Imperador de Areia
30 Capítulo 30 - Desculpe
Notas iniciais
Gaara deixou os irmãos na sala e foi pro seu quarto, no trajeto ele pensava nas palavras de Kankuro e em como seu irmão parecia muito mais sábio e feliz que ele, pensou em como sua vida era bagunçada e nas coisas que ele fazia.
Jamais quis magoar Ino, no entanto, só o que tinha feito era isso, vez ou outra conseguia fazer as coisas melhorarem, o que não durava por muito tempo, o problema era exatamente esse, as coisas não ficavam muito bem, e ele sabia que a principal razão pra isso era ele mesmo.
Odiava ver Ino chorar, odiava quando ela perdia o brilho no olhar, e oras, porque tinha que ser assim, aquela aflição eterna? Ninguém jamais entenderia ele plenamente, nem mesmo ela, e isso era porque nem ele o entendia, nem ele sabia dizer o porque de certas escolhas suas. Se a tivesse feito ouvir o porque de tudo no escritório tudo estaria bem, mas não, era cabeça dura de mais pra “perdoar” uma desobediência.
Foda-se a obediência, ela era sua mulher; SUA MULHER. A única que tivera verdadeiramente, a única que o fizera ser de verdade, ser humano, e ainda sim voltava a errar com ela.
Ele esfregou as têmporas parando na porta de seu quarto, sua cabeça latejava como nunca... Na verdade, desde que Ino chegou a dor de cabeça estava mais forte, exceto quando ficavam juntos, mas era só passar a pensar nos dois e no que sentia que sua cabeça parecia virar um vulcão em plena erupção e seus miolos queriam sair de qualquer forma.
Ele olhou de lado, a porta do quarto dela entre aberta, o perfume dela saindo por ele, e aqueles pensamentos desordenados, enquanto se lembrava dos beijos sob o chuveiro no dia de seu regresso da última guerra.
Hinata saiu no corredor e corou ao vê-lo ali, ela usava apenas uma camisola longa, palha, com alguns detalhes no busto. Ele pensou que com certeza ela era uma mulher linda também, mas não conseguia sentir nada por ela, ainda mais agora que pressentira algo na viagem que fizeram juntos.
Ela pensou em dizer alguma coisa, mas ele desviou o olhar, voltando a se indagar o que deveria fazer em seguida, então ela apenas pegou os sapatos que ela deixara ajeitados no canto da porta de seu quarto, do lado de fora, e depois voltou pra dentro de seu aposento, sem dizer nada.
“Seria tão mais fácil se isso fosse uma guerra... Oh meu Deus, porque me fez assim? Porque a única coisa que sei fazer é guerra? Porque não me mostra como amá-la?” –ele olhava pro teto, como se pedisse respostas.
—Algum problema? –a voz melodiosa indagou vindo de seu lado, pro qual ele olhou. –Está parecendo zonzo.
Então ela ainda se preocupava consigo, por quê? Jamais entenderia aquela mulher, que mesmo o odiando conseguia ser boa pra ele.
—Não sei... Acho que estou zonzo, mas é de um jeito diferente.
Ela estreitou os olhos, desde quando ele não tinha um tom frio? Era só a voz firme, mas agora envolvente, quente, como se tomasse seu corpo, sem que ela entendesse o que ele queria dizer.
—Vai precisar de ajuda? –ela indagou por fim.
Ele não conseguia agir com lógica, não conseguia pensar com sensatez, ele estava completamente perdido, olhando pra ela, estático, procurando alguém que lhe mostrasse um caminho seguro, mas nenhum se formava a sua frente.
durante as guerras ele era centrado, sabia exatamente o que pensar e com certeza sabia bem o que sentia, fazia o que tinha de fazer, mas quando se tratava de sua casa, sua mulher, as coisas pareciam completamente desordenadas.
—Ino, tem um minuto? –ele indagou sem saber porque.
—Bom, eu estou cansada, fiquei...
—Vai ser rápido, eu prometo.
—Com coisa que posso acreditar nas suas promessas.
Ele endureceu um pouco a expressão.
—Ao que me lembro nunca desfiz nenhuma delas.
—Mas já está arrumando como conseguir. –ela disse dura.
—Porque está agindo assim? É só me deixar falar, assim não ia ficar com ideias ridículas na cabeça.
