Estamos no shopping há quatro horas, e ainda não encontramos nenhum presente para a minha mãe. Estou aborrecido, Rebecca está aborrecida, e até Michaela está aborrecida. Rebecca teve de trazer Michaela, porque diz que não passa tempo suficiente com ela. Eu acho que ela quer me aproximar de Michaela, porque ainda me ama, e acha que ainda há hipótese de voltarmos, mas isso não me interessa.
Nós fazemos uma pausa, e comemos hambúrgueres. Michaela não param de olhar para mím, aposto que Rebecca meteu um monte de coisas na cabeça da pobre criança.
— George, eu lamento que as coisas não tenham resultado com Claire. — Duvido que ela lamenta, mas finjo acreditar.
— Eu imagino. Olha não vamos falar sobre exs por favor!
— Tudo bem.
— Mamãe, eu posso comer a sua batata? — Michaela pergunta para Rebecca enquanto olha para mim.
— Claro, querida. — Ela sorri para a menina. — Então, como vai o trabalho? — Eu fico com a boca aberta. Em toda a história da nossa relação, Rebecca nunca, nunca, mas nunca mesmo, me fez essa pergunta.
— Muito bem.
— Mamãe, quando é que o papai vai voltar?
— Eu não sei, filha. — As crianças são tão chatas!
— Tu queres ficar com o teu pai? — Pergunto para ela.
— Eu quero ficar com o meu pai e com a minha mãe! — Ela me dá um olhar desprezível.
— O teu pai vai voltar daqui a uns dias, Michaela.
— E a senhora vai voltar para ele? — Rebecca olha para mim, toda vermelha. Coitadinha. Não imagino o que Rebecca passa com ela. O seu telefone chama, a salvando de partir o coração de sua filha. Ela atende.
— Alô. — Olha para mim .- O que foi? — Ela se levanta e fica tonta. — Como isso aconteceu?... eu... eu vou já para aí. — Desliga o telefone e limpa as lágrimas.
— O que foi Rebecca?
— Minha irmã, teve um acidente. Eu preciso ir ao hospital. Tu podes cuidar da minha filha? — O quê? Eu, cuidar de uma criança? Eu nunca toquei numa criança! O que é que eu vou dizer? "Não!"; " Nem pensar!"; " Jamais!"; " Nunca! "; "Nem morto! ". Eu não posso dizer essas coisas.
— Tudo bem. — Desde que não seja por muito tempo.
— Obrigada. — Ela me abraça, depois beija a testa de Michaela.
— Filha, a mamãe vai te buscar mais tarde, ok? Tu vais ficar na casa do tio George, durante algumas horas, está bem? — Tio George? Essa é nova!
— Sim!
— Se comporta! — Ela levanta e sai correndo.
Olho para Michaela. Ela está com a boca, e as mãos sujas. Deus me ajude! O que é que eu vou fazer? Pego um guardanapo, e entrego a ela.
— Limpe a sua boca e as suas mãos. — Ela abana a cabeça em negação.
— Michaela, não seja má, e me obedeça! — Ela levanta da cadeira e corre para longe de mim. Isso não pode estar acontecendo. Se ela some, Rebecca me mata! Eu corro atrás dela. Estou tão arrependido, por ter dito que ficaria com ela. Quando sua mãe estava por perto parecia uma santa, e agora parece uma pirralha.
— Michaela, volta aqui! Agora! — Eu finalmente consigo apanhar ela. Coloco ela nos meus ombros.
— Me põe no chão!
— Tudo bem. — Eu a coloco no chão, mas agarro as suas mãos. — Você é uma menina má!
— Eu não sou má! — Ela começa a chorar. Chora muito alto. O que foi que eu fiz para merecer isso?
— Não! Não! Não! É mentira! Eu estava brincando.
— George! — Oiço uma voz doce, que me faz ficar estagnado, que nem um idiota. Eu me viro e vejo Claire. Seus cabelos soltos, vestido cinza e saltos altos, está completamente linda!
— Claire. — É tudo que posso dizer.
— O que se passa? — Eu me recomponho, e olho para a minha camisa. Está toda suja graças àquela coisa idiota, a que Rebecca chama filha!
— Ela é impossível! — Michaela continua a chorar. — O que tu fazes aqui? — Pergunta estúpida! Muito estúpido, George!
— Bem, pelo que eu sei, isso é um lugar público, o que significa que todo mundo pode entrar.
