Notas iniciais
Sejam bem vindos, ao nosso sexto capítulo. Espero que gostem da história e continuem acompanhando. Boa leitura a todos.

Acordei na manhã seguinte com o som de uma voz conhecida abafada pela distância, instruindo minhas damas de companhia nos seus afazeres diários enquanto me sentava na cama tentando entender porque ela estava ali, já que havia dispensado seus serviços ontem à noite.

— Pelos deuses, me ausento uma noite da administração dos aposentos da rainha Virgínia e tudo fica um caos no dia seguinte, nem parece que estão comigo a anos — a voz conhecida disse baixo, provavelmente querendo não me acordar e sorriu surpresa assim que me viu de olhos abertos — Bom dia, vossa majestade, como amanheceu hoje? Seu banho já está pronto, assim como o seu café da manhã.

— O que faz aqui, Agnes? Pelo que lembro, a expulsei dos meus aposentos e a destitui do seu cargo de chefe das damas de companhia. — disse severa e ela suspirou concordando.

— Sei disso vossa majestade, já estava com tudo pronto para partir, mas não consegui porque se fizesse isso estaria quebrando a promessa que fiz a sua mãe de protegê-la enquanto vivesse.

— Não ligo para a promessa que fez a minha falecida mãe, não permitirei que uma traidora continue me servindo como se nada tivesse acontecido. Por tanto, desapareça da minha frente — exigi severa e ela negou com a cabeça me deixando surpresa — Como ousa me desafiar, Agnes?!

— Jamais a desafiaria, minha senhora, mas imploro que me deixe cumprir minha promessa a falecida rainha consorte. Prometo que serei invisível, que não ouvirá o som da minha voz apenas me deixe continuar servindo-a para que quando for chamada pelos deuses, para a grande morada eterna possa olhar, minha antiga senhora, de cabeça erguida por não ter abandonado sua filha um dia se quer da minha vida. — Agnes suplicou com os olhos cheios de lágrimas e respirei fundo ponderando.

Era melhor ter a minha inimiga diante dos meus olhos, sabendo o que estava fazendo e com quem se encontrava, do que com ela solta por aí utilizando os anos de informações que adquiriu trabalhando no castelo, para ajudar meus inimigos a me destruírem.

Sem dizer uma palavra, peguei a adaga que ficava embaixo do meu travesseiro e me levantei da cama com ela nas mãos, caminhando em direção a Agnes que não desviava os olhos de mim, até que parei em sua frente apontando a arma em direção ao seu coração.

— A aceitarei de volta em nome da memória da minha falecida mãe, mas se ousar trair a oportunidade que estou lhe dando, enfiarei essa adaga no seu coração sem pensar duas vezes. Me ouviu, Agnes? — questionei severa sem desviar os olhos dos seus, segurando a adaga em seu peito.

— Sim, vossa majestade. — disse com a voz tremula e balancei a cabeça concordando, afastando a adaga de seu peito.

— Quais são meus compromissos de hoje, Agnes? — questionei caminhando em direção a minha cama colocando a adaga em seu lugar.

— Compromissos...Há sim, pela manhã a senhora tem a sessão habitual na câmara dos Lordes, depois sua aula de leis e governo com o Lorde Samuel, em seguida temos a pausa para o almoço e uma hora livre, destinada aos seus passatempos pessoais. Na parte da tarde, teremos a visita da Betânia que entregará seu vestido de aniversário. Já no jantar, o General exigiu sua presença durante a refeição, para o jantar em comemoração à chegada do rei do Sul em nosso reino. — Agnes disse ainda nervosa depois que apontei uma adaga para ela.

— Certo, mande dizer ao General do Leste que declino do seu convite, não faço questão de ver o rei do Sul — disse para a minha dama de companhia que me olhava apreensiva — O que foi, Agnes?

— Sei que só agora a senhora me pediu para declinar o convite do jantar, mas assim que fui comunicada desse compromisso pelo secretário do General, informei que vossa majestade não iria pois já tinha outros afazeres, mas ele deixou claro que deveria cancelar todos os outros para que a rainha esteja presente ou a guarda a fará comparecer a força. —disse sem jeito e segurei a respiração incrédula.

— Ele disse o que?! Quem ele pensa que é, para me ameaçar dessa forma?! Pois quero vê-lo trazer a guarda, para me levar a força a esse jantar.

