Imperium Lan - A Queda de Um Império
11 Olly: Nova Oxlon
Feixes de luz voavam pelo ar. Enormes explosões ecoavam no céu, tão altas que eram quase capazes de pôr uma pessoa surda. A nave preferida de Olly voava numa perigosa dança a dois e o seu par era um imperial. Bum! Olly abateu mais uma nave, a quinta nesta batalha. Prosseguiu a sua dança, escolheu outro par. A nave mãe imperial tentava esconder-se atrás de uma cortina de feixes de luz, mas estava a ser atacada por todos os lados. Não ia durar muito, aqui e ali já saíam enormes nuvens de fumo e alaranjadas labaredas.
No início da batalha os rebeldes estavam em desvantagem, mas agora superavam os imperiais. Desde que Ugs assumira o comando, no mês anterior, que o exército rebelde estava numa onda de vitórias. Usavam táticas de guerrilha, de ataca e foge, desorientavam e cansavam os imperiais e depois destruíam-nos.
— Rapazes, bom trabalho. Mais uma vitória! – anunciou eufórico Ugs pelo rádio quando a nave mãe imperial se desfez em mil pedaços.
As naves depressa regressam ao planeta Cate e os corredores da base enchem-se de rebeldes em festa. Havia vinho e cerveja para todos e, como seria de esperar numa ocasião daquelas, depressa os homens ficaram para lá de alegres.
— A Ugs, o rei rebelde! A UGS, O REI REBELDE! – gritavam todos em conjunto levando ao ar as canecas que transbordavam.
— A Olly, o bravo! – começou Agnus a gritar e todos o seguiram. – A Olly, o bravo!
Olly ficou vermelho como um tomate e foi levantado no ar pelos colegas que o fizeram saltar bem alto. Nessa noite festejou-se até tarde. Os barris esgotavam-se à velocidade da luz e rebelde após rebelde ouvia o seu nome gritado por todos. Olly bebeu e bebeu até ficar solto. Gritava com os colegas, levantava no ar os amigos, dançava ao som dos cânticos de guerra. Naquela noite era um rapaz diferente. A dor de ter perdido a família tinha-se ausentado e, embora fosse temporariamente, aproveitava a felicidade. Como lhe sabia bem aquela felicidade. Há tanto tempo que não se sentia assim que quis aproveitar.
A alvorada chegou e entrou pelas pequenas janelas da base, beijando as paredes e aclarando o ar. Doía-lhe a cabeça. Sentia-se mal disposto, parecia que lhe iam sair as tripas pela boca. Vestiu o robe e arrastou-se até à casa de banho. Lavou a cara e olhou-se ao espelho. Ficou-se a olhar por uns bons minutos. Tinha as feições diferentes do que se lembrava, parecia-se mais com o pai. Sim, era a cara do pai. Os mesmos olhos castanhos, o mesmo cabelo negro e curto, as mesmas rugas que, apesar de ser novo, já iam aparecendo aos poucos, roubando-lhe a juventude de outrora. Tocou-as, ainda eram superficiais. Toda aquela velhice apareceu acompanhada da tristeza de ter perdido a família, mas desde que Garci acordara que se desvanecera um pouco. Percebeu que o nosso aspeto exterior reflete o que sentimos por dentro.
Ugs queria falar com ele, mandara um homem buscá-lo. Estava no seu escritório, escondido no meio de uma pilha de livros, tão grossos que Olly suspeitou que era quase preciso um ano inteiro para os ler.
— Senta-te rapaz – disse apontado para uma cadeira perdida no mar de papel.
— Que deseja, senhor.
— Poupa as honrarias para outro, trata-me por tu. Tenho uma missão para ti.
Olly nada disse, apenas olhou curioso.
— Preciso que vás a Ghnull, em Nova Oxlon. Tenho lá uns contactos, preciso que fales com eles e, resumindo, tens que os trazer para a nossa causa. São do governo, gente importante.
— Eu? – o rapaz mostrava algum espanto no rosto, com uma pitada de terror –Tens a certeza?
—Sim, eu sei que não me vais desiludir. Podes ficar vermelho que nem uma papoila quando falas com pessoas, mas és um dos homens mais determinados e honrados que tenho. – Deu-lhe um pequeno monte de folhas para ler. – Tens aí informações, tenta absorver alguma coisa até lá. Partes esta noite, ninguém pode saber.
Nova Oxlon era um país recente, tinha menos de vinte anos. Nascera da queda da antiga República Solar, governada pelos humanos, que se dividiu em vários pequenos países. Olly folheou os papéis que lhe tinham sido entregues. Nomes, listas, pessoal do governo, dicas e dados. Tinha uma missão importante e não podia desiludir Ugs, que contava com este apoio para ganhar de uma vez por todas. O acordo era simples, ou assim parecia. Assinar um acordo secreto, compra de armamento e naves de ponta e troca de informação. Olly tinha dúvidas, muitas dúvidas. Não sabia se era capaz de conseguir o que era pedido. A sua barriga ainda dava voltas, sentia-se maldisposto.
A lua ia bem alto no céu e o vento uivava por entre as árvores. Não ia poder ir na sua nave, ia ser transportado numa nave cargueiro, levado à socapa por homens próximos de Ugs, escondido por entre a carga. Fazia frio, muito frio. Levava vestido um enorme casaco de peles de urso das neves e mesmo assim sentia o frio morder-lhe os ossos. Em poucos minutos estavam fora da atmosfera, no enorme espaço negro e vazio. Pela janela viu afastar-se a terra que o acolheu, onde tinha os amigos, a sua segunda casa. Estava nervoso, sentia o estômago dar voltas. Não sabia se tinha as capacidades para conseguir o apoio que tanto precisavam.
