Implacável
6 Capítulo 6
Notas iniciais
O nome desse capítulo foi inspirado na música de Adam Lambert "Sleepwalker". Não sou fã dele, mas acho essa música show :D Espero que gostem. Ah, e deem uma olhadinha nas notas finais :3
17h43, domingo, 19 de setembro
Rotherhithe Street, 3904
Apartamento de Ino Yamanaka
Greenwich, Londres, UK
Atroz adj. De grande perversidade, cruel, desumano, impiedoso. Horrível de suportar. Desagradável, horrível.
Ino suspirou mais vezes naquele minuto do que realmente pretendia. Tinha tido um dia relativamente tranquilo, até encontrar o carro de Gaara estacionado na frente da loja da sua família.
Tinha ido almoçar com os pais naquele domingo; Margareth tinha se esforçado para fazer uma receita mexicana de tacos, mas usou muita pimenta jalapeño no chili. Os tacos ficaram com um sabor atroz e Margareth teve de preparar frango com gengibre às pressas.
Após a comida, Ino despejou em seus pais a notícia de que passaria alguns meses viajando com Gaara. Como esperado, Margareth ficou nas nuvens, esperançosa pelo relacionamento da filha. Enquanto Inoichi fez uma expressão estranha, mas limitou-se a perguntar:
– E quanto a faculdade?
– Pedi uma licença no departamento de artes. Vou procurar ir em algumas palestras e exposições que e deem crédito. Como um programa de intercâmbio.
– Tem certeza de que não irá se prejudicar com essa viagem, querida? – sentiu a ambiguidade da pergunta, mas Ino tentou sorrir da melhor forma possível.
– Não se preocupe, papai. Eu vou ficar bem.
Margareth levou o restante da tarde tagarelando sobre a viagem de Ino, enquanto Inoichi foi para a varanda da charmosa casa em Greenwich — onde morava desde que se casara com Margareth -, se sentou nos degraus que levavam ao jardim dos fundos e pôs-se a fumar o cigarro que ele levava no bolso.
– Eu lembro que quando eu era pequena – Ino começou, vindo da cozinha com duas fumegantes xícaras de chocolate quente e se sentando nos degraus ao lado do pai, deixando com Inoichi uma das xícaras. -, a gente se sentava aqui nas noites mais amenas do inverno, você fazia chocolate quente e ficava contando histórias para Deidara e eu.
– Seu irmão não gostava de ouvir histórias. Ele era inquieto, como a sua mãe, e sempre que eu terminava de contar a história, ele admitia que não tinha escutado uma palavra. – Inoichi falou com brandura. – Fico imaginando que essa inquietude dele despertou o talento que ele tem para as artes.
– Acho que contribuiu o suficiente, papai. – Ino sorriu e bebericou seu chocolate quente.
– Vocês dois são parecidos, mas você tem o meu gênio, e por isso eu te conheço melhor que ninguém, querida. Não vou te questionar sobre as verdadeiras razões dessa viagem se você não quiser me contar. Só tenho medo de que você acabe saindo machucada dessa história.
– Papai...
– Só me prometa que vai ligar todos os dias. Que se tiver qualquer problema irá ligar, porque não importa onde estiver nós iremos lá para você, querida.
– Eu prometo, papai. – Ino murmurou, e abraçou o pai carinhosamente. – É por uma boa causa, papai. Eu juro que é.
– Sempre há outro caminho, filha.
– Mas nem sempre há tempo para seguir esse outro caminho.
– Se você acha que suas razões fazem com que isso valha a pena, então eu só tenho para lhe dizer que... eu a amo muito, filha. Jamais se esqueça disso; eu, seu irmão e sua mãe amamos muito você. Somos sua família e você sempre vai poder confiar em nós.
Ino estava prestes a chorar quando soltou o pai. Não demorou muito e começou a se sentir oprimida e terrível por mentir para o seus pais e preocupá-los tanto.
Foi pouco depois das cinco que Ino dirigiu para casa, devagar e desejando uma noite de domingo tranquila antes de seu embarque para a França na manhã seguinte. Mas seus planos foram frustrados ao ver o BMW série 7 de Gaara.
Parou Charlotte em frente ao luxuoso carro, fazendo uma careta com o contraste, e desceu apressada, indo em direção a Gaara, que também saía de seu carro.
