Notas iniciais
Confuso, George descobre que sente atracção por Claire, mas tenta fugir de seus sentimentos.

Eu me levanto cedo, tomo banho, lavo os dentes, faço a barba, me visto, tomo o pequeno almoço e vou trabalhar.
Eu faço de tudo para me concentrar. Eu analiso os meus projectos no computador. De repente, Rebecca entra no meu escritório. Eu me levanto. Sofia( minha secretária ) entra em seguida.
— Desculpa, senhor, eu pedi que ela esperasse, mas ela simplesmente entrou. — Sofia se desculpa.
— Tudo bem, nos deixe a sós!
— Sim, senhor! — Ela sai e fecha a porta.
Rebecca olha para mim e fica triste. Eu caminho até ela. — O que foi? O que é que tu fazes aqui?
— Eu não posso aceitar que tu termines comigo. Eu te amo e eu quero que estejamos juntos. Os três.
— Rebecca, olha para mim, tu achas que eu tenho estofo para ser pai?
— George, tu nunca tentaste?
— Rebecca, aceita que acabou! Eu não quero mais falar sobre isso. — Ela se aproxima e tenta me beijar, mas eu me afasto imediatamente.
— Nós podíamos jantar todos juntos. Eu, tu e Michaela, assim, tu ias querer que sejamos uma família.
— E o pai da criança? Ele te abandonou e tu queres que eu ocupe esse lugar?
— Como podes dizer uma coisa dessas, George?!
— Tudo o que eu quero, eu pensava que tu tinhas, mas descobri que querias duas coisas que eu não quero. Ter uma família e casar! Por isso, não podemos ficar juntos. Eu sei que é demasiado doloroso perder alguém como eu, e que possivelmente, vai ser difícil me esquecer, mas tu tens de tentar!
— Eu vou fazer de tudo para que tu mudes de opinião. Eu prometo!
— Eu duvido que alguém nesse mundo me faça mudar! Isso é indiscutível!
— Nos vemos em breve, George.
— Talvez não, Rebecca. — Ela sai do meu escritório. Eu não quero ter um dia igual ao dia de ontem. Porquê não me aparece agora uma mulher que tanto procuro?

Eu vou até a Corte Federal de Nova Iorque, a procura de Claire, para atormentá-la. Eu encontro Philippe a falar com um homem muito elegante. Não há sinal da óculos nerds. Onde será que ela está?
Philippe se aproxima de mim. — George, que surpresa! Tu nunca vens aqui!
— Eu quis saber como tu estás! — Ele me olha incrédulo.
— George, tu estás bem?
— Nunca estive melhor. Tu já vais embora? — Eu procuro Claire, mas não a vejo.
— A sério, George, tu estás bem?
— Philippe, eu vim saber como tu estás, há duas semanas que não saímos juntos.
— Na verdade há quatro semanas. — Eu reviro os olhos.
— Como queiras!
Eu vejo a óculos nerds a andar atrapalhada, com os livros na mão. Com um vestido cinzento até ao joelho, um blazer branco, saltos altos e seu cabelo em um rabo de cavalo. Ela bate contra um homem bem vestido e deixa os seus livros caírem no chão. Ele vai embora e ela os apanha sozinha. Ela se levanta e vai embora, esquecendo um dos livros no chão.
— George! — Eu volto a olhar para Philippe. — Tu ouviste o que eu disse?
— Não! Eu estava distraído.
— Com o que?
— Nada! Esqueça. Eu vou embora!
— Mas eu pensei que iríamos sair juntos.
— Fica para outro dia. — Eu corro até o livro da nerd idiota o apanho e vou embora.

Eu entro no carro e abro o seu livro. Código Penal americano. Eu podia entregar a Philippe, mas é melhor eu entregar pessoalmente. Meu telefone vibra me assustando.
— Alô! — Eu atendo.
— Filhote, como estás?
— Bem, e a senhora?
— Muito bem!
— Mãe, eu ligo mais tarde, estou muito ocupado.
— Tudo bem, eu entendo. Até mais. Eu te amo.
— Eu também, mãe. — Eu desligo. Agora eu vou ter com Claire Peterson.

