Implacável
28 Capítulo 28
Notas iniciais
27 de dezembro, sexta-feira, 19h24
Cameron Street, 7029
Londres, Inglaterra, UK
Ino olhou mais uma vez para o relógio, e ao ver que já tinha se passado quase meia hora do horário marcado com o médico resolveu entrar no consultório de uma vez. Gaara não viria. Tinha esquecido, muito provavelmente, pois nem se dera ao trabalho de ligar para avisar que não viria caso algum imprevisto tivesse acontecido.
– Tem certeza que não quer esperar mais, Srta Ino? – Baki perguntou suavemente.
Desde o natal, o turco tinha sido deslocado de assistente e chefe da segurança de Gaara para se tornar protetor de Ino. A todos os cantos que e loira ia, ele estava junto, cuidado para que ela não tivesse encontros indesejados. E Ino não reclamava; se dava bem com Baki, e provavelmente não se sentiria tão a vontade com Ao ou qualquer outro dos seguranças.
– Tenho. Ele não vem, Baki. Deve ter ficado ocupado com outra coisa. – Ino disse e se levantou, pegando sua bolsa e indo em direção a mesa da secretária. – Pode avisar ao Dr Pritchard que eu estou pronta?
Ino fingiu não notar o olhar penalizado que Baki tinha, e assim que o doutor a chamou, ela respirou fundo e procurou se concentrar em algo mais importante que a ausência de Gaara: seu filho.
(...)
Gaara subiu as escadas devagar, apoiando-se levemente em sua bengala para não se apoiar nos corrimãos imundos e encardidos. O prédio era mais uma construção feia na zona das docas onde prostituição, crime e drogas eram muito comuns aos habitantes; ficava ao lado de um restaurante velho e sujo que criava frangos ilegalmente nos fundos para que fossem servidos.
Quando chegou ao número 2B no segundo andar, Ao, seu segurança, tomou a frente e bateu na porta, afastando-se novamente para deixar a passagem livre para Gaara. Levaram alguns instantes para que alguém abrisse a porta, e quando aconteceu o ruivo não resistiu a uma careta pelo forte cheiro de maconha que vinha de dentro do apartamento.
A figura de Connor não era das melhores. Era um tipo dos piores, de cabelos bagunçados e sujos, olhos injetados e com o tique de esfregar o nariz bastante comum de alguém que tinha acabado de cheirar cocaína. Ele também fedia ligeiramente a álcool, levava somente umas calças de couro escuro e botas de motoqueiro.
Ao ver Gaara a sua porta, Connor ficou extremamente surpreso, mas depois sorriu de forma debochada e apoiou-se pesadamente na porta de madeira – que estava empenada por sinal – e assobiou.
– A majestade Sabaku vem ao meu humilde lar... Que honra receber um dos homens mais poderosos da Inglaterra...! Me diga, é bom controlar o mundo dos bastidores, Sr Sabaku?
– Vamos conversar um instante, rapaz, e então eu te dou um relato de como é estar no meu lugar. — Gaara respondeu sem emoção alguma.
– Sabe o que é? Você não marcou hora com a minha secretária e... pra falar a verdade eu não estou nem um pouco afim. – Connor ia fechar a porta, mas Gaara segurou-a com pouco esforço e deu um passo a frente, evidenciando ainda mais a já bem clara diferença de altura e estrutura corporal entre os dois.
Connor, aos vinte e três anos, era um rapaz magro e ligeiramente adoecido pelas drogas, mas não era fraco e não tinha medo. Tinha quase um metro e oitenta e, em tempos mais tranquilos de sua vida, orgulhava-se de ter sido um dos mais altos da turma do colégio e parte equipe de basquete. Mas Gaara era um homem, com a prudência dos quase trinta e um anos e uma constituição física invejável em um e noventa e três metros.
Gaara entrou no imundo apartamento junto a Ao, mas o segurança apenas ficou ao lado da porta enquanto o chefe acompanhava Connor dirigir-se a contragosto para um sofá velho. Ele se sentou e indicou uma poltrona puída e encardida para Gaara, que se recusou a sentar.
– Estou bem de pé.