– O que está fazendo aqui? Não ficamos de nos encontrar só amanhã? – Ino perguntou nervosa.
– Olá, Ino. Também é bom te ver. – Gaara respondeu sarcástico. Remexeu seu bolso e tirou de lá o passaporte de Ino, entregando-o para ela. – Vim lhe devolver isso. Consegui o visto americano, e com ele e a cidadania europeia podemos viajar sem muitos incômodos.
– Achei que fôssemos ficar na Europa, só.
– Eu tenho negócios no mundo inteiro, Ino. E vamos passar algum tempo em Israel, com minha irmã.
– Israel? Achei que ela vivesse em Istambul. – Ino falou esperançosa. Deidara vivia em Israel, talvez pudesse encontrá-lo.
– Sim, mas ela gosta de passar o inverno em Israel. Algum problema?
– Não, nenhum. É só que eu conheço uma pessoa que vive em Israel. Gostaria muito de visitá-lo.
Um brilho estranho cruzou os olhos de Gaara, mas foi tão rápido que Ino nem se dera conta. Estava feliz com a possibilidade de ver o irmão antes do verão.
– Então, de qual lata de lixo você tirou isso? – Gaara apontou com desdém para o fusca vermelho estacionado em frente ao seu carro.
A velha Charlotte tinha a pintura inteira, assim como o estofado e a cobertura do interior inteiros. Inoichi dera de presente para a filha no último natal a troca dos pneus e do velho som a fita de Charlotte por um som bem moderno; e sempre que podia, ele se certificava da mecânica do carro. O comentário de Gaara fez com que Ino ficasse vermelha de raiva.
– Charlotte é um clássico! Um clássico, está me ouvindo? – ela bufou. – Aposto que esse seu carro todo engomado não aguenta metade do tranco que Charlotte aguentou nesses últimos 30 anos!
– Essa armadilha tem até nome! – Gaara falou jocoso. E Ino percebeu que ele estava tentando irritá-la. Pensou que deveria ser mais um de seus testes quando Gaara voltou a falar. – Podemos dar um jeito nisso em breve.
– Nem pense em mandar seus capangas se livrarem de Charlotte. Ela é uma senhora idosa, tem muita experiência, mas funciona muito bem! Uma verdadeira dama!
– Eu imagino como Lady Charlotte ficará enquanto você estiver fora?
– Com meu pai. Ele a usa para algumas entregas. E isso não é do seu interesse. – Ino resmungou com pouco humor. – Se me der licença, vou terminar de arrumar minhas coisas.
– Não leve muitas coisas. – Gaara advertiu. – Compraremos roupas novas para você em breve.
– Eu não preciso de roupas novas. – murmurou.
Os olhos de Gaara recaíram sobre a roupa que Ino estava usando naquele dia. Era uma longa saia bege com mandalas coloridas estampadas, junto a uma blusa preta, com o símbolo do Batman estampado na frente, um cardigã marrom claro com uma interessante estampa folk e sapatilhas vermelhas de camurça. Levava no braço uma jaqueta college preta, que certamente não era dela, pois parecia muito grande.
– Vamos comprar roupas durante a viagem. – Gaara falou categórico, já voltando a entrar no carro assim que Baki tinha aberto a porta para ele.
愛
Ino parou em frente a área do embarque internacional junto de seus pais e Tenten. Inoichi tinha feito questão levar a filha no aeroporto, ainda que Ino insistisse de que Tenten poderia levá-la em Charlotte.
Tinham chegado meia-hora antes do horário combinado com Gaara, e acabaram esperando pelo ruivo sentados em um aconchegante café no saguão do aeroporto. Ino estava com a cabeça encostada no ombro de Inoichi, o rosto tinha uma expressão vazia, enquanto Margareth e Tenten conversavam animadamente sobre lugares que Ino poderia visitar.
O tempo corria de forma amena, quando uma movimentação chamou a atenção dos quatro. Seguido por um grupo pequeno de fotógrafos, Gaara entrava no aeroporto. Tinha óculos escuros e vestia-se da maneira mais despojada que pôde, ainda que ele parecesse um pouco sério. Não demorou muito e ele já vinha na direção de Ino, espalhando o seu charme de uma forma covarde em Margareth, e deixando Inoichi um tanto quanto surpreso.
– Bom dia. – ele falou formalmente, aproximando-se de Ino.
