Imperium Lan - A Queda de Um Império
10 Maximus: Querido Diário
Estava de volta à sua cela escura. De onde teria surgido aquela coragem súbita? Quando precisei dela não apareceu. Não sabia porque tinha reagido daquela maneira, ou porque tinha dito aquelas coisas. Sentia-se mal, não queria ter dito aquilo. O rapaz podia ser rebelde, mas salvara-o, e em troca mordera-lhe a mão. Sozinho na sua cela, já mais calmo, percebera que tinha ido longe de mais, que tinha aleijado um potencial aliado, um aliado que podia vir a ser muito importante.
Deitava-se de barriga para cima, acreditava que afastava os pesadelos. Pela pequena janela com grades da cela entrava a doce luz do luar, que enchia o quarto de um profundo azul-marinho, quase como se estivesse no fundo do mar, perdido à deriva. Lá fora, na floresta, ouviam-se maravilhosos e calmos sons de animais selvagens, na época do acasalamento. Quando estivesse de novo com o rapaz rebelde iria agradecer-lhe, estava decidido. Sentia que aquele era um rebelde diferente dos outros, talvez por isso o seu instinto lhe ordenara que o salvasse dos imperiais. Nas últimas noites pensara muito sobre isso. Não sabia porque o fizera, foi algo que o seu instinto ordenou. E não se sentia mal por o ter salvado.
O sol entrou forte pela pequena janela e quase o cegou, era assim a poderosa alvorada daquele planeta. Vestiu o uniforme de prisioneiro e arrastou-se para a cozinha, onde trabalhava agora. Tinha que ajudar com os pequenos-almoços. Enquanto os rebeldes se lavavam nos seus chuveiros com água a escaldar para afastar o frio, Maximus aquecia enormes panelas de leite e tirava do forno doces pães de mel. Dera-se por si a contemplar a beleza de uma jovem cozinheira, Catalina. Embora o seu cabelo estivesse dentro do boné de cozinheira, Maximus sabia como ele era. Era loiro e era quase tão comprido como ela. Os seus olhos azuis-claros faziam a delícia de qualquer homem e as suas longas orelhas eram brancas cor-de-leite. Desde que a vira pela primeira vez que não conseguia parar de olhar. Aproveitava todos os momentos para a olhar e, se fosse possível, estar perto dela. Cheirava a alfazema. Talvez goste dela. Mas se assim fosse, significaria estar a trair Mimi? Tinha refletido sobre isso na noite anterior e a nenhuma conclusão chegara. Dormia mal à noite e dava por si a divagar, perdido num mundo de pensamentos e emoções. Não queria gostar de mais ninguém, queria amar somente Mimi, para todo o sempre e até ao fim dos tempos.
A cantina foi-se enchendo aos poucos. Rebeldes famintos exigiam o pequeno-almoço. O silêncio foi-se transformando numa enorme algazarra. Discutiam entre si a batalha do dia anterior. Segundo conseguira ouvir, tinham atacado uma nave mãe da Força, que estava estacionada no campo de órbita daquele planeta. Estavam em desvantagem mas ganharam, tudo graças a táticas que considerou manhosas de mais. Com toda a pressa do mundo enchia as canecas com leite a ferver e servia a cada um bolo de mel.
— Pareces procurar alguém. Posso saber quem é? – Catalina perguntou-lhe em tom de brincadeira. A rapariga estava ao seu lado e apanhou-o de surpresa, deixando-o nervoso.
— De ninguém, senhora. – Mentiu. Estava á procura de Olly, queria em segredo agradecer-lhe.
— Oh, não me trates por senhora. Sou da tua idade. Como te chamas?
— Maximus.
— Conos, Maximus. Prazer.
— Conos –respondeu em Lan.
A jovem quis saber o que fazia um imperial a trabalhar nas cozinhas e porque não estava enforcado ou nas celas com os seus colegas.
—Fui salvo por um colega seu. Eu salvei-o de ser morto pelo meu superior, e ele salvou-me a mim.
— Ora, ora. Um imperial a salvar rebeldes. És apoiante da nossa causa? – A rapariga despejava com perícia leite nas canecas.
—Não. Nem sei porque o fiz – confessou.
— Apaixonaste-te pela beleza sedutora do rapaz Olly? – perguntou Catalina num tom provocador, que aos poucos começava a encantar o adolescente. – Não me digas que és maricas.
— Não sou. Tive uma namorada, mas morreu.
— As minhas condolências, mas isso não invalida o facto de seres ...
— NÃO SOU! – A sala ficou em silêncio olhando o rapaz. – Não sou, se não acreditas problema teu.
