Imperfeitas
2 Capítulo 1: Fugitivas
Notas iniciais
MEU CORAÇÃO MARTELAVA FORTEMENTE CONTRA MEU PEITO. Chegava a doer de forma intensa, aguda. Mas eu me recusava a parar. Apesar de estar correndo descontroladamente, não me sentia cansada, tamanha era a adrenalina correndo em minhas veias no momento. Só o que importava era me afastar o máximo possível dos meus perseguidores. Ou melhor; perseguidoras.
Prossegui em minha fuga pelas ruas mal iluminadas e desertas até avistar um beco. Entrei nele e me escondi no canto mais escuro; estava imundo, cheio de lixo. O cheiro do chorume invadia minhas narinas e tornava o ato de respirar insuportável. No entanto, era infinitamente melhor que o odor dos produtos que passavam a cada seis meses em meu cabelo.
Era o cheiro que representava minha liberdade.
Continuei encolhida dentro do beco fedorento por cerca de dez minutos, controlando minha respiração, atenta a cada ruído que pudesse indicar a aproximação de alguma Guardiã. Quando me convenci de que não havia mais ninguém a minha procura, ouvi vozes. Congelei. Aquelas eram as vozes que eu menos queria ouvir no momento. As vozes daquelas pessoas. A voz de Victoria.
– Eu juro, não sei onde elas podem estar agora.
– Ora, é claro que sabe! Onde elas estão? Para onde foram? – gritou uma Guardiã de voz estridente.
– Eu não sei, não sei onde elas planejavam ir – disse Victoria, com a voz falhando devido aos soluços. Ela estava chorando. Provavelmente estava em pânico.
O que significava que ela cederia sobre pressão.
Merda.
– Você está mentindo. Fale agora ou sofrerá as consequências! – disse a Guardiã novamente, com uma voz tão ameaçadora que fez Victoria parar de soluçar, e me imobilizar completamente. Sabíamos quais eram essas consequências. E também o quão dolorosas elas poderiam ser...
– Ela não vai falar, Polly – falou outra voz. – É melhor levarmos ela ao Gineceu – sugeriu.
Victoria começou a soluçar mais e mais. Ouvíamos muitas histórias sobre garotas que enlouqueciam depois de meses no Gineceu, um quarto minúsculo, sem janelas, onde eram trancafiadas quando desobedeciam às ordens. E quando saíam de lá – se é que saíam – estavam completamente catatônicas, robóticas. Mortas.
Não era algo que eu e Victoria desejássemos.
– Não, não, por favor, não me levem para lá, por favor, não... – Ela foi interrompida bruscamente por uma bofetada.
– Cale-se, insana. Vamos! – ordenou a Guardiã Polly.
Polly... Polly... Um dia você receberá de volta essa bofetada.
As vozes foram se afastando cada vez mais, até sumirem completamente. Saí do beco na ponta dos pés, para não fazer barulho. Olhei para um lado, e para o outro; não havia mais ninguém.
Andei um pouco, e parei, só para checar. Todo cuidado é pouco quando se é fugitiva de um Centro de Feminização.
Eu odiava aquele lugar. Odiava o fato de nos tratarem como bonecas, de nos fazerem perder nossa identidade. Éramos totalmente remodeladas; desde nossos corpos até nossas mentes.
Fui enviada ao programa quando tinha 11 anos, assim que tive minha primeira menstruação. Meus próprios pais me entregaram aos leões. Tão orgulhosos. Afinal, antes apenas brincávamos de boneca e imitávamos nossas mães. Mas a partir desse dia, seríamos como elas, mulheres de verdade.
Quando o fatídico dia chega, é feito todo um ritual de iniciação. A mãe da “homenageada” deve juntar todas as roupas masculinas da filha, como calças e shorts, e em seguida, queimá-las. Após isso, as cinzas são colocadas numa urna, para logo depois serem jogadas no mar, um símbolo de como a garota deixou para trás seus tempos de “desocupação social” (leia-se, “Infância”); a partir daquele momento, éramos consideradas mulheres. Tínhamos um papel a desempenhar na sociedade. Nós tínhamos uma missão, uma razão para a nossa existência.
Depois de se livrar das cinzas, as meninas eram levadas pelos pais até o Registro Geral das Mulheres, onde eram cadastradas, e em seguida, matriculadas nesse maldito Programa de Feminização. Aulas de Culinária, Cuidados Infantis, Maquiagem, Administração do Lar, e até, Conduta Matrimonial. Tudo oferecido para garantir que você seja um modelo de feminilidade, e uma esposa e mãe excelentes.
Eu estava no quinto ano, já deveria ter terminado. Mas perdi as contas de quantas vezes falhei nas inspeções corporais. Um centímetro de raiz de cabelo cacheado poderia custar um ano inteiro. E isso causaria danos em longo prazo. Quando um homem escolhia uma garota para desposar, ele poderia solicitar seu histórico do Programa, bem como suas notas nas matérias dos cursos. Notas ruins diminuem suas chances de fisgar um bom marido; reprovações então, as anulam quase completamente. Ninguém queria uma esposa “defeituosa”. E se você fosse defeituosa, como eu aparentemente era, quais as chances de se fazer o que quer que seja?
E foi por não aguentar mais essa prisão e por não me adequar a todos esses padrões que resolvi fugir. Junto com outras duas garotas inadequadas como eu, Mary e Victoria. Acabamos nos separando durante a fuga. Agora que sabia da captura de Victoria, torcia para que Mary estivesse bem.