– Gaara, quanto tempo! – Tenten se levantou e foi cumprimentar Gaara com um abraço amigável, fazendo-o entender o teatro.
– Muito tempo mesmo. – Gaara falou polidamente. Em seguida, se virou para Ino, assentindo discretamente. – Não vai me apresentar os seus pais, Ino?
– Oh, eu... – olhou para os pais com um sorriso nervoso, e começou. – Pai, mãe, esse é Sabaku no Gaara. E Gaara, estes são Yamanaka Inoichi e Margareth, meus pais.
– Um prazer, senhor e senhora Yamanaka. – beijou a mão de Margareth, que foi nas nuvens com o gesto, e apertou com firmeza a mão de Inoichi.
– Então, garotos, há quanto tempo se conhecem? – Inoichi olhou passivamente de Ino para Gaara, que mantinha-se confortável ao lado da moça.
– Um par de anos. – Gaara disse suavemente. – Ino entrou no mesmo táxi que eu, na França, há alguns anos. E insistiu com veemência que eu deveria lhe ceder o táxi por quase meia hora. O atrevimento da sua filha foi tão... fascinante, que...
– Gaara não quis sair do táxi, e o dividiu comigo. – Ino falou apressada.
– Enfim, sua filha incitou minha curiosidade, senhor Yamanaka. E desde então...
– Gaara, não devíamos nos apressar? Vamos perder o voo! – ela falou exasperada. Queria sair dali antes que seu pai começasse a fazer mais perguntas.
– Qual a graça de se ter um jato particular se ele não pode esperar por você? – o sorriso de Gaara afetou Ino e quase fez Margareth desmaiar de encanto. – Além disso, temos que esperar autorização da torre.
Ino se encolheu ainda mais perto do pai, enquanto Gaara conduzia uma agradável conversa com Margareth e Tenten. Inoichi percebia o quanto a filha estava estranhamente retraída, não só na presença daquele homem, mas o fim de semana inteira, e quando, discretamente, perguntou se Ino estava bem, recebeu uma resposta suave:
– Só estou nervosa pela viagem, papai. Vou sentir muitas saudades.
– Ino. – Gaara chamou sua atenção delicadamente. – Temos autorização para decolar. Quer sair agora ou ficar mais um pouco com seus pais? Temos tempo.
– É melhor irmos, ou vamos nos atrasar. – se ergueu, acompanhada pela sua família.
Baki foi encontrá-los no saguão, e os guiou para uma sala VIP do aeroporto enquanto a bagagem era embarcada. Ino despediu-se dos pais rapidamente, não desejando estender muito aquele momento. Tenten apenas lhe abraçou e desejou sorte; e quando Ino finalmente se acomodou no luxuoso assento do jato de Gaara, sentiu seus músculos relaxarem quase instantaneamente.
– Quero entender. – Gaara começou cautelosamente, com sua seriedade atual de volta, logo que se acomodou no assento de frente a Ino. – Você demonstra confiar muito em seu pai. Na verdade, era como se estivesse usando ele para se proteger de mim. Conta a verdade de nosso acordo para sua amiga e deixa que a imaginação da sua mãe corra livre sobre nosso “relacionamento”. Mas parece estar aliviada agora que eles estão longe.
– Tenten é minha melhor amiga, e a única pessoa que poderia entender aquele contrato absurdo. – Ino falou com um suspiro contido. – Meus pais não precisam saber do nosso acordo. Em seis meses isso vai ter acabado, e eles, como todo mundo, vão acreditar que foi só um relacionamento que não deu certo.
– Mas...? – ele desejava que Ino continuasse.
– Eu me sentia pressionada, em mentir desse jeito para os meus pais. Principalmente para o papai... – apertou os punhos e respirou profundamente. Não queria mais falar sobre aquilo. – Quanto tempo levaremos para chegar?
– Duas horas até Paris, e um voo curto até Lyon. Ficaremos três dias em Lyon e depois partiremos para Marselha por uma semana.
– Não vamos ficar em Paris? – Ino perguntou um pouco decepcionada.
– Se quiser, podemos encurtar nossa estada em Marselha para que passemos alguns dias em Paris. Vou visitar um conhecido, e não acho que ele vai se importar se...
– Não, não faça isso. Eu só pensei que seus negócios seriam na capital.
– Não gosto de concentrar meus negócios nos centros econômicos. – Gaara falou suavemente.
