Argo.

-Estava com saudades. – Com a outra mão, pegou a mão de Gabrielle.

Gabrielle sorriu para Xena, que sorriu de volta.

“I only want what I can’t have/ I only need what I don’t want/ I only want what I can’t have/ I only need what I don’t want”

Elas andavam pela floresta, de mãos dadas, em silêncio. Gabrielle se lembrava da conversa com Hécuba. Ainda era necessário fazer alguma coisa a respeito dos boatos (ainda que eles fossem verdadeiros, Gabrielle não podia deixar que as pessoas os comentassem. Isso aborreceria sua família, ela sabia. Além de tudo, sentia que seus esforços em diluir os boatos, naquela tarde, não haviam surtido muito efeito).

-Eh, Xena... A gente precisa conversar.

-Sobre o que?

-Durante essa horas que estive em Potédia, eu descobri uma coisa não muito boa. Minha mãe disse que em Potédia as pessoas estão dizendo...

-Dizendo o que?

-Que nós temos algo a mais.

-Gabrielle, e daí? – Xena deu um sorriso – Não é verdade?

-Por mim, eu contaria para todos, mas eu não posso.

-Gabby, me diz, existe alguma coisa que você não pode fazer? Você fugiu de casa, se tornou uma rainha amazona, salvou pessoas, derrotou exércitos usando o cajado, você persuadiu Ares e Afrodite... Além de tudo, você me salvou. Gabrielle, você pode tudo!

As palavras de Xena faziam sentido, mas havia muita coisa em jogo.

-Xena, isso não é por mim ou por você, mas pela minha família. Você sabe como meu pai é... ele se importa com o que as pessoas pensam e dizem, e ele não gostou muito da minha fuga para ficar com você... Eu não poderia decepcioná-lo mais do que eu já o decepcionei.

-Gabrielle, eu entendo, mas não concordo.

-Eu quero contar, Xena, mas eu não posso.

Continuavam andando. Já eram 10 horas da noite.

-Acho melhor parar de caminhar. Vamos acender uma fogueira comer alguma coisa e dormir.

Gabrielle concordou, e logo as duas já estavam dormindo.