Implacável
31 Capítulo 31
Notas iniciais
15 de março, quinta-feira, 07h03
Campeden Grove, 1032
Londres, UK
A aproximação da primavera deixou Londres ainda mais elétrica. A cidade já não era mais tão fria e por onde se olhava podia-se ver as pessoas animadas para o feriado de primavera. Mas as coisas em Kensington estavam um pouco diferentes.
Embora estivesse se sentindo mais saudável e seu bebê preocupasse a ela e aos médicos cada vez menos, Ino lutava contra a crescente sensação de cansaço e fatiga e medida que o tempo passava. Passava mais tempo sozinha – Gaara estava envolvido com a compra de ações de uma empresa de tecnologia de fusão – e por consequência envolvia-se com mais afinco no trabalho, passando a chegar em casa mais tarde e saindo mais cedo.
Gaara percebia a falta dele com a noiva, e sentia que precisava fazer algo para compensar. Pensou em marcar umas pequenas férias em algum lugar quente; na Espanha, talvez. Mas, conversando com a avó de Ino durante uma tarde em que ele ficara livre e resolveram tomar chá, teve uma ideia melhor.
– A casa de seus pais é mesmo linda, Gaara. – ela comentara na ocasião. – Não sei como minha neta não se sente perdida aqui.
– Ela raramente se queixa, mas eu sei que Ino não se sente tão confortável aqui como naquele armário de vassouras que ela chama de apartamento. – Gaara respondeu com um suave dar de ombros, seguido de um gole em seu chá.
– Eu imagino... Ino sempre foi assim, incomodada com lugares amplos demais. – Alabammy riu. – Moro em um chalé numa fazenda nos arredores de Manchester. Um lugar pequeno, e era por isso que Ino adorava. Dizia que tinha a sensação de...
–... de aconchego que um lar deve ter? – completou com naturalidade. – Isso com certeza não se aplica a esta casa.
– Talvez leve algum tempo, mas eu tenho certeza que um dia minha neta vai fazer do lugar onde estiver com você um verdadeiro lar, querido. – o sorriso de Bammy foi doce e trouxe para a superfície da mente de Gaara uma ideia antiga de Ino.
Algumas noites depois do chá da tarde com Bammy, Gaara tinha chegado em casa estranhamente disposto. Deixou suas coisas no escritório, como de costume, e subiu apenas com uma pasta de papéis feita de couro com o elegante emblema de uma famosa imobiliária do país. No caminho para o quarto, Nero enroscou-se em suas pernas, pedindo atenção, então Gaara o pegou no colo, coçando-lhe atrás das orelhas carinhosamente enquanto ia ao encontro de Ino.
– Você fica aqui, bichano. – ia colocando o gato no chão antes de entrar no quarto. – Me dê um momento a sós com a belezinha ali dentro, depois você pode roubá-la de mim.
– Falando com o gato, amca? – Ella surpreendeu Gaara, colocando a cabeça para fora de seu quarto apenas, como uma pequena espiã. A menina falava inglês muito bem, mas vez ou outra o sotaque turco se tornava forte e em dias de mais sorte a menina falava uma mistura de turco, hebraico e inglês.
– Procurando alguém que cuide dele enquanto eu e Ino estamos ocupados. – Gaara captou o brilho de extrema alegria nos olhos de Ella, e soube que tinha achado uma babá para o gato. – Pode fazer isso pra mim?
– Eu podia... Eu podia ficar com ele... um pouco. – a menina murmurou timidamente.
– Certo. – ele estendeu o gato para a menina, que o pegou desajeitadamente. – Ele gosta que cocem atrás de suas orelhas e não na barriga. Acha que pode fazer isso?
Ella nem esperou o tio terminar de falar. Correu com o bichano para dentro do quarto e se fechou ali. Gaara já esperava os gritos de Temari com ele e Ella quando descobrisse que a filha estava cheia de pelo de gato nas roupas e na cama e que fora ele quem dera o bichano para a menina.
Gaara evitou pensar na dor de cabeça que seria ter sua irmã gritando em sua cabeça para não estragar o momento que teria com Ino. Entrou no quarto silenciosamente, sem os sapatos, e foi com mais cautela que guardou a pasta que levava no cofre. Do banheiro podia se ouvir o som da voz de Ino.