– Se quer ficar em pé com essa bengala...
– Eu estou bem, e o que tenho a dizer será rápido. – Gaara voltou seus olhos para Connor, com um olhar que gelou até os ossos do mais jovem. E sua voz, ao sair tão seca, reforçou a ausência de complacência para com ele. – Você arrumará as suas coisas e dará o fora de Londres. Jamais voltará a incomodar minha noiva ou sequer pensar nela novamente.
– E o que te faz acreditar que eu farei o que você está dizendo, majestade? – Connor riu debochado, apesar de compreender o quão perigoso Gaara estava naquele momento.
– O fato de que eu posso fazer você amanhecer boiando no Tâmisa num estado que apenas seu dentista vai ser capaz de te reconhecer. – ele sibilou, aproximando-se de Connor. – E quando a polícia vier atrás de mim, direi que foi legítima defesa. E adivinhe só, seu pedaço de merda?! Eles vão acreditar, porque você é seria só mais um drogado que tentou invadir a minha casa, e eu agi para defender a minha mulher.
– Você é só mais um cara bonzinho, não faria algo assim...
– Não pegue para ver, garoto. Eu tenho dinheiro e sei comprar as pessoas certas. Poderia te pagar o suficiente para que se mande daqui, mas acho que aquele colar de rubi que roubou de Ino deve valer mais que precisa. Apenas pense na minha proposta, e caso goste de ficar vivo já sabe o que fazer. – calmamente, Gaara deu dois passos para trás e fez que ia embora. — Você tem dois dias.
Irado, Connor se levantou num ímpeto e desferiu um par de socos em Gaara. Um no lado direito da face, outro no canto esquerdo da boca. O ruivo não movera mais que a cabeça, e depois de cinco ou seis segundos, cuspiu o sangue oriundo do ferimento na boca e estralou os ossos das mãos ao cerrá-las.
– Pouco inteligente, fazer isso, rapaz. – ele sibilou, satisfeito por ter um real motivo para bater em Connor. – Pouquíssimo inteligente.
– Por quê? Vai mandar sua babá de terno me bater com um maço de dinheiro?! – Connor gritou, cometendo o erro de aproximar-se de Gaara.
Ele viu que algo estava errado quando seu olhar se voltou para o ruivo logo após Ao ter deixado o apartamento. Durou apenas um instante, pois ele fora atingido por um violento soco no maxilar. Em sequência, Gaara o segurou pelo cabelo e lhe bateu com a cabeça na parede, atordoando-o para uma sequência de golpes extremamente enérgicos por todo o abdome e face.
Do lado de fora, Ao escutava o som dos golpes e dos protestos de Connor sem esboçar qualquer reação. Uma moça passou por ele e o olhou interrogativamente antes de enfiar-se em seu próprio apartamento. Passou-se um minuto até que o celular de Ao tocou.
– Sim, Sr Baki. – ele atendeu.
– Onde estão? Você devia cuidar para que o Sr Sabaku não perdesse nenhum compromisso importante! – o turco sibilou, com o inglês extremamente carregado por causa da raiva.
– O Sr Sabaku não perdeu qualquer compromisso da empresa. Ele me alertou de que estaria bem...
– Tire-o daí imediatamente e leve-o para casa. A Srta Ino esteve esperando por ele.
Sem esperar qualquer discussão da parte de Ao, Baki desligou, deixando o segurança com um problema nas mãos.
(...)
– Você não precisa cancelar as coisas assim. – Tenten disse pelo telefone. – Podem adiar a viagem...
– Eu prefiro cancelar. Uma mudança brusca de clima pode me deixar ainda mais indisposta. E as Ilhas Galápagos não vão desaparecer nos próximos dois anos. Posso ir quando o médico me liberar ou depois que o bebê nascer. – Ino respondeu devagar. Queria dizer que poderia fazer aquela viagem em sua lua-de-mel, mas aquilo lhe parecia tão distante no momento.
