Implacável
33 Capítulo 33
Notas iniciais
03 de abril, sexta-feira, 23h01
Queensberry Place, 7053
South Kensington, Londres
Após o casamento, o casal Sabaku passou cinco dias na casa de campo de Chiyo no norte da Escócia, nas montanhas das Highlands, e três dias na romântica Ilha de Ewe. Ficariam mais algum tempo, mas retornaram ante do previsto, pois Ino já entrava nos estágios finais da gravidez.
O retorno foi seguido da licença de Ino, então ela aproveitou para terminar a decoração do apartamento em Chelsea e pensar no quarto do bebê. O fabuloso apartamento duplex de seis quartos tinha sido remodelado e projetado em estilo contemporâneo, durante a lua-de-mel do casal. Os móveis tinham sido escolhidos por Temari e Margareth, e Ino não desgostou de nenhum, restou a ela apenas os objetos de decoração mais íntimos e o quarto do bebê.
Durante alguns dias, Ino se dedicou ao apartamento, mas naquela sexta-feira, se focou no quarto de seu bebê. Há pouco tempo, as paredes tinham sido pintadas de bege e ela descobrira que seria um menino. Então, Ino de Gaara decidiram decorar o quarto com o tema de animais.
Durante uma manhã inteira, Ino teve a ajuda da mãe, de Temari e de Tenten para escolher os móveis e o enxoval. Comprou tintas e planejou desenhar um mural de elefantes. Mas o que a atraiu mais foi o móbile de macacos que ela encontrara em uma loja de brinquedos no centro.
Após o almoço, Ino e as mulheres voltaram para o apartamento cheias de sacolas, e sobrou para Gaara e Itachi a difícil tarefa de montar os móveis.
– Ino, eu sou um advogado! Não um montador de móveis. – Itachi resmungou quando pendurava o terno no armário de casacos. Olhou feio para Gaara e bufou. – Maldito dia que você resolveu trabalhar em casa...
– Eu não podia adivinhar. – Gaara deu de ombros, tinha a camisa de linho desabotoada por Ino e sua irmã lhe oferecia uma camiseta, para tornar o trabalho mais confortável. – Não podemos pagar uma pessoa que saiba fazer isso? Não quero que o berço desmonte quando nosso filho estiver dormindo.
– Por isso é melhor que montem isso direito! – Temari disse com firmeza. – São os móveis do quarto do seu primeiro filho, Gaara! É sua obrigação cuidar disso. Shikamaru montou os móveis de Ella.
– Shikamaru é um cara a parte. Ela é casado com você, Temari. – Itachi deu de ombros.
Todos viram a face de Temari se avermelhar de ultraje. E nenhum dos dois homens quis ficar para ouvir as pragas que a Sabaku murmurou. Escaparam rapidamente para o quarto e se concentraram na tarefa do complicado ABC de peças e parafusos.
(...)
Já era bem tarde quando Ino se esticou preguiçosamente no sofá e deixou de lado a tigela de morangos que ela comia mais cedo. Todos já tinham ido embora – o trabalho da montagem dos móveis só tinha progredido depois que Itachi e Gaara receberam a bem-vinda ajuda de Inoichi e de Baki – e o apartamento estava quase mergulhado no completo silêncio, a não ser pelo cantarolar baixo de Pakura vindo da cozinha e o ranger de um parafuso sendo apertado.
Cansada, Ino caminhou devagar até a cozinha. Fez uma xícara de chá fraco para si e um café árabe bem forte e amargo, tal como Gaara gostava. Mas não saiu sem antes beliscar um pedaço da torta de morangos que Pakura tinha preparado mais cedo. Seguiu para o quarto bebericando seu chá e levando o café de Gaara.
– Como estamos, papai? – ela perguntou sorridente, ao ver Gaara tão compenetrado na tarefa de apertar bem os parafusos do berço. Ele ficou de pé e aceitou com gratidão o café que a esposa tinha lhe trazido.
– Dirigir uma empresa não é nada perto disso. Lidar com meu tio e o conselho da petrolífera é fácil se comparado com esse complicado ABC. – resmungou, bebendo o café com avidez. – Nada nos meus 31 anos me preparou para isso...
Ino sorriu e olhou para o quarto em volta. Tudo parecia perfeito, os móveis, o papel de parede colocado com tanta dificuldade por Itachi, o móbile de macacos sobre o berço recém-montado por Gaara, os brinquedos nas prateleiras instaladas por seu pai... Tudo absorvera o cuidado e o esforço na tarefa, e por isso estava mais bonito que Ino poderia sonhar. Faltava apenas a pintura que faria.