— Claro. — Nunca me senti tão estúpido em toda a minha vida. Nem pareço eu.
— Porquê ela está a chorar?
— Eu não sei. Me ajuda! — Claire tira um lenço da bolsa, agacha, e limpa a boca, e as mãos de Michaela.
— Calma! Não chore mais, minha linda. — Michaela pára de chorar, imediatamente. Graças a Deus! O barulho era insuportável.
— Você é muito bonita! — Michaela toca no rosto de Claire.
— Obrigada. — Ela sorri para a menina. — Tu também és. Como tu te chamas?
— Michaela.
— E Michaela, porquê tu estavas a chorar?
— George, disse que eu sou má!
— E tu és má?
— Não! Eu só queria brincar.
— Olha vamos lavar estas mãozinhas sujas, e depois podes brincar, está bem? — Ela sorri. Claire é muito boa com crianças.
— Nós não demoramos! — Elas vão em direção ao banheiro.
É impressionante como Claire consegue trazer paz e sossego por onde passa. Ah! Tenho tantas saudades dela! Ainda não acredito que nós terminamos. Até parece que foi há minutos atrás que ela disse que me amava, e fizemos amor. Boas lembranças. Lembranças da época que eu era feliz. Nenhum momento que eu passei com Rebecca, Andrea, e outras, foi melhor do que os que passei com Claire. Talvez isso ainda não tenha terminado. Ainda há esperança! Os casais se separam e se reconciliam. Talvez isso seja apenas uma fase na nossa relação.
Claire volta com Michaela, sorrindo para mim, me fazendo sorrir também. Elas chegam até mim. — Ela já está limpa! De ti não posso dizer o mesmo. — Ela olha para a minha camisa.
— Eu não sei lidar com crianças. — Seu sorriso desaparece. Imagino o que ela deve estar a pensar.
— Eu preciso ir embora.
— Não! Claire, fica! — Michaela pega no seu vestido.
— Sim, Claire. Fica!
— Eu não posso.
— E se Michaela voltar a chorar?
— Tu vais ter de cuidar dela.
— Eu também preciso de comprar o presente para a minha mãe.
— A sério, George, eu preciso ir. — Eu seguro a sua mão.
— Está bem. Antes de tu ires, gostaria de dizer que minha mãe faz anos no sábado, e eu tenho a certeza de que, ela ficaria muito feliz se tu aparecesses. — Eu também ficaria.
— Estarei lá!
Ela olha para a minha mão na dela, depois olha para mim. Eu não estou a impedindo de ir embora. Ela só não vai, porque não quer ir. Nesse momento, eu só quero beijar seus lindos lábios, e levá — la comigo, para bem longe. Bem longe mesmo!
— George, tu gostas de Claire? — Michaela estraga o clima entre nós.
— Muito. — Claire desvia o olhar, e solta a sua mão da minha.
— Eu preciso ir. Adeus, George. Fica bem, Michaela, adorei te conhecer!
Ela se afasta de nós, o mais rápido que pode. Simplesmente para fugir de mim. Seguro as mãos de Michaela para que ela não volte a correr, e a levo para fora do shopping. Nós vamos para o parque de estacionamento, e alcançamos o carro. Coloco ela no banco de trás, e entro no carro em seguida.
— George, Claire não gosta de ti?
— Michaela, tu queres ir para uma loja de brinquedos? — Ela pergunta demais.
— Sim! — Ligo o carro e começo a conduzir, não como de costume, porque Michaela grita o caminho todo.

Minha mãe faz anos hoje, e eu preciso passar o dia todo com ela, para que não se aperceba da festa surpresa. Finalmente consegui comprar o seu presente. Um colar. Foi tudo que consegui.
Estamos no restaurante, a almoçar. Ela não pára de falar sobre Claire, e isso está me desanimando. Eu sei que ela gosta muito de Claire, e eu também gosto, mas não quero falar sobre ela, porque me machuca.
— Tu devias mesmo insistir, George, senão ela escapa.
— Mãe, por favor, deixe que cuido desse assunto. Hoje é o seu dia.
— Como é que tu queres que eu esteja feliz se tu não estás feliz, George?
— Eu estou só um pouco mal por causa de Claire, mas estou feliz por causa da senhora!
— George, tu devias ligar para ela, ou ir até a casa dela, e fazer com que ela mude de ideias.
— Eu não sei se ela ainda quer estar comigo. — Ela não acredita que eu amo ela. Ou não acredita, ou tem dúvidas. E mais, ela pensa que eu quero mulheres como Andrea.