Continuei minha caminhada pelas ruas anormalmente vazias; geralmente, várias prostitutas andavam nas calçadas, oferecendo seus serviços a homens cuja presença em becos imundos era totalmente inesperada. Inesperada, pois eles tinham a perfeição os aguardando com uma torta de limão e cílios postiços em casa.
As prostitutas eram, das duas, uma: mulheres vindas de famílias pobres, que não possuíam dinheiro suficiente para pagar a taxa semestral que o governo exigia e não podiam sustentar a si próprias; ou ainda, mulheres que foram reprovadas no estágio de Adequação às Normas Matrimoniais.
Nunca entendi por que isso importava tanto. Não adiantava em nada estar no padrão estético se você não se encaixasse no padrão do casamento. Esse era o padrão mais importante de todos; ele separava as mulheres “boas” das “más”.
E se você fosse má, seria deserdada, e teria que viver na rua, provavelmente como essas prostitutas.
E viver assim era extremamente perigoso. Quase todas as semanas uma garota de programa era assassinada, ou sofria outro tipo de violência. Entretanto, a força policial pouco fazia na investigação dos casos, que eram divulgados amplamente nos jornais.
Lembro-me do que minha mãe disse quando eu contava dez anos de idade, após assistirmos o noticiário na televisão:
– Está vendo o que acontece com as mulheres que são más?
A superexposição dos crimes contra as prostitutas era mais um artifício usado para controlar pequenas e ingênuas garotinhas, como eu era. Implantar em nós desde cedo o medo e a repulsa pelas “mulheres más”, nos fazendo acreditar que o Programa nos pouparia deste terrível destino, era muito mais eficaz do que impor à força esse dogma em nossas mentes.
Cheguei à conclusão de que talvez não fosse uma boa ideia andar tão tranquilamente numa rua escura em plena madrugada. Comecei a caminhar mais rapidamente, virando uma esquina, e outra, até que finalmente cheguei a uma vila cheia de prédios abandonados.
Fui até o número 257, e abri a porta, que já estava bastante velha e cheia de rachaduras, meio inclinada para a direita. Era um reflexo do edifício onde se encontrava, cuja aparência era a de que poderia desmoronar a qualquer momento, como se o mais leve sopro de vento pudesse demolir a construção.
Subi as escadas até o sexto andar. Procurei pela porta com a plaquinha “603”, e quando a achei, bati levemente, com o punho fechado, reproduzindo o código que tínhamos criado. Um, dois, três, um dois, um, dois.
A porta se abriu minimamente, e pude ver somente um relance dos olhos azuis de Mary, me olhando primeiro com desconfiança, e depois com um alívio transbordante. Ela fechou a porta, e em seguida, escutei o barulho dos ferrolhos sendo destrancados.
Ela abriu a porta, e me puxou para dentro bruscamente, indo logo em seguida fechá-la, tranca por tranca. Depois, me deu um abraço apertado e desabou a chorar num misto de pura felicidade e histeria.
– Eu pensei que não íamos conseguir – ela disse, rindo em meio às lágrimas. – Onde está Victoria? – perguntou com a voz trêmula, ao se dar conta de que só estávamos nós duas no apartamento. – Ela vai vir, não vai? Por favor, diga que ela não foi capturada.
– Ela foi pega – eu disse, e meus olhos já começavam a arder. – Ouvi quando aconteceu. As Guardiãs irão levá-la ao Gineceu.
– Não! – Mary arregalou os olhos de terror. – Temos que salvá-la, não podemos deixá-la naquele lugar! Lembra-se das histórias, Valentina?
– Lembro – falei, encolhendo-me com as lembranças e temendo por Victoria. – Nós vamos salvá-la, mas não agora. Logo eles a forçarão a falar, e então descobrirão nosso esconderijo. Nós temos que fugir daqui o mais depressa possível – argumentei, surpresa por demonstrar frieza e racionalidade pela primeira vez naquela noite. Durante minha fuga, meus pensamentos reduziram-se á impulsos elétricos e instinto de sobrevivência, apenas.
– Você tem razão, Valentina – concordou Mary. – Mas assim que estivermos seguras, vamos voltar e pegar Victoria.
– Não estaremos seguras nem tão cedo – comentei, pessimista.
– Claro que não – Mary bufou. – As Guardiãs logo colocarão nossas fotos nos jornais. Vamos, vamos logo.
Ela apressou-se e se pôs a juntar tudo o que havia de útil e necessário no local em uma bolsa marrom de tamanho médio: comida, artigos de higiene pessoal, roupas, dinheiro, dois canivetes. Porém, antes de ela terminar a arrumação, segurei seu braço.
– Mary, eu sinto muito.
– Pelo quê?
– Eu deveria ter impedido as Guardiãs. Deveria ter salvado Victoria. Ela estaria conosco agora.
– Não se culpe, Val. De qualquer forma, você não podia ter feito nada. É bem provável que a tivessem levado também. – Ela me tranquilizou, e senti a culpa que ameaçava me dominar se dissipar lentamente. – Vamos, não podemos ficar um segundo a mais aqui – ela disse de modo implacável.
Guardamos o restante das poucas coisas que conseguimos esconder no pequeno apartamento e descemos as escadas correndo. Continuamos assim até que avistamos um táxi.
Praticamente nos jogamos na frente do veículo, para fazê-lo parar. Demos o endereço para o motorista, que nos olhou de soslaio, meio desconfiado. Porém, sem comentar nada, ele nos levou até nosso próximo destino, onde supostamente estaríamos a salvo.
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