– Amanhã desenharei os elefantes, e nosso bebê terá o quarto mais bonito de toda Inglaterra! – ela falou, afagando o ventre inchado pelos oito meses de gravidez.
– Imagino que sim. – Gaara disse com brandura, abrindo os braços para recebê-la carinhosamente. Os dois trocavam um beijo lento e cálido quando Pakura apareceu na porta do quarto e pigarreou discretamente. Com as bochechas coradas, Ino afastou-se de Gaara ligeiramente, mas não escapou de seu toque, ficando a frente dele enquanto era a abraçada. – Vai me deixar sem-graça, carinho. Fique um pouco. – sussurrou em seu ouvido.
– Senhora, tem uma pessoa que insiste em vê-la. É a Sra Evelyn Kerr, e ela diz ser urgente. – Pakura falou calmamente.
– Diga que ela volte outro momento. – Gaara respondeu seco.
– Na verdade, Pakura, mande que suba e lhe sirva chá, vou vê-la em alguns minutos. – Ino pareceu tranquila quando falou, ao contrário de Gaara, que lançou um olhar de advertência para a governanta, fazendo-a hesitar em seguir as orientações da patroa. Vendo a atitude de Gaara, Ino suspirou cansada e o olhou reprovativamente. – Pakura, vá; do seu patrão cuido eu.
– Sim, senhora. – a mulher saiu com uma expressão aliviada, e se apressou em cumprir o pedido de Ino.
– Você não vai se encontrar com ela. – Gaara rosnou, estreitando os braços ao redor de Ino. – Quanto mais distante, melhor para nós...
– Bom, eu não sei você, mas eu fico curiosa para saber o que ela tem de tão importando para me falar. E eu sei o quão obstinada sua ex-esposa pode ser, ela não vai desistir enquanto não falar comigo, e se o que ela tem a dizer é tão importante para fazê-la vir a nossa casa quando é quase meia-noite... Bom, é melhor parar para ouvir.
Num movimento fluido, Ino se desvencilhou dos braços de Gaara e seguiu para o quarto, onde procurou por seu robe de seda escura e se livrou das meias que usava. Ela estava atendo o robe na cintura, quando sentiu sua mão ser segurada com firmeza pela de Gaara. Ele estava sério e não parecia feliz com aquilo.
– Dispense-a. Não quero vê-la chateada caso Evelyn comece um despejar de ofensas em você. – disse com calma.
– Não vai ver. Depois de hoje, não aceitarei mais nenhuma desculpa que ela pode ter para fazer contato. Eu prometo. Agora fique aqui, não tenho certeza se é com você que ela quer falar.
Ino se dirigiu para a sala, caminhando languidamente, sem qualquer pressa. Chegou quando Pakura servia o chá, e encontrou Evelyn sentada ao lado dos pais em um dos sofás maiores. O casal olhou para Ino com uma expressão preocupada e ligeiramente constrangida, e assim que ela se aproximou mais, levantaram-se para cumprimentá-la.
– Desculpe a hora, Ino. – disse Anne, a mãe de Evelyn (uma mulher loira, bem conservada em seus 50 anos, baixa e muito elegante). – Evelyn insistiu muito em falar com você.
– Será rápido, mamãe. – Evelyn falou bruscamente, e seu olhar buscou o de Ino. – Eu estou indo para a França, queria dizer uma coisa antes de ir, já que vou passar um bom tempo fora.
– Bom, eu estou aqui. O que você tem de tão importante para me dizer? – Ino se sentou em uma das poltronas menores e encarou Evelyn com firmeza. Mas nada a tinha preparado para o que ela ouviria em seguida.
– Você ganhou. Não que fosse uma guerra ou que eu ao menos tivesse tentado, mas eu desisto de tentar ter meu marido de volta.
– Como? – sussurrou.
– Um dia, eu fui a esposa amada de Gaara, mas as coisas não correram como planejávamos, então ele deixou de tentar fazer dar certo, e eu também. Não sabemos quem desistiu primeiro, mas isso não importa. Há seis anos, quando eu disse “sim” no altar, já era tarde demais para nós dois. – ela deu de ombros. – Eu vim te dizer, Ino, que você não cometa o mesmo erro que eu. Quando um de vocês desistir, pule fora, antes que estraguem tudo, ainda mais que haverá sempre esse bebê ligando vocês.
Quieta no sofá, Ino não se moveu nem mesmo para acompanhar os visitantes à porta. Tentou, mas sem muito sucesso, digerir da melhor maneira que podia as palavras de Evelyn.
(...)