Assim que terminou a consulta, Baki levou-a para casa e ela se enfiou no quarto sem nem mesmo trocar uma conversa mais carinhosa com o irmão, que a esperava na sala com Sasori. Ao que parecia os dois tinham vindo ali a pedido de Gaara, e por isso ela tentou dispensá-los rapidamente, achando que o noivo esquecera-se daquele compromisso também. Mas Deidara recusou-se a ir e acabou enfiando-se na cama com a irmã para comer salgadinhos enquanto Sasori tinha ido fazer companhia a Chiyo na estufa.
– De qualquer forma eu duvido que Gaara vá estar livre no ano novo. Com certeza vai surgir um jantar ou alguma festa de investidores que teremos que ir. – suspirou resignada.
– Bom, se você quiser ir para Gales com a gente...
– Não. Eu acho que vou com Deidara passar uns dias com a vovó em Manchester. Ela não pôde vir no natal nem no meu noivado, e eu gostaria muito de ir visitá-la.
– De qualquer forma, se quiser ir comigo e Neji, será bem vinda, querida.
– Obrigada, mas não vou atrapalhar o ano novo de vocês. – Ino riu um pouco. – Vou desligar, Tenten. Meu irmão está começando a enlouquecer com a falta de atenção.
– Vá lá, querida. E pare de se preocupar tanto! Não vai fazer bem ao meu afilhado.
– Pode deixar.
Ino jogou o celular para o tapete e se jogou de volta na cama, aconchegando-se na lateral de Deidara, que comia pipocas e assistia a um filme de horror na televisão de plasma acoplada à parede do quarto.
– Você tem uma bela cama, uma ótima televisão e um noivo gostoso... Não poderia pedir mais.
– Poderia pedir um pouco mais de atenção da parte do meu noivo gostoso. – ela observou.
– Eu também, mas não podemos ter tudo na vida, Ino-princesa. – Deidara brincou, puxando a irmã para mais perto. – Alegre-se um pouco. Está tudo bem com seu bebê apesar dos enjoos. Mas enfim... Vomitar não é normal na gravidez?
– Não ao ponto de tornar a minha vida de grávida um inferno. Mas o médico disse que em algumas semanas eu vou passar a me sentir melhor. Enquanto isso...
– De molho na cama por três semanas além do recesso de fim de ano, enroscada no ruivo ou comendo pipocas. – ele riu, beijando o alto da cabeça de Ino.
– Nem um, nem outro. Eu não estou suportando o cheiro dessa pipoca de queijo que você trouxe e... Gaara deverá estar ocupado nessas semanas e não vai ter tempo para coisas tão mundanas. – o ressentimento foi palpável na voz de Ino.
– Que humor...! – resmungou. – Você venceu, vou levar a pipoca para longe e de cortesia te trago uma sopinha.
– Eu não quero sopa. Não sou uma doente ou uma criança para ficar tomando sopa. Só quero ficar um pouco sozinha, Deidara.
– Não discuta, você não comeu nada hoje. – Deidara saltou da cama e saiu rapidamente do quarto.
Sozinha, Ino se encolheu na cama, pegou o controle da televisão e passou a zapear. Acabou deixando na reprise de Jane Eyre na BBC, e aquilo pareceu distraí-la um pouco. Depois de alguns minutos ouviu passos lentos e cadenciados, um pouco tímidos, e imaginou que fosse Sasori trazendo alguma sopa maluca que Deidara tinha mandado preparar.
– Sasori, diga para o seu marido que eu não quero sopa nenhuma. E pergunte a ele o que é preciso para que eu fique um pouco sozinha. – disse sem humor algum.
– Eu não gostaria de deixá-la sozinha uma segunda vez, carinho. – a voz calma de Gaara fez Ino se virar lentamente, sentar-se na cama e encará-lo com seriedade. Ela não disse nada, apenas olhou o início de hematoma no lado direito do rosto dele e o inchaço no canto da boca.
– Oh, é você. Parece que seu dia foi bem agitado. O que aconteceu? – Ino perguntou devagar, com a voz baixa e tentando esconder como estava magoada.
– Ino, eu...
– Quer saber, Gaara? Não me conte nada; eu não quero ouvir. O que me incomoda é que você sabia o quanto isso era importante e ainda sim não podia ao menos ter me ligado para dizer que não ia vir. Eu fiquei esperando por você durante meia-hora! E no fim quem estava lá comigo era o seu assessor! – ela bufou. – Caso não tenha percebido, é de você que eu estou grávida, não de Baki!
