Imperatriz do Leste
9 Oitavo capítulo
Notas iniciais

— Muito interessante a escolha das suas palavras, General do Sul... Usurpador?! — disse sorrindo e todos os lordes presentes o acompanharem, menos eu e os representes do reino do Sul — Não me vejo como tal. Me vejo como o servo mais fiel e abnegado da coroa, por exercer a função sagrada de conduzir meu povo enquanto a nossa amada rainha, ainda não tem condições de governar. — o General do Leste assegurou e sorri furiosa, atraindo os olhares dos presentes.
Quem ele pensa que é, para afirmar que não tenho condições de governar meu próprio reino?! Que se dane o sangue frio, aquele usurpador acabou de me chamar de incompetente na frente de todos?! Logo ele, que não percebeu que o tesoureiro real vem desviando pequenas somas do seu cofre pessoal durante anos?! Isso não vai ficar assim. Não mesmo, pensei sentindo meu sangue ferver nas veias mandando meu alto controle para o inferno.
— Como pode afirmar com tanta certeza, General do Leste, que não tenho condições de governar meu próprio reino?! Não houve um dia da minha vida, que não tenha me preparado para ser a soberana do reino do Leste, desde que aprendi a ler e escrever tenho estudado durante todos esses anos com os melhores tutores deste reino e dos vizinhos. Aprendi não só o que era exigido e esperado de um monarca, como fui além disso, mas o senhor e a Câmara dos Lordes, nunca cogitaram me devolveram o trono para que pudesse conduzir o meu reino, simplesmente porque sou mulher. E nas suas mentes arcaicas, uma mulher não serve para chefiar um reino — explodi furiosa olhando para os homens mais poderosos do meu reino, sem me importar se estava me excedendo ou não.
— Cale-se, rainha Virgínia — o General do Leste começou a dizer apoiado pelos lordes e o interrompi.
— Cale-se, você, General do Leste, ainda não terminei de falar — ordenei severa usando toda a minha autoridade de soberana, fazendo meus súditos se encolherem por reflexo — Aos seus olhos, não tenho maturidade para responder por meu reino, mas isso não foi levado em consideração e nem perguntaram a minha opinião, quando decidiram me entregar de mão beijada para o rei de outro reino, me obrigando a renunciar meu direito de nascença para ser submissa a outro governante e jamais aceitarei isso, vou lutar pelo direito de governar meu reino sem a interferência de vocês — disse severa e o General do Leste deixou de lado a sua postura de fachada dos mais humildes dos servos da coroa, assumindo a postura hostil que sempre tinha diante de mim.
Já o comandante do reino do Sul, sentado ao meu lado, assumiu uma postura tensa como se estivesse se preparando para algo, assim como a sua Capitã no fundo do salão.
— Já chega, rainha Virgínia. O que pensa que está fazendo?! — o General do Leste questionou sério, ostentando um tom de voz calmo e controlado em um rosto inexpressivo para os demais, mas o conhecia bem para saber que por dentro ele estava furioso — Acha que vou permitir que comprometa o bem-estar do povo do Leste, com suas histerias e manias de perseguição sem fundamento?! É por atitudes inconsequentes assim, que não permitimos que assuma o trono. — o General do Leste disse severo e todos os lordes da câmara presentes balançaram a cabeça concordando, deixando claro que acreditavam nas mentiras de seu comandante.
Sorri sem humor olhando para o teto, furiosa comigo mesma por ter caído em outra armadinha daquela velha raposa, confirmando suas palavras com o meu ataque repentino de fúria, atestando que era uma rainha mimada, histérica e sem credibilidade, diante dos homens mais importantes do meu reino e do representante do Sul.
— Talvez, tenha razão, General do Leste. Se meu comportamento inconsequente, me faz dizer a verdade é claro que irá ofender os mentirosos, não acha? — questionei olhando em seus olhos e ele estreitou os olhos em minha direção me analisando, querendo saber até onde pretendia com as minhas ações.
— Agora já chega, rainha Virgínia. Se não sabe se comportar, como o esperado pelo título que carrega, vá para o seu quarto agora. Já envergonhou demais o nosso reino por hoje. — o General do Leste ordenou furioso e sorri vitoriosa com a sensação de dever cumprido, por ter desestabilizado o usurpador do meu trono diante dos nossos visitantes.
— Com todo o prazer, General do Leste — disse ostentando um sorriso superior para os presentes — Mas antes de ir, gostaria de informar aos presentes nesse lindo jantar que fui ameaçada pelo comandante do meu exército, de ser arrastada por meus próprios guardas se não comparecesse nessa refeição e aceitasse a minha união de forma pacífica, algo que jamais farei, senhores. — destaquei seria e quando fiz menção de me levantar da cadeira em que estava, uma mão quente envolveu a minha me impedindo de levantar.
