Implacável

30 Capítulo 30 Editado


Notas iniciais
Olá, leitores! Como passaram esses dias? Eu sei que devia uma para vocês, mas como eu disse na versão original do capítulo, tive alguns problemas e por isso fiquei um tempo sem nem tocar nos arquivos da história. Mas, cá estou, com o capítulo 30 editado, como prometido. Não alterei muita coisa, mas é porque esse não é um dos meus capítulos favoritos. No próximo, eu prometo tentar melhorar!

15 de fevereiro, terça-feira, 05h29

Campeden Grove, 1032

Londres, UK

A claridade da fria manhã londrina fez Ino se encolher um pouco mais nos cobertores. Era cedo, mas Gaara não tinha levantado para ir para o escritório como de costume, então ela aproveitou um pouco mais a gostosa sensação de calor e conforto de se aconchegar no corpo do noivo antes de se levantar.

– Você não já devia ter levantado? – ela murmurou, sonolenta, quando sentiu Gaara respirar fundo e se mover ao despertar.

– Não. – Gaara resmungou, voltando a fechar os olhos e estreitando um pouco mais os braços ao redor de Ino. – Sua avó vem nos visitar, tenho que buscá-la no aeroporto.

– Ela vem? Não sei se estou com energias para andar com a minha avó por cada mercado de antiguidades de Londres. Eu gostaria apenas de dormir durante o restante da minha licença.

– Sua mãe acha que será bom, que a visita da sua avó poderia te animar um pouco... Na verdade, o Dr Pritchard está preocupado com esse seu novo estilo de vida zumbi. Um pouco de movimento além do trabalho lhe fará bem.

– Hum, isso não me parece tentador.

– Ino...

– Certo, certo. Mas hoje eu vou almoçar com Tenten. Ela quer ver alguns vestidos para o casamento. – Ino tentou disfarçar, mas Gaara notou o leve desapontamento que sempre havia na voz dela quando se tocava no assunto casamento.

Apesar de o divórcio ter saído com certa rapidez, Gaara ainda teria que esperar mais algum tempo antes de poder se casar com Ino. Havia alguns papéis com os quais lidar que colocava em risco qualquer plano de casamento antes do nascimento do bebê. E mesmo que os trâmites legais saíssem antes do nascimento, ainda haveria os preparativos. Gaara estava começando a cogitar a hipótese de que fugissem para Gretna Green¹ no dia seguinte que acertassem os papéis.

Mas sua consciência lhe gritava que Ino não merecia uma fuga para Gretna Green – apesar do fato dela ser uma romântica incorrigível, e que ficaria derretida pela ideia de dois amentes em fuga para casar – e sim bodas dignas de uma princesa.

– Você vai ganhar uma ruga bem aqui – Ino o tocou entre as sobrancelhas com o indicador, bem onde a pele franzia quando ele pensava muito em alguma coisa. – se não deixar de se preocupar tanto.

– Estava pensando... sobre nosso casamento. – suspirou. – Você me odiaria muito se fôssemos a Gretna Green? Sabe, logo que a papelada sair e, caso não dê tempo de planejar o casamento que você merece antes do bebê nascer...

Ino ergueu-se, se apoiando em um cotovelo para encarar Gaara. Ele quase podia ouvir os gritos de Ino em sua explosão de raiva, mas ao invés disso, ela se inclinou e o beijou suavemente na testa; exatamente onde se formava aquela linha de expressão.

– Eu te amaria ainda mais, se fosse possível. Você não entende que não importa onde nos casemos, mas sim a promessa da nossa vida juntos. Não é um papel que vai dizer se eu vou ficar ou não com você pelo resto da minha vida, querido. Muito menos uma festa pomposa. – Ino sorriu devagar.

– Certo... Gretna Green, então? – passou os braços pela cintura de Ino, puxando-a para um beijo.

– Gretna Green... – ela sussurrou contra os lábios finos de Gaara enquanto era beijada.

(...)

– Vovó Bammy parece mais apaixonada por Gaara que você. – Tenten enfiou um pedaço de peixe frito na boca. A morena gostava muito do peixe frito de um pequeno pub perto do escritório onde trabalhava com Itachi. Por esse motivo tinha arrastado Ino até ali e a obrigado a levar várias revistas de noivas.

– Ela está. Disse que eu fui muito abençoada por um homem daqueles que me dará filhos lindos que ela vai poder mimar, estragar e usar para fazer inveja nas amigas dela da igreja. – Ino riu enquanto mordiscava uma batatinha bem devagar e folheava uma revista alemã de noivas.