– Eu posso te explicar, Ino. – ele tentou tocá-la, mas Ino se afastou antes que ele o fizesse.
– Eu estou cansada e a última coisa que preciso é ficar nervosa. Não vai fazer bem para o meu filho...
– Eu estava cuidando da situação de Connor Davis. Cuidando para que ele deixe a cidade. – Gaara disse, exasperado pela impaciência de Ino. – Agora se quiser me matar esteja à vontade, querida. Apenas saiba que eu sinto muito em ter perdido uma coisa tão importante para nós, mas eu o fiz por sua segurança e do nosso bebê!
– Saia. – Ino disse gelada.
– Ino...
Como resposta, ele recebeu um forte tapa na face e a expressão extremamente chateada de Ino.
– Eu não contei para você o que estava acontecendo antes porque eu sabia que você ia tomar uma atitude tão egoísta e irresponsável como essa! Ir atrás dele?! – ela gritou. – Mas que porra, Gaara! Você vai ter um filho agora, caramba! E por enquanto ele está na minha barriga, mas e quando não estiver? Vai continuar agindo assim? Se colocando na frente da bala ou enfrentado loucos?! E vê se coloca uma compressa nesse rosto!
– Ino...
– Dê o fora, Gaara! Eu quero ficar só. – Ino rosnou e voltou para a cama, encolhendo-se como uma bola para conseguir segurar o choro.
Gaara achou por bem sair e deixá-la em paz; não queria vê-la tão triste e magoada por causa das atitudes dele, mas queria menos ainda vê-la nervosa. Então se dirigiu silenciosamente para a porta. Ino desligou a televisão, se agarrou em um travesseiro e lutou contra incontrolável vontade de vomitar que começava a lhe dar nos nervos. Fechou os olhos por alguns instantes e as coisas pareceram ainda mais difíceis. Estava cansada, sob forte estresse e assustada com toda aquela situação. Queria pegar o carro e fugir para Manchester, passar um bom momento com sua avó, como nos verões da sua infância. Mas seus pensamentos foram severamente interrompidos por uma náusea que a impulsionou para o banheiro.
(...)
Gaara suspirou encostado à sua cadeira no escritório. Bebeu a quarta dose de uísque e ainda sim não se sentia melhor. Na verdade, ele não sentia vontade alguma de beber, embora estivesse com o humor apropriado. Talvez a situação seria melhor conduzida se ele estivesse realmente sóbrio.
– Gaara, você fez inúmeras perguntas sobre o meu passado, mas eu não vejo sentido algum nisso. – Sasori comentou lentamente. Fazia pelo menos uns dez minutos que Gaara o chamara ao escritório e começara a fazer perguntas sobre a infância de Sasori, e o Akasuna não via nenhum sentido naquilo tudo. – Se você me disser o que quer saber exatamente, talvez eu possa ajudar.
– Você disse que perdeu o contato com seu pai adotivo depois que sua mãe morreu e você disse a ele que era homossexual. Mas antes disso não procurou saber quem eram seus pais biológicos?
– Bom, meu pai disse uma vez que meus pais eram ingleses. Do meu pai ele disse não saber nada, e minha mãe, segundo ele, tinha sido uma prostituta que me deixou na porta do escritório dele. Para que eu não fosse para um orfanato, ele me registrou como filho biológico. Foi ilegal, e por isso eu não quis procurar meus pais de verdade ou meus pais adotivos poderiam ser presos. – ele deu de ombros. – Agora quer me dizer o porquê desse interrogatório todo?
– Chiyo e Ino andaram conversando sobre algumas histórias antigas da minha família. – Gaara começou de forma cansada. – Pouco antes de eu nascer, meu tio, irmão de meu pai, foi morto em um assalto a casa dele. A esposa tinha morrido no parto do único filho, que foi levado nesse assalto. O menino tinha quatro anos e se chamava Sasori.
– Você está querendo insinuar que eu possa ser seu primo desaparecido? – Sasori perguntou descrente.
