Implacável
27 Capítulo 27
Notas iniciais
Mas então, o que vocês me contam de bom? Estou louca para uma notícia que não seja relacionado a Émile Durkheim :D Gente, eu assisti o último filme do Batman e mesmo sendo a terceira vez que eu vejo eu não consigo deixar de chorar, mimimi'
O capítulo foi muito legal de escrever. Estava pronto já fazia um tempo, eu só não tive tempo de revisar. Só a última parte que eu não gostei muito, mas em compensação o queridinho das leitora apareceu: Itachi!
Apreciem com moderação e o ministério da saúde adverte: "Implacável" não causa câncer, mas vai ferver seus miolos.
24 de dezembro, terça-feira, 15h45
Campeden Grove, 1032
Londres, Inglaterra, UK
Antes de se casar com Evelyn, Gaara sentia prazer em trabalhar o corpo. Artes marciais, natação e tiro com arco faziam parte da rotina esportiva. Fazia-o porquê achava que as atividades físicas eram agradáveis, e também por vaidade. Secretamente, gostava dos elogios femininos e quando, vez ou outra, entrava na lista dos homens mais bonitos ou mais sexy. Não que tivesse perdido a forma, mas a um ermitão como ele era não lhe parecia interessante estar atraente para as paredes.
Após o acidente, os exercícios físicos passaram a questões médicas, e sempre lhe causavam desconforto. Mas naquela semana Gaara tinha resolvido voltar a eles. A piscina coberta da mansão estava sendo usada pela primeira vez depois de muitos anos; ainda que a neve invernal caísse do lado de fora da cobertura de vidro e o aquecedor só deixasse a água levemente morna, Gaara insistiu em terminar as cem voltas na piscina semiolímpica.
Ele estava na centésima sexta volta quando viu Ino se aproximando da borda. Estava metida em uma pesada camisa de flanela e usava botas de frio, que tirou para sentar-se na borda com as pernas enfiadas na água. Tinha Nero nos braços, mas assim que mirou a grande piscina, o bichado se apressou em sair dali rapidinho.
– Está gelada! – Ino foi beijada no joelho quando Gaara se apoiou na borda da piscina.
– Costume. Quer entrar? – ele estendeu os braços para puxá-la pelos quadris, mas Ino recuou logo.
– Está frio! – fez um muxoxo. – E eu ainda não estou me sentindo bem.
– Você não está com medo, não é, querida? – Gaara disse jocoso. Sabia perfeitamente que Ino não sabia nadar, mas que ela não admitia isso de modo algum, nem para ele. – Sabe que eu não te deixaria afundar.
– Eu sei e não estou com medo. – ela resmungou. – Apenas não estou me sentindo bem hoje. E você sabe.
– Os enjoos melhoraram? – a nota de preocupação na voz de Gaara foi algo que Ino pegou com prazer, apesar da situação.
– Um pouco, e foi por causa da torrada que Chiyo me trouxe. Os remédios não estão agindo porque não ficam no meu estômago. – murmurou.
– Depois de amanhã vamos ter com o Dr Pritchard. E não tente argumentar. – o tom de voz de Gaara foi categórico, e não deu margem para discussões.
– Minha consulta é daqui duas semanas! Podemos esperar e eu não queria perder nossa viagem. Planejamos tanto...
– Patrão Gaara! Patrão!
Ino foi bruscamente interrompida com a chegada apressada de Guren. Ela vinha com a face vermelha pelo esforça e parecia muito agitada. A mulher abriu a boca para falar, mas no mesmo segundo foi calada por uma voz melodiosa como um sino.
– Eu disse que não preciso ser anunciada! Não aqui, Guren. – apesar do tom leve, as palavras saíram feito um rosnado da boca de Evelyn.
Os olhos de Gaara se estreitaram e seus lábios se pressionaram em uma linha fina, ao mesmo tempo em que suas mãos apertaram um pouco mais os quadris de Ino. A Yamanaka, por sua vez, sentiu que se não estivesse sentada, já teria caído pelo assombro.