— Não precisas gritar. – A rapariga ria-se e mexia-lhe no cabelo, despenteando-o. – Ajuda-me com isto. — Os dois pegaram no enorme tacho vazio, quase do tamanho de uma pessoa, e trocaram-no por outro cheio de leite. Era o último e depois disso tinham a pausa para tomarem o seu pequeno-almoço.
Quando por fim a cantina se esvaziou, Maximus, Catalina e os restantes trabalhadores da cozinha sentaram-se a comer. Maximus deu por si a contemplar os enormes seios de Catalina. Enormes e redondos. Quando a rapariga se apercebeu, desviou o olhar para o seu doce bolo de mel. Ela sorriu e deitou-lhe um olhar maroto. Sentiu-se a trair a alma de Mimi, mas não conseguia resistir. Voltou a olhar e reparou que a rebelde nada usava por baixo. Sentiu-se a corar. Viu-a a desapertar mais um botão da farda branca e a deixar o peito branco cor de neve um pouco mais à mostra.
Pelo canto do olho viu Olly a entrar pela larga porta da cantina. Vinha vermelho como um tomate e com a respiração acelerada. Certamente estivera a correr. Maximus levantou-se, pegou num bolo e numa caneca de leite e foi-se sentar perto do rebelde.
— Devo-te um pedido de desculpas. Salvaste-me a vida e não devia ter dito aquelas coisas.
— Não faz mal – Olly sorriu.
— Como está a tua amiga? – Maximus tentava ser simpático, como se de alguma forma isso apagasse o mal que fizera.
— Já acordou do coma, mas agora está cega e não sabem se vai voltar a ver.
— Que os deuses sejam bons – Olly concordou.
O almoço borbulhava dentro da enorme panela. Era sopa de legumes com carne de bisonte. Cenoura ralada, depois repolho cortado finamente, abóbora aos cubos, feijão e grão e finalmente carne de bisonte moída. O imperial misturava tudo e os braços doíam-lhe do esforço.
— Vem comigo, preciso da tua ajuda.
Catalina pediu, apontado na direção da arca frigorífica. Maximus seguiu-a, contrariado. Aquela rapariga era perigosa, parecia uma das ninfomaníacas das histórias dos colegas de turma. Pior, aquela rapariga atirava-se a ele e nem o escondia. Dentro de si soava a alto e bom som o alerta vermelho, tinha que ter cuidado com Catalina. Quando entraram na arca, ela fechou a porta atrás de si e deitou mais um dos seus olhares marotos. Aos poucos começou a tirar os botões e a abrir a farda.
— Não posso. Para com isso.
— Porque tens uma namorada? Ela está morta, não se vai importar.
— Não. Para com isso.
Ela beijou-o e ele tentou afastá-la. Ela puxou-o para mais perto e ele sentiu o seu enorme peito comprimir-se contra o seu. Como era enorme e redondo e como lhe soube bem. Não, não se podia deixar levar pelos desejos, tinha que honrar a namorada, tinha ... Oh, como o beijo doce lhe soube bem. Ela tirou a blusa, atirou-a para o chão e deixou-o tocar o seu peito com a sua mão. Soube-lhe bem, mas lembrou-se.
— Eu não posso, já te ...
— Shhhhhh. Deixa-me cuidar de ti. – A sua voz era baixa e sensual e provocou-lhe um arrepio que lhe percorreu o copo todo. Só podia ser uma ninfomaníaca, pensou, sabia como despertar os sentidos de um homem e como brincar com eles.
Com as suas suaves mãos desapertou-lhe o cinto e aos poucos foi-as inserindo dentro dos boxers. Sabia-lhe bem, sentir ela a brincar com o seu membro, mas não podia deixá-la. Não podia, tinha que honrar a alma de Mimi. Empurrou-a para longe e voltou a apertar o cinto preto das calças brancas.
— Não te conheço de lado nenhum. És uma ninfomaníaca e não quero nada contigo.
— Ah — riu-se. – Nem sabes o que isso significa rapaz. Eu sei que me desejas e mais tarde ou mais cedo vais sucumbir ao teu desejo. – A jovem abriu-lhe a porta e fez-lhe sinal — Se queres partir, vai, mas depois quando me quiseres, vai ser tarde de mais.
É louca ou faz-se? Quem esta tipa pensa que é? Estava chocado e demonstrou-o abrindo a boca em silêncio. Compôs a roupa e saiu. Atrás de si deixou-a, seminua, com os seus enormes seios ao frio. Levou-se o resto do dia a pensar naquilo e pode-se dizer que ficou com muito mau humor.