– Meu investigador procurou mais a fundo sobre suas origens, e se tem uma coisa que aprendi é que quando coincidências se acumulam da forma como se acumularam no seu caso... elas se tornam evidências. – Gaara o perscrutou com o olhar e soltou o ar pela boca antes de continuar. – Existem algumas inconstâncias, mas se você concordar em realizar um teste de DNA podemos procurar seu pai e os outros envolvidos com sua origem para esclarecer de uma vez por todas essas dúvidas.
– E se der negativo? Ou pior, se der positivo e sua família não me aceitar como os meus pais adotivos? – sussurrou.
– Não fará diferença, Sasori. Eu estou me casando com a sua cunhada; você fará parte da família de uma maneira ou de outra. – deu de ombros. – Apenas peço que mantenha segredo disso, inclusive com Ino e Deidara. E então?
– Marque o teste. – respondeu Sasori, com estranha determinação.
Por anos quisera saber de onde realmente viera, e agora a oportunidade estava ali. Ainda que fossem falsas esperanças, desejava que aquela senhora simpática a quem fez companhia na estufa fosse sua avó. Desejava uma família com uma prima animada como Temari e primos tão cautelosos como Gaara e Kankurou. Queria a família que seus pais adotivos lhe negaram por ser diferente. E a chance estava ali.
Sasori e Gaara conversaram por mais alguns minutos até que ficou tarde. Assim que o cunhado e o suposto primo partiram, Gaara continuou no escritório, bebendo algumas doses a mais de uísque para sufocar a amargura em seu peito. Sentia-se um idiota por ter sido tão imprudente, mas seu instinto de proteger Ino falou mais alto e sobrepujou a sensatez.
Foi perto de três da manhã, quando a garrafa de uísque estava quase na metade que Gaara resolveu deixá-la de lado. Teve sérias dificuldades para se levantar, e em certo momento acabou acordando Nero, que antes dormia tranquilamente no sofá do escritório, então resolveu dormir por ali mesmo. Relaxou na cadeira, baixou a cabeça e fechou os olhos pelo que lhe pareceu poucos minutos, mas foram quase três horas.
Ele acordou com um leve toque em seu rosto, e alguém lhe afagando as costas. Levou alguns segundos até abrir os olhos e dar de cara com a expressão preocupada de Ino.
– Você bebeu. – ela observou, torcendo o nariz para suportar o cheiro do uísque aberto sobre a mesa e de seu próprio noivo.
– Um pouco além... – Gaara foi interrompido por um soluço. – Que horas são?
– Sete e meia.
– Estou atrasado. – ele disse ao mesmo tempo em que levantou-se da cadeira num ímpeto. Sua cabeça girou e latejou em protesto, fazendo-o apoiar-se na mesa e em Ino.
– É sábado. E você precisa descansar. Vem comigo...
– Ino, eu tenho que ir para o escritório... – murmurou cansado.
– Seus funcionários são muito bem pagos para que você possa faltar ao menos um sábado.
Ino segurou-o por uma mão e o puxou em direção ao quarto. E Gaara não disse uma só palavra durante o caminho. Quando entraram, Ino se apressou em ligar o chuveiro enquanto Gaara começava com o lento processo de se livrar das roupas. Enquanto ele tomava um banho frio, ela juntou as peças e as levou para a lavanderia, aproveitando para pegar na cozinha café forte para Gaara e uma torrada para si.
– Trouxe café e um remédio para dor de cabeça. – ela disse quando entrou no quarto. Gaara estava estirado na cama, somente com a boxer escura e com o braço a lhe cobrir os olhos da claridade que entrava pela varanda aberta.
– Pode fechar a cortina? Minha cabeça parece prestes a estourar. – queixou-se.
– Não era de se esperar menos depois de ter bebido tanto e dormido naquela posição. Tome o café, vai te fazer sentir melhor. – Ino deixou a xícara sobre o criado-mudo e foi fechar as cortinas, deixando o quarto completamente escuro, a não ser pela fraca luz dos abajures ao lado da cama.