As fotos não faziam jus àquela Evelyn a sua frente. A semelhança com Ino era chocante, exceto pelo fato da Yamanaka ser mais baixa e ter traços mais suaves, assim como sua conjuntura óssea. Ino era uma pessoa comum, já Evelyn tinha uma postura intensa, ossos ligeiramente proeminentes e traços marcantes, assim como o olhar de quem parecia observar um inimigo a todo segundo. Diferente de Ino, que tinha olhos azuis escuros como turquesas, Evelyn tinha olhos azuis acinzentados e frios – dependendo da incidência da luz, poderiam oscilar entre uma cor de prata líquida e chumbo. O cabelo estava mais escuro que antes, e mais curto, na altura dos ombros. Sua expressão era ligeiramente abatida, mas ainda sim não parecia que ela tinha passado vários meses em uma ala psiquiátrica e sim em um SPA.
Gaara não usou a escada para sair da piscina; apoiou-se na borda e se ergueu, tomando cuidado para não molhar Ino. Assim que vestiu um roupão felpudo que estava em uma das cadeiras, ajudou Ino a se levantar do chão e, com um braço envolvendo a cintura da noiva possessivamente, encarou a ex-esposa.
– Não imaginava que sairia antes das festas, Evelyn. Que bom que está se recuperando. – disse de modo polido.
– Eu não podia ficar mais um segundo naquele lugar. Ou voltaria a enlouquecer. – Evelyn sorriu de modo altivo, erguendo o queixo levemente ao esquadrinhar Ino com o olhar. – Enfim, não podia ver a hora de voltar para casa, achei que as festas de fim de ano seriam a ocasião perfeita...
– Eu imagino que sim, mas você poderia nos dar licença por um momento? Ino e eu gostaríamos de vestir algo mais apropriado para conversarmos. – Gaara olhou de um lado a outro, até visualizar Guren e Baki, perto da entrada da piscina, observando discretamente. – Guren, sirva um chá para a Sra Kerr na sala íntima.
– Sim, patrão Gaara. – a mulher curvou-se e saiu tão silenciosa quanto tinha entrado. Baki se apressou em conduzir Evelyn para o interior da casa, enquanto Gaara e Ino vinham mais atrás, andando silenciosamente.
Ino, que não tinha dito uma só palavra até então, apenas deixou que Gaara a levasse para o quarto com ele. Suas pernas tremiam com vontade, seu estômago revirava e seu sangue corria gelado; podia já ver-se desmaiando, mas ficou firme até que Gaara a colocasse sentada na cama do quarto e fechasse a porta.
– O que acabou de acontecer? – ela perguntou num fio de voz.
– Eu não tenho ideia. – Gaara rosnou enquanto apressava-se em vestir uma calça e puxava uma camisa do armário. Passou a peça pela cabeça rapidamente e logo passou a buscar sapatos.
– Ela não deveria sair só em algumas semanas, Gaara? – Ino o perscrutou com o olhar. Gaara parecia irado e agitado, mas ela também não poderia engolir aquela situação facilmente. Em verdade, Ino estava cansada de fazer concessões e de engolir seu orgulho.
Dada a falta de resposta do noivo, ela se impacientou.
– Gaara?!
– Eu não sei! – respondeu seco. – Há um apartamento pronto para ela, os pais já estão por lá e Itachi disse que estava cuidando disso! Eu não faço ideia do motivo dela estar aqui.
– Tudo bem. – Ino se levantou da cama e foi em direção ao closet. Voltou de lá com uma pequena bolsa, onde ainda enfiava um vestido dentro e os demais itens que usaria naquela noite para a ceia com sua família. – Eu vou para a casa dos meus pais e volto com eles mais tarde. Enquanto isso você resolve essa situação.
– Ino... – ele tentou segurá-la, mas Ino se desvencilhou de seu toque.
– Não! Isso está sendo muito difícil para mim sem ter tido que encontrar com ela até agora; tê-la sob o mesmo teto é impossível.
– É por isso que preciso de você, Ino. – sua voz saiu branda e calma, mas isso não dissuadiu Ino.