São quatro da tarde, eu paro na casa de Claire. Pego no livro e saio do carro. Vou até a porta e toco a campainha. Depois de um minuto ela abre.
Eu olho para ela de cima à baixo. Ela está com uma camisa, com as mangas dobradas, e calção jeans. Ela fica surpresa ao me ver.
— George! O que é que tu fazes aqui?
— Tu não vais me convidar para entrar?
— Já que insistes! — Eu entro. O seu apartamento é bastante pequeno, mas acolhedor. Eu sento no sofá.
— Óculos nerds, tu te esqueceste disto. — Eu mostro a sua lei.
— Oh! Obrigada. E não me chame de óculos nerds!
— Desculpa, Clarissa!
— É Claire! C-L-A-I-R-E! Não Clarissa! — Ela fica irritada. Eu gosto de irritar as pessoas, faz — me sentir bem.
— Tudo bem.
— Mais alguma coisa? — Ela fica na minha frente com os braços cruzados.
— Não vai me oferecer qualquer coisa para comer?
— O que é que tu queres? Não vieste cá apenas para devolver o meu livro?
— Sim!
— Então vá embora!
— Sabes, eu duvido muito que a tua mãe tenha orgulho de ti.
— Ela tinha muito orgulho em mim. E ainda que ela não esteja aqui, ela sempre terá! — Ela diz magoada. Será que a sua mãe está morta?
— A tua mãe está morta?
— Sim! — Ela fica triste. Eu agarro a sua mão e ela se senta no sofá.
— Desculpa pelo que eu disse.
— Não faz mal.
— A sério, desculpa. Eu não quis te machucar! — Ela olha para mim profundamente.
— Tu ainda queres comer? — Ela sorri.
— Sim! Bem, se tu quiseres que eu fique.
— Eu quero. Eu vou fazer qualquer para ti. — Ela levanta e vai para a cozinha.
Eu levanto e vou para o seu quarto. O quarto também é pequeno. Há uma cama, uma secretária, um guarda roupa e uma mesa de cabeceira. Eu vejo os seus livros na secretária. Eles estão com um péssimo aspecto. Se nota que foram molhados, depois secos no fogão.
São quatro livros. A Constituição dos Estados Unidos da América, o Código Cívil, o Código de Processo Penal e o Direito da Família americanos. Na mesa de cabeceira há apenas o despertador e uma foto dela com um homem e uma mulher na casa dos cinquenta. Devem ser os seus pais.
Eu abro a gaveta da mesa de cabeceira e vejo um diário, eu acho. Minha mão está coçando para abrir, mas é melhor não. Não me interessa!
Eu volto para a sala e sento no sofá. Eu não sei o que ainda faço aqui. Eu devia ter ido embora, mas os meus pés estão relutantes em sair.
Claire volta com uma bandeja e coloca em cima da mesa. Eu olho para a bandeja. Chá e biscoitos! Ela fez mais de dez minutos a preparar chá e biscoitos?
— Sinta — se em casa! — Ela despeja água quente sobre as chávenas,coloca a saqueta de chá na sua chávena, e coloca um pacote de adoçante. Eu faço o mesmo.
— Tu és órfã? — Ela olha para mim desconfiada.
— Não! Quer dizer, apenas de mãe. Ela morreu quando eu nasci. — Ela bebe o chá.
— Meu pai morreu há seis anos atrás. Minha mãe ficou destroçada. Eu fiquei pior.
— A vida é mesmo assim. Ganha — se, e perde — se!
— Onde o teu pai mora?
— Em Springfield, mas ele sempre vem me visitar.
— Ele é casado?
— Não. Olha George, é estranho tu estares aqui depois de tudo que se passou.
— É realmente estranho. — Eu sorrio. Me sinto estranho. Porquê será?
— Desculpa por te ter chamado de idiota.
— Não sei se devo aceitar as tuas desculpas, é a primeira vez que me chamam de idiota, quer dizer, na minha cara.
— Que honra! Fui a primeira pessoa a te chamar de idiota. — Ela ri.
— Também devias te sentir privilegiada por eu estar em tua casa. Isso não acontece todos os dias.
— Eu me sinto. — O silencio toma conta da sala. Apenas olhamos um para o outro, sem pestanejar. Tudo que eu vejo são os seus lindos olhos azuis por de trás desses óculos nerds. Eu não consigo dizer mais nada, estou bloqueado.
Ela não é propriamente horrível, olhando para ela profundamente, consigo ver algo muito raro, algo que nunca vi em outras mulheres. Eu coloco a chávena na mesa e me aproximo dela devagar. Ela fica imóvel e apenas olha para mim. Eu tiro os seus óculos, e ela fecha os olhos. Eu beijo ela. O seu beijo é tão diferente, tão doce, e especial. Eu não quero que termine, estou amando cada segundo. Não sei o que estou a fazer, mas estou a fazer. E estou a fazer porque quero fazer.
Nós continuamos com o nosso beijo, até que ela despeja chá por cima de mim. Nós paramos imediatamente.
Eu olho para ela, confuso. O que se passa comigo? O que é que eu estou a fazer aqui com essa mulher? Porquê ela me atrai? O que é que acabou de acontecer?
Eu me levanto. — Peço desculpa, George. — Ela diz confusa. Eu também estou confuso. Muito confuso.
— Não faz mal. Eu acho que já vou embora. Nos vemos por aí. — Eu caminho até a porta e saio, sem deixar ela dizer uma palavra.
Corro até o meu carro, ainda não acreditando no que acabou de acontecer. Eu beijei a óculos nerds! Eu não acredito. Eu ligo o motor do carro e conduzo até ao tráfego.