Enquanto Gaara bebia seu café, Ino tomou seu chá assistindo ao jornal da manhã. Assim que terminou, colocou a bandeja com a louça suja no aparador do corredor e voltou para o quarto, trancando a porta ao passar. Gaara imaginou que ela talvez estivesse indisposta para conversar ou discutir sobre o que tinha acontecido na noite anterior, então fechou os olhos na intenção de tirar um cochilo.
No entanto, um segundo mais tarde, abriu os olhos ao sentir o toque dos lábios de Ino nos seus e o corpo pequeno e delicado aninhando-se sobre o dele.
– Senti a sua falta esta noite. Mesmo que tenhamos discutido, não volte a dormir longe de mim. – ela sussurrou. – Eu sempre sinto muita falta do seu calor de noite.
– Eu não ia arriscar que você me esfaqueasse durante a madrugada. – Gaara brincou, passando um braço em volta da cintura de Ino e apertando-a um pouco mais. A mão livre usou para lhe acariciar o corpo lentamente, estimulando-a para o momento de sexo matinal.
– Hum, esses lençóis são muito caros para manchar de sangue. Mas se eu te matasse, sentiria ainda mais falta do que vamos começar a fazer...
Gaara segurou-a pelo rosto, tomando dela um beijo exigente e faminto. Durou algum tempo, até que ele diminuiu a intensidade do beijo e começou a soltar-lhe os cabelos, presos em uma trança. Com os dedos entrelaçados nos fios dourados, afastou-se um pouco. Olhando-a nos olhos tão profundamente, Gaara começou a levantar a camisola de Ino.
A primeira reação de Ino foi segurar-lhe as mãos para impedi-lo. Estava insegura pelas mudanças que estavam ocorrendo em seu corpo – ela mais parecia gorda que grávida. Mas Gaara tocou-lhe as mãos, e lentamente subiu a peça, arremessando-a para um canto qualquer.
– Seu corpo... – Gaara parou por um segundo, observando-a em deleite. – Seus seios estão muito maiores.
– Vai mesmo continuar com isso? – Ino arfou quando sentiu o toque de Gaara em um de seus seios.
– Está mais sensível.
Ino parou de escutar ao senti-lo chupando-lhe um dos seios com avidez. Já fazia alguns dias desde que sentira o calor daquele corpo no seu, e ela sentia muita falta das noites juntos. As mãos de Gaara acariciando seu corpo a estavam deixando tão sedenta, e ele ainda tinha aquelas malditas boxers no corpo.
Instintivamente, ela levou uma das mãos até o volume da ereção de Gaara em suas incômodas boxers, mas antes que Ino tivesse sucesso em alcança-lo, sua mão foi segurada pela dele.
– Hoje não. Apenas relaxe, querida. Quero te dar todo prazer que uma mulher merece. – as palavras acompanhadas do olhar enevoado de Gaara fizeram Ino soltar um longo gemido de satisfação.
(...)
Temari estava passando pelo corredor, ainda sob a letargia do sono e indo de encontro com um dos aparadores do corredor, quando Shikamaru lhe segurou rapidamente pelo cotovelo e a tirou do rumo do móvel.
– Acorde, meu bem. – ele disse morno, beijando suavemente nos lábios.
– Hum... – a loira resmungou, indo em direção ao quarto do irmão. Tinha erguido a mão para chamar Gaara, que estava atrasado para uma reunião, mas parou ao ouvir um longo gemido de prazer.
– Oh, sim! Sim!
No mesmo segundo, Temari colou o ouvido na porta e segurou-se para não fazer nenhum ruído. Teria ficado para ter com quê fazer Ino se envergonhar e deixar o irmão irritado com sua falta de discrição, mas Shikamaru a segurou pelas pernas e a jogou sob seu ombro como um saco de batatas.
– Vamos, bisbilhoteira.
– Eu não sabia que eles eram tão safados! Sexo matinal com direito a oral e tudo?! – Temari comentou, completamente alheia ao fato de que o marido a carregava pela casa em seu ombro, fazendo os empregados os olharem com estranheza.
– Você é suspeita para criticar alguém sobre sexo matinal, não acha, meu amor? – Shikamaru lhe deu um tapinha no bumbum, fazendo-a resmungar.