—Ótimo, mais um grande elogio pra mim, ridícula. Algum outro adjetivo?
Porque ela tinha que ser tão irritante? Porque tinha que ser tão petulante? E porque diabos nos últimos tempos ela estava sendo tão intransigente?
—Não, só os de sempre. Infantil, irritante, petulante, mimada, boba e... –ele parou, se aproximando mais dela. –E incrivelmente linda. –os olhos dele entraram inundando os dela.
Ela foi pega totalmente de surpresa por aquilo, esperava qualquer coisa, menos aquilo, e quando ele se aproximava daquela forma, todo seu corpo tremia e a raiva que sentia... Onde fora parar a raiva que sentia? Porque não conseguia duvidar que ele jamais quebraria suas promessas, quando tinha tudo que lhe dizia o contrario?
Ela não era assim tão tola nem tão maleável pra perder o porte desafiador, mas com ele sempre ficava desarmada, mesmo que nos últimos tempos tudo estava sendo mais intenso e mais evidente, por causa da gravidez que a deixava em uma montanha russa de hormônios e sentimentos.
—Esqueceu vadia, traíra, invasora, desobediente, e outros mais que você sugeriu em todo esse tempo de casamento. –estava entalado na sua garganta tudo aquilo, mas quisera ela que as palavras tivessem saído firmes e soantes como deveria, ao invés disso lhe saíram como algo sem importância, como se não existissem.
—Acho que eu poderia arrumar mais alguns de todo tempo que já está aqui, mais pra que levar isso adiante? Estou mais preocupado agora em saber como faço pra desamarrar esses lábios tão saborosos, e fazê-los sorrir de novo. –ele sorriu de canto.
—O que está havendo com você? Que bicho te mordeu? Só pode ter sido o sol forte da viagem...
—Eu quero muito acabar com as brigas entre nós Ino, não faz mais sentido isso tudo, não dá mais pra quebrarmos a casa inteira cada vez que algo sair errado, e sinceramente, eu não sei de mais nada além de que não quero ter você me odiando. Você é a única capaz de fazer o monstro que vive dentro de mim dormir, desaparecer, então não quero que vá a lugar nenhum, a quero por perto, presente, e não me evitando e me odiando.
—Eu queria mesmo gritar que te odeio, que preferia a morte, como já cheguei a preferi, que jamais seria capaz de te amar de novo, mas sabe, eu não aprendi a mentir nesses longos anos da minha vida, e por isso eu não posso dizer tudo isso, no entanto também não posse negar, estou muito machucada por dentro. Me derreto quando você age assim, quando passa a me tratar como alguém com importância, quando tenta reparar seus erros, o problema é que não dura muito tempo. É difícil de mais fazer de conta que nada aconteceu, porque quando outra coisa acontece, as anteriores ficam mais pesadas, elas tem uma nova companhia. Eu adoraria me aproximar de você e assim ficar, mas como posso fazer isso? Às vezes te olho e não sei dizer quem você é, isso me assusta Gaara.
—Só você me olha de verdade, às vezes tão fundo que me dá medo. O seu olhar é pior que todos os exércitos que já enfrentei, porque é tão profundo que chega dentro de mim a lugares que eu mesmo desconheço... E eu sei que por tudo isso fica difícil gostar do que você vê, que é complicado entender, mas Ino, eu não posso mudar nada do que aconteceu, e sinceramente vou parar de tentar adivinhar o futuro, o que eu quero é sentir que podemos confiar um no outro e...
—Você não consegue isso Gaara. Você fica preso ao seu passado, ao que as pessoas eram antes de você, vive como se fosse pra elas, mas não enxerga que você é outra coisa, e nem você sabe quem você por causa disso. Vive a sombra de teu pai, e eu realmente entendo toda a influencia que ele tem sobre você, mas para de viver a vida dele e principalmente a da sua mãe. Ela morreu Gaara, infelizmente ela está morta, então deixa ela em paz, esquece tudo isso, porque se não jamais vai ter uma vida sua e nem eu, nem ninguém, vai fazer parte de algo que não existe.
Ele baixou a cabeça, o coração palpitando, era difícil de mais encarar a verdade, então ela se aproximou um pouco mais dele e segurou o rosto dele, ele ergueu os olhos, e os dois se olharam, mais uma vez o olhar profundo dela lhe entrou pela alma.