– Você tem ideia do que está me pedindo? – sussurrou. – Eu estou passando por um inferno emocional, não me peça para ficar. Só vai me magoar ainda mais, Gaara. É véspera de natal, e a última coisa que eu quero é me debulhar em lágrimas no nosso primeiro natal juntos; como noivos.
– Me dê vinte minutos... é tudo que eu peço. Se em vinte minutos eu não conseguir resolver essa situação desagradável, você pode ir.
Ino suspirou e ele soube que, por hora, ela faria o que pedira. Rapidamente, Gaara enfiou os sapatos nos pés e passou a mão pelo cabelo, tentando dar-lhe um pouco de alinho. Antes de sair, beijou Ino no topo da cabeça e lhe sussurrou:
– Não se preocupe, carinho, vou resolver esta situação. – para Ino, esse era o modo que Gaara tinha de dizer “eu te amo” quando não estavam em um momento tão íntimo.
A ela não restou mais nada a não ser sentar na cama e tentar lidar com a forte náusea que começava a lhe acometer.
(...)
Gaara sentou-se de frente a Evelyn, com o desconforto podendo ser tocado em pleno ar – ao menos de sua parte. Enquanto a ex-Sabaku bebia seu chá tranquilamente, como se sua chegada fosse uma visita social comum.
– Eu trouxe um presente. – ela mexeu na bolsa e de lá retirou um pequeno pacote elegantemente embrulhado em papel de presente dourado. Educadamente, Gaara abriu o embrulho, revelando uma bonita caixa de uma famosa tabacaria de Chelsea. – São aqueles cigarros que você gosta; de fumo árabe. E uma cigarreira nova, aquela sua já deve estar fora de moda!
– Eu agradeço o presente, mas eu não fumo mais, Evelyn. – ele colocou o pacote de lado.
– Hum, não me diga que aquela groupie do McFly te tornou vegetariano também, querido? – espezinhou.
– Minha decisão de parar de fumar foi anterior à chegada de Ino. E enquanto estiver nesta casa, tenha mais respeito no modo que se refere a minha futura esposa. – respondeu seco.
– Então tudo aquilo no hospital foi sério? – Evelyn olhou para a janela. – Me irrita o fato de que você não percebe que ela não é mulher suficiente para você. Que ela esteja me tirando a única coisa boa na minha vida. A única coisa que me deu forças para continuar viva...
– Chega. – Gaara se ergueu de supetão, irritado com o rumo daquela conversa. – Se foi para isso que veio, não perca mais seu tempo e pare de desperdiçar o meu: saia desta casa, Evelyn. Você não é bem-vinda neste lugar.
– Você não vê que está mulherzinha só está atrapalhando tudo de bonito que poderíamos reconstruir, Gaara! – Evelyn alcançou-o e o abraçou, segurando o rosto de Gaara para que ele a encarasse. – Nosso casamento, Gaara... nosso amor... Tudo que o acidente nos tirou. Todo nosso tempo juntos...!
– Você o destruiu muito antes daquele acidente, Evelyn – Gaara rosnou, segurando-a nos pulsos e repelindo-a. – Você destruiu entre nós tudo que eu estou reconstruindo agora com Ino.
– EU NÃO FUI A ÚNICA A TORNAR AS COISAS INSUPORTÁVEIS! NÃO SE ESQUEÇA DOS SEUS PRÓPRIOS ERROS, GAARA! – Evelyn gritou, completamente tomada pela raiva.
– Isso é inútil, Evelyn. Saia desta casa por suas próprias pernas e com o pouco de dignidade que te resta. – ele disse com frieza. – Se não o fizer, os seguranças o farão por você.
Gaara não quis escutar as palavras raivosas de sua ex-esposa; deu-lhe as costas e desapareceu escadas acima, desejando ficar só por um momento. Quando, porém, chegou ao quarto, encontrou Ino de pé perto da cama, com um olhar que mostrava indulgência e a mais profunda compreensão. Estava ligeiramente pálida pelos enjoos, mais isso não lhe impediu de estar tão bonita ao ponto de Gaara amaldiçoar.
