Implacável
32 Capítulo 32
Notas iniciais
15 de março, sexta-feira, 09h03
Ino estava concentrada em analisar uma pilha de registros de obras de arte quando uma suave batida na porta de seu escritório tirou seu foco do trabalho. Antes de pedir que a pessoa entrasse, ela ajeitou-se melhor na cadeira e tirou os óculos de leitura.
– Entre.
– Ino. – Hannah enfiou a cabeça por uma pequena abertura na porta. – Tem, hum... uma entrega para você.
– Devem ser os portfólios que pedi. Mande trazer, por favor.
Sem prestar muita atenção na movimentação a sua volta, Ino colocou-se novamente a analisar os registros de autenticidade calmamente, enquanto o entregador passava pela porta.
– Onde coloco, madame? – perguntou o garoto, com um forte sotaque americano.
– Em cima da minha mesa mesmo. – ela respondeu sem olhar para o rapaz, que continuou parado.
– Err... madame, acho que não vai caber. – a resposta do jovem fez Ino levantar os olhos dos papéis, e o que viu quase a fez cair da cadeira.
(...)
O ruído e a agitação do ambiente quase não deixaram Gaara atender ao telefone. Ele se afastou do lugar onde uma equipe colocava chapas de fibra no gramado do jardim oeste da casa e buscou refúgio na estufa, onde era silencioso. Assim que olhou o visor do celular, sorriu brevemente.
– Estou ouvindo. – falou como se nada estivesse acontecendo.
– O que diabos significa isso, Gaara? – Ino grasnou no outro lado da linha. – Entregadores de flores não param de entrar e sair do meu escritório! Você quer fazer o Festival da Flor na Madeira¹ aqui na minha sala? O que eu vou fazer com tantas flores?
– Arranjos, carinho. Faça arranjos de flores. – respondeu calmamente.
– E onde eu colocaria tantos arranjos? Nem Kensington teria tanto espaço. – Gaara ouviu Ino bufar levemente, mas sabia que no fundo ela estava adorando o esforço dele para ser romântico.
– Dê alguns para sua mãe, ou deixe outros no apartamento do seu irmão. Você também pode fazer alguns para o nosso apartamento e outros para a decoração do nosso casamento. Mas guarde as melhores flores para o seu buquê, porque essa noite vamos nos casar, querida...
Ino ficou quieta ao telefone. Queria perguntar a Gaara se aquilo era algum tipo de brincadeira, mas sabia muito bem que ele não era o tipo brincalhão. Ela se sentou em sua cadeira pesadamente, sentindo que iria entrar em pânico a qualquer momento, mas Gaara tinha planejado tudo tão bem que nem tempo para isso ele lhe dera. Num rompante, Temari e Tenten invadiram sua sala feito dois furacões e a abraçaram lhe dando parabéns e comemorando entusiasmadamente.
Gaara ouviu tudo do telefone, e achou melhor desligar. Sua futura esposa teria um dia e tanto pela frente.
(...)
Tudo parecia saído de um sonho. O jardim oeste de Kensington estava decorado elegantemente com pequenas luzes nos arbustos, flores brancas faziam os arranjos e branco era a cor predominante junto a alguns tons de bege. As tendas que protegeriam os convidados da brisa noturna tinham no teto pequenas lanternas que assemelhavam-se ao céu estralado. Placas de fibra cobriam o gramado na área da cerimônia — onde setenta e cinco cadeiras estavam dispostas para os convidados em frente ao altar — e na área onde o Buffet se preparava para o jantar e as demais festividades.
Ino olhou-se no espelho mais uma vez antes que seu pai viesse buscá-la para levá-la ao altar. O bonito vestido grego de organza e cetim marfim deixava-a com um ar delicado, efêmero e deixava sua barriga ainda mais bonita. O cabelo pendia solto com ondas vintage e era ornado apenas por um enfeite feito de pérolas usado por Alabammy na ocasião de seu próprio casamento. Ino gostaria de ter usado um salto, mas achou por bem seguir o conselho de Temari e ficou com sapatilhas bastante confortáveis. Os diamantes que Gaara trouxera da Itália para ela haviam, finalmente, deixado o cofre para ocupar o pescoço e as orelhas de Ino.
O que mais a impressionou foi o admirável trabalho da equipe de estética que, com produtos à prova d'água, tinha conseguido manter a maquiagem de Ino firme mesmo depois de tantas lágrimas do momento em que ela entrou no jardim ao momento em que disse o tão esperado “sim” em frente ao juiz e ao Reverendo Dom. Os hormônios da gravidez a estavam deixando um caco, mas ela pensava que jamais poderia se sentir tão feliz.
Após a cerimônia, Ino subiu por alguns instantes para que a esteticista prendesse seu cabelo em um coque lateral e lhe retocasse a maquiagem antes de receber os cumprimentos dos convidados. Nesse momento, Gaara bateu na porta suavemente e perguntou se poderia entrar.