— Pelos deuses, vossa majestade, não fale isso. Imploro a senhora, em nome da memória de sua mãe para que compareça a esse jantar, só assim poderá conhecer seu inimigo e deixar claro que não está contente com esse acordo de casamento. Não deixe que o General tire de vós, sua dignidade de rainha da casa do Leste. — Agnes implorou desesperada para que pudesse ver a razão e respirei fundo, pensando em tudo que ela havia me falado.

— Você tem toda a razão, Agnes. Se permitir que me arrastem como uma criminosa para esse jantar, o rei do Sul se achará no direito de fazer o mesmo se me opor a esse casamento, tenho que deixar claro a ele que não quero unir nossas casas em hipótese alguma...Preciso fazê-lo desistir de se casar comigo, só assim poderei me livrar desse maldito casamento e me concentrar em derrotar o General...E já sei muito bem o que fazer, para isso acontecer... — disse sorrindo vitoriosa no final, deixando minha dama de companhia confusa.

— O que a senhora pretende fazer? — Agnes questionou me olhando com preocupação, diante do sorriso que dava.

— Espere e verá, Agnes — disse sorrindo de forma conspiratória enquanto seguia em direção aos aposentos em que fazia minha higiene pessoal, para me arrumar para os compromissos que teria durante toda a manhã.

Assim que estava devidamente pronta, sai dos meus aposentos em companhia de Agnes e todos que me seguiam a cada passo que dava, caminhando em direção ao salão onde a câmara dos Lordes estava para mais uma sessão torturante, presenciando o desrespeito com os súditos que confiavam nos abutres que se sentavam ali, enquanto eles discutiam quem seria o responsável para administrar as verbas arrecadas no mês que vem.

— Espero que sua dama de companhia, tenha lhe comunicado sobre o jantar de hoje e o quanto ele é importante, já que será apresentada formalmente ao seu noivo. Se tudo correr como o esperado, no dia seguinte após seu aniversário poderá seguir com seu noivo em direção ao destino que os deuses lhe reservaram. — O General disse sorrindo sentado ao meu lado, enquanto o chefe da câmara dos Lordes debatia com outro colega de forma acalorada como deveriam ser gastos os recursos adquiridos pela coroa no mês que vem.

— Destino traçado pelos deuses?! Por favor, não blasfeme dessa forma, aumentando ainda mais os seus pecados, General. Aconselho a não cantar vantagem até que tudo esteja terminado, porque enquanto puder lutarei contra essa união até meu último suspiro de vida — assegurei a ele sem desviar os olhos dos dois lordes que debatiam, defendendo qual ministério deveria ficar responsável por gerir os recursos, ou melhor, quem seria responsável pelo desvio desse mês.

—Sua força de vontade sempre me faz rir, rainha Virginia. Mesmo que tudo esteja contra você, nunca perde a esperança de que no fim sairá ganhando, mas vossa majestade, ouça o conselho desse velho homem que já viu muita coisa nessa vida...Mantenha sua boca fechada e seja submissa às vontades do seu marido, como qualquer serviçal obediente, se quiser manter a cabeça no lugar no reino do Sul. — disse fingindo preocupação e sorri disfarçadamente diante do seu teatro.

— Pelos deuses General, o senhor subestima muito a minha capacidade e de qualquer outra mulher. Saiba que por isso podemos ser muito mais cruéis e estrategistas que os homens, porque somos maternas e piedosas com a mesma intensidade que odiamos e aniquilamos. E não será um casamento arranjando que me colorará uma mordaça como um cão, irei lutar como uma leoa defendendo a minha vida como fiz todos esses anos, especialmente agora que irei para um reino estrangeiro e veremos quem sairá vencedor dessa disputa, a leoa da casa do Leste ou o leão da casa do Sul. E lembre-se sempre disso, o vento do Leste jamais se curva, não importa as circunstâncias ele sempre resisti e luta até o fim. — assegurei a ele que sorriu zombando de mim, como se não acreditasse que teria tamanha força diante de outro monarca, ainda mais em um local que era o seu ponto forte.

— Admiro sua coragem e força, mas tenho certeza que assim que se ver em outro reino suas preocupações serão outras, o peso de gerar um herdeiro para a coroa ocupará seus pensamentos porque saberá que se não cumprir o único dever que lhe é esperado como uma boa consorte, seu rei poderá mandá-la para a forca. Um destino triste, mas esperado para alguém que tem tanta arrogância dentro de si. — destacou severo e sorri negando, deixando-o confuso.