Após a decolagem, não trocaram muitas palavras. O cansaço e a pressão dos últimos dois dias se abateram sobre Ino, e em menos de quinze minutos depois que o jato começou a voar, Ino caiu em um sono pesado. Não sonhou, e só acordou horas depois.
Sentiu que estava em movimento, mas não estava no avião. Sonolenta, perdeu a noção do tempo. Logo braços fortes a estavam suspendendo, e quando Ino finalmente tomou consciência, estava deitada em uma grande e macia cama de um elegante quarto.
– Finalmente acordou. – a voz grave de Gaara a despertou quase instantaneamente. Ino se sentou de supetão na cama, e encarou a figura sexy e tentadora de Gaara saindo do banheiro.
Tinha acabado de sair do banho, ainda havia algumas gotas de água em seu torso nu e o cabelo vermelho estava completamente molhado. Ele vestia apenas uma calça preta, a camisa branca e a gravata preta estavam jogadas no recaimer.
Ino corou violentamente quando o viu usar a toalha que estava em seus ombros para terminar de secar o cabelo, deixando deliciosamente bagunçado, como a própria Ino definira. Assim que terminou de se secar, Gaara jogou a toalha para um canto e andou até a cama, sem deixar de encarar a face abobalhada de Ino. Ele pegou a camisa e a vestiu, deixando-a desabotoada; queria encontrar sua colônia primeiro.
– Boa... noite? – Ino falou ainda perdida no horário.
– Boa tarde, Ino. Ainda são quinze horas. Você realmente estava cansada, dormiu o trajeto inteiro. – Gaara comentou enquanto abotoava a camisa e dava um nó na gravata.
Assim que terminou de se vestir, Gaara calçou os sapatos e pegou a costumeira bengala que ele usava, preparando-se para sair.
– Houve um problema com nossas reservas. Chegamos um pouco mais cedo que o previsto e seu quarto só ficou disponível há uma hora. – ele disse sério, mas estava se esforçando para ser educado.
– Você me trouxe para cá? – Ino perguntou timidamente.
– Você parecia ter entrado em coma. Não acordou nem mesmo quando pousamos em Paris e em Lyon. De qualquer modo, suas malas já estão em seu quarto. – Gaara começou a vasculhar uma pasta de documentos preta que ele tinha guardado no cofre do armário. – Algum problema com o fato de eu ter lhe carregado, senhorita Yamanaka?
– Eu só achei que... bem, foi muito legal da sua parte e... ainda mais com o problema da sua perna. – suspirou, tentando não mostrar que estava nervosa. Gaara poderia não estar olhando para ela, mas sentia que Ino queria algum tipo de informação sobre ele.
– Eu não sou um inválido, senhorita Yamanaka. – ele comentou sem emoção na voz. – Utilizo a bengala para evitar que a lesão do meu joelho piore, mas consigo caminhar sem ela.
– Desculpe, não quis ser indelicada.
– Se concentre em outras coisas, senhorita Yamanaka. – Gaara falou seco. – Naquela mala, — apontou uma elegante mala preta grande encostada perto da porta. – você vai encontrar uma caixa, com algumas coisas que você pode precisar e nela também tem um computador para você. Ele possui acesso a internet, você pode pesquisar algo para fazermos a noite. Tenho que encontrar alguns investidores, volto às seis.
– Alguma preferência para hoje?
– Nada de casas noturnas. Detesto barulho. – dizendo isso, Gaara saiu do quarto, despedindo-se com um mero aceno de cabeça na direção de Ino.
Ino bocejou longamente e rastejou para perto da mala que Gaara tinha indicado. Ela estava pesada, e Ino mal conseguiu colocá-la no recaimer. Quando abriu, se impressionou com a quantidade de eletrônicos. Fora a caixa marrom com um envelope colado com o nome de Ino, havia mais três notebooks, dois iPads e vários celulares em um suporte no interior da mala.
Tirou somente a caixa com seu nome, e guardou a mala com cuidado no canto do quarto. Sabe-se lá quantos mil euros tem aí!, Ino pensava enquanto abria o envelope. Nele havia um pequeno bilhete de Baki.
Para o seu conforto, um computador e um celular com números úteis à senhorita. As chamadas de seu celular antigo serão todas encaminhadas para o novo aparelho, que também possui acesso a internet.
