Imperfeitas
4 Capítulo 3: Perguntas
Notas iniciais
NORA ERA UMA ANFITRIÃ GENTIL E PRESTATIVA, e meia hora depois da nossa chegada, nos ofereceu comida e um pequeno quarto nos fundos do galpão, onde havia uma cama de casal, que iríamos ter que dividir, e uma pequena cômoda para guardarmos nossos pertences. Ela nos explicou, brincalhona, que lá era a área “VIP” do lugar, a qual somente os líderes da rebelião tinham acesso. Já eram quase quatro horas da manhã quando eu e Mary fomos enfim, dormir.
Só para sermos acordadas, aos berros, duas horas depois, por uma senhora baixinha e enfezada.
– Acordem suas molengas! Acham mesmo que Nora vai deixar que permaneçam aqui se vocês ficarem com esses traseiros siliconados colados na cama o dia todo? – ela perguntou, com uma expressão tão irada no rosto, que nos fez levantar imediatamente. – Ela quer falar com vocês duas, e é melhor irem logo – ela ameaçou.
– Sobre o que ela quer falar conosco? – indagou Mary.
– Ora, eu não faço a menor idéia. E não me interessa, afinal de contas– ela retrucou. – Andem logo, preguiçosas! – ela disse impacientemente, fechando a porta atrás de si bruscamente, para em seguida abri–la novamente. – E, a propósito, meu nome é Daisy – falou, e cerrou a porta novamente.
Eu e Mary nos olhamos, perplexas. E começamos a nos arrumar imediatamente.
Seguimos Daisy por um corredor estreito, cuja única decoração era uma lata de lixo de metal, e entramos na única porta que havia ali, no final do caminho. Nora estava sentada na cabeceira de uma mesa de madeira clara, simples e retangular, e a sua esquerda, estava sentado o homem que havia me cumprimentado horas antes, com o queixo apoiado nas mãos e uma expressão serena no rosto. Uma mulher vestida totalmente de preto andava de um lado para o outro, agitada, na pequena sala de paredes cinza esverdeado. Ela tinha o cabelo curto de um vermelho eletrizante, rente a nuca, com uma franja comprida que cobria parcialmente seu rosto.
Sentei–me de frente para Nora, que me olhou com um sorriso amigável no rosto, e Mary acomodou–se ao meu lado. Nesse exato momento, a mulher de preto parou sua caminhada frenética. Seus olhos foram de Mary até a mim, e me encararam com uma intensidade e ferocidade impressionantes. Como se pudessem enxergar nos cantos mais profundos da minha alma, e não gostassem do que estavam vendo. Engoli em seco.
Aquela ia ser uma conversa nada agradável.
– Vocês fazem alguma ideia do por que as chamei aqui? – Nora perguntou.
Mary e eu balançamos a cabeça em negativa.
– Pois bem, eu evitei maiores interrogatórios mais cedo, para não causar preocupações desnecessárias entre as pessoas da nossa comunidade. Mas não pensem que me convenceram quando disseram que vieram em paz. Agora falem: por que vocês vieram aqui? Quem contou a vocês onde estávamos? – ela exigiu.
– Não estamos aqui para causar nenhum mal, Nora. Nós somos fugitivas do Centro, e ouvimos falar de um local seguro. Nem sabíamos que esse lugar exista de fato – eu disse, esperando que Nora ouvisse a verdade em minha voz.
– Ah, cale a boca! Acham mesmo que somos idiotas? – esbravejou a mulher de preto, batendo a mão na mesa com tanta força que eu e Mary nos assustamos. Ela nos encarava com uma raiva fulminante, nos fazendo encolher instintivamente.
– Kate, não aterrorize nossas hóspedes – Nora falou delicadamente, como quem tenta convencer uma criança birrenta a se comportar.
– Hóspedes?! Já passou pela sua cabeça que elas podem ser guardiãs? A qualquer momento vão invadir este galpão e prenderão a todos nós. Inclusive você! – Kate vociferou, indignada, aproximando o rosto de Nora até seus narizes quase se tocarem.
– Eu sei o que estou fazendo Kate – Nora disse somente, a expressão tão gélida que poderia paralisar até o mais selvagem dos animais.
– Não diga que eu não avisei – Kate sibilou, ameaçadoramente.