—Te olho nos olhos e você reclama... / Que te olho muito profundamente. / Desculpa, Tudo que vivi foi profundamente... / Eu te ensinei quem sou... / E você foi me tirando... / Os espaços entre os abraços, / Guarda-me apenas uma fresta. / Eu que sempre fui livre, / Não importava o que os outros dissessem. / Até onde posso ir para te resgatar? / Reclama de mim, como se houvesse a possibilidade / De me inventar de novo. / Desculpa se te olho profundamente, / Rente à pele... / A ponto de ver seus ancestrais / Nos seus traços. / A ponto de ver a estrada... / Muito antes dos seus passos. / Eu não vou separar minhas vitórias / Dos meus fracassos! / Eu não vou renunciar a mim; / Nenhuma parte, nenhum pedaço / Do meu ser... / Vibrante, errante, sujo, livre, quente. / Eu quero estar viva e permanecer / Te olhando profundamente. –ela suspirou, e apenas uma lágrima desceu por seu rosto. –Eu sou assim, é assim que a mulher que você diz ser linda e querer perto de você é, e eu quero mesmo te ajudar, te resgatar, mas sinto muito, não vou abrir mão de quem eu sou.
—Não quero ninguém além de você e nada além do que você é, mas você tem razão, a estrada dos meus passos é muito longa, uma estrada que não fui eu que construí e eu sempre serei a copia de meu pai, mesmo que só fisicamente, e se eu não cuidar disso, não é você que o fará por mim, então apenas me perdoe por todo mal que já causei pra você, e por ser egoísta e não poder te mandar embora daqui. –ele disse com o semblante triste, e deu um beijo carinhoso no rosto dela, e lhe segurou a mão, que ainda segurava seu rosto a encarando. –Obrigado por estar aqui. –ele retirou a mão dela e a beijou também, depois se afastou, ainda tinha muitas coisas pra ajeitar dentro de si, e foi pro seu quarto.
Ino ficou sentindo o rosto e a mão arderem pelo calor abrasivo que ele tinha e que ficava mais intenso quando a tocava, e depois suspirou, queria ter se jogado nos braços dele, mas tinha de fazer ele entender certas coisa, se não ele jamais estaria pronto pra receber o filho que estava a caminho e no momento essa era a prioridade da loira.
Ela foi pro quarto dela, repassou toda a conversa em sua mente, e depois perdeu o ar na última parte: “perdoe por todo mal que já causei pra você, e por ser egoísta e não poder te mandar embora daqui.” O que aquilo realmente significava? Porque se ele não pretendia mandá-la embora, porque revisava seu contrato de casamento e porque fizera anotações com cunho de motivos pra por fim a ele?
Algumas respostas estavam longe de ser dadas.
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
—Gaara! Gaara.
O ruivo se assustou com os gritos e saiu correndo de seu quarto, encontrando com Temari no meio do caminho.
—O que foi Temari, o que está havendo?
—É a Laica.
—O que tem ela?
—Está parindo, mas está bem complicado, o filhote está virado dentro dela, se não ajudarmos ela vai perder a cria. O Shika está lá, mas precisa de ajuda.
—Quem é Laica, pelo amor de Deus? –indagou Kankuro perdido, que já chegara até os outros dois irmãos.
—É a égua da Ino. –disse Gaara pro irmão e se virou pra outra irmã de novo. –Volta pra lá e vai ajudando o Nara, vou pegar uns instrumentos nos fundos dos estábulos, e Kankuro, avisa a Ino, nem sei como ela não está aqui com essa gritaria.
Os três correram cada um pra um lado, Gaara foi pros estábulos por um lado, Temari por outro e Kankuro bateu na porta de sua cunhada.
—O que houve? –indagou Hinata saindo do quarto.
—O potro da Laica vai nascer, mas está difícil, todo mundo foi lá pra baixo.
—Minha nossa, eu vou ver se precisam de ajuda. –a morena foi correndo.
—Abre Ino, sou eu, Kankuro. –ele disse insistindo nas batidas, sem resposta. –Não é possível que ela tenha um sono tão pesado. –ele ralhou abrindo a porta.
Ino estava caída ao lado da cama desmaiada, então ele correu até ela.