– Then I heard your heart beating, You were in the darkness too, So I stayed in the darkness with you…
Ele entrou no banheiro, despiu-se e contornou o biombo feito de metal de um fino tecido — Ino tinha instalado recentemente para ter mais privacidade – e enfiou-se na banheira com a noiva. Levemente, Ino se sobressaltou quando os dedos de Gaara lhe esfregaram as costas e ela girou para encará-lo com um sorriso quase cansado.
– Chegou cedo. – ela sussurrou. Quando estavam juntos tão intimamente, nenhum dos dois falava alto. Eram apenas sussurros, como se a todo tempo compartilhassem um íntimo segredo.
– As coisas voltaram ao normal no escritório. – Gaara respondeu com entre um beijo e outro que depositava na nuca e na clavícula de Ino. Num impulso, girou-a para que ficassem de frente para o outro e a colocou sentada em seu colo, com as penas lhe envolvendo a cintura. – Inferno, como você fez falta!
– Que bom que temos um consenso. – Ino apoiou as mãos no peito de Gaara, inclinou-se e o beijou faminta e urgentemente enquanto aproveitava a sensação das mãos dele passeando por cada centímetro de seu corpo.
(...)
Mais tarde, passado o frenesi momentâneo das liberações de ambos, terminaram o banho no chuveiro e desceram para o jantar. Enquanto os outros comeram filé, Ino preferiu uma pequena porção de peixe que lhe daria uma noite de sono sem indigestão. Enquanto comia, todos aproveitavam a impagável cena de Temari ameaçando colocar Gaara, Ella e o Nero para dormirem na estufa caso houvesse a necessidade de aspirar o quarto novamente por causa das travessuras da menina e do gato.
Após o jantar, Gaara foi para o escritório responder uma ligação de última hora, enquanto Ino, Chiyo e Bammy olhavam algumas revistas de casamentos.
– Eu nem tenho previsão para quando vamos nos casar! – Ino exclamou quando as duas senhoras insistiram para que ela começasse a olhar as revistas e indicasse alguns de seus gostos.
– Queremos que se case no dia seguinte a liberação da licença! – Chiyo falou como se uma licença pudesse ser expedida em menos de 30 dias. – Pode ser que saia na semana que vem!
– Eu duvido que saia antes do bebê nascer. – resmungou.
– Ora, deixe de ser tão resmungona! – Bammy a beliscou no quadril, fazendo Ino praguejar baixo. – Um casamento não se planeja em 3 dias. Independente que se case amanhã ou daqui um ano, temos que começar a pensar em cada coisa.
– E sem contar que eu estou me divertindo tanto com isso!
As duas olharam para Chiyo e riram baixo0 do entusiasmo da avó de Gaara. Passaram algum tempo ali, até se sentirem cansadas e Ino decidir tirar Gaara do telefone para que pudessem dormir. Mas os dois dormiram pouco, estendendo por mais algumas horas o que tinham começado na banheira.
(...)
Algumas manhãs mais tarde, Ino acordou se sentindo animada e disposta. Sentia que teria um dia muito bom pela frente. Diferente dos outros dias, ela comeu com disposição e deu atenção especial às roupas que vestiria naquele dia – tinha combinado de almoçar com Gaara, por isso escolheu o vestido branco que ele dizia gostar nela e que deixava sua barriga, já mais arredondada, em destaque. Ainda prendeu o cabelo em um coque frouxo, penteando a franja cuidadosamente para a lateral, e quando estava passando máscara nos cílios, Gaara entrou no quarto e parou para observá-la com um pouco de curiosidade.
– Você parece radiante hoje... – ele falou com extrema cautela. Será que ela sabe?, ele pensou passando a mão no cabelo nervosamente.
– Eu estou radiante apenas hoje? – ela o encarou pelo reflexo do espelho do banheiro enquanto passava um batom vermelho escuro.
– Você sabe o que eu quero dizer... – Gaara enfiou a mão nos bolsos e encostou-se no batente da porta. – O que está aprontando?
– Nada, apenas acordei me sentindo bem. Acho que teremos um bom dia, os dois!
