Imperfeitas
3 Capítulo 2: Um Lugar Seguro
Notas iniciais
– NÃO É UM DOS LUGARES MAIS ADEQUADOS PARA DUAS JOVENS COMO VOCÊS – comentou o motorista, nos olhando pelo espelho retrovisor. – Ainda mais há essa hora. O que vocês pretendem lá? – ele insistiu. Nos últimos dez minutos, Mary e eu fomos interrogadas incansavelmente pelo senhor careca, rechonchudo e de bigodes negros.
– Encontrar velhos amigos – menti.
– Hmm... – Ele não acreditou muito. – Como você disse que se chamava mesmo?
– Layla. E esta é minha irmã, Kelly.
– Vocês duas não se parecem muito – ele observou. Era bastante óbvio que não possuíamos nenhum grau de parentesco. Eu tinha olhos verdes e cabelos pretos, já Mary, tinha os olhos azuis, e o cabelo ruivo, quase laranja, além de pequenas sardas no nariz diminuto.
– Não somos irmãs biológicas – Mary improvisou. – Os pais de Layla cuidam de mim desde que eu era um bebê – ela completou, olhando-me do modo mais doce e meigo.
– Um gesto admirável da parte deles – ele disse, sensibilizado com o nosso teatro, e parecendo mais à vontade em conversar conosco. – Minha filha Anne já tem 13 anos. Ela está no segundo ano do Programa, e é a melhor de sua turma – arrulhou o homem. O modo como ele parecia orgulhoso pela filha me enojou. Virei meu rosto para Mary, e vi seu olhar de reprovação em direção ao taxista, que nem percebeu.
– O senhor deve se orgulhar muito dela, não é mesmo? – Mary atacou. Belisquei seu braço levemente. Tínhamos que ser cautelosas, e para isso, nosso ódio pelo Programa não podia ser notado.
– Com certeza. Ela é minha única filha mulher. Tive muito medo de que ela fosse contaminada por essa insanidade que vem atacando as moças ultimamente. Mas ela é uma boa garota. Imaginem, ser contra o Programa! – ele falou, indignado. – São tempos loucos, não? – ele virou a cabeça para trás e nos olhou, com um leve sorriso indulgente.
– Loucos, definitivamente. – As palavras saíram com um gosto amargo pela minha boca.
– Loucos são vocês – Mary resmungou, de modo quase ininteligível.
– Disse alguma coisa senhorita? – ele perguntou, intrometido.
– Ela está cansada, só isso – me apressei em dizer. – Fizemos uma longa viagem.
– Hmm... – E nos olhou pelo retrovisor novamente, desconfiado.
O resto do percurso foi silencioso, de modo que tive bastante tempo para pensar. Antes de tudo, precisava dar um jeito de entrar no Centro e resgatar Victoria, o que não iria ser nada fácil, pois com certeza já éramos procuradas em toda a cidade. Eu precisaria de aliadas lá dentro.
Ia ser praticamente impossível.
Finalmente, o táxi parou em frente a uma velha casa de tijolos vermelhos, quase marrons, de tão desgastados pelo tempo. Descemos do carro e observamos ele se afastar mais e mais. Quando já não o víamos mais, começamos a andar na direção oposta a que o motorista havia seguido, virando à esquerda num vão entre dois prédios. Continuamos caminhando até avistarmos um imenso galpão aparentemente abandonado
O portão estava entreaberto, então nos esprememos para passar andando lateralmente pelo pequeno espaço. Do lado de dentro estava muito escuro, mas logo depois uma luz branca preencheu o local; Mary havia acendido uma lanterna, e já me passava outra. Ela nunca se esquecia de nada.
Assim que liguei o objeto, seguimos em frente pelo local, que parecia vazio. Não ouvimos nenhum som, nem o mais leve ruído. Será que havíamos sido enganadas?
Obtive minha resposta um segundo depois, quando senti algo rígido e frio encostar-se à minha nuca. Logo após, ouvi o som de um clique metálico, semelhante a um gatilho sendo acionado.
Fiquei imóvel como uma estátua, respirando por entre os dentes trincados.
– Quem é você? – indagou uma voz de mulher.
– Quem é você? – perguntei, desafiando-a.
– Isso não é da sua conta. Quem mandou você até aqui? Como você soube deste local? – a mulher exigiu, pressionando a arma contra minha nuca com mais força.
– Isso não é da sua conta – respondi.
– Desligue a lanterna – ordenou, e eu obedeci, prontamente. – Agora, comece a falar. Como você descobriu nossa localização?
– Tenho minhas fontes.
– Não vai contar, não é mesmo?
– Não.