— Isso é o que veremos, General — segredei para ele voltando minha atenção para os lordes que pareciam ter entrado em um consenso, antes de todos concordarem que a sessão devia ser encerrada por hoje.

Após a reunião na câmara dos lordes, segui em direção a biblioteca real onde meu tutor de leis e governo, Lorde Samuel, já devia estar a minha espera para mais uma aula. Quando jovem, Lorde Samuel havia sido tutor do meu pai, por isso ainda em vida ele fez questão de escolher seu antigo professor para me dar aulas sobre política e governo, como se pressentisse de alguma forma que não estaria aqui para me iniciar nesses assuntos, como qualquer monarca gostaria de fazer com seu herdeiro.

Mesmo sendo um lorde, meu professor não tinha o direito de fazer parte da câmara pois segundo o General, ele tinha ideias que iam contra o “bem maior”, no caso esse “bem maior” significava os interesses do líder do exército do reino e dos seus associados. Desde a morte do meu pai, Lorde Samuel, se mostrou um opositor feroz contra o usurpador do trono. Sempre alegando que a herdeira do seu antigo aluno era apta para exercer suas funções reais, exigindo que devolvessem meu direito de governar ainda exercido por outra pessoa, mesmo depois que atingi a idade adulta.

Assim que passei pelas portas que davam acesso a biblioteca real, sorri ao admirar a imensidão de possibilidades que aquele lugar ofertava tudo ao alcance das mãos, bastando apenas escolher um livro e abri-lo, embarcando por inúmeras aventuras presentes no mundo das palavras. Esse lugar havia sido um refúgio meu e do meu pai, que adorava ler para mim aventuras sobre piratas e bravos soldados me fazendo acreditar que o bem sempre vencia, apesar de todas as adversidades que os heróis passavam.

Era uma das lembranças mais lindas e fortes que conseguia manter dele, mesmo que a memória da sua voz ficasse embaçada com o passar dos anos, aquela lembrança mesmo que difusa ainda permanecia viva dentro de mim.

Respirei fundo, afastando as lembranças e subindo as escadas que davam acesso ao segundo andar, reservado para o estudo dos monges e de seus aprendizes que cuidavam de todo acervo contido ali, na companhia de Agnes enquanto os outros que me acompanhavam ficavam na parte de baixo.

— Desculpe o atraso, professor Samuel, mas a reunião na câmara de Lordes acabou se estendendo além do esperado. — justifiquei meu pequeno atraso assim que vi o senhor lendo um livro a minha espera, mas ele levantou os olhos das páginas que lia e sorriu de forma acolhedora como se não se importasse com o meu atraso.

— Vossa majestade, jamais se atrasa. Na verdade, eu que cheguei cedo demais porque queria terminar de ler o Príncipe de Maquiavel. — meu professor disse gentil indicando a cadeira em sua frente e agradeci me sentando, enquanto Agnes fazia o mesmo em outra mesa.

— Mas o senhor já leu inúmeras vezes esse livro, professor, por que mesmo depois de tanto tempo o senhor sempre volta para ele? — questionei curiosa e ele sorriu surpreso com a minha pergunta.

— Porque rainha Virgínia, o mesmo livro pode ser lido de inúmeras maneiras com o passar da idade. Meu eu de quinze anos, não leu da mesma forma que o meu eu de trinta, muito menos o meu eu de agora. A cada nova idade, o mesmo livro pode nos trazes lições valiosas que jamais serão esquecidas se estiver com os olhos abertos, os ouvidos atentos e o coração disposto a ouvir o que ele irá lhe dizer — disse sábio fechando o livro e sorri ao ver a lógica que havia por traz das suas palavras, pois estamos em constante mudança e toda a nossa percepção assim como os sentimentos acompanham essa modificação que muitas vezes não pode ser vista do lado de fora — Creio que essa possa ser a nossa última aula, fui informado pelo secretário do General que após o seu aniversário, vossa majestade, partirá com seu noivo para o reino do Sul.

— É o que esperam de mim. Que parta calada e abdique da minha coroa, para ser a consorte de alguém em outro reino, me ocupando apenas em gerar herdeiros e agradar meu marido.

