Imperatriz do Leste
14 Décimo terceiro capítulo
Notas iniciais

— Vamos meninas, preciso que o banho de vossa majestade esteja pronto imediatamente, afinal, não queremos atrasar as comemorações do aniversário da nossa soberana. Hoje a rainha Virgínia, deve brilhar como nunca, porque esse dia será um marco na vida e no reinado da nossa soberana. — ouvi Agnes dizer as outras damas de companhia, enquanto estava sentada no banco em frente a janela do meu quarto, admirando as montanhas irmãs que tinha como vista.
A cada aniversário era impossível não recordar dos meus pais, de como eles faziam questão de me acordarem com beijos e abraços trazendo consigo presentes, antes de fazermos um piquenique nos jardins do castelo. Nesse dia, meu pai sempre deixava seus compromissos de lado se dedicando apenas a nossa família.
Era o momento em que poderia ter meus pais só para mim, aproveitando ao máximo sua companhia a cada brincadeira ou história que faziam questão de dividir comigo. Se soubesse na época que os teria por tão pouco tempo, teria aproveitado muito mais esses momentos.
Diria que os amava mais vezes...
Os abraçaria muito mais...
E principalmente, teria insistido para que fugíssemos evitando assim que perecessem durante a invasão do reino do Norte naquele fatídico dia.
— Minha rainha — ouvi Agnes me chamar ao longe e pisquei confusa olhando ao redor, por ter sido tirada bruscamente das únicas recordações felizes que tinha durante meus vinte e um anos de vida — Está tão reflexiva hoje, por acaso está pensando nos falecidos soberanos?
— Sim, Agnes — respondi tentando afastar da minha mente os fantasmas do meu passado, pois precisava estar concentrada para executar o plano que passei anos idealizando — É impossível não pensar nos meus pais, queria tanto que tudo fosse diferente e eles estivesse comigo hoje. — segredei perdida em pensamentos e Agnes sorriu amorosa para mim.
— E eles estão, vossa majestade, não importa os resultados dessa noite mantenha sempre a cabeça erguida e tenha em mente que fez de tudo para defender o seu povo e a sua coroa, sem perder sua dignidade — assegurou e sorri agradecida por suas palavras — E confie no seu rei consorte, ele seria capaz de dar a vida para proteger sua rainha.
— Sei disso Agnes, posso ver nos olhos dele o quanto é sincero comigo, mas não posso negar a sensação que tenho de que ele me esconde algo. — revelei e ela suspirou balançando a cabeça, indicando que compreendia meus temores.
— Entendo, minha senhora, é natural que não confie em ninguém depois de viver anos temendo a própria sombra, mas essa é a beleza da vida confiar nas pessoas depois de termos nos machucados tanto com elas, porque nem todas são iguais — aconselhou maternal e sorri agradecida por suas palavras — Bem, o banho de vossa majestade, já está pronto.
— Obrigada, Agnes — agradeci gentil respirando fundo, espantando os fantasmas do meu passado para me concentrar no presente, antes de me levantar da cadeira em que estava e seguir minha dama de companhia até o cômodo em que fazia minha higiene pessoal.
Deixei que minhas damas de companhia me arrumassem, sem opinar em nada ou prestar atenção no que faziam, minha mente estava concentrada repassando tudo que faria essa noite para que nada saísse errado, mas como a vida sempre poderia nos surpreender ainda mais com um inimigo que parecia estar sempre um passo a minha frente, imaginava possíveis soluções para inúmeros problemas que poderiam surgir de última hora assegurando uma resposta rápida para qualquer emergência.
— Vossa majestade, está tão linda quando seu noivo a ver, se encantará com sua beleza. — ouvi uma das minhas damas de companhia dizer e voltei a minha atenção para o espelho em minha frente, vendo a imagem que refletia e tinha que concordar com a sua observação.
O vestido idealizado por Agnes e Betânia, a costureira responsável em fazer minhas roupas, havia ficado perfeito em meu corpo valorizando meus olhos verdes claros e os cabelos escuros que ostentavam ondas até o meio das minhas costas.
Mas apesar de todo a beleza refletida naquele espelho, meus olhos não refletiam qualquer tipo de felicidade para alguém que estava aniversariando e que conheceria seu futuro marido, meu semblante refletia o estado de espírito de alguém que havia aceitado a sina de possivelmente não retornar viva da missão que havia traçado anos atrás.