– Por que? Eu, pelo menos, terei um dia pouco agradável. Vou voar para a França, tenho uma negociação com membros do governo.
De supetão, Ino virou-se e o encarou com uma expressão desagradável. Gaara parecia não estar preocupado com o fato de perder o almoço que tinham combinado com Deidara e Sasori – os dois pareciam muito interessados em conversar com o casal. Ao contrário, ele parecia nem se lembrar do compromisso.
– Você se esqueceu de que combinamos de almoçar com meu irmão e seu primo? – Ino rosnou entredentes.
– Na verdade, eu já cuidei disso. Falaremos quando eu voltar.
Gaara se desencostou da porta e saiu andando rapidamente em direção ao closet. Ino o seguiu com ligeira dificuldade, por depois que retornara à fisioterapia, ele não tinha apenas abandonado a bengala, mas também o andar calmo e cadenciado que tinha antes. A raiva subiu a cabeça de Ino quando Gaara tirou do armário uma pequena mala de viagem já pronta; o que significava que ele sabia já há algum tempo que viajaria e que levaria alguns dias para retornar.
– E por que não me avisou antes? E se eu tivesse marcado uma consulta ou... Ou se entrasse em trabalho de parto?! – grasnou.
– Não exagere, carinho, estamos apenas com seis meses. – ele a olhou com humor. Ino mal imaginava o que ele tinha planejado. – Caso você se senta mal, basta dizer a Baki, que ele vai providenciar minha volta em apenas algumas horas e a sua ida para um hospital.
– Se Baki não vai com você, quer dizer que não é tão importante assim... Baki sempre está com você naquilo que é importante o suficiente para te fazer ficar mais que um dia fora. – Ino murmurou fazendo beicinho. – Eu tinha planejado de irmos jantar naquele restaurante japonês e depois ir ver uma peça ou um filme no cinema esta noite. Definitivamente, eu retiro o que disse sobre ter um dia bom...
Gaara voltou-se para Ino com uma expressão de complacência e tranquilidade, deu dois passos em sua direção e a atraiu para si puxando-a pela cintura.
– Baki está ficando para cuidar do que é mais importante para mim. – ele disse baixinho, beijando-a no alto da cabeça. – Eu prometo que assim que voltar te farei uma surpresa que vai tornar esse dia o melhor de todos, certo?
– Só porque você falou com jeitinho, eu aceito. – Ino sorriu, aproximando-se mais dele para inalar o cheiro tão reconfortante de sua colônia. – Agora me deixe ir, antes que eu me atrase. Baki é um ótimo motorista, mas nem ele pode com o trânsito horrível da Picadilly.
Assim que terminaram de se aprontar, Ino e Gaara desceram para encontrar Temari ainda sonolenta e vestida em um robe deitada em um dos sofás do salão íntimo. Ela não pareceu dar-se conta da presença deles ali, e quando abriram a boca para desejar a ele “bom dia”, Shikamaru apareceu na entrada do salão acenando para que não o fizessem.
– Está com enxaqueca. – explicou enquanto estendia para a esposa um pote de comprimidos. – Para nossa segurança, é melhor deixar ela em paz.
– Já me basta aguentá-la de bom humor. – Gaara resmungou. – Nosso voo sai as onze, Shikamaru. Apenas se certifique de que Temari vai estar bem até lá, senão diga a Bree para passar as diretrizes dos contratos para o diretor assistente.
– Tudo bem. Alguém pode levar Ella para a escola? Tenho que pegar aqueles papéis com o juiz. – Shikamaru suspirou como se quisesse dizer “que problemático”.
– Ella vem comigo e você! – olhou para Ino de supetão. – É melhor se apressar, nossos carros não são capazes de voar, mesmo que Baki os dirija!
– Certo! – Ino se apressou em dar um beijou rápido em Gaara, despedir-se de Shikamaru e correr em direção à garagem.
Os dois homens ficaram observando pela janela quando Baki com o carro saía da casa, e assim que o fez Temari abriu um dos olhos e eles adotaram uma postura mais rígida.
– Ela já foi? – Temari perguntou a Shikamaru.
– Já, querida. Agora faça sua mágica e deixe essa casa pronta para o casamento.
Fale com o autor