– O que acha desse? – a foto apontada por Tenten era um modelo simples, clássico. De silhueta coluna, de cetim marfim, sem alças e com decote em forma de coração, sobreposto por uma camada fina de toule branco que formava as mangas e era ornado com pequenas contas de cristal no busto.

Tenten guardou o rápido brilho que percorreu os olhos de Ino ao ver aquela foto, então, no mesmo instante, fechou a revista – sem se esquecer de marcar a página – e a enfiou na bolsa com pressa. Com um ar pouco afetado pela atitude abrupta da amiga, Ino voltou novamente sua atenção para a revista de noiva que estava olhando.

– Eu vou usar o vestido da minha mãe. – Tenten disse, enfiando outro pedaço de peixe na boca no processo. – Sempre gostei do modelo, apesar de ser bem antigo. Mas acho que sua mãe pode me ajudar a deixá-lo mais a minha cara.

– Tenho certeza que sim. – respondeu Ino. – Já decidiram o que vão fazer na lua-de-mel?

– Não, realmente. Neji estará ocupado com um caso da empresa, então pode ser que façamos apenas uma viagem rápida para a Escócia ou Gales.

– Usem as nossas reservas para Galápagos. O médico não permitiu minha viagem, então Gaara achou que vocês as aproveitariam melhor. São válidas por dez meses.

– Ino, não posso aceitar... Você queria tanto fazer essa viagem! – Tenten exclamou.

– Posso ir depois que o bebê nascer. – ela afagou o ventre arredondado. – Aceitem, é um presente dos seus padrinhos de casamento.

Ino esperou por uma reação exagerada de Tenten, mas a morena apenas segurou-lhe uma das mãos carinhosamente.

– Nós também só tínhamos planos de viajar depois que o seu bebê nascer. Não vamos deixar vocês sozinhos num momento como esse. – a morena sorriu num gesto de apoio. – Quero te ajudar a decorar o quarto, comprar roupinhas e também vou organizar um chá de bebê! Uma festa...

– Não vou fazer chá de bebê. – Ino engoliu em seco, vacilando ligeiramente. – Não agora.

– Ino, você vai entrar no sexto mês de gravidez e ainda não providenciou nada, querida. Você não era tão relaxada com as coisas.

– Não é que estou relaxada, apenas não quero apressar as coisas. Gaara está ocupado com as coisas do escritório e do divórcio; e as coisas na galeria também estão agitadas...

– O que tem de errado? – disparou Tenten, pegando Ino de surpresa para que não houvesse tempo para desculpas esfarrapadas.

Ela abriu e fechou a boca um par de vezes. Ino ainda olhou em volta no pub para ver se via algo que distraísse Tenten daquela pergunta, mas a expressão da morena lhe dizia que quanto mais ela enrolasse mais seria pressionada. Por fim, Ino desistiu; enfiou a mão na bolsa, tirou seus últimos exames no obstetra e os estendeu para Tenten.

– O que... Ino?! – os olhos da morena se arregalaram quando leu o papel. – Aqui diz que...

– Meu bebê já está no sexto mês. – disse com instabilidade na voz. – Não estamos indo tão bem quanto assim. O bebê está abaixo do peso e minha pressão está alta.

– Há quanto tempo você vem escondendo isso? – grasnou.

– Eu soube no exame feito no dia do acidente. Pedi ao médico para não falar nada com ninguém porque eu achei que as coisas fossem melhorar logo!

Cansada, Ino recostou-se em sua cadeira e afagou sua barriga em um gesto protetor. Por um par de vezes ela respirou fundo, tentando clarear as ideias, mas aquilo lhe pareceu ainda mais aterrador. Deixou seus ombros recaírem enquanto tentava beber um pouco de água, mas o nó em sua garganta tornava as coisas mais difíceis.

– Eu vou fazer dar certo, Tenten. – sussurrou como um mantra. – Eu vou...

– Gaara sabe...?

– Sim, ele... –revirou os olhos com impaciência. – Convenceu o médico a fazer um relatório da minha situação; e você sabe como ele pode ser persuasivo. Não se preocupe, estamos fazendo de tudo para que corra tudo bem com o bebê.

– E com você? Você também é importante nessa história toda!

– Você está parecendo Gaara. – bufou. – Tenten, acredite em mim quando digo que tudo vai dar certo. Eu vou ser capaz de ter esse bebê saudável e forte, para que ele dê bastante trabalho à madrinha dele!