Ele se sentou no recaimer e puxou Ino para abraçá-la. Ela vestia apenas um robe de seda cinza sobre o lingerie branco que ela tinha escolhido para aquela noite. Mas Gaara desatou o nó do robe e apoiou a cabeça contra o ventre levemente arredondado de Ino, apreciando o cheiro do perfume da pele dela e o contato.
– Você me torna forte para me impedir de acabar com esta mulher desprezível. – ele sussurrou, estrangulado pelo ódio.
– Ela é só uma mulher doente, não a odeie por isso. – Ino segurou-o pelo rosto, erguendo-o, e sorriu. – Vamos, o que quer que esteja te corroendo, transforme em amor e cuidado para com nosso filho que está vindo. Eu não quero um homem carrancudo e rabugento como pai do meu filho, por mais sexy que ele seja.
Gaara ofegou, puxando-a mais para si e tentando ao máximo aprofundar aquele contato. O lado de seu rosto aninou-se sobre o abdome de Ino e suas mãos subiram pelos flancos até alcançarem as costelas, iniciando ali uma carícia com os polegares.
– Vocês são a minha vida agora, Ino. Quero aproveitar o momento para pedir que cuide-se melhor e me deixe cuidar de você. – sussurrou.
– Mas eu estou bem, amor.
– Não, não está. E nós dois sabemos. É só que... se acontecesse algo com você ou ao nosso bebê... Eu não sei se suportaria.
Ino achou que fosse o momento para dizer que não apenas sua condição física a estava preocupando, mas a sua segurança também era um fator e a deixava estressada. Que ela queria ser protegida e mimada por Gaara. Mas aquele dia já tinha sido tão desgastante por si só, então decidiu adiar aquela conversa até depois da festa de natal.
– Tudo bem, querido. Depois da festa podemos conversar sobre isso e outras coisas. Por enquanto eu apenas quero aproveitar meu natal com você e as nossas famílias. É pedir muito? – Ino lhe sorriu docemente.
– Não, não é pedir muito. Nada do que você me pede é muito, carinho. – na barriga de Ino, Gaara deixou um beijo antes que ela se afastasse para terminar de se vestir.
– Quando foi que você se tornou tão doce, amor? Depois da gravidez ou do seu primeiro orgasmo comigo? – Ino riu enquanto olhava um vestido rosa de decote em V.
– Entre o “egoísta, ordinário e o arrogante” no dia em que você invadiu a minha casa. – Gaara resmungou.
(...)
A vida real parecia tão distante naquele momento, que Ino desejou que fosse natal para sempre.
O jantar de natal que reuniu as famílias Sabaku e Yamanaka foi realmente discreto e íntimo. Os únicos membros “alheios” que foram convidados eram Itachi e Shizune. Como família Uchiha tinha feito residência permanente em Paris e era próxima dos Sabakus, Temari teve a delicadeza de convidá-lo para o jantar para que não passasse as festas sozinho. Shizune sempre tinha passado os natais com os Yamanaka ou mesmo com Tsunade, já que não tinha família. Sendo assim, nenhum dos dois era realmente alheio.
Caminhando por entre os parentes, Ino parou ao lado de Temari para conversar um pouco antes da troca de presentes.
– Eu não sei você, mas estou louca para comer aquele bolo de natal que sua mãe trouxe. – Temari comentou entusiasmada. – Só sinto que Itachi não venha...
– Ele vem sim, só deve estar fugindo de alguma ex-namorada que quer que ele passe o natal com ela. – Ino riu por um curto segundo. Logo voltou a ficar séria e baixou o tom de voz. – Gaara me contou que ele rompeu o noivado há um par de meses. Disse que ele ainda parecia chateado...
– Ele vai ficar bem, assim que colocar os olhos naquela sua amiga, Shizune... O tipo perfeito dele: simples, encantadora e tão pura que faz a nós, meras amantes do sexo selvagem, umas perdidas. – as duas riam com gosto. – Acha que não ouvi vocês durante a noite?
– Não me julgue! Não fui eu quem estava tão saudosa ao ponto de não conseguir chegar no quarto.
A conversa animada das duas foi interrompida pela chegada de Itachi. Ele estava mais bonito que Ino podia se lembrar, e quando se aproximou, foi com prazer que o comprimentou com um beijo.