Ao longe, era possível ouvir Mary se debatendo. Parecia que estava lutando com alguém, porém, sem emitir som algum. Escutei os passos de seu algoz e sua voz abafada – provavelmente haviam tapado sua boca – se afastando cada vez mais, até que só ficamos eu e a mulher misteriosa no recinto.
Ela suspirou, e em seguida, desencostou a arma do meu pescoço.
– Tudo bem, está tudo bem. Não são Guardiãs.
De repente, as luzes se acenderam, deixando-me momentaneamente cega com sua claridade absurda. Quando me acostumei com o excesso de luminosidade, meus olhos ainda doíam, porém fui capaz de distinguir os rostos de várias mulheres, cujos óculos de visão noturna deixavam parte de seus rostos com uma cor verde fluorescente. Haviam armas em suas mãos; no entanto, suas expressões era amistosas. Ao me virar, encontrei a face da mulher que há minutos atrás me ameaçava.
Ela retirou seus óculos. Tinha os olhos castanhos, e os cabelos loiros bem curtos, quase raspados. O rosto cor de marfim já demonstrava alguns sinais da idade, mas ela mantinha um sorriso jovial no rosto magro e longilíneo. Ela era linda.
– Onde está minha amiga? – Foi a primeira coisa que irrompeu dos meus lábios.
– Logo ela estará com você – disse a mulher. – Venha comigo.
Segui atrás dela pelo espaço iluminado por duas lâmpadas superpotentes. Atravessamos um corredor que eu nem percebi que existia, e passamos pela porta.
O que vi me deixou pasma.
– Meu nome é Nora. Seja bem-vinda à Resistência.
Olhei em volta, para o imenso galpão, e minha respiração parou. Não haviam dezenas de mulheres, como me contaram; haviam centenas. O lugar em si parecia uma pequena aldeia, repleto de barracas, onde grupos de pessoas conversavam e tocavam violão. Crianças corriam livremente de um lado para o outro, rindo, passando por debaixo das pernas de qualquer um que estivesse em seu caminho. Um homem negro e musculoso, que devia ter seus quarenta anos, passou por mim e sorriu amigavelmente. Fitei suas costas enquanto ele se afastava, boquiaberta.
– O quê, pensou que somente nós fossemos oprimidas? O sistema é cruel com todo mundo, meu bem – Nora disse, com um sorriso debochado nos lábios. – Qual o seu nome mesmo?
– Valentina – respondi.
– É um prazer conhecer você, Valentina. Aposto que você duvida das minhas palavras, já que minha recepção não foi, digamos, muito calorosa – ela falou, desculpando-se.
– Não há problema algum, Nora. Também é um prazer conhecê-la – eu disse, e dei meu sorriso mais verdadeiro.
– Sua amiga é sempre daquele jeito, hmm, nervosa? – Nora indagou.
– Han? – eu perguntei, distraída ao ver uma mulher de cabelo crespo passar por mim. Acho que nunca tinha visto um pessoalmente na vida; somente nas fotos dos livros das aulas de estética do Programa, onde me ensinaram que esse tipo de cabelo era inadequado.
– Sua amiga, aquela ruiva – ela explicou, rindo do meu estado abobalhado.
– Ah, Mary. – Lembrei-me. – Na maior parte do tempo, não.
– Ok... Foram precisos dois homens para segurá-la – ela comentou, divertida.
– Onde ela está?
– Está logo ali. – Ela apontou na direção de três mulheres. Mary conversava com elas, e olhava tudo ao seu redor, encantada.
Sem nem me despedir de Nora, fui até o grupo onde Mary estava. Assim que me viu, falou:
– Acredita que me agarraram e taparam minha boca? Nunca me senti tão desrespeitada! – Eu ri de sua irritação. – Ah, cala a boca, Val. – Ela deu uma risadinha. – É incrível, não? – ela disse, extasiada.
– É como se fosse outro mundo Mary – concordei. – Todo esse lugar, todas essas pessoas juntas, livres... Eu não tenho palavras para descrever. É simplesmente maravilhoso.
– Eu sei. Queria que Victoria estivesse aqui para ver isso – disse ela tristemente.
– Nós vamos resgatá-la Mary. Eu prometo.
Ela suspirou, cansada; fora um longo dia. Não havíamos dormido à noite passada, acertando os últimos detalhes da nossa fuga. Vinte e quatro horas antes, fugir do Centro parecia uma completa loucura. Afinal, não sabíamos se a Resistência de fato existia. No entanto, estando naquele local, cada vez mais eu me convencia de que fugir foi a melhor decisão que tomei em todos os meus dezesseis anos de vida.
Então me lembrei de Victoria, e das ameaças das Guardiãs. Àquela altura, ela com certeza já havia sido levada ao Gineceu. Estremeci. Tinha de salvá-la, o mais rápido possível.
Rezei para que não fosse tarde demais quando chegássemos lá.
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