A manhã se sábado veio tranquila e preguiçosa para o casal Sabaku. Gaara saiu cedo para uma reunião no escritório da petrolífera, para acertar os últimos detalhes da complicada e desgastante fusão com a Suna. Então, Ino aproveitou a manhã sozinha para se dedicar a pintura do quarto do bebê.
Durante toda a manhã ela fez alguns esboços no papel, parou para comer um sanduíche que Pakura tivera o cuidado de lhe trazer e depois se dedicou a passar o desenho para a parede com carvão. A tarde quase chegava no fim, quando Ino começou a colorir o desenho e Pakura entrou no quarto com um smoking de Gaara.
– Senhora, não vai se aprontar?
– Para quê? Mesmo que eu limpe a sujeira de tinta, não acho que vá ficar muito sexy com a minha recente forma arredondada. – riu baixo, sem tirar os olhos das patas da girafa que pintava.
– Não acredito que os trajes do jantar beneficente da Fundação sejam “desleixado sujo”. – gracejou a governanta para o largo macacão bege que Ino usava com uma camiseta branca e tênis.
– O jantar da Fundação! – Ino bufou, já livrando-se dos pincéis e indo em direção ao seu próprio quarto. – Com tantas coisas do bebê eu acabei me esquecendo! Será que Gaara vai demorar a chegar?
– Terá tempo o suficiente, senhora. O Sr Sabaku avisou que se aprontaria no escritório, e viria pegá-la às sete e meia. Baki veio somente pegar seu terno. – Pakura sorriu calmamente. – Quer que eu separe algum vestido em específico?
– O marrom, de charmeuse, com a fita no busto. É o único que cabe em mim. E separe também a tiara que Gaara me deu... A que foi da avó dele, por favor.
Pakura assentiu tranquilamente enquanto Ino se dirigiu para um banho rápido na ducha. Levou algum tempo para tirar a tinta e o carvão das unhas – e agradeceu por tê-las lixado e pintado de uma cor escura há menos de dois dias -, mas conseguiu estar limpa e perfumada em vinte minutos. Levou mais tempo para arrumar o cabelo; depois de secá-lo, o prendeu em um coque lateral e colocou a tirara que fora da avó materna de Gaara, uma peça simples de prata com pérolas. Pakura a ajudou com o vestido – uma peça longa, de decote em V, com pregueados e alças largas, ideais para a sustentação dos seios — e a maquiagem e em pouco mais de uma hora Ino conseguiu se aprontar.
– Ino! – Gaara chamou-a da sala, mas em poucos passos estava no quarto, vestido e pronto para sair. – Que bom que está pronta, pois estamos muito atrasados.
– Eu imaginei que isso aconteceria. – ela se aproximou e o beijou levemente.
Quando saíam, Pakura estendeu para Ino a pequena bolsa e acenou discretamente para a patroa. Naquela noite, Gaara dispensou Baki e preferiu dirigir até o hotel reservado para a festa. Demoraram-se um pouco na espera pelo manobrista, mas em alguns minutos Ino conversava confortavelmente com Rin e outros casais, enquanto Gaara saíra para ir ter com o tio.
Durante a festa, todos tratavam Ino com muita gentileza e respeito, em função do peso do nome Sabaku que ela agora carregava; e ela se limitou a manter uma distância segura das rodas de fofocas e principalmente de Moira, a esposa de Yashamaru. Ino tinha horror à tia de Gaara. A mulher era pouco mais velha que ela, tinha um ar esnobe e pouquíssimo tato em determinados assuntos.
– Ino! – a mulher acenou energicamente na direção onde Ino conversava com Temari. Nenhuma das duas resistiu a um revirar de olhos, embora Ino tivesse mais sutileza. Quando ela se aproximou das duas, o sorriso que lhe foi direcionado era pálido e cansado. – Ino, Temari, que bom vê-las! Já estava ficando entediada com a conversa de Gwen... E como está seu bebê, Ino?
– Ótimo. Agora falta pouco para o nascimento. – respondeu morna.
– Que maravilha! Deve ser ótimo ter um bebezinho para cuidar e proteger, mas Yashamaru não gosta de crianças, então... Apenas tenho certeza que será um menino lindo! Com o pai que tem...
– E não nos esqueçamos da mãe! – Temari disse entre dentes. – Um casal bonito assim só pode fazer filhos ainda mais lindos!
– Claro, você está absolutamente certa. – Moira disse com menos entusiasmo que antes. – Eu gostaria de me desculpar por não termos ido a seu casamento, Ino. Foi uma viagem de Yashamaru, fora dos planos. Eu iria, mas estava me recuperando de uma pequena cirurgia no nariz. Seu casamento foi uma surpresa para todos!
– Não se preocupe. Era de se esperar que muitos não pudessem comparecer por ter sido tão súbito.