– Feliz natal, garotas. Você está incrível, Ino. A gravidez está fazendo bem a você e você está fazendo muito bem ao Conde Drácula ali. – ele apontou um dedo para Gaara, que conversava tranquilamente com Inoichi. – E você Temari... Sabe que sempre me deixa sem fala quando veste roxo.
– Você também não está nada mal. O tempo foi seu bom amigo! – Ino o abraçou rindo de seu charme. – Que bom que tenha vindo.
– Enquanto ele me chamar de garota e tecer elogios como esse último, eu sempre vou convidá-lo para as festas! – gracejou Temari engolindo seu champanhe de uma só vez. – Você é um suspiro fresco para a autoestima, querido.
– É o charme Uchiha... – Itachi a beijou no alto da cabeça. – Mas vamos ao que interessa: de quem aquela moça de vestido rosa e cabelo escuro é amiga?
Ino olhou para Shizune, que conversava distraidamente com Matsuri, Margareth e Sasori. Sorriu instantaneamente para a cunhada, que fez uma expressão de “eu não disse?”.
– Minha amiga, Shizune. Ela não será uma presa fácil, Itachi. – avisou-o.
– Eu namorei com você, Ino. – ele segurou-lhe as mãos e beijou ambas. – Difícil é seu nome do meio. E se um cara como Shikamaru conseguiu suportar Temari, eu ainda tenho esperanças.
– Desapareça, maldito seja! – praguejou Temari, ainda que rindo do jeito do amigo. Assim que ele se distanciou, ela virou-se para Ino, sorrindo. – Imagino que o jantar possa atrasar mais dez minutos?
– Quinze. – Ino respondeu, já caminhando em direção a cozinha.
(...)
Evelyn entrou feito um furacão na sala escura da cobertura. Estava furiosa e prestes a matar qualquer um que cruzasse seu caminho naquele momento. Mas sua ira estava principalmente focada no homem sentado na grande poltrona sob a penumbra, de onde só poderia ver sua mão segurando um copo com uísque.
– Deu tudo errado! – ela gritou as palavras. – Ele está de quatro por aquela vadia e quase me expulsou da casa! Você disse...
– Que tivesse paciência, minha cara. No tempo certo vamos ter tudo o que queremos, basta pressionar os pontos certos que eles vão ceder.
– Você quer que eu faça o quê, agora? Tente seduzir aquela grupie do ‘N Sync esperando que ela largue Gaara? Ou eu posso pagar o Justin Timberlake caso ela não goste dos meus peitos?!
– Eu tenho outra pessoa cuidado da golpista. O mais importante agora é que junto e essa pessoa, você pressione Ino. Apelar para a compaixão dela será mais eficiente que uma oferta de sexo. Finja que quer ser amiga dela, que quer melhorar as coisas entre vocês duas. Mas temos que ser rápidos, ainda mais agora.
– Ainda mais agora por quê? – Evelyn foi ao bar e serviu-se de uma dose de gim.
– Ela está prenha, e esse bastardo coloca em risco todos os nossos planos para Gaara. Por isso vamos acelerar o ritmo das coisas.
Ela não quis contestar. Na verdade, gostou daquela notícia, apesar das circunstâncias. Quanto mais rápido os planos acontecessem, mais rápido teria Gaara em suas mãos.
(...)
Ino estremeceu, acordando subitamente. Estava suada, zonza e enjoada. Tão rápido quanto pôde, estendeu a mão para o pacote de torradas salgadas que sempre deixava sobre o criado-mudo e mastigou uma delas devagar. Seus movimentos foram calculados ao levantar-se de madrugada; a última coisa que queria era acordar Gaara.
Ela caminhou devagar para o banheiro e ao se olhar no espelho quase vomitou. Estava pálida, úmida, com olheiras e a camisa de futebol que vestira não era nada sexy. Achou que se molhasse o rosto se sentiria melhor, mas ao ver seu reflexo, um banho frio não lhe pareceu má ideia.