Ela deu uma última olhada em mim e Mary, e marchou furiosamente até a porta, abrindo–a bruscamente, fazendo com que Daisy, que aparentemente escutava a conversa o tempo todo, caísse de cara no chão da sala.
– Daisy, até quando vou precisar dizer... – disse o homem, que até então não havia dito uma única palavra. Ele revirou os olhos, como se já houvesse presenciado aquela cena milhares de vezes.
– Não irá precisar mais, Bob – Daisy o interrompeu. – Essa foi a última vez, eu prometo – disse, tentando amenizar sua situação. Ela parecia envergonhada.
– Tenho a impressão de ter ouvido isso antes – Nora falou, claramente se divertindo muito com a situação. – Nos dê licença agora Daisy, por favor. Kate...
– Sim senhora, vou deixá–los à vontade. – Obedeceu, fechando a porta enquanto dava uma última espiada no cômodo e Kate bufava. Alguns segundos depois ouvimos um barulho alto.
Como alguém chutando uma lata de lixo metálica.
Ficamos em um silêncio desconfortável por o que pareceu um longo tempo. Mary olhava para Nora, que olhava para mim, esperando pacientemente que eu dissesse como soube a localização da Resistência. Eu olhava para um ponto aleatório da parede encardida, evitando contato visual com qualquer pessoa ali. Ouvi Bob suspirar, cansado daquela enrolação.
– Podemos andar logo com isso? – ele suplicou.
– Elas não querem colaborar, Bob – Nora falou, parecendo decepcionada.
– Não vamos colaborar porque não temos nada a dizer! Não somos guardiãs, e não devemos satisfações a ninguém aqui. Se não quiserem nos abrigar, ótimo. Procuramos outro lugar – Mary se pronunciou, já ficando nervosa.
– Mary, querida, não foi nossa intenção ofender vocês de alguma forma – Nora se desculpou. – Entenda, é de suma importância para nossa segurança e a de todos os refugiados, sobretudo das refugiadas, manter esse lugar em segredo. Se vocês o encontraram significa que alguém contou, e esse alguém pode acabar revelando tudo às guardiãs. Então, se puderem nos ajudar a preservar as vidas de todos aqui, inclusive as suas, eu ficaria muito agradecida – ela continuou, pedindo de modo quase maternal. Porém, havia algo mais nas entrelinhas do seu discurso. Seria ironia?
Suspirei. Olhei para Mary, pedindo permissão. Ela assentiu.
– Acreditem em mim quando lhes digo que não sei quem é nosso informante. Fugir para cá foi ideia de Victoria, e ela nunca nos contou como ela ficou sabendo existência desse local. Nós perguntamos várias vezes, mas ela nunca contou. Disse que não era seguro – eu disse, por fim, dando de ombros.
– Quem é essa Victoria? – indagou Bob.
– É nossa amiga – eu disse, me odiando por despertar neles o interesse por ela. Agora sim, estávamos caminhando por um terreno perigoso.
– Por que ela não está aqui, com vocês? – ele insistiu.
– Ela foi capturada – Mary disse, trincando os dentes. Olhou para Nora. – E visto que sua maior preocupação é proteger este local, Nora, sugiro que encontre uma forma de resgatá-la. E seja rápida, pois logo as guardiãs a forçarão a falar. – Sua voz embargando ao pensar no quanto as guardiãs podiam ser persuasivas.
– Então vocês querem que resgatemos sua amiguinha. Como vou saber que quando chegarmos lá não aparecerão bandos de guardiãs para nos prenderem?
– Você não se convence fácil não é? – Mary disse, cada palavra pingando veneno e sarcasmo.
– Que bom que você sabe – Nora devolveu no mesmo tom.
– Não confio em você – Mary sibilou, estreitando os olhos.
– Eu também não confio em você. – Nora sorriu, com escárnio.
– Ei, acalmem-se garotas – Bob falou, em tom apaziguador.
Mary suspirou impaciente. Nora olhou para Bob, resignada, e em seguida deu um suspiro cansado. Depois de pensar durante alguns poucos minutos, anunciou:
– Muito bem, vou aceitar essa versão dos fatos, por hora. Vocês terão que me provar que falam a verdade – ela retrucou imperiosamente.
– Podemos contar com sua ajuda para salvar Victoria? – eu pedi, esperançosa.
– Talvez, se demonstrarem que são de confiança. Até lá, vocês serão treinadas. Pensaram mesmo que ficariam aqui sem fazer nada? – ela debochou.