— Vossa majestade, seu noivo enviou um presente para a senhora assim que chegou pela manhã. — Agnes disse sorrindo enquanto uma das minhas damas lhe entregava uma pequena caixa e solicitei que me deixassem a sós com minha dama de companhia.
Assim que estávamos a sós, Agnes se aproximar de mim e abriu a caixa para que pudesse ver o conteúdo. No seu interior havia uma linda tiara de diamantes e ouro branco, que se assemelhava a uma coroa de folhas pequenas, já o seu centro havia uma flor discreta composta pelo mesmo material que se parecia muito com um pequeno girassol, combinando com o modelo do vestido que remetia a primavera, tema do meu aniversário esse ano.
— Esse bilhete e as flores vieram juntos com a caixa, minha senhora. — Agnes informou desviando minha atenção da tiara, entregando-me o bilhete selado de para que pudesse ler o seu conteúdo e um lindo buquê de Girassóis, minhas flores preferidas.
Jamais havia contado a ninguém que tinha preferência por aquelas flores, nem mesmo para Agnes, preferia manter esse segredo para mim evitando que pretendentes indesejados enviassem inúmeros girassóis na intenção clara de cortejo, porque sabia que relutaria em jogar minhas flores preferidas fora em um sinal claro de que não desejava um compromisso.
A única pessoa nesse mundo para quem contei meu segredo, foi para meu amiguinho de infância que só vi uma vez na vida, mas prometeu que voltaria para mim novamente cumprindo a sua promessa anos depois, retornando com o título de General do Sul e meu marido, o rei consorte Gael.
Minha querida princesa,
Sei que hoje não é um dia para felicitações, porque os acontecimentos a seguir decidiram o futuro de inúmeras pessoas, assim como compreendo o quanto esse fardo é pesado para carregar sozinha, mas saiba que estarei ao seu lado para o que precisares, principalmente para ajudá-la a aliviar o fardo que pesa sobre você.
Confio que fará o melhor para todos que estão dispostos a defender o seu trono, por isso peço que confie em mim da mesma forma que fez quando nós vimos pela primeira vez ainda crianças e me mostrou o seu mundo com um lindo sorriso no rosto, sem temer as sombras do seu castelo.
Espero que girassóis ainda sejam suas flores preferidas, já que nem tia Agnes sabia quais são, então decidi me ariscar e confiar no que me disse anos atrás...Só espero estar certo.
Ontem à noite, você me pediu como presente de aniversário para usar a coroa do seu pai, por isso acho justo lhe pedir para usar a tiara solar durante sua festa de aniversário, mas saiba que não é obrigada a usá-la se não desejar. Porque jamais imporei minha vontade a você, sempre respeitarei seus desejos e escolhas sejam quais forem.
Desejo toda a felicidade do mundo a você, que sua vida seja cercada por solares a cada momento e finalmente possa encontrar a paz e felicidade que lhe negaram durante todos esses anos.
Do seu mais fiel súdito, amigo, marido e consorte.
Enquanto lia cada linha da caligrafia elegante de Gael, lágrimas caiam dos meus olhos e meu coração batia acelerado, como se quisesse sair do meu peito ao lembrar do dono daquelas palavras que me emocionaram. Principalmente, por ele se lembrar do nome estranho que havia dado a minha flor preferida, o girassol, que apelidava carinhosamente quando criança de Solar.
— Pelo que suspeito, seu noivo indesejado não é mais tão indesejado assim, minha rainha. — Agnes segredou curiosa me oferecendo um lenço e concordei sorrindo.
— Ele tem suas qualidades, Agnes — segredei dando de ombros, enxugando minhas lágrimas com o lenço devolvendo-o em seguida para ela, dobrando o bilhete e colocando-o dentro da caixa tirando em seguida a tiara que havia ali colocando-a em minha cabeça, sorrindo ao ver que a joia havia combinado com perfeição com o meu vestido — Não posso negar que além de culto, racional, estrategista, bom ouvinte, conselheiro, ter bom gosto para joias e dom com as palavras, meu marido é extremamente bonito, não só por fora como por dentro...Não seria tão ruim assim, ter sua companhia de forma definitiva no reino do Leste. — comentei despretensiosa fazendo Agnes sorrir eufórica por minhas palavras.
— Então, isso quer dizer que devo preparar seus aposentos, para que possa desfrutar da companhia do seu consorte essa noite? — questionou com os olhos brilhando de ansiedade pela minha resposta e senti meu rosto ruborizar diante da sua oferta.