Foi apenas uma ducha rápida, mas Ino já se sentia infinitamente melhor, embora uma estranha sensação, junto ao enjoo, não a tinha abandonado. De modo protetor, ela colocou a mão sobre o ventre, mas o estranho pressentimento de perigo não a tinha deixado. Enrolada em um roupão e secando os cabelos do modo que pôde, Ino voltou para o quarto, vestiu uma das camisolas de cetim branco que Gaara tanto gostava nela e se enfiou na cama, aninhando-se no lado do noivo.
– Está se sentindo mal, querida? – Gaara sussurrou sonolento, enquanto erguia um braço para que Ino se ajeitasse melhor. – Você está fria.
– Eu tive um pesadelo, e acordei enjoada. Apenas isso. – sua voz saiu trêmula, e atraiu a atenção de Gaara.
– Tem certeza que foi só isso? Nas últimas semanas você pareceu tão estressada e... assustada, até, — ele estava desperto, e Ino pensou que se havia um momento que ela tinha coragem para contar tudo que estava passando para Gaara, era aquele. Sentia-se protegida, e tocar naquele assunto sempre era tão difícil...
– Gaara, me escute um momento, sim? – ela suspirou, tomando forças para começar. – Quando eu tinha 16 anos, conheci um cara. Ele era mais velho, repetente na escola, típico bad boy por quem todas as garotas se matariam pela atenção.
“Eu não era exatamente a mais popular entre os caras, então quando ele passou a me notar e me dar atenção eu fiquei extasiada. O nome dele era Connor, e então a gente passou a sair e depois namorar.
“Eu nunca me liguei nos conselhos que meu irmão me dava para ficar longe dele: que ele era um cara perigoso e não era bom para mim. Eu também não queria nem escutar os meus pais, e isso foi o maior erro da minha vida. Ele realmente era um tipo estranho. Sempre muito agressivo e às vezes se envolvia com drogas. Mas eu era muito ingênua e achava que ele era o último cara da terra, e não queria me afastar.
“Um dia eu saí de casa escondido para ir encontrar ele no apartamento de um amigo. Como era esperado as coisas ficaram quentes entre nós e... Ele tentou fazer sexo comigo. E quando eu me recusei ele simplesmente ficou louco. Começou a me bater...”
Ino tremia. Lembrar daquilo tinha sido mais difícil do que ela pensava e se Gaara não estivesse abraçando-a tão forte, talvez não teria chegado tão longe.
– Não precisa continuar se não quiser, querida. – ele sussurrou de modo brando.
– Eu preciso... Talvez eu nunca mais consiga tocar nesse assunto de novo. – Ino reprimiu um soluço. – É que... ele parecia ter prazer ao me bater, com a minha dor. Ele parou por alguns minutos, apenas para acender um cigarro para fumar enquanto me agredia, dizendo o tempo todo que ia me estuprar e matar.
“Eu nunca soube quanto tempo ele ficou me batendo, mas se o amigo dele não tivesse chegado e o tirado de cima de mim eu estaria morta. Esse cara me deixou no hospital, ligou para o meu irmão e sumiu. Meu pai era amigo do chefe de polícia e conseguiu que Connor fosse preso, mesmo sem flagrante; ele também tinha outros problemas. E eu não tive notícias dele até pouco tempo; nem mesmo me lembrava dele, mas...
“Um dia, há poucas semanas, eu fui almoçar com Tenten. E ele me encontrou. Ele parecia diferente; estava diferente, na verdade. Eu achei que fosse uma coincidência, e procurei não pensar nisso, mas depois de um tempo eu passei a vê-lo rondando a galeria. Me observando, até o dia em que ele...”
– Esse homem não vai encostar um dedo sequer em você, carinho. – apesar o vocativo tão afetivo, a voz de Gaara saiu seca e cortante. – Eu juro que ninguém, nunca mais, vai te machucar.
Ino escondeu o rosto na curva do pescoço de Gaara, inspirando aquele cheiro tão reconfortante. Mas agitação dentro de si não cessou, o que a fez temer não só por si e seu bebê, mas pelo homem que amava também. Connor era imprevisível e instável, e ela não queria descobrir quais eram os limites de suas piores emoções.
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