— Vossa majestade, não irá a lugar algum. — o General do Sul disse sério, encarando o comandante do meu reino que o olhou surpreso por suas palavras.
— Como ousa me desautorizar dessa forma, General do Sul? Lembre-se, que o senhor é um convidado, e como tal deve seguir as regras do seu anfitrião. — lembrou e o homem ao meu lado sorriu frio concordando.
— Estou ciente disso, mas as regras também dizem que os convidados podem desobedecer ao anfitrião, quando ele viola a diplomacia e foi o que o senhor fez — apontou com frieza e o General do Leste abriu a boca para dizer algo, mas foi silenciado pelo olhar mortal do emissário do Sul — Acha que ficarei calado, sorrindo e balançando a cabeça concordando com sua atitude deplorável, enquanto desrespeita a futura consorte do rei do Sul?! Não mesmo. Saiba que meu soberano ficará ciente, de como sua noiva vem sendo tratada em seu próprio reino e acredite em mim, meu rei, não aceitará essa afronta para com a sua noiva. — destacou furioso olhando para os presentes que ficaram em silêncio, esperando pelo que o comandante do Leste diria em sua defesa.
— O senhor tem razão, me excedi na repreensão da rainha, mas só ajo dessa forma porque me preocupo com a minha senhora. Temo que sua inexperiência e insensatez, próprias da idade, a coloque em sérios problemas. — o comandante do Leste disse fingindo preocupação, mas sabia muito bem que suas palavras eram ameaças veladas sem um pingo de zelo.
— Isso foi uma ameaça, General do Leste? — o comandante do Sul questionou estreitando os olhos, segurando a faca de mesa que estava em sua mão livre com firmeza, sem desviar sua atenção do General do Leste que pareceu surpreso com a sua pergunta.
— Mas é claro que não, General do Sul, jamais teria a ousadia de ameaçar minha soberana. Talvez, tenha me expressado da forma errada fazendo-o chegar a tal conclusão. Saiba que a sua desconfia me ofende, comandante, depois que o recebi com honrarias de estado em meu próprio reino. — o General do Leste apontou fazendo sua melhor atuação de ofendido, enquanto balançava a cabeça de forma negativa reprovando a sua encenação barata.
— Pelo que me lembre, a única pessoa nesta sala que tem a autoridade de dizer que este reino é seu é a rainha Virgínia — destacou severo olhando de forma fria para todos que pareciam desconfortáveis com suas palavras, enquanto o comandante do Sul concentrava a sua total atenção no General do Leste — Para o seu próprio bem, General do Leste, espero sinceramente que suas palavras só tenham expressado preocupação para com a sua rainha e não o contrário. — frisou sério e o General do Leste concordou, incentivando a todos a voltarem a comer, enquanto o nosso visitante ainda segurava a minha mão.
Ele deu uma última olhando em todos que voltaram a comer, tentando aparentar uma normalidade que seria impossível depois de tudo que houve, soltando em seguida a minha mão consumindo os alimentos em sua frente, analisando todos a mesa como se esperasse um possível ataque de qualquer um e fiz o mesmo, porque não confiava em ninguém naquela mesa.
— General do Sul, sei que o monarca do seu reino não pode estar presente devido o falecimento de seu pai, mas gostaríamos de saber se o rei do Sul estará presente no aniversário da nossa rainha? — Lorde Tomás, chefe da câmara dos lordes questionou ao comandante estrangeiro que desviou sua atenção do General do Leste para vê-lo.
— Não se preocupe, Lorde Tomás, o noivo da rainha Virgínia estará presente no aniversário de sua noiva, sei o quanto esperou pelo momento de conhecê-la. — o General do Sul assegurou deixando todos satisfeitos enquanto respirava fundo, tentando me controlar para não deixar a minha raiva ultrapassar a minha razão novamente.
— Espero que o rei do Sul, não se decepcione com a nossa rainha, depois de anos esperando pela união das casas do Leste e do Sul. — o comandante do Leste apontou receoso e o General estrangeiro balançou a cabeça negando, dedicando sua atenção a mim antes de voltar a falar.
— Tenho certeza, que meu soberano não irá se decepcionar, com a rainha Virgínia. — assegurou fazendo todos sorrirem felizes com as suas palavras, enquanto olhava em seus olhos voltando a ter a sensação de que nos conhecíamos de algum lugar.