— Agnes, controle seus pensamentos — a censurei e respirei fundo tentando acalmar meu próprio coração. — Apenas comentei de forma banal sobre as qualidades dele, não é como se estivesse planejando transformá-lo em pai do meu povo e dos herdeiros da casa do Leste.
— Se a senhora assim o diz — segredou dando de ombros — Mesmo assim, deixarei seus aposentos preparados porque sempre podemos mudar de ideia, não existe nada definitivo na vida.
— Eu devia mandá-la para a forca, pela sua insolência. — segredei fazendo-a rir, sabendo que jamais teria coragem de tal ato.
Dei uma última olhada no espelho em minha frente, admirando o belo trabalho feito por Betânia e por minhas damas de companhia e soube naquele momento que precisava agradecê-las por tudo que haviam feito por mim durante todos esses anos.
Em silêncio, sai do cômodo em que fazia minha higiene pessoal e caminhei em direção aos meus aposentos na companhia de Agnes, vendo que minhas outras damas de companhia estavam envolvidas em suas tarefas diárias e solicitei que interrompessem seus afazeres, pois gostaria de lhes dizer algumas palavras.
Com cuidado, segurei a mão de Agnes e pedi que todas dessem as mãos formando um círculo, para que pudesse olhar nos olhos de cada uma enquanto falava.
— Independe do que aconteça hoje, gostaria de agradecê-las pelos anos de dedicação, cuidado, companheirismo e sigilo que tiveram comigo. Vocês tornaram o peso da minha coroa muito mais leve e jamais poderei pagar o que me ofertaram — explanei sincera, olhando nos olhos de cada uma daquelas mulheres que estiveram ao meu lado durante tanto tempo, fazendo de tudo para cuidar de mim e me proteger de todos os inimigos que possuía sem saber — Em retribuição a tudo que fizeram por mim, gostaria de lhes oferecer uma forma para que pudessem recomeçar suas vidas longe do castelo se desejarem. Agnes, por favor — solicitei a minha dama de companhia que concordou soltando minha mão, indicando que as outras mulheres a seguissem até a ampla mesa que havia em meus aposentos, onde havia várias bolsas de couro e cartas seladas com meu selo real que deixaram todas confusas.
— Aproveitem meu presente com sabedoria e saúde, espero que possam ser felizes nessa nova vida na qual são livres e não tem qualquer obrigação com a casa do Leste. — desejei a todas que ficaram emocionadas com as minhas palavras.
Fiz questão de chamar uma a uma das mulheres que me serviram pelo nome, entregando-lhes o envelope selado e uma bolsa de couro. Assim que descobriram, que os envelopes lacrados, eram suas cartas de liberdade e as bolsas de couro, continham uma generosa fortuna, minhas damas de companhia começaram a sorrir e chorar de emoção me agradecendo por tamanha generosidade.
Sempre sonhei em libertar os servos do castelo, permitindo que pudessem receber um salário digno pelos seus serviços, mas todas as vezes em que submetia tal proposta a votação ela acabava ignorada, porque não era do interesse dos poderosos da câmara libertar aqueles que viviam praticamente em um regime de escravidão, já que muitos deles financiavam esse tipo de comercio imoral
— Não me agradeçam, só fiz o que já devia ter feito a muito tempo, mas como sabem jamais tive direito a voz em minha própria casa, por isso hoje no meu último dia como rainha de vocês decidi fazer o certo sem pensar nas consequências. Peço que reúnam suas coisas e saiam do castelo imediatamente sem olhar para trás, levem consigo apenas o necessário e se puderem convençam os outros servos a farem o mesmo. — pedi olhando em seus olhos e elas me encararam com preocupação, diante da seriedade das minhas palavras.
— Minha rainha finalmente fará a sua jogada final. — uma das minhas damas de companhia declarou e respirei fundo antes de responder.
— Sim, Beatrice, por isso desejo que as pessoas que me são caras estejam o mais longe possível desse lugar quando tudo explodir, pois não terei controle sobre os eventos que aconteceram muito menos poderei assegurar proteção a ninguém. — esclareci sincera e todas balançaram a cabeça concordando, enquanto voltava minha atenção para Agnes.
Em silêncio, caminhei em direção ao único envelope e a bolsa de couro que havia sobrado, entregando-o para Agnes que me olhava surpresa por meu gesto.
— Você precisa sair daqui, Agnes. Leve-as em segurança, para o local onde metade do nosso povo já se encontra. — pedi a ela que me olhou com lágrimas nos olhos, balançando a cabeça em negativo.