—Ino, acorda... –ele disse a pondo na cama. –Acorda Ino, por favor. –ele dava batidinhas leves em seu rosto, e ela pareceu entender, porque se mexeu voltando a consciência de vagar.
—Kan... Kan... –a voz dela não saia e seus olhos estavam pesados.
—Ino, o que houve?
Ela respirou fundo, agora conseguia ter um pouco de consciência e seus olhos já estavam meio abertos.
—Eu tentei me levantar... ouvi a Temari... Não sei direito, mas fiquei tonta... caí.
—Laica está parindo, parece que a coisa está meio complicada, mas vou chamar o Gaara e...
—Não. –ela disse segurando o braço dele com toda a força que conseguiu reunir, que não foi muita, mas o fez sentir o quanto ela não queria que Gaara viesse.
—Ino, ele vai ficar preocupado, eu já estou, precisamos saber o que...
—Não, eu já estou bem. –a voz dela saiu um pouco mais firme, e seus olhos quase totalmente abertos, mas com certeza ela não estava bem, sua pele clara estava branca como cera e seus lábios um pouco arroxeados.
—Você está longe de estar bem, estou preocupado, precisamos saber o que você tem pra poder cuidar de você.
—Eu sei o que eu tenho, não precisa se preocupar, logo eu melhoro.
—Ino, não estou gostando disso. O que você tem?
—Eu não posso dizer, mas juro que vou ficar bem. –ela ainda estava pálida, mas conseguia conversar e o olhar.
—Então esquece, vou falar com o Gaara. –ele se levantou antes que ela pudesse o impedir e foi saindo, o desespero e angustia dela ficaram afloradas, ainda não estava na hora de Gaara saber.
—Eu estou grávida. –ela disse de uma vez, o fazendo parar.
Kankuro se virou pra ela atônito, com olhos arregalados, boca aberta, e tudo mais que o susto tem direito de causar.
—Você está o que? –ele indagou por fim, tentando saber se não estava maluco.
—Eu estou grávida, mais ou menos três meses.
—Grávida do Gaara?
Ela o olhou com a expressão torta, como se estivesse brava e indignada ao mesmo tempo.
—Desculpa, saiu sem querer... Meu Deus! –ele disse se aproximando dela e se sentando na cama.
—Eu ainda não contei a ele, estou esperando ele acertar a cabeça um pouco, decidindo como vou agir sobre o futuro dessa criança, e não quero dizer ainda.
—Entendo... Mas ele não percebeu nada?
—Ele quase não ficou aqui, então ainda não desconfia.
—Como vou guardar isso dele? –Kankuro falou mais pra si mesmo.
—Só finja que não sabe de nada, eu vou dizer em breve.
—Acho bom Ino, porque nunca tive segredos pros meus irmãos.
—Tema disse a mesma coisa, mas vou ver o que faço em breve, apenas nos dê um tempo.
—Está bem, farei o que me pede, porque sei o quanto toda essa situação é complicada. –ele olhou pra barriga dela e sorriu. –Vou ser titio!
Os dois sorriram alegres, era a primeira vez que Ino se sentia bem contando isso pra alguém, ao contrário de todo mundo Kankuro parecia mais feliz que preocupado.
—Acha que Gaara vai sobreviver a notícia?
—Tenho certeza, e acho que ele vai ficar contente também, porque ele gosta muito de você, e com certeza esse vai ser o primeiro Sabaku filho de algum sentimento bom, e não fruto do ódio.
Ela sorriu ainda mais, era a primeira perspectiva boa que lhe davam dessa gravidez, então ela abraçou o cunhado com força, e sorrindo a vontade.
—Obrigada Kankuro, e que bom que você está aqui.
—Eu digo o mesmo. –ele também sorriu.
Gaara adentrou o quarto e viu os dois juntos, abraçados, sorrindo, e depois trocaram um olhar cúmplice, o que deixou Gaara cego de raiva, como seu irmão ousava se aproximar daquela forma de Ino, e como ela podia fazer algo do gênero?
—E Laica, como está? –perguntou Ino a Gaara, quando o viu.
—O potro acabou de nascer, é macho, e é negro, confirmando que só pode ser cria de Sheiky. –ele disse azedo.
—O que foi Gaara, o animal tem algum problema? –Kankuro segurou a mão de Ino por instinto, era a pessