Tinha quase a certeza de que a sua cela era das mais frias. O vento gelado da montanha entrava pela pequena janela que odiava e entranhava-se lhe nos ossos. Tinha tanto frio que tremia. Já estava ali há várias noites. No início pensava que se ia habituar, mas simplesmente não conseguia. Lá fora conseguia ver o veados-verdes e alces-gigantes, criaturas notívagas. Pelo meio das barras de ferro, via-os a pastar. Os alces e os veados não eram iguais aos que conhecia, eram totalmente diferentes dos que habitavam na metrópole. Os veados-verdes tinham manchas verdes no pelo, em forma de folhas, para se poderem esconder por entre a vegetação. Os alces gigantes eram enormes, maiores que um cavalo e os seus chifres eram capazes de matar uma pessoa só com um golpe. Aquelas criaturas fascinavam-no.

Ainda tinha bem fresco na cabeça o sonho da semana anterior. Seria apenas um sonho ou um encontro com o espirito de Mimi? Não tinha a certeza, mas queria acreditar que era um encontro, que falara realmente com o espirito da falecida namorada. Estava engolido pelas dúvidas. Não sabia o que fazer, em que acreditar, se em si, se no sonho. Não tinha a certeza se gostava realmente de Catalina ou se sentia apenas uma atração. Algo lhe dizia para ficar longe da maluquinha.

A alvorada levou uma eternidade a chegar. Os raios tímidos de luz correram por entre a floresta afastando os veados e os alces e trazendo uma melodia de pássaros. Como era bela aquela orquestra. Os ramos dos pinheiros bravos e das outras árvores estavam vestidos com pássaros de todas as raças e espécies. Uns eram grandes e azuis, outros pequenos e cinzentos com manchas castanhas. Conseguiu contar meia dúzia de melros, três pombos e um corvo de três olhos.

Tinha que se vestir e preparar para o trabalho, mais um dia a servir leite e bolos de mel. Vestiu o uniforme e lavou a cara. Pouco depois já estava na cozinha.

—Bom dia, Maximus — disse-lhe sorridente Vicente, o chefe da cozinha que tinha um estranho e irritante sotaque, carregava nos erres. — Pega nestas canecas e serrve o leite e os doces bolos de mel. Vá rrápido, prreparrate, toca a despacharr.

— Sim senhor.

Na outra ponta do refeitório estava a rapariga, olhando para Maximus com um estranho olhar e abando-se toda como se fosse uma frágil árvore ao vento. Aquilo começava a incomodar o rapaz. Apenas queria cumprir a sua rotina descansado, sem ser perturbado por olhares sensuais ou beijos no ar.

— Bons dias, amigo! – gritou ela acenando. Estranhamente, hoje estava ainda mais feliz do que o normal. De certeza que está a aprontar alguma, pensou Maximus. Maximus não respondeu, desviou o olhar para as suas canecas brancas com leite. – Bons dias, amigo! Como vais? – voltou a insistir.

— Bem. – Talvez se eu responder ela se cale e me deixe em paz.

— Estás aí sozinho, eu vou para mais perto de ti – disse sorrindo e trocando olhares quentes. A Maximus só veio uma coisa à cabeça: Gaita. — Então, que fazes?

Não sei que faço. Que te parece que estou a fazer? A coçar macacos?

— A pôr leite em canecas, tal como tu.

— Hum, pensaste naquilo que eu te disse?

Pensei, e de mais. Para uma maluquinha, és bem chata.

— Não.

— Devias ter pensado, não é qualquer um que tem a minha ajuda. – Nos dias anteriores a rapariga perseguira Maximus até à sua cela para lhe propor um acordo. – Tens até amanhã para te decidires.

— Eu sei. – Só não sei o que fazer.

Já todos estavam servidos e de barriga cheia. Era hora de lavar a loiça e começar a fazer o almoço. O almoço era sopa de atum com peixe cozido com batatas doces fritas e cebola. A comida não era do agrado do imperial, parecia-lhe uma mistura muito manhosa, mas os rebeldes adoravam, por eles comiam isso todos os dias. Vestiu o avental de plástico e começou a lavar a loiça. A rapariga seguiu-o e pôs-se no lava-loiça ao lado, imitando-lhe os gestos.

— Não me digas que não queres ser livre? Que eu saiba todos os prisioneiros querem ser livres, é lógico.

Com tantas pessoas no universo tinha que conhecer esta tipa.

— Quero ser livre, mas os termos do teu acordo não me agradam.

— Mas qualquer homem fica agradado com os prazeres carnais.

— Eu não sou qualquer homem. Podes parar de insistir? – Maximus começava a ficar irritado com toda aquela conversa.

— E se eu te libertar e, em troca, tu levas-me para essa tal coisa de metrópole.

Maximus ficou boquiaberto. Não estava à espera que os termos do acordo fossem alterados e de tal maneira. O que a rapariga propunha era que, em troca da liberdade, Maximus a levasse consigo de volta a casa.