— Não posso abandonar, minha rainha... Não quando mais precisa de mim. — explicou e enxuguei suas lágrimas com carinho.
— Pode e deve, Agnes. Você já fez muito por mim, renunciou à sua liberdade, segurança e felicidade para ficar ao meu lado, me protegendo e buscando uma forma de assegurar meu direito ao trono. Se hoje estou a um passo de terminar com tudo, foi graças a você que me deu armas para que esse momento chegasse. Por isso, peço que vá para o mais longe possível e fique em segurança. — implorei olhando em seus olhos azuis cristalinos cheios de lágrimas.
— Farei o que me pedi, minha rainha, mas quero que saiba que isso não é um adeus porque nos encontraremos em breve novamente, ainda quero vê-la se casar com o homem que ama diante dos deuses e estarei ao seu lado quando chegar a hora de trazer os frutos da sua união ao mundo. — Agnes prometeu sincera e sorri comovida com suas palavras, abraçando-a em seguida.
— Ficaria imensamente feliz em vê-la ao meu lado, durante os momentos de felicidade como sempre esteve nos momentos de tristeza, Agnes. — segredei abraçada a ela que concordou com carinho, assegurando que viveríamos tais momentos muito em breve.
Assim que me separei de Agnes, fiz questão de abraçar cada uma das minhas damas de companhia e lhes agradecer por tudo que haviam feito por mim, antes de pedir que deixassem meus aposentos para que pudessem arrumar suas coisas e saíssem o quanto antes do castelo.
A única que permaneceu ao meu lado foi Agnes, por mais que insistisse e até ordenasse que fosse embora, ela deixou claro que só sairia do castelo quando me deixasse em segurança com seu sobrinho e aceitei sua condição.
Assim que estava na hora, sai dos meus aposentos em sua companhia encontrando o séquito leal ao General do Leste a minha espera no corredor, responsáveis por me escoltarem até a sala do trono onde toda a nobreza do reino do Leste e enviados de outros reinos, estariam presentes para celebrar mais um aniversário da única herdeira da casa real do Leste e o seu compromisso com o rei da casa do Sul.
Enquanto caminhava pelos corredores do castelo, cruzei com alguns dos rebeldes que faziam parte do meu exército me deixando temerosa mediante sua reação ao perceber que havia mentido para eles todo esse tempo, ao em vez de raiva tudo que encontrava em cada semblante era um olhar de gratidão e respeito, demostrados pelo leve inclinar de cabeça que recebia de cada um deles.
A cada demonstração de respeito lhes sussurrava um muito obrigada, enquanto tentava conter as minhas lágrimas de felicidade por saber que meus homens estariam comigo até o fim, só pedia aos deuses que tudo pudesse se resolver da melhor forma possível sem grandes perdas, mas seria ingenuidade minha achar que não teríamos perdas de ambos os lados.
Ao longe avistei o General do Leste a minha espera na porta de entrada da sala do trono, no intuito de me acompanhar para o interior do recinto já que uma mulher solteira não poderia ser apresentada a corte desacompanhada. Sem dizer uma palavra, ele me ofereceu seu braço assim que parei ao seu lado.
— Espero que se comporte essa noite, sorria e seja educada com os presentes, honre pelo menos uma vez na vida a sua casa antes de ir embora com o seu noivo. — O General do Leste me disse sério enquanto aceitava seu braço a contragosto, esperando o mestre de cerimônias anunciar a nossa entrada.
— Não se preocupe, General do Leste, me comportarei da melhor forma possível. — assegurei a ele, antes de entrarmos no salão sendo aplaudidos por todos que vieram comemorar essa data tão importante comigo que marcaria o final de uma disputa de anos pelo trono do Leste.
Após a minha entrada me separei do General para cumprimentar meus convidados,
agradecendo suas felicitações e elogios sobre minha aparência, evitando me aproximar do rei do Norte conversando animadamente com o General do Leste, provavelmente traçando planos futuros sobre a união dos reinos assim que o grande empecilho, que atendia por mim, estivesse fora da jogada.
— Aceita uma taça de vinho, vossa majestade? — ouvi uma voz conhecida questionar e virei para ver de quem se tratava, segurando a respiração ao ver que era Drake — Olha só, quem diria que a destemida e sanguinária rebelde Fúria da tempestade, que dizia ser serva da nossa rainha era a própria rainha Virginia. — segredou a ultima parte com um sorriso debochado nos lábios enquanto segurava duas taças de vinho em cada mão.