Assim que aquele jantar indigesto terminou, me retirei em busca de ar puro para acalmar a raiva que queimava dentro de mim. Já estava farta de ser tratada como uma incompetente, que deveria dizer sim para tudo o que lhe diziam sem poder discordar, temendo represálias contra meu povo.
Caminhei com passos firmes em direção ao centro de treinamento do castelo, naquele horário os soldados já haviam se recolhido e poderia ficar sozinha, sem ter que dar explicações para ninguém da minha presença ali. Mas me detive na porta, assim que lembrei do séquito que me seguia para todos os lados a mando do General do Leste.
— Não quero a companhia de nenhum de vocês, se ousarem me desobedecer os mandarei para a prisão sem hesitar. — ordenei severa sem virar para vê-los entrando no centro de treinamento, notando que ninguém me acompanhava.
Fui em direção ao setor das armas, onde havia uma parede repleta de espadas expostas e prontas para o uso imediato. Olhei cada uma delas sem pressa, até escolher a que desejava e parti para o ataque golpeando um generoso tronco de madeira que havia ali, colocando para o treinamento dos guerreiros iniciantes, antes deles partirem para o combate corpo a corpo.
Regida pela minha fúria, ataquei o tronco de madeira repetidas vezes tentando amenizar tudo que sentia até lágrimas molharem minha face, me fazendo perder a força das pernas e cair de joelhos no chão. Não tentei reprimir meu choro, estava cansada demais para sufocar tudo que sentia, então simplesmente deixei todo aquele sentimento sair sem me importar se estava sendo fraca naquele momento.
Chorei até que não restasse mais lágrimas para isso, assim que estava controlada o suficiente respirei fundo e me levantei do chão em que estava, coloquei a espada em seu lugar e caminhei para fora do centro de treinamento encontrando os servos a minha espera.
Sem dizer uma palavra, segui para o castelo sendo acompanhada em silêncio por meu séquito, do qual tinha certeza que relataria meu momento de desabafo, por assim dizer, ao General do Leste, assim que tivessem oportunidade, para que pudessem receber uma generosa recompensa em troca das informações. Mas não me preocupei com esse fato, já havia me desgastado demais para um único dia, precisava me refazer antes de enfrentar outra batalha que sempre exigia tanto de mim.
E foi naquele momento que percebi que a cada embate com o usurpador do meu trono, eu saia desgastada e ele fortalecido, mas não iria perder a vontade de lutar porque não era só a minha coroa que estava em jogo, eram todas as pessoas que faziam parte do meu reino e todos aqueles que perderam as suas vidas nas mãos do General do Leste.
Era meu dever acabar de vez com o seu reinado de horror, nem que tivesse que me despedaçar por inteira para alcançar o resultado desejado.
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— Está tudo bem, vossa majestade? Desde que chegou do jantar está tão quieta...Por acaso aconteceu algo durante a refeição? — Agnes questionou preocupada parando de pentear meus cabelos para me ver através do espelho.
— Não aconteceu nada que já não esperava, Agnes. Mas uma vez, fui desacreditada, humildade e tratada como um objeto de troca ou melhor, uma mercadoria em exposição para um leilão — disse dando de ombros sinalizando que não queria falar sobre aquilo — O único fato que me surpreendeu nesse jantar foi a ausência do rei do Sul.
— Verdade? Achei que vosso noivo viria para seu aniversário, mas pelo que soube, vossa majestade, estava a caminho do Leste. Chegaria em dois dias com a comitiva do Sul... Por acaso o rei do Sul, não virá mais para a comemoração? — minha dama de companhia questionou surpresa após ouvir minhas palavras.
— Era o que todos pensavam, Agnes, mas pelo que o General do Sul explicou, o rei não acompanhou a comitiva porque teve que acompanhar as cerimônias fúnebres de seu falecido pai, mas o comandante assegurou que seu monarca estaria presente no meu aniversário. — expliquei a ela que adquiriu uma tonalidade pálida em seu rosto, me deixando preocupada e virei para vê-la perdida em pensamentos.
— Marco...— Agnes sussurrou perdida em pensamentos deixando a escova de cabelo que estava em suas mãos cair, enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas.
— Agnes? — questionei séria estranhando o seu comportamento e ela piscou várias vezes, como se estivesse tentando voltar ao presente antes de me olhar assustada.
— Mil perdões, minha senhora, prometo que serei mais atenciosa em minhas tarefas. — se desculpou com a voz embargada, fazendo uma reverência e recolhendo a escova de cabelo que havia derrubado.
— Está tudo bem, mas você disse um nome...Quem é Marco, Agnes? — exigi saber e ela me olhou surpresa ao ouvir aquele nome.