— E? Não tens nada na manga?

— Não, podes acreditar em mim. Eu liberto-te e tu levas-me contigo. Desta vez nada de prazeres carnais.

— Tenho que pensar.

— Tens até esta noite. Consigo tirar-te daqui já esta noite.

O rapaz ficou especado olhando para Catalina.

— Vá, não faças essa cara. Puxa pelos neurónios e pensa. Rápido.

O céu ficou cinzento e não tardou muito que começasse a chover. Primeiro as gotas eram escassas, mas depois foi como se o oceano se abatesse sobre a terra. Fazia frio e nas montanhas que cercavam a base caía tanta neve que não tardou a haver avalanches. Pela janela da cela não via um único animal, estavam todos abrigados do mar que caía do céu. Já se tinha decidido. Ia fugir nessa mesma noite. Arrumou todas as suas coisas numa velha mochila que a rapariga lhe dera e deitou-se na cama até que a hora chegasse.

O tempo passou depressa, pareceram segundos. Nas suas veias corria a adrenalina, o entusiasmo, a coragem que quando fez falta não apareceu, a felicidade. Há muito tempo que não se sentia assim, mesmo há muito tempo. Eram sete para a meia- noite e já todo o pessoal, exceto o dos radares, estava deitado. Catalina abriu-lhe a porta e, sussurrando, pediu-lhe para sair.

— Como conseguiste a chave?

— Sou uma mulher, consigo tudo o que quero, nunca te esqueças disso.

Seguiram rapidamente pelos corredores até ao hangar. Pronta a descolar estava uma nave cargueiro, cheia de material militar.

— Esta nave vai para Libertus, daí apanhamos boleia de um amigo meu.

O rapaz ia-lhe perguntar outra vez como havia conseguido a boleia, mas depois lembrou-se, as mulheres conseguem tudo o que querem.

Entraram na nave e esconderam-se por entre a carga. Ninguém ia inspecionar se havia lá gente, já tinham a certeza que todo o material estava lá e era isso que lhes interessava. Poucos minutos depois estavam no ar. Lá fora a tempestade havia piorado e enormes relâmpagos rasgavam o céu, de ponta a ponta. Ouvia-se perfeitamente o som das gordas gotas de chuva a bater na carcaça de metal da nave. A nave subia e descia e ia para a direita e esquerda movendo-se violentamente. Os dois jovens eram atirados contra as caixas e contra a parede. Quando saíram da atmosfera daquele maldito planeta agradeceram aos deuses por serem bondosos. Entraram em híper salto e não tardou a estarem em Aucy. Na descida para Libertus viram pela janela as luzes da cidade. Como era enorme. Não era tão grande quanto Calvo Caca, a capital do império, mas para uma colónia era enorme. Lá de cima os carros eram do tamanho de formigas. Foram-se aproximando e aproximando, e tudo foi ficando maior. Os pontos luminosos foram-se transformando em casas, postes, carros, comboios. Quando bateram com força no chão, sabia que tinha chegado. A primeira parte estava concluída, tinham agora que conseguir encontrar a boleia e chegar inteiros à capital.

Esgueiraram-se da nave antes que os homens os apanhassem e correram pelo aeroporto fora, saltaram a vedação e estavam no exterior. Àquelas horas da noite não havia segurança nenhuma, o que a Maximus pareceu estranho.

— Vês, foi fácil. Agora temos que ir a esta morada. Eu sei onde fica, não é muito longe daqui, já estive lá, fazendo... coisas.

Maximus questionou-se que coisas ela andara fazendo, de certeza que não eram coisas boas ou normais. E tinha quase a certeza de que esse amigo também não era boa peseta.

Percorreram as ruas desertas. Era de noite, tal como no planeta de onde tinham vindo. A sorte tem estado no nosso lado. Se fosse de dia, tinham sido apanhados a saltar a vedação do aeroporto.

— Quem é esse teu amigo? Como se conheceram?

— Trabalhei para ele. Já foi há alguns anos, ainda andava no liceu.

— Que fazias?

— Coisas de gente adulta. Não tens idade para saber. Além disso, tu não gostas.

— Já tenho dezoito anos, já sou adulto.

— Aos olhos da lei. Para mim ainda não és.

— Ai não sou? Tu é que me querias obrigar a ter relações contigo.

— Isso é outra coisa. Que eu saiba os adolescentes também têm relações.

— Tu eras uma prostituta?

— Era? Não faças tantas perguntas, rapaz.

Chegaram à morada do tal amigo. Era um homem magro e bem-parecido. Era alto, tinha talvez um metro e oitenta. Os seus cabelos escuros eram ondulados. Abriu a porta sem blusa e com umas calças de pijama. Maximus ficou surpreendido com os seus abdominais bem definidos, andara no exército quase um ano e nunca chegara a ter os abdominais assim. Ele e Catalina trocaram um beijo na boca e entraram.

—Olá, sou o Andreus. Prazer. Não estava à espera que chegassem tão cedo.