— Mas não é o que vossa majestade, almeja. Estou certo? — questionou perspicaz e balancei a cabeça concordando.

— Sim. Não desejo essa união, por mais que deixe claro, todos fingem não ouvir e continuam decidindo por mim. Estou farta disso tudo, professor.

— Entendo, vossa majestade, mas ouvi dizer que o rei do Sul é um homem muito justo e sábio, sugiro que tenha uma conversa franca com vossa majestade, não existe nada que uma conversa honesta não resolva. — me aconselhou e balancei a cabeça concordando.

— Venho pensando nisso ultimamente, professor. Já pensei em oferecer tesouros em troca de não realizarmos esse casamento, mas o que poderia barganhar com alguém que é rei?! Estou em total desvantagem nessa situação. — declarei sem saída e meu professor balançou a cabeça concordando.

— Minha rainha tem razão nesse ponto, sugiro que quando o rei do Sul chegar lhe envie um convite para uma refeição, com as melhores iguarias do nosso reino e apresentações musicais, antes de conversar com ele. Dizem que comida e arte, são capazes de amolecer os corações mais duros, senhora. — meu professor segredou e sorri agradecida a ele.

— É uma excelente ideia, professor Samuel. Irei providenciar isso assim que terminarmos nossa aula. — assegurei e ele concordou voltando abrir o livro de Maquiavel, recitando um trecho para que pudéssemos discutir sobre a obra.

Depois que o professor Samuel deu a nossa aula como encerrada, ele me desejou boa sorte com o meu plano e o abracei com carinho, agradecendo por tudo que já havia feito por mim durante todos esses anos, enquanto implorava em pensamento aos deuses para que me ajudassem a contornar essa união indesejada, podendo enfim concentrar todos os meus esforços em tirar o General do Leste de vez do comando do meu reino.

Após nos despedirmos, deixei a biblioteca e caminhei em direção aos meus aposentos, solicitando a Agnes que meu almoço fosse servido no meu quarto, justificando minha ausência durante a refeição ao General de que gostaria de me dedicar a escolher a roupa perfeita para o jantar dessa noite, no qual conheceria meu futuro marido.

Sabia que essa desculpa deixaria o General feliz, acreditando que finalmente havia me dado por vencida diante de um destino que não poderia mudar, era o que ele achava. Aproveitei as poucas horas que tinha para meus passatempos pessoais, para pensar em como poderia convencer o rei do Sul a desistir da nossa união, talvez pudéssemos forjar um acordo que beneficiasse ambos e que não envolvesse o nosso enlace.

Se meu plano desse certo, teria a vantagem de contar com os mais experientes soldados do Sul para reconquistar meu reino, evitando um confronto armado, pois todos os combatentes conheciam a fama de exímios guerreiros do reino do Sul, fazendo qualquer um se entregar de livre e espontânea vontade evitando um massacre, já que até hoje ninguém havia conseguido derrotar seu exército.

— Que tal se vossa majestade, usasse seu vestido vermelho para o jantar de hoje? Afinal, é costume as noivas reais usarem no jantar de apresentação, a cor da casa real do seu noivo. —minha dama de companhia explicou sorrindo, enquanto autorizava que as outras damas recolhessem a louça que havia usado durante minha refeição.

— Sei muito bem disso, Agnes, mas não irei usar nada que lembre a casa real do Sul. Usarei um vestido verde, a cor da casa da qual sou senhora. — disse decidida e ela me olhou com preocupação.

— Vossa majestade, o rei do Sul poderá entender sua escolha de roupa como uma afronta ao seu reino, podendo declarar guerra ao Leste diante de tamanho desrespeito. — Agnes me aconselhou preocupada e respirei fundo ponderando, sabendo que ela tinha a razão, mas não podia insinuar que estava de acordo com aquela união.

— Você tem razão, irei usar o vestido preto que a Betânia entregou recentemente.

— Mas majestade...Um vestido preto não seria de bom tom... — Agnes começou a explicar tentando me fazer mudar de ideia e a interrompi.

— É o vestido preto ou o verde, Agnes. Se não posso usar a cor da minha casa, usarei a cor do luto, porque me sinto indo para um enterro ao pensar que terei que comparecer a esse jantar. Por favor, providencie o vestido e joias que combinem com ele. Deixe tudo organizado, pois assim que terminar meu compromisso com a Betânia darei uma volta pelo jardim para acalmar meus pensamentos, antes de me arrumar para o fatídico jantar — expliquei a minha dama de companhia que concordou.