A sua cela não era nada quente, muito pelo contrário, era geladíssima. Vestiu a roupa de dormir e sentou-se de pernas cruzadas sobre a cama. Abriu com cuidado o seu diário e começou a escrever.
Planeta Cate, algum dia em 1048
Querida Mimi,
Parou e olhou pela estreita janela. Lá fora o vento frio da noite uivava e as árvores tremiam mortas pelo frio da montanha. Não sabia o que escrever, havia tanto dentro de si que não sabia por onde começar. Mordeu docilmente a caneta e recomeçou.
Amor, hoje agradeci ao rebelde que me salvou. Sinto-me mais leve, sinto-me melhor comigo mesmo. Um homem de honra paga sempre as suas dívidas. Ele pagou a sua, e eu só tinha que agradecer. Não devia ter reagido daquela forma, nem sei porque o fiz.
Tenho-me sentido dividido. Sinto que o meu corpo quer dividir-se em dois, metade imperial e metade rebelde. Peço que me desculpes, mas já não sei mais quem tem razão. Estou há dois dias cativo dos rebeldes e tenho ouvido histórias. De certo que são mentiras inventadas para difamar o Império, mas cresce dentro de mim a dúvida. Tenho tentado ser como tu no último ano, ouvir primeiro os dois lados da história antes de tomar uma decisão. Mas esta dúvida não é nova, já a tinha quando estava na Força. Andei a investigar, remexi onde não devia e abri feridas que não devia ter aberto.
Doía-lhe a mão de estar o dia todo a mexer leite e comida e papas. Esforçou-se para continuar.
Hoje aconteceram coisas que temo que tenham manchado a tua honra. Resisti o melhor que pude, mas temo que te tenha ofendido. Peço desculpas e quero que saibas que sinto muito a tua falta. Tenho sonhado contigo nos últimos meses, tenho-te desejado ao meu lado. Sinto-me um homem incompleto, vazio. Sinto que há dentro de mim um buraco negro que me levou as emoções, o amor, a felicidade.
Lágrimas escorriam lhe pelo rosto frio. Limpou-as às costas das mãos para não lhe pingarem o caderno.
Temo em dizer-te, mas, esta mulher, de certa forma, preenche-me o vazio, de certa forma completa-me como tu me fizeste. Eu sei que ainda é cedo, que a conheci há pouco tempo mas acho que gosto dela. Desculpa, desculpa, desculpa. Quero apagá-la da minha memória, mas não consigo. Tenho muitas saudades tuas, e ninguém é capaz de te substituir.
Terminou com um amo-te e assinou com a sua grande e redonda assinatura, Maximus Felnus. Fechou os olhos e depois de muito tempo adormeceu, ficando tudo escuro.
— Maximus? – Ouvia uma voz, baixa no escuro e distante. – Maximus, és tu?
— Sim, quem fala?
— Sou eu. – A voz parecia-lhe familiar mas não a reconhecia.
— Eu quem? Mãe? – Não, não era a mãe. A voz era muito mais nova e doce. – Mimi?
— Sim, a doce tua amada. – A voz parecia ganhar forma, algo ainda muito disforme. – Recebi a tua carta. Também sinto muitas saudades tuas.
— Eu também, bebé.
— Li com atenção tudo o que escreveste. Não precisas pedir desculpa, não fizeste nada de errado.
— Mas eu gosto de outra mulher, acho eu.
— Não faz mal desde que me tenhas sempre no teu coração. – A forma baça foi ganhando nitidez. Era o rosto de Mimi e Maximus estendeu o braço para a tocar, mas ela estava tão distante. Esticou ainda mais, mas não a conseguia tocar. Porém, ela parecia ali tão perto, que bruxaria seria aquela? – Quero que continues com a tua vida.
— És gentil, obrigado, mas temo em manchar a tua alma.
— Não te preocupes, se me tiveres no teu coração não me manchas a alma. – Mimi desfez-se numa nuvem de pó.
Foi acordado por fortes safanões. Era um guarda rebelde que lhe falava aos gritos para que fosse para a cozinha, estava atrasado. O sol já há muito que tinha entrado pela pequena janela do quarto, e o refeitório estava cheio de rebeldes famintos à espera da caneca de leite do doce bolo de mel. Correu vestindo-se pelos corredores da base. O sonho ainda estava bem presente na sua memória e deixou-o abalado. Ainda não sabia o que pensar, pior, ainda não sabia como agir com Catalina. Em breve se viu à frente dela, foi cumprimentado com um sorriso maroto. Não sabia o que fazer, mas tinha de em breve tomar uma posição.
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