Eu paro num bar qualquer e peço um copo de whisky. Eu quero esquecer o que eu acabei de fazer. Afinal, o que tem Claire Peterson que eu quero? Nada! Absolutamente nada! Mas eu acho que me sinto atraído por ela. Talvez eu esteja a exagerar. Eu não gosto de mulheres como ela. Simplesmente não gosto. Gostar dela significa alterar a ordem do universo.
Se eu tivesse apenas entregue o livro e sumir, aquilo não teria acontecido, jamais. E nesse momento, ela deve estar a pensar um monte de coisas. Deve estar confusa. Eu não quis confundir ela! Eu não sei o que me deu. Eu quero tanto fingir que aquilo não aconteceu.
Eu olho a volta e uma mulher loira, com um vestido escandaloso, vem até mim. Ela é bonita e graciosa.
— Olá bonitão!
— Olá. — Ela bebe o seu whisky. — Em quê posso ajudar?
— Eu gostei de ti. — Eu levanto uma sobrancelha.
— Tu nem me conheces!
— Pois não, mas gostaria de conhecer! Meu nome é Andrea. Andrea Adams.
— George Renner. — Apertamos as mãos.
— Eu tenho a sensação de que te conheço de algum lado.
— Ah é?
— É!
— Tu também não me és estranha!
— Deve ser porque eu sou a filha de Ben Adams, o dono da segunda maior empresa de diamantes de Nova Iorque, depois da Diamond world.
— Ah sim! Eu me lembro.
— O que faz um homem tão bonito sozinho? Você discutiu com a sua namorada?
— Eu não tenho namorada! — Ela me dá um sorriso maquiavélico.
— Isso é tão bom!
— Porquê é tão bom?
— Porque eu também não tenho namorado. — Essa sim, é o tipo de mulher que eu procuro.
— Isso é impossível. Tu és tão bonita!
— Eu sei. Mas sim é possível. — Ela tira um cartão da sua bolsa. — Eu vou andando. Me liga um dia destes! — Ela beija a minha bochecha e vai embora. Eu olho para como ela anda nos seus saltos altos, suas pernas são perfeitas. Uau! Ela é muito sexy!
Eu sacudo os meus pensamentos sombrios. Eu quero aquela mulher! Não Claire Peterson. Andrea é a tal!

Eu vou para casa descansar. Eu tiro o número de Andrea e gravo no meu telefone . Eu preciso ligar para ela, mas não agora, senão ela vai pensar que eu estou desesperado! Eu não estou desesperado!
Eu ligo para Philippe. Preciso falar com alguém. Preciso desabafar. Ele atende, quando ligo pela segunda vez.
— Oi George!
— Philippe, desculpa por hoje cedo. Tu tinhas razão, eu não estava bem.
— O que é que se passou?
— Eu estava a pensar na Rebecca. — Minto. — Mas já passou, eu conheci Andrea Adams.
— A filha de Ben Adams?
— Essa mesmo. Ela é perfeita para mim.
— Tu dizes sempre isso, até que descobres que elas não são.
— Mas eu tenho a certeza de que ela é a excepção.
— Te desejo muita sorte com isso!
— Não preciso de sorte! Eu tenho dom. Um dom que muitos querem ter.
— Tu ainda sentes alguma coisa pela Rebecca?
— Não!
— Mas tu terminaste com ela há dois dias!
— Eu não gostava assim tanto dela.
— Não me surpreende.
— Eu conheci Claire Peterson!
— A sério?
— Ela é uma pessoa muito interessante.
— Tu gostas dela?
— Não! Ela não faz o meu género! Além disso, eu estou totalmente interessado em Andrea.
— Que pena. Claire é uma ótima pessoa.
— Olha eu estou muito cansado. Amanhã nos falamos melhor. — Não quero continuar com essa conversa.
— Tudo bem. Até amanhã.
— Até amanhã. — Eu desligo. Me levanto e olho a cidade pela janela.
Será que é normal eu pensar em Claire Peterson? Eu não quero nada com ela. Não sei porquê eu beijei ela. Minha cabeça está uma confusão. Eu só quero esquecer que tudo aquilo aconteceu. Esquecer que conheço Claire.

Notas finais
continua no próximo Capítulo.