Lembrei–me das palavras de Daisy mais cedo. E, pelo jeito que Nora falou, nossos traseiros siliconados não veriam uma cama nem tão cedo.
– Treinadas para o quê? Como? – eu quis saber. Mary encarava Nora com um misto de curiosidade e desconfiança.
– Em breve vocês saberão. Por hoje é só – ela esquivou-se da pergunta. – Bob, pode acompanhar as meninas até o quarto delas, por favor? – ela pediu, sorrindo docemente para ele.
– Será um prazer, milady – ele aceitou, dando um sorriso galanteador cheio de dentes brancos e retos para ela, e levantou-se. – Sigam-me senhoritas.
Levantei-me da cadeira devagar, sentindo meu corpo formigar. Não tinha percebido até então que havia ficado imóvel e tensa durante todo o interrogatório. Mary levantou-se logo em seguida, lançando um olhar felino à Nora durante o processo, que sorriu amigavelmente em resposta.
Saímos da sala, e senti como se um enorme peso fosse retirado dos meus ombros. Enquanto caminhávamos pelo corredor estreito, Bob parou na nossa frente, bloqueando nossa passagem.
– Com licença? – Mary pediu, encarando-o com raiva.
Ele a ignorou como se ela fosse o mais insignificante dos insetos, e falou:
– Vou dar um único aviso, e é melhor que o gravem a ferro nas suas cabecinhas ocas. Nem sonhem em desafiar a Nora. Vocês não fazem a menor ideia das coisas que podem acontecer a vocês – ele ameaçou. – Fui claro?
Ele voltou seu olhar para mim, esperando uma resposta. Apenas assenti freneticamente. Em seguida, virou se para Mary.
– Sim senhor, muito claro – Mary falou com a voz transbordando nojo.
Ele apenas estreitou os olhos, encarando–a. Quando percebeu que ela não ia desviar o olhar, virou–se abruptamente, nos deixando sozinhas no corredor.
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– Aquele imbecil... Quem ele pensa que é? Isso se ele tiver a mais remota capacidade de pensar! – Mary guinchou, irritadíssima com as ameaças de Bob. Ela andava furiosamente de um lado para o outro em nosso pequeno quarto, há quase uma hora. Eu apenas a observava, sentada na cama, a boca desfigurada por um sorriso apertado, em minha tentativa de segurar o riso.
E rir de Mary quando ela estava irritada definitivamente não era uma ideia inteligente.
Mas internamente, eu estava confusa. Nora não me pareceu perigosa; pelo menos não depois que nos acolheu tão rapidamente em sua “comunidade”. No entanto, ao observar como todos a tratavam com deferência – com exceção de Kate, aparentemente – e até com certo temor, não pude deixar de imaginar que ela poderia não ser tão amigável quanto parecia.
– Aquela Nora não é tão boazinha quanto quer aparentar ser – Mary ecoou meus pensamentos.
– Hmm... – resmunguei, meu sorriso se desfazendo lentamente enquanto pensava nas palavras de Nora mais cedo. Ela estava planejando algo para mim e Mary; e eu tinha o horrível pressentimento de que talvez o tal plano, fosse ele fruto da minha imaginação paranoica ou não, envolveria muito mais do que um simples treinamento.
– “Hmm”? É só isso que tem a dizer? – Mary questionou. – Não me diga que não está indignada com o que aquele tal de Bob – Ela pronunciou o nome com repulsa – falou!
– Acho que estou cansada demais para ficar indignada – disse, esticando as costas no colchão, decidida a não alimentar teorias conspiratórias em minha mente.
Mary enfim parou de andar, sentando-se ao meu lado. Trazia uma expressão pensativa no rosto, a testa franzida denunciando sua preocupação.
– Como acha que será esse treinamento? – indagou.
– Não faço a menor ideia, mas se quisermos salvar Victoria, temos de nos submeter a isso... Seja lá o que isso for – argumentei, escondendo dela meus devaneios a respeito das reais intenções de Nora. Não queria preocupa-la além do necessário.
– Só espero que consigamos a tempo. Salvá-la, quero dizer – Mary murmurou, mas não parecia acreditar nas próprias palavras.
– Nós iremos – falei, esperando reconfortá-la.
Entretanto, eu também não acreditava muito em minhas palavras.
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