Decidi me deitar na cama para ler um pouco após o almoço, enquanto minhas damas de companhia se dedicavam em arrumar tudo que precisaria para estar apresentável no jantar de hoje. Mesmo sabendo de qual vestido falava, Agnes fez questão de trazê-lo até mim para que confirmasse se era o que desejava usar aquela noite e balancei a cabeça concordando, voltando a minha leitura.

Acho que devo ter adormecido durante a leitura, pois me espantei com a voz suave de Agnes informando que estava na hora de encontrar Betânia e agradeci por me acordar. Me levantei da cama e caminhei em direção ao cômodo destinado à minha higiene pessoal, para lavar meu rosto e arrumar meu cabelo, antes de encontrar com a costureira real que já deveria estar a minha espera.

Assim que estava devidamente pronta, sai dos meus aposentos em direção a sala de costura real onde Betânia já me aguardava ansiosa, para que provasse pela última vez o vestido que havia feito para o meu aniversário.

— Boa tarde, vossa majestade. — Betânia disse me cumprimentando assim que entrei na sala.

— Boa tarde, Betânia. Como tem passado? — questionei indicando que nos sentássemos nas cadeiras que havia ali e ela me olhou surpresa por ouvir minha pergunta.

— Vossa majestade, não precisa se preocupar com o bem-estar de uma reles costureira. — disse dando de ombros como se não fosse nada demais e a olhei séria.

— Nunca mais diga algo assim, Betânia. Você é uma das minhas súditas e sempre me preocuparei com o meu povo...E gostaria de lhe pedir perdão, por meu comportamento deplorável na última vez que nós vimos, foi errado descontar minhas frustações na senhora. — disse sincera e ela abriu a boca em choque, enquanto Agnes sorria orgulhosa por ter reconhecido meu erro.

— Vossa majestade, não precisa me pedir perdão. — Betânia disse sem graça e neguei com a cabeça, deixando-a confusa.

— Preciso sim, pois fui cruel com a senhora. Não é um título de nobreza, que me fará melhor do que as outras pessoas. Pelo contrário, esse título de nobreza me faz ser exemplo para o meu povo, por isso estou lhe pedindo perdão por ter sido tão rude no nosso último encontro. — disse sincera e Betânia me olhava sem reação, como se não acreditasse que sua rainha estava lhe pedindo perdão e reconhecendo que havia errado.

— Não se preocupe vossa majestade, eu entendo. Sei que a senhora deve estar sob muita pressão, por isso agiu daquela forma, mas não se preocupe porque não fiquei magoada com suas palavras. Se for tranquilizar seu coração, asseguro a vossa majestade que está perdoada. — Betânia assegurou amorosa e sorri agradecida a ela.

— Muito obrigada, Betânia, ouvir isso me deixa com o coração mais leve. — disse em paz por saber que havia feito o que era certo.

— Agora que tal, se começássemos a última prova do vestido de vossa majestade, porque se for preciso mais ajustes poderei realizá-los e entregar o vestido ainda hoje. — Betânia assegurou e concordei, antes dela e Agnes me ajudarem a tirar o vestido que usava para colocar o que a costureira havia trazido.

— Pelos deuses, vossa majestade, está a própria visão da beleza... As alças de cetim realmente fizeram toda a diferença, Agnes — Betânia disse em pé ao lado de Agnes, enquanto as duas me olhavam de maneira encantada — O rei do Sul irá se encantar com sua beleza, minha rainha.

— Tenho certeza, assim que vossa majestade ver a nossa rainha, se apaixonará perdidamente. — Agnes disse sonhadora suspirando ao lado de Betânia e revirei os olhos, diante de suas ilusões românticas que eram diferentes da vida real.

— Agradeço por seu trabalho, Betânia, impecável como sempre — disse agradecida tentando mudar o rumo da conversa, enquanto alisava a saia volumosa do vestido que possuía bordado de flores do campo e recordei de um assunto mais urgente — Agnes, como anda a tarefa que lhe pedi?

— Já comecei os preparativos, vossa majestade. Não se preocupe, pois tudo estará como instruiu. — minha dama de companhia assegurou e agradeci, implorando em pensamentos aos deuses para que meus planos dessem certo.