— Eu...— comecei a dizer e ele me interrompeu de maneira insolente.
— Poupe-se do discurso de perdão, já desconfiávamos que a pseudo serva não agia como tal — disse me olhando de cima a baixo, antes de voltar a falar — Você era culta demais, até mesmo para uma serva da rainha.
— E o que pretende fazer agora que sabe quem sou? Vai jogar nossos planos pela janela, Drake? — segredei séria sem desviar dos seus olhos e ele pareceu pensar, antes de responder.
— Claro que não, admiro sua força, coragem e sangue frio, por passar anos ao lado daquele filho das trevas e não ter acabado com ele. — disse abismado e sorri sem humor, vendo-o tomar um gole de vinho de uma das taças em suas mãos e me oferecer a outra.
— Não posso aceitar uma bebida de outro homem que não seja meu marido, isso atrairia atenção desnecessária como a nossa pequena conversa está fazendo — informei vendo que algumas pessoas já prestavam atenção na minha discreta interação com Drake no meio do salão. — E acredite em mim, vontade de matá-lo não me faltou todos esses anos mas não podia arriscar que meu povo sofresse em consequência das minhas atitudes imprudentes.
— Entendo, assim como todos nós...E não se preocupe, porque sua pequena mentira já foi perdoada a anos, tudo que restou em seu lugar foi admiração e respeito por nossa rainha arriscar sua vida, para pedir ajuda a um bando de rebeldes para salvar o reino — revelou e soltei a respiração da qual nem sabia que estava segurando, fazendo Drake sorrir divertido — Sabe de uma coisa, Fúria da tempestade, nós dois jamais daríamos certo você é princesinha demais pra mim. Já o loirinho no cavalo branco, ele é louco por você...Tão louco que foi capaz de me encontrar sozinho ontem à noite para me ameaçar, caso eu ou meus homens fizéssemos algo imprudente que colocasse a vida da esposa dele em risco.
— Ele fez isso?! — questionei incrédula e Drake balançou a cabeça concordando, enquanto me lembrava do bilhete que Gael havia recebido de seu soldado ontem a noite, quando estava nos meus aposentos na ala ocupada pela comitiva do Sul.
— Fez e acredite, ele ganhou o meu respeito e de todos com isso, o loirinho no cavalo branco é o homem certo para tudo isso aqui, Fúria da Tempestade. — declarou sem sombra de duvida na voz e balancei a cabeça concordando.
— Jamais tive dúvidas disso, Drake. — segredei para ele que fez uma reverência se afastando, enquanto procurava meus homens de confiança com o olhar encontrando-os se movimentando em direção as saídas do salão, sinalizando que a parte inicial do plano iria começar e balancei a cabeça de modo afirmativo, evitando que meu gesto fosse entendido por outros além dos soldados infiltrados à espera do sinal para que começássemos o ataque.
Enquanto o sinal não vinha, eles se ocupavam em interpretar seus papeis e conferir quantos cíveis estavam no local para que pudessem retirá-los assim que o confronto começasse, mas durante minha observação notei que o General do Leste caminhava em minha direção ao lado da família real do Norte.
Minha vontade inicial era fugir para bem longe daquele assassino, mas teria que enfrentá-lo demonstrando que não o temia, deixando claro que sua presença não era um desejo meu e sim algo imposto pelo General do Leste.
— Rainha Virgínia, o rei do Norte e a princesa, fizeram questão de cumprimentá-la pessoalmente por seu aniversário. — O General explicou sorrindo assim que pararam em minha frente e estreitei os olhos, diante do sorriso falso do comandante do meu exército ao confraternizar com o inimigo.
—Gostaríamos de expressar, o quanto ficamos felizes pelo convite para uma comemoração tão especial quanto o seu aniversário e noivado, rainha Virgínia. Isso demonstra que os desentendimentos do passado ficaram para trás, permitindo novas alianças entre os nossos reinos. — o monarca do Norte declarou sorrindo olhando para o General que concordou com a cabeça, enquanto não esboçava nenhuma reação tentando controlar a raiva que crescia dentro de mim por ter que interagir com o assassino dos meus pais e do meu povo.
— Sua presença e muito menos de sua filha, nunca foram um desejo meu, foi algo imposto pelo General do Leste. Se fosse por mim, o senhor jamais colocaria os pés na minha casa novamente, depois de ter matado meus pais e metade dos meus súditos — decretei severa deixando os três surpresos com as minhas palavras — E não ouse, nomear a morte de inocentes como desentendimentos do passado, porque isso é uma ofensa para aqueles que perderam seus entes queridos durante sua covarde invasão ao meu reino. — sibilei fria sem desviar os olhos do homem em minha frente que deu um passo para trás em choque diante de tudo o que disse.