Com uma sobrancelha erguida, Tenten olhou para a amiga como uma mãe reprovando o filho, mas não foi capaz de discordar da amiga. Se havia uma mãe capaz daquilo, ela era Ino.

– Eu acredito em você. – Tenten bebericou seu drinque calmamente. – Você consegue suportar um cara turrão como Gaara, então consegue qualquer coisa.

As duas ainda ficaram mais alguns minutos no restaurante, o tempo de preparo de uma nova porção de peixe com fritas que levariam para o escritório de Tenten a pedido de Itachi. Do pub, caminharam por um quarto de hora até o prédio onde ficava o escritório de advogados dos Uchiha, conversando tranquilamente sobre assuntos mais amenos.

Ino já era conhecida dos funcionários do escritório, então ela e Tenten seguiram para o escritório de Itachi sem nem mesmo serem anunciadas pela assistente do moreno – a moça estava em seu horário de almoço. Mas assim que abriram a porta, gostaram pouquíssimo do que viram: Evelyn Kerr e Gaara na sala; ambos de expressões tensas e acompanhados de seus advogados.

– Desculpe, eu... hum... – Ino segurou com firmeza no braço de Tenten e deu dois pequenos passos para trás. – Volto outra hora para falar com você, Itachi.

O olhar de desculpas no rosto do moreno foi bastante eloquente, assim como o de Gaara. Mas sem que Ino esperasse, Evelyn andou rapidamente até ela e a segurou por um dos pulsos.

– Evelyn Catherine Kerr, já que nunca tiveram a educação de nos apresentar e você parece pouco disposta à ideia de convivermos um pouco. – a loira se inclinou e beijou Ino em ambas as faces. – Pare de rejeitar minhas ligações e meus emails, meu bem. Poderíamos nos divertir muito falando sobre as posições sexuais favoritas de Gaara.

Nunca, em toda sua vida, Ino se sentiu tão miserável perto de outra pessoa. As roupas urbanas e ligeiramente largas que ela tinha escolhido naquele dia pareciam erradas quando se estava ao lado de uma ex-modelo da Dior vestida com roupas dignas de um desfile da Givenchy. Ino se sentia gorda, pequena e opaca ao lado daquela figura etérea que era Evelyn.

– Ino. – ela respondeu já profundamente irritada. – Eu não vou mais interromper...

– Oh, pare com isso! Não é porque você tirou meu marido de mim que eu iria te matar na primeira oportunidade. Assassinato ainda é crime nesse país; mas crime mesmo são essas roupas que você está usando! Que calças são essas... – Evelyn riu de seu humor ácido. – Eu ainda não consigo entender o que ele viu em você que não se lembrou de ver em mim. Somos idênticas, exceto pelo peso, querida. Se quiser posso te indicar meu nutricionista...

– Eu estou grávida, sua louca! – Ino afastou-se de Evelyn como se tivesse acabado de levar um choque. – E sabe que o que ele não viu em você?! Tudo! Pois o seu ego absurdamente grande impede que as pessoas possam sequer olhar para você sem sentir pena do quanto você é mesquinha e fútil! Agora que fique uma coisa bem clara: Não seremos amigas, nem sairemos juntas nem qualquer coisa do gênero. Se me der licença, eu vou lá fora respirar um pouco; seu perfume me deu náuseas!

Pisando firme, Ino marchou para fora da sala, bufando de raiva, enquanto Evelyn ria com desgosto, até encontrar o olhar raivoso que Gaara lhe dirigia e a decepção de seu próprio advogado. Então ela parou de rir e ajeitou um fio de cabelo que ela imaginava estar fora do lugar.

– O que foi?! Vocês não têm senso de humor? – ela alisou a saia que usava, na tentativa de disfarçar seu desgosto diante de Ino.

– Terminamos por aqui, e já que conhecem a saída... – Itachi mal tinha terminado de falar quando saiu apressado para seguir Gaara para fora da sala.

Bruscamente, Gaara abordou uma funcionária, perguntando a ela onde tinha ido Ino. A mulher apontou o banheiro e em meio segundo ele batia incessantemente na porta junto de Tenten e Itachi, insistindo para que Ino abrisse. Seguido do barulho da descarga, a porta foi aberta de supetão, fazendo com que os três se afastassem desconfiados com expressão aborrecida dela.

– Não se pode nem ir ao banheiro em paz?! E que caras são essas? – grasnou.

– Você está bem? – Itachi fora o único com coragem de perguntar.

– Eu vou ficar bem assim que comer uma bomba de chocolate e matar o meu noivo. – ela estreitou os olhos perigosamente na direção de Gaara.

– Que problemático... – ele murmurou o jargão do cunhado, abriu os braços em redenção e fez um gesto para que Ino se aproximasse. – Você está ótima. Agora venha cá...

– Nem tente me seduzir esperando que meu humor melhore! – Ino o ameaçou com um dedo em riste em seu rosto.

– Não vou te seduzir, vou te comprar uma bomba de chocolate belga. – Gaara suspirou cansado.

A expressão de Ino se suavizou instantaneamente, ela abriu a boca uma vez, olhou para Tenten e depois para a Itachi, que se via despreocupado com as mãos nos bolsos e a gravata folgada.

– Uma só? – Itachi gracejou. – Você merece uma caixa delas!

– Já que está tudo certo, eu vou trabalhar, e você vem comigo! – Tenten despediu-se de Ino e Gaara e saiu arrastando Itachi com ela.

– Itachi tem razão. Não pense que só uma bomba de chocolate belga vai melhorar meu humor. – Ino fez beicinho e Gaara revirou os olhos, apesar que a atitude dela estivesse deixando-o aturdido demais para um lugar público.

– Conversaremos sobre isso, agora vamos. – ele passou um braço em volta da cintura de Ino e a guiou protetoramente em direção à saída.

Na rua, Baki já os esperava com a porta do carro aberta. Logo atrás vinha Evelyn, e Ino agradeceu por ela nem mesmo ter tentado encará-la ou algo assim. A mulher entrou em seu carro e arrancou rapidamente.

(...)

Calmamente, Evelyn ajeitou suas roupas em frente ao espelho sujo e rachado do quarto barato de hotel no subúrbio. Olhou com desgosto para o banheiro e pensou em si mesma como louca por estar em um ambiente tão inferior ao que costumava frequentar enquanto retocava seu batom. Antes de sair dali, ajeitou seu cabelo que fora desfeito no ato sexual e olhou-se mais uma vez no espelho; não reconhecia a si própria.

Voltou para o quarto com a sua melhor expressão de calma, e olhou para o homem nu deitado na cama, a fumar um cigarro languidamente. Gostava da magreza doente que ele exibia, a pele pálida e a barba por fazer que sempre lhe arranhava o pescoço e o peito quando ele a beijava. Detestou o fato dele ter raspado o cabelo, mas era um mal necessário se quisessem que tudo corresse como o planejado.

– Estou indo. Me ligue só se fizer algum progresso. – Evelyn disse sem emoção, olhando Connor sem qualquer orgulho da situação em que se metera com ele.

– Teve alguma notícia dele. – Connor levantou-se da cama energicamente e aproximou-se de Evelyn. Antes que ele pudesse tocá-la, ela se afastou.

– Não encoste em mim, vai me amarrotar. – bufou. – Ele não está nada satisfeito. Sua última investida deixou muitos rastros para trás. Custou muito a ele tirar a polícia da sua cola. Fique esperto, uma hora ele vai se cansar dos seus foras e vai te tirar do jogo!

– Dane-se, eu já estava afim de cair fora dessa. Tenho negócios na Irlanda... – ele deu de ombros.

Os olhos de Evelyn se estreitaram em uma linha fina e a expressão dela se contorceu em uma careta de pura incredulidade. Com dois passos ela estava bem próxima de Connor, e com face marmorizada pela raiva, segurou-o pelo queixo, cravando as unhas na base das bochechas dele com força.

– Escute aqui, e é melhor que escute bem... Te tirar do jogo não é apenas de dar uma passagem de só de ida para a Irlanda ou te dar uma bela surra e fazer que você seja preso por olhar a mulher dele, como o frouxo do Gaara disse que faria. O homem que te paga te tira do jogo te fazendo virar comida de peixe no fundo do Tâmisa. Você ia ficar de um jeito que só o seu dentista ia te reconhecer, se fosse um homem muito bom. Agora cale a porra da boca, faça as coisas como o planejado e reze para sairmos dessa ao menos com o dinheiro!

Connor olhou Evelyn com intensidade, segurou-a forte no pulso e afastou a mão dela de seu rosto. Em seguida, segurou-a pelo cabelo e a fez inclinar a cabeça severamente, fazendo com que ela o encarasse de baixo, mesmo usando saltos altíssimos.

– Avise ao seu chefe que eu também tenho meus truques.

Em seguida, beijou-a bruscamente, com fome, deixando Evelyn com os lábios inchados e zonza de desejo novamente.

¹Gretna Green é um povoado no sul da Escócia famoso pelas fugas para casamentos. Como uma Las Vegas Bretã.