— E tu não vais descobrir se não fores atrás dela.
— Eu... mãe, e se ela já não gosta de mim? — E se ela já me esqueceu e estiver com Rogers?
— Eu acho que isso é impossível, George!
— Não, não é. Ela acha que eu gosto de mulheres como Andrea, mas eu não gosto. — Já não!
— George, se tu não queres que ela desapareça da tua vida, por favor, faça alguma coisa.
— Eu vou tentar!
Tudo me diz que eu devo fazer alguma coisa para recuperar Claire. Philippe diz isso, minha mãe diz, e eu... também. E se Claire quiser que eu mostre para ela o que realmente sinto? Ainda que não queira, eu vou fazê-lo! Eu prometo que não vou deixá-la escapar.

Nós chegamos à casa da minha mãe, depois da SMS de Rebecca. Ela organizou tudo. E eu apenas dei as chaves de casa, porque ela é de confiança, e porque minha mãe, a vê como uma filha que nunca teve. Minha mãe abre a porta, totalmente distraída, e quando acende a luz, todos aparecem e gritam:
— Surpresa! — Eu seguro a minha mãe, porque ela pode ter um ataque. Ela tem sessenta, e a maneira como os convidados gritaram, não seria difícil de acontecer.
— Oh não acredito nisso! — Ela está realmente surpreendida.
Há muitos convidados, e a maioria deles estão nas casas dos cinquenta e sessenta, os únicos jovens somos eu, Rebecca, e mais alguns. Eu olho a volta e não vejo Claire. Será que ela vem?
Todos vêm felicitar minha mãe, a abraçam, a beijam. Eu continuo a procura de Claire. Ela disse que viria, mas não há sinal nenhum dela. Será que desistiu por minha causa?
– Muitos parabéns, Rose. — Fred e Liza, amigos de minha mãe de longa data, a abraçam.
— Muito obrigada, a todos.
Ela vem até mim sorridente. — Tu sabias, George?
— Claro que sabia mãe. Muitos parabéns, outra vez. — Eu abraço ela.
— Não precisavas de fazer isso, George!
— Na verdade, foi ideia de Rebecca.
Rebecca se aproxima de nós, sorrindo. Está com um vestido preto até ao joelho, justo e muito sexy, saltos super altos, e com o cabelo deslumbrante. Esta muito bonita, pena é que eu estou apaixonado por outra. Ela abraça a minha mãe e sorri para mim.
— Feliz aniversário, Rose.
— Muito obrigada, Becca! Já sei que tudo isto é obra tua.
— Eu tive uma pequena ajuda de George.
— Foi mesmo pequena! — Elas riem.
— Para mim foi enorme!
— Como queiras, George!
— Eu vou falar com os convidados. — Minha mãe nos deixa à sós.
Porquê ela gosta de fazer isso? Eu quero estar sozinho! Eu preciso estar sozinho! Claire pode chegar a qualquer momento, e não pode me ver com Rebecca, senão vai interpretar tudo mal, e as minhas hipóteses com ela serão nulas.
— Como está Michaela?
— Ela está bem. Ela disse que Claire cuidou bem dela na quinta.
— Ela chorava muito, eu não sabia o que fazer, mas depois conseguimos nos entender.
— Tu e Claire, resolveram as coisas?
— Ainda não. Eu estou a tratar disso. A tua irmã está melhor?
— Sim. Ela está a cuidar de Michaela.
— Tu estás muito bonita, Rebecca. — Ela sorri e seus olhos brilham.
— Obrigada, George.
— Rebecca, tu és uma mulher incrível, e és muito especial, eu quero que encontres alguém que te faça muito feliz.
— George, eu ainda te amo.
— Eu lamento, mas eu amo Claire, e por ela eu faria qualquer coisa.
— Eu entendo.
Claire entra na sala, fazendo com que todos olhem para ela. Seus cabelos impecáveis, seu vestido vermelho sangue até aos pés, andando com graciosidade, com glamour. Meus olhos não conseguem fechar, nem desviar. Ela ilumina a casa toda. Estou muito impressionado. Ela se aproxima de Rose. Eu tenho a certeza de que nesse momento estou babando. Meu Deus! Que mulher é essa, que faz isso comigo? Como é que eu pensei em desistir dela? Eu sorrio para ela, ainda que não me veja! Hoje, eu vou recuperar, Claire!