— Acorda! Vá rapaz, já chegamos.
Finalmente estava em Ghnull, capital do planeta mãe da civilização nova oxloniana. Por todo o lado se viam novas construções, gruas, andaimes. A civilização estava no tempo das vacas gordas, depois de anos em guerra com a Terra. Um táxi esperava pelo rapaz para o levar ao seu hotel, tudo pago por Ugs. Aquela cidade era três vezes o tamanho de Libertus e três vezes mais moderna. Enormes televisões cobriam as fachadas dos edifícios e por todo o lado havia gigantes arranha-céus de vidro. Estava fascinado pela estranha beleza daquela cidade.
O trânsito estava num caos, era hora de ponta. Eram perto das seis horas da tarde e todos saíam dos seus trabalhos regressando para casa, para junto das famílias. O taxi arrastou-se como um caracol pelas ruas, pelas pontes, pelas autoestradas. A viagem pareceu-lhe um eternidade, uma eternidade grande de mais para qualquer ser vivo. Perguntou-se como seriam os habitantes daquela futurística cidade capazes de suportar aquele trânsito todos os dias. Ao lado da estrada passou a alta velocidade um comboio cheio de passageiros de todas as raças galácticas. Conseguiu ver, nos poucos segundos que teve, um humano, ou seria um Lan? Os humanos e os lans são muito parecidos.
O hotel era uma imponente torre com cem metros de altura, bem perto do coração da cidade. Não muito longe dali era o Ministério da Guerra e Paz onde, no dia seguinte, se encontraria em segredo com o conselho de ministros da Nova Oxlon. No átrio, duas enormes colunas de mármore rosa suportavam um teto branco e, em frente da porta giratória, um enorme painel com figuras humanas, todo feito em mármore de várias cores. Fez o check-in e subiu para o seu quarto, nada comparado com o quarto da estalagem em Libertus. Aquele era um hotel quatro estrelas.
O quarto era pequeno, mas suficientemente grande para Olly e as suas coisas. Junto à janela, com vista para a piscina e o jardim, estava a cama, de mármore negro. Em frente desta, a cômoda do mesmo material e, por cima desta, um enorme espelho de madeira castanha escura. A casa de banho tinha espaço suficiente para uma banheira, uma sanita, um lavatório e um bidé. Ligou a torneira da água quente que depressa chegou, ao contrário da água quente da estalagem que levara quase cinco minutos a vir. Olly aprovou tudo e deitou-se ao comprido na cama, doíam-lhe as costas da viagem.
Nessa noite o sono tardou em chegar. Eram por volta das duas da madrugada e o rebelde ainda contava cordeiros. Estava ansioso pela reunião, muito nervoso e tinha um pouco de medo. A cada minuto sentia-se o menos apto para o cargo. Tentou pensar noutras coisas, ler um livro que trouxera, mas nada resultou. Vai correr tudo bem, tu consegues, repetiu a si próprio centenas de vezes. Se não fosse apto porque haveria de ser o escolhido por Ugs?
O edifício do Ministério era uma maciça torre toda em vidro com enormes colunas quadradas de pedra branca na base. O vidro lavado refletia o céu azul e limpo dessa manhã. Olly estava vestido com o melhor fato que tinha. Entrou pelo portão das traseiras e seguiu o caminho de gravilha sob as árvores do jardim acompanhado por um militar que o levou até ao átrio da ala leste, onde uma secretária o esperava.
— Por aqui, senhor. – Era sem dúvida uma humana. Tinha um corpo semelhante ao dos lans, mas ao contrário das universalmente famosas orelhas de elfo do povo Lan, possuía umas pequenas orelhas arredondas. O povo Lan costuma dizer que o grau de inteligência mede-se pelo comprimento das orelhas.
Percorreu os enormes corredores alcatifados atrás da secretária. Nas paredes brancas viam-se imagens de tanques de guerra, aviões e naves e humanos, certamente seriam pessoas importantes. A cada passo ficava mais nervoso. A barriga andava às voltas, como se fosse um carrossel e tinha a cara pálida como a neve. A secretária indicou a porta e anunciou que o esperavam. O rebelde limpou o suor com a mão, respirou fundo e tentou ter um belo sorriso que transmitisse uma mensagem de paz, afinal foi por isso que viera, para formar uma nova aliança.
Abriu a porta com educação e entrou na sala do conselho de ministros. Numa longa mesa os vinte ministros de Nova Oxlon estavam já sentados, conversando entre si sobre coisas banais da vida. Eram todos humanos, incluindo o primeiro-ministro. Quando o viram, o silêncio apoderou-se da sala. A secretária indicou-lhe o lugar e o rapaz sentou-se, sentindo-se como um urso no circo, observado por todos. A secretária saiu, fechando a porta atrás de si. O primeiro- ministro limpou a garganta e começou:
— No centésimo quinto Sol do ano 15 depois da independência ocorre esta reunião, sem registos e sem acontecimento oficial. Bem-vindo Olly, Ugs já me falou de ti e sobre o que vieste cá fazer. Queres elucidar os restantes ministros para que possamos discutir o acordo?
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