— Me desculpe, majestade, mas não sei de quem a senhora está falando. — assegurou sem desviar seus olhos dos meus e soube que minha dama de companhia estava mentindo.
— Sei muito bem o que ouvi, Agnes, mas se não quiser dizer quem esse tal de Marco é, tudo bem. Você pode ter os seus segredos, dos quais não me importo nem um pouco, só não vou admitir que traia a minha confiança ou já se esqueceu do que conversamos anteriormente? —questionei severa e ela negou com a cabeça.
— Não minha rainha, jamais me esquecerei do que me disse.
— Ótimo, continue assim. Agora pode se retirar e leve as outras damas consigo, vou me deitar porque já tive dores de cabeça demais para uma única noite. — ordenei e ela concordou colocando a escova de cabelo no lugar, fazendo uma reverência e se retirando em seguida.
Esperei alguns minutos depois que todas deixaram o meu quarto, para caminhar em direção as passagens secretas que havia em meus aposentos determinada em colocar meu plano em ação. Andei pelos corredores mal iluminados dos túneis, repetindo mentalmente todo o meu trajeto em voz baixa, um hábito que havia adquirido desde pequena, assim que localizei a porta que queria, a empurrei com cuidado temendo que alguém descobrisse a minha invasão naquela área.
Desde que recebemos a confirmação da vinda do monarca do Sul, fomos informados de que o rei exigia uma ala do castelo exclusivamente para o seu uso pessoal no qual nenhum dos meus servos poderia se aproximar do local sem autorização previa do comandante estrangeiro, uma exigência prontamente atendida. Por isso a ala sudeste do castelo, havia sido preparada durante semanas para atender as necessidades do soberano estrangeiro e de toda a corte que o acompanharia durante a viajem.
Sorri assim que a vi caminhando apressada entre os corredores a caminho da ala sudeste, como imaginei que faria em algum momento. Escondida nas sombras, a segui até vê-la parando na entrada da ala que estava protegida por seis soldados armados ostentando os símbolos do reino do Sul em seu uniforme, para minha total surpresa eles deixaram-na passar sem qualquer tipo de pergunta.
Respirei fundo e caminhei devagar, evitando ser ouvido pelos guardas de prontidão voltando para os tuneis secretos do castelo, enquanto tentava pensar com coerência diante do que havia visto.
Como uma simples dama de companhia de uma rainha inimiga, podia passar pela segurança de seis guardas armados sem dar qualquer tipo de explicação?! A não ser, que já estivessem acostumados à sua presença ou foram orientados por seu superior, a liberar a passagem de Agnes, sem qualquer tipo de questionamento, pensei tentando entender o que estava acontecendo debaixo dos meus olhos.
Foi quando tudo se tornou claro naquele instante.
Agnes não estava vendendo meus segredos para o General do Leste, mas para o homem considerado meu noivo. Ela não estava traindo só a minha confiança como a do nosso reino também, ao ajudar um soberano estrangeiro a conhecer as fraquezas da sua soberana e do reino do Leste.
Mas é claro...Como pude ser tão cega...Pelos deuses. Por isso ela afirmou tão segura, que o rei do Sul era um homem tão lindo e encantador quanto seu pai... Só alguém que realmente conhece o outro, pode afirmar algo com tanta segurança, refleti assim que a resposta se apresentou em minha mente.
Lembrar desse fato, me fez recordar outras situações estranhas da minha dama de companhia, como o fato dela sempre escrever cartas alegando que eram para seu irmão mais velho vendido como escravo, quando seu pai não teve condições de pagar a dívida que havia feito.
Com certeza, todas aquelas cartas que ela escreveu durante todos esses anos eram para o rei do Sul... Se isso for realmente verdade, Agnes estava traindo minha confiança desde que meus pais morreram quando era apenas uma criança indefesa..., refleti me sentindo enjoada assim que todos as peças se encaixaram em minha mente.
Atordoada com tudo aquilo, apoiei minha mão livre na parede de pedra do corredor das passagens secretas buscando um pouco de equilíbrio no meio do caos que estava a minha mente.
Sabia que minha dama de companhia estava me traindo, mas perceber que durante todos esses anos ela estava me vendendo para o homem que pretendia me tratar como uma submissa, responsável em lhe dar um herdeiro para continuar a sua casa, me fez tremer de fúria.
Quem Agnes pensava que era, para fazer algo assim? Podia tolerar que ela vendesse meus segredos para o General do Leste, mas nunca para o monarca que tiraria de mim o direito de governar meu povo.