Baki
Era meio o frio, o bilhete, mas Ino admirou o cuidado que ele teve em escrevê-lo. Na caixa, havia um moderno notebook Dell e um Blackberry. Olhou a agenda e viu que havia o número de seus pais, de Baki e de Gaara. Ino se apressou em gravar o número de Tenten e olhar seu email pelo celular. Havia somente uma mensagem de Baki, perguntando os tamanhos das roupas de Ino. Respondeu imediatamente, queria ficar livre para tomar um banho.
Seu quarto era em frente ao de Gaara, e assim que Ino entrou, realmente se deu conta da opulência do lugar. O quarto idêntico ao de Gaara, mas estava com tanto sono quando acordou, que nem repara na decoração. Agora, mais desperta, reparou na elegante decoração clássica, de tons claros, móveis de madeira de lei e lustres no teto.
O banheiro era puro luxo. Tudo era em mármore e os metais, tão dourados que suspeitou que tivessem uma cobertura muito cara.
– Que luxo! – Ino murmurou enquanto tirava suas roupas e enchia a banheira. Usou alguns sais que encontrou por ali e logo iniciou sua imersão.
Do Blackberry, acessou o site da cidade de Lyon. Havia alguns locais que Ino achou interessantes, mas nenhum que realmente lhe chamasse atenção. Deixou a pesquisa de lado e resolveu aproveitar seu banho enquanto podia.
Passou quase uma hora na banheira quando ouviu alguém batendo em sua porta. Tomou uma rápida chuveirada e vestiu uma dos pesados roupões do hotel para atender. Gaara estava parado ali, com uma expressão dura e quase enraivecida, mas que se amenizou, ainda que minimamente, assim que viu Ino.
– Alguma sugestão de como devo me vestir para esta noite, senhorita Yamanaka? – ele perguntou polidamente.
– Bem, eu vou vestir as roupas que eu trouxe de Londres, então, você já deve ter uma ideia. – Ino deu de ombros. – Quer entrar?
– Não. – ele respondeu seco. – Te espero no saguão em... quarenta minutos?
– Tudo bem. – sem dizer mais nada, Gaara deu as costas e entrou em seu próprio quarto.
Ino fez o mesmo, e passou a se concentrar em encontrar uma roupa confortável para aquela noite quente do auge de setembro no sul da França. Optou por um vestido de tecido leve, sem mangas com botões na frente e na cor roxa. Encontrou um par de espadrilles pretas – que, muito provavelmente, Tenten tinha enfiado em sua mala sem o seu consentimento – e os calçou. Dedicou alguns minutos escovando seu cabelo para que ficasse macio e brilhante, para depois trançá-lo. Como Ino não planejava ir a nenhum lugar chique o badalado, limitou-se ao rímel e ao batom como maquiagem.
Quando chegou no saguão, Gaara já estava esperando. Ainda parecia irritado e estressado, então Ino resolveu ser agradável naquela noite, pois não deseja vê-lo descontando sua raiva em si.
– Não precisava me acompanhar nesta noite. Eu sei que está cansado e provavelmente com algum problema com seus investimentos. – Ino falou assim que saíram do hotel.
Pela primeira vez, Ino notou que estavam no centro do Lyon, e como a cidade era bonita. Estava maravilhada com as luzes, a arquitetura, as lojas e cafés, tudo...! E nem tinham atravessado a rua direito. A noite estava amena, perfeita para uma boa caminhada.
– Você veio comigo nessa viagem, seria indelicado deixá-la sozinha, senhorita Yamanaka. – Gaara falou serio. – Estarei sempre ao seu lado no que quiser fazer, exceto, é claro, quando eu estiver trabalhando ou em alguma reunião.
– Isso é bom. Vou ter companhia para conhecer a cidade. – o sorriso singelo de Ino desarmou Gaara, e ele pareceu relaxar durante algum tempo.
Gaara tivera uma tarde horrível com os investidores, e tudo que queria há alguns minutos era um banho, seus remédios e dormir a noite inteira. Mas passear com Ino não estava se mostrando tão ruim assim.
– Se importa se caminharmos essa noite? – Ino perguntou preocupada. – É que está uma noite bonita e... Sinceramente, eu não tenho nenhum plano. Pensei que podíamos zanzar por aí até encontrar um lugar legal.