Ino e Temari ainda tiveram que aguentar Moira por mais alguns momentos, até a mulher ser chamada por Yashamaru. O tio de Gaara parecia pouco satisfeito — Gaara menos ainda quando se aproximou da esposa -, puxou Moira em direção à sacada e discretamente os dois deixaram a festa sem despedir-se de ninguém. Ino não teve tempo para perguntar a ele o que estava errado, pois logo o mestre de cerimônias chamou os convidados para o discurso dos herdeiros Sabaku, que aconteceria logo antes do jantar ser servido.
Kankurou ficou responsável por ler o sucinto discurso elaborado por Gaara e Tamari, enquanto os outros dos irmãos permaneciam logo atrás dele, sorrindo e marcando sua presença ali.
Durou menos de um quarto de hora até que o jantar fosse servido, até lá, Ino bebericou um drinque de tomate sugerido por Rin. Foi gentil e educada com todos que conversaram consigo na mesa, embora um incômodo nas costas insistisse em lhe tirar a atenção do evento. Ficou mais aliviada quando Gaara, Kankurou e Temari juntaram-se a ela na mesa; a partir daí as atenções foram para os irmãos Sabaku, e ninguém notou a estranha quietude de Ino.
Serviam a sobremesa quando Ino se levantou para ir ao lavabo. Jogar água no rosto não aliviou seu mal-estar, então Ino achou que estava na hora de encerrar a noite; e talvez a agenda de eventos sociais até o nascimento, já tão próximo.
– Hora de ir para casa? – Gaara lhe sussurrou quando ela se sentou novamente em seu lugar.
– Leu meus pensamentos. – suplicou.
O casal saiu discretamente, não escapando apenas ao olhar atento de Rin nas feições pálidas e suarentas de Ino.
– Melhor seria se a levasse para um hospital, querido. – ela o alertou antes que eles deixassem o hotel.
Gaara dirigiu silenciosamente em direção ao hospital particular mais próximo, quando sentiu a pequena mão de Ino na sua que segurava o câmbio.
– Acho que gostaria de ir para casa. É só um mal estar, já senti algo assim antes. – murmurou.
– Eu não gostaria de arriscar, querida. – ele lhe afagou os nós da mão.
– Provavelmente a comida não me caiu bem. Vamos para casa.
A contragosto, Gaara mudou seu caminho, indo para casa. Ajudou Ino a trocar o vestido de festa pela camisola branca vintage que ela tanto gostava. Deitou-a na cama, beijou-lhe a testa e ia dirigir-se para o banheiro, quando Baki apareceu discretamente na porta do quarto.
– Desculpe incomodar, senhor, mas recebemos uma ligação urgente do contato da POSCO, em Seul. Ele insiste em tratar de um detalhe urgente no contrato de compras...
– Ele tem ideia de que horas são em Londres? – Gaara disse lacônico. – Diga que não atenderei. Ino não está se sentindo bem, o melhor é que eu fique com ela até que passe, e não o farei enquanto reviso papéis.
– Tudo bem, senhor. Desculpe tê-lo incomodado...
– Baki, diga que ele vai atender. – Ino murmurou, cansada demais para sequer levantar o tom de voz. – Resolva logo isso. Eles não vão te deixar em paz até que falem com você.
– Eles podem aprender a esperar...
– Que seja, mas não hoje, amor. Apenas não demore muito.
Ino encolheu-se na cama e se ajeitou melhor nos cobertores, tentando achar uma posição confortável para dormir. Rápida e silenciosamente, Gaara acompanhou Baki até o escritório. Demoraram pouco mais de um quarto de hora ao telefone com o contato coreano. Por fim, acertaram-se de se encontrar daqui um par de dias em Seul para acertar um novo contrato, ainda que viajar fosse contra a vontade de Gaara.
– Mande um mensageiro amanhã bem cedo para Kankurou. Quero ele de prontidão para ir a Seul em meu lugar caso Ino ainda não esteja se sentindo bem.
– Será feito, senhor...
Baki parou imediatamente de falar ao ouvir o ruído de algo sendo quebrado. Em alerta, ambos deixaram o escritório imediatamente e subiram para a suíte onde estavam Ino. Encontraram-na de pé, apoiando-se na penteadeira, ofegante e com uma das mãos sobre o abdome inchado, logo abaixo, uma mancha carmim na camisola bem no baixo ventre os deixou em alerta.
– Acho que preciso ir para o hospital. – ela resfolegou no mesmo momento em que suas pernas perderam a firmeza. Num instante, Gaara estava ao seu lado, enquanto Baki já estava ao celular, falando com a policial do serviço de emergências.
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