– Venha aqui. — Ino lhe estendeu a mão, sorridente como uma criança em sua primeira festa de aniversário. Gaara tomou-lhe a mão delicadamente, e a outra, cujo dedo anelar abrigava agora uma elegante aliança dourada, pousou sobre o ventre arredondado da esposa.
– Parece agitado... Acha que pode sentir o que está acontecendo? — ele sussurrou. Aproveitando o momento do casal, a maquiadora saiu à francesa, deixando-os a sós.
– Claro que sim... Bebê sentem muito o que acontece com a mãe.
Ino ficou observando por um instante a expressão calma de Gaara enquanto ele lhe afagava o ventre. Pensou que até ali, jamais havia se sentido tão feliz em toda sua vida. Estava casada com um homem maravilhoso, esperava um bebê e tudo parecia se acertar em sua vida.
– Eu tenho tanta sorte de ter achado você. — ela se colocou na ponta dos pés para beijar Gaara no queixo, mas ele a segurou perto dele quando ela se ajeitava.
– Quem tem sorte sou eu. Devo agradecer por ter uma mulher tão maravilhosa como você em minha vida, e que vai me dar um filho...
– Ou filha. — brincou.
– Será muito amado, menino ou menina. — Gaara a beijou lenta e carinhosamente.
– Seremos felizes nessa nova vida? — Ino sussurrou a pergunta contra os lábios de Gaara.
– Nessa e nas outras mil que passaremos juntos, carinho.
O olhar intenso de Gaara deu a Ino a estranha certeza que ele tinha razão.
(...)
Ino acenou do carro para os convidados quando saíram de Kensingotn para o lugar aonde passariam a noite de núpcias. O vestido do casamento tinha sido substituído por uma peça mais confortável, branca, feita de algodão e com mangas compridas. O mesmo não tinha ocorrido com Gaara, que afrouxou a gravata borboleta e suspirou cansado.
Ao dirigiu silenciosamente pelas ruas de Londres, alheio ao que se passava no banco traseiro graças ao vidro de privacidade do carro. Durante o trajeto Gaara esteve introspectivo e silencioso. Distraída, Ino colocou os pés descalços no banco do carro, na tentativa de melhorar o cansaço que sentia nas pernas – passar tanto tempo de pé lhe pareceu puxado àquela altura. Sem aviso algum, Gaara a segurou pelos tornozelos, mantendo os pequenos pés em seu colo para iniciar uma massagem vigorosa ali. O alivio foi quase instantâneo para Ino, que suspirou em deleite.
– Não sabe como eu precisava disso. Estou tão cansada...
– Espero que não tão cansada, cara esposa. — um leve sorriso pairou nos lábios de Gaara enquanto ele subia os toques dos pés para as pernas e os joelhos.
Ino soltou um riso leve e tranquilo, relaxando sob o toque experiente de Gaara. Olhou pela janela na tentativa de descobrir para onde estavam indo, mas as ruas de Chelsea não lhe diziam muita coisa. Até que Ao reduziu a velocidade até parar na entrada de um elegante prédio na parte mais afastada e nobre do bairro. Ino não deixou de ficar encantada com os 30 andares do prédio e sua fachada de mármore travertino.
– Então era esse o seu plano? Nos trancar em um apartamento para fazer sexo até enjoarmos um do outro durante uma semana... Admito que me agrada. — Ino sussurrou quando Gaara lhe colocava as sandálias novamente nos pés.
– Admito que isso me ocorreu, Sra Sabaku, mas seria injusto com você. Guardei algo melhor para nossa viagem. Mas antes... — ele gesticulou para o prédio tranquilamente.
Educadamente, um valete os recebeu. Enquanto Ao abria a porta para Gaara, Ino aceitou a ajuda do jovem rapaz para descer do carro. Rapidamente, Gaara tomou seu lugar ao lado da esposa e Ao os seguiu para receber ordens de Gaara.
– Deixe a equipe de voo de prontidão. Quero decolar assim que chegarmos no aeroporto.
– Sim, patrão Gaara. Aguardo seu telefonema amanhã. — Ao curvou lentamente a fronte diante de Ino e sorriu com profissionalismo. — Meus cumprimentos pelas bodas, Senhora. Desejo uma ótima noite.
– Obrigada, Ao. — respondeu Ino com as faces coradas de vergonha. Não estava habituada que a chamassem de “senhora”, e por pouco ela não olhou ao redor atrás de Chiyo.
– Acostume-se. — Gaara pareceu ter lido seus pensamentos, quando lhe sussurrou. — A partir de agora você é oficialmente a Sra Sabaku.
– Quando me chamarem de “Sra Sabaku”, não estranhe se eu não responder ou começar a procurar pela sua avó. — murmurou.