– A área boêmia é para lá. – Gaara apontou para leste. – Sempre há um bom lugar para beber ou comer alguma coisa.
– Ótimo, porque eu estou absolutamente faminta!
Gaara ficou um pouco surpreso com a atitude de Ino. Todas as mulheres que conheceu pareciam ter medo de qualquer coisa que tivesse mais calorias que uma folha de alface ou um copo de água. Já Ino... Parecia que seu maior prazer era comer.
Enquanto caminhavam pelas ruas de Lyon, Ino se encantava com os artistas de rua, e a movimentação das pessoas. Nem parecia que tinha vindo da cidade mais cosmopolita do mundo. A diferença de Londres para Lyon era o ar calmo e acolhedor da cidade.
– Podemos parar aqui? – Ino apontou para um pequeno restaurante mexicano, de decoração típica com garçons que usavam sombreiros.
Gaara achou estranha a ideia de comer comida mexicana na França, principalmente em Lyon. Mas não disse nada até se sentarem na mesa que o garçom lhes ofereceu educadamente na parte de fora do restaurante.
– Lyon tem os melhores restaurantes da culinária tradicional francesa, por que você quer comer justo aqui? – Gaara perguntou sem tirar os olhos do cardápio. A langosta al mojo de ajo lhe pareceu interessante.
– Eu adoro comida mexicana. E esse lugar parece tão antigo que já deve fazer parte da cultura local. – Ino respondeu. – E se você quiser, amanhã poderemos ir num desses restaurantes afrescalhados que você conhece.
– Amanhã iremos a um almoço com alguns conhecidos. Vista algo adequado, ou eles irão te devorar até os ossos. – de antemão, Gaara avisou Ino, logo que ela pareceu ter decidido o que queria comer. O Garçom logo se aproximou deles, e a Yamanaka pareceu não querer falar mais sobre aquilo.
– Para mim, Chile de Oaxaca¹, e nos traga duas doses de mezcal com gusano². Você escolhe o vinho, Gaara.
– Langosta al mojo de ajo³, e uma garrafa do vinho da casa.
Assim que o garçom saiu, Ino soltou em um disparo.
– Você poderia ser um pouco mais educado.
– Eu não me lembro de ter sido mal educado com você, senhorita Yamanaka.
– Dizer a uma garota para vestir algo adequado, não é lá muito polido. Isso foi rude.
– É para o seu bem. – Gaara suspirou. – Já ouviu falar em Hozuki Suigetsu? Do ramo da construção naval.
– Não. – Ino respondeu mal humorada.
– É com ele que iremos nos encontrar amanhã. É um homem até agradável, e sua esposa, Karin, é uma mulher calma e educada. O problema são alguns convidados que sei que estarão lá. Você estará na cova dos leões, então é menos problemático não provocá-los que se defender deles.
Ino olhou para Gaara com severidade, mas ele não se abateu. Logo o garçom trouxe a bebida que Ino pedira e seus pedidos, e ele ficou surpreso ao constatar que havia um lagarto na garrafa; mas quando viu Ino engolir com satisfação a bebida, passou para ela o seu copo.
– Não aprecio répteis na minha bebida. – ele disse enquanto se servia do vinho mexicano que lhe fora trazido. Pensava também que a lagosta tinha sido uma boa escolha.
– Você é quem sabe. – ela respondeu, bebendo a bebida de Gaara. – Abrir a sua mente para coisas novas é bastante adequado, senhor Sabaku.
Gaara a olhou com um aviso, mas Ino não se abateu. Resolveu aproveitar sua comida, que lhe parecia melhor que a expressão azeda de Gaara.
¹ Chile de Oaxaca: carne de porco cozida com chilis, várias ervas, tomate, cebola e hortaliças. No final do cozimento são agregadas ao molho bolinhas feitas de “massa de maiz” (planta sagrada da civilização pré-hispãnica”.
² Mezcal com gusano: Tequila e Mezcal são aperitivos mexicanos internacionalmente conhecidos, destilados a partir da seiva de diferentes espécies de agave. O “mezcal con gusano” é feito perto de Oaxaca. Uma lagarta é posta dentro da garrafa para provar que o mezcal tem concentração de álcool suficiente para preservá-la.
³ Langosta al mojo de ajo: lagosta dourada no forno ao molho de alho.
Notas finais
Beijos, até o próximo capítulo!
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