— O que pensa que está fazendo, Virgínia? Não permitirei que ofenda um convidado ilustre como o soberano do Norte, evocando desavenças do passado que já foram resolvidas. Ordeno que peça perdão, imediatamente. — exigiu severo e neguei com a cabeça tentando segurar as lágrimas que ameaçavam cair dos meus olhos, por ouvi-lo classificar o vazio que sentia todos esses anos como uma simples desavença do passado já resolvida e ainda me obrigar a pedir perdão para o rei do Norte.
— Jamais pedirei perdão a esse assassino, prefiro morrer a ter que fazer isso. — declarei sem desviar os olhos do homem que ordenou a morte do meu pai, despertando a fúria do General do Leste enquanto todos voltavam sua atenção para a nossa discussão.
— Há você irá sim sua garota insolente e será de joelhos, assim deixará de ser tão arrogante e aprenderá o seu lugar de vez no mundo. — o General do Leste disse furioso segurando meu braço me obrigando a ficar de joelhos perante o rei do Norte, enquanto tentava me soltar dele evitando passar por tamanha humilhação diante dos meus súditos.
— Ordeno que me solte agora, General do Leste. — ordenei furiosa sentindo seu aperto em meu braço se intensificar, com o intuito de me fazer cair de joelhos na frente do inimigo como uma rainha derrotada, enquanto lutava com todas as minhas forças para evitar tamanha desonra.
Diante de tudo, os únicos que fizeram menção de intervir foram os rebeldes disfarçados, mas lancei um olhar de advertência impedindo que fizessem algo para me defender, temendo que comprometessem nosso plano com alguma atitude impensada.
Já os demais convidados, resignaram-se a cochichar entre si sobre a situação até que ouvimos o som de trombetas anunciando a entrada de alguém, provocando confusão no semblante de todos.
— O que significa isso? — questionou o rei do Norte olhando confuso para o General do Leste, que não soube explicar o que estava acontecendo e sorri sabendo que se tratava do sinal que esperávamos.
A confusão entre os presentes era justificada, já que as trombetas só eram tocadas para anunciar a entrada em eventos sociais do monarca do reino ou do seu consorte, institivamente todos olharam para a entrada da sala do trono ansiosos para ver do que se tratava tudo aquilo.
A estranheza de todos vinha do fato de sua rainha já ter sido anunciada pelas trombetas a meia hora atrás, fazendo com que todos começassem a questionar quem teria a audácia de utilizar o mesmo anúncio que sua soberana. Logo a porta da sala do trono foi aberta, passando por ela um número significativo de homens armados com espadas trajando um rico uniforme militar de gala preto, ostentando o símbolo da estrela de oito pontas em vermelho na manga direita do casaco, representando a cor e o emblema oficial da corte do reino do Sul.
Os soldados do Sul ocuparam todo o salão abrindo caminho entre os convidados, formando um largo corredor de segurança até onde estava, protegendo o caminho pelo qual seu superior passaria parando na frente.
Curiosos, todos encararam a porta ainda aberta esperando ansiosos para saber quem era o responsável por tamanha ousadia, logo um homem usando uniforme militar de gala preto semelhante aos outros adentrou o salão, mas seu casaco havia detalhes em fios de ouro que se assemelhavam a ramos de folhas de árvores combinando com o tom claro dos seus cabelos penteados cuidadosamente para trás onde repousava uma coroa de ouro e esmeraldas, indicando sua posição elevada perante os demais.
O homem em questão não caminhava sozinho pelo largo corredor de soldados, ele era seguido de perto por uma mulher de características asiáticas usando um vestido preto com detalhes em azul escuro e bordados de ouro, imitando formas de montanhas e flores de lótus, na parte da frente do traje e trazendo consigo uma espada na cintura, ostentando a mesma elegância e altivez que seus companheiros soldados.
Enquanto caminhava calmamente pela sala do trono, exalando elegância e superioridade atraindo olhares curiosos e suspiros admirados dos presentes, seus olhos azuis cristalinos analisavam o local como se buscassem algum tipo de ameaça, mas sua procura foi interrompida assim que me viu e ele estreitou os olhos diante da forma como o General do Leste segurava meu braço com força.
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