Dominada pela dor da traição, caminhei decidida para a passagem que me levaria até o local em que ela provavelmente estaria, os aposentos destinados ao nosso convidado, o General do Sul. Empurrei a porta da passagem secreta com tudo, sem me preocupar se seria atacada por seus guardas tudo que desejava era resolver toda aquela situação de uma vez, pois já estava farta de tantas mentiras.
Mas para minha surpresa, não havia ninguém nos aposentos destinados ao segundo homem no comando do reino estrangeiro. Diante dessa situação, voltei para os tuneis e tentei colocar minha cabeça no lugar pensando no porquê o General do Sul não estaria ocupando o quarto destinado a ele, logo lembrei da forma estranha como o comandante se comportou quando nos conhecemos, como o fato de não fazer uma reverência a mim quando todos fizeram.
Com essa lembrança em mente, caminhei em direção ao único lugar do qual ele poderia estar e soube que era o certo assim que ouvi o som de vozes abafadas ao me aproximar da porta que dava entrada para o melhor cômodo da ala. Temendo ser descoberta, abri a passagem secreta com cuidado logo comecei a ouvir com mais nitidez as vozes abafadas, reconhecendo-as imediatamente.
— Isso mesmo, meu querido, chore...Irá ajudá-lo a aliviar o seu coração enlutado. — ouvi Agnes dizer com a voz embargada para alguém que chorava de forma dolorosa.
Sai das passagens secretas em silêncio, tomando cuidado ao fechar a porta atrás de mim temendo ser descoberta, me aproximando para ver quem Agnes estava consolando com tanto carinho, mas não foi preciso muito já que a voz da pessoa o entregou.
— Me sinto um filho horrível, por tê-lo deixado em seu leito de morte...Devia ter ficado ao seu lado, não podia ter deixado minha mãe, meu irmão ou nosso povo, sozinhos em um momento desses. Soube da morte do meu pai por intermédio de um emissário, enviado por meu irmão enquanto estava a caminho do Leste...Nem tive a chance de me despedir do meu pai de maneira adequada, tia Agnes. — ouvi o General do Sul soluçar com dor e me afastei em choque, tentando entender do que os dois estavam falando.
— Meu senhor não deveria se culpar tanto, seu falecido pai onde quer que esteja, se sentirá infeliz ao ver seu amado filho sofrendo por cumprir seu último desejo. — a voz de homem ligeiramente familiar disse com preocupação, enquanto colocava uma bandeja em cima de uma mesa que havia nos aposentos.
Em silêncio, serviu o conteúdo do bule em uma xicara levando-a em direção ao General do Sul que estava com a cabeça repousada no colo de Agnes, que acariciava seus cabelos claros com carinho da mesma forma que fazia comigo.
— Tome um pouco desse chá, meu senhor, isso irá ajudá-lo a se acalmar para que possa descansar um pouco. Meu príncipe, não dorme direito a dias, precisa descansar se quiser cumprir a promessa que fez ao falecido rei Marco. — o desconhecido aconselhou e Agnes concordou, antes do General do Sul suspirar resignado levando a cabeça do colo da minha dama aceitando de bom grado a xicara das mãos do homem em sua frente.
Atordoada com tudo que vi, caminhei para a passagem secreta que me trouxe até aqui, mas antes que pudesse chegar ao meu destino senti algo pontudo e frio em minhas costas, me fazendo segurar a respiração por ter sido descoberta por meus inimigos.
— Vire-se devagar, se ainda quiser viver. — uma voz feminina disse severa e respirei fundo, determinada a lutar contra a minha oponente.
Virei com calma e vi a Capitã do General do Sul em minha frente, que ficou surpresa por me ver ali, antes que pudesse me questionar algo a chutei com força em sua barriga derrubando-a no chão e me preparei para enfrentá-la, porque jamais fugia de uma briga.
Assim que se recuperou do meu golpe, a Capitã do Sul veio para cima de mim e olhei ao redor a procura de uma espada ou algo que pudesse usar para me defender, sorri assim que encontrei um atiçador de lareira. Corri até o objeto alcançando-o, a tempo de me defender de um ataque feroz da minha oponente.
Apesar de todo meu esforço, minha oponente era bem mais preparada me desarmando rapidamente e preparando-se para deferir seu golpe mortal, mas alguém segurou a lâmina da sua espada impedindo-a de concluir seu desejo.
— O que pensa que está fazendo, Capitã do Sul? Quem a autorizou a atacar a minha esposa? — o General do Sul questionou furioso para sua subordinada segurando a lâmina da sua espada, impedindo-a que encostasse em mim.
— Esposa?! — sussurrei olhando para o General do Sul, tentando entender o significado das suas palavras.
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