– Eu não pensava isso do meu irmãozinho mais novo. Ele vive com aquela cara fechada e acho que se eu não tivesse ajudado mamãe a cuidar dele, diria que ele nem pinto tem.
Os dois chegaram à sala de almoço, onde o desjejum estava sendo servido. Shikamaru sentou Temari em uma cadeira ao redor da mesa e ocupou um lugar ao seu lado. Kankurou e Matsuri já tinham começado a comer e pareceram se interessar na conversa de Temari.
– Está enchendo a paciência de Gaara de novo com aquela conversa de ele ser um eunuco assexuado? – Kankurou perguntou.
– Sua irmã acha que por Gaara ser um cara discreto sobre sua vida sexual, ele é um celibatário, mesmo tendo Ino como noiva. – disse Shikamaru.
– O que quis dizer com “mesmo tendo Ino como noiva”? – o olhar faiscante de Temari fez Shikamaru suspirar e lhe empurrar um muffin de banana com blueberries.
– Nada, meu bem. Apenas coma, não são os seus favoritos? – ele beijou-a no rosto rapidamente e voltou sua atenção para a torrada com creme de amendoim que comeria.
– Não tente me distrair com comida, homem. – ela bufou. — Mas voltando ao assunto...
– Que assunto? – Chiyo perguntou assim que entrou na sala, estava acompanhada de um Gaara costumeiramente sério, e de uma Ino satisfeita. – Olhem que está disposta a comer hoje...!
Ino desejou bom dia a todos e tomou um lugar a direita da Gaara, com Chiyo na cabeceira da mesa.
– Já melhorou dos enjoos, querida? – Matsuri perguntou docemente.
– O médico disse que minha condição não é comum, mas com o tratamento adequado eu vou me sentir melhor em alguns dias. – Ino disse enquanto esquadrinhava a mesa, a procura de algo que seu estômago sustentasse. O muffin que Temari comia parecia bom, mas ela não quis arriscar, e ficou com cereais e algumas frutas.
– Do que estavam falando? – Gaara perguntou.
– Da sua vida sexual, irmãozinho. – a resposta simples de Kankurou fez o ruivo quase cuspir o café que bebia. Irritado, ele pressionou a ponte de seu nariz e sentiu a dor de cabeça voltar a lhe incomodar. Ino o afagou no braço com um sorriso calmo e suave, tentando deixa-lo mais tranquilo, mas não pareceu adiantar.
– E em quê diabos a minha vida sexual é relevante para vocês, meus irmãos? – ele rosnou.
– Bom, nós gostamos muito de Ino. – Temari começou. – Se você fosse um eunuco assexuado, como Kankurou achava que você era, Ino seria muito infeliz. Aguentar esse seu mau humor intrínseco sem qualquer retorno? Seria muito ruim, não é, querida?
– Nisso ela tem razão, querido. – Ino disse enquanto enfiava um pedaço de morango na boca.
– Agora você está do lado deles? – ele olhou-a incrédulo.
– Não, estou constatando fatos. Mas não se preocupe, meu amor, o sexo não é meu único benefício.
– E que benefício. – ralhou Temari. – Eu os ouvi hoje.
– Que bom saber que vocês têm certeza que Ino é uma pessoa feliz, família.
– É claro que sou! – exclamou a Yamanaka. – O sexo é ótimo e você também é rico, meu bem. Que estímulos melhores para aguentar seu humor horroroso?
– É bom saber que te faço feliz de algum modo, querida. – Gaara resmungou. – Agora na próxima vez que me pedir para eu faça sexo com você no closet da minha irmã eu vou pensar duas vezes antes de aceitar.
Ino acompanhou os outros na gargalhada, mas logo se inclinou para sussurrar-lhe no ouvido e deixar ali uma mordida.
– Não vai, porque eu também te faço feliz, meu amor.
– Ei, parem com isso! – Kankurou ralhou. – Já sabemos que meu irmão não é eunuco. Se querem outra dose ao menos não façam na frente da vovó!
– Não se importem comigo, meninos. Eu estou velha, mas não morta.
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