O casal caminhou tranquilamente pelo amplo Hall até o elevador, onde o jovem valete deixou sua única mala e afastou-se, desejando uma “boa noite” discretamente. Ino reparou que o botão acionado tinha sido o da cobertura, mas nenhuma ideia do que estava acontecendo se passou por sua cabeça. Até Gaara tirar do bolso do smoking uma gravata vermelha que ela reconhecia bem: havia sido um presente que ela tinha comprado para ele nas pequenas férias que tinham passado na Finlândia.
– O que você está tramando? — Ino ralhou, enquanto ele usava a gravata para lhe vendar os olhos. — Sabe que estou grávida e não posso passar por emoções fortes! Veja lá o que apronta comigo, querido.
– Dessa emoção você não morrerá, esposa. — ele lhe sussurrou sensualmente.
Imediatamente, Ino ficou quieta; a venda nos olhos, associada à gravidez, deixava seus outros sentidos ainda mais aguçados. O elevador parou depois do que lhe pareceu uma eternidade e Gaara começou a guiá-la por um corredor. Ouviu o som das chaves que ele tirava do bolso e, curiosa, estendeu a mão para tocar a porta. Era de madeira, com um interessante entalhe nas extremidades.
– Só mais um pouco. — Gaara segurou a mão que ela tocava a porta.
No instante seguinte, um suave cheiro de flores invadiu os sentidos de Ino. A porta estava aberta e o ar aconchegante a envolveu suavemente junto aos braços de Gaara ao seu redor. Lentamente, os dois entraram no apartamento.
– Não tire a venda ainda. — Gaara abaixou-se e tirou as sandálias de Ino, deixando-as em um canto, e assim que se viu descalça, ela se maravilhou com a maciez do carpete. — Pensei que Nero fosse gostar desse carpete, mas quando o bebê nascer, teremos que tomar um pouco mais de cuidado com os pelos que acabam ficando presos na fibra.
– Você quer dizer que estamos... — as palavras de Ino se perderam quando Gaara lhe tirou a venda e ela pôde observar o amplo apartamento, embora vazio – exceto pelas flores que antes estavam em seu escritório – em que estavam. — Nossa casa?
Gaara observou as feições encantadas de Ino, e aquilo lhe foi impagável. Ela andava de um canto a outro, já pensando em como faria cada detalhe de seu lar. Não a casa onde Gaara tinha vivido com outra mulher, mas a sua casa, onde criariam seus filhos e seriam felizes na nova vida que estavam construindo.
– É tão perfeito... — ela sussurrou e dirigiu um olhar complacente para Gaara. — Deve estar se sentindo em uma casca de ovo, não é? Sempre foi acostumado com Kensington, que é tão grande.
– Tenho certeza que vou gostar de viver aqui com você, nosso filho e aquele gato pulguento. — deu de ombros.
– Nero não tem pulgas! — Ino foi, imediatamente em defesa do amado gato. — E que bom que lembrou dele quando comprou nossa casa. Sabe que não poderíamos ser uma família sem nosso mascote.
– Hum, então ele se coça por esporte... — resmungou, pegando Ino no colo num movimento rápido e a carregando consigo para um dos corredores.
(…)
O copo de uísque estourou pela força que foi aplicada nele. O líquido, misturado ao sangue, pingou no chão num ritmo cadenciado, diferente do ritmo em que funcionava o cérebro dele.
– Casados... — bufou quase tomado pela ira, mas era auto-controlado demais para se deixar dominar por sentimentos tão primitivos. — Aquele patife resolver ser um romântico e se casou bem debaixo do meu nariz com aquela maldita golpista prenha!
– Calma, as coisas ainda têm volta. — Evelyn falou com cautela. — Existem meios de fazê-los ceder.
A loira mal tinha terminado de falar e foi agarrada pelo pescoço pela mão forte e machucada de seu parceiro. Enquanto sufocava, ela via a fúria contida naqueles olhos acinzentados feito chumbo líquido. Ele seria capaz de matá-la ali, e o faria se Connor não tivesse interferido, segurando-o pelo pulso com firmeza para afastá-lo da mulher.
– Ainda há volta. Vamos trabalhar com o que temos nas mãos, que é Ino e o bebê, que ainda não nasceu. As semanas finais da gravidez são bastante críticas, e partos podem ser bem complicados. — Connor disse tranquilamente, e a ideia pareceu agradar ao homem.
Evelyn caiu no chão feito uma boneca velha quando foi solta. Tossiu e tentou puxar o ar com vigor, mas sentia dificuldades. Com uma gentileza quase estranha, Connor a levantou e a colocou-a sentada no sofá pequeno do escritório.
– Ultimamente, você vem se mostrando bastante esperto, Connor...
– E você, um tolo! Respire devagar. — orientou Evelyn, em seguida virou-se para o parceiro com um olhar sombrio. — Temos que permanecer calmos e não acelerar demais os planos. Vamos apenas adaptá-los à situação. Logo teremos o que queremos, o dinheiro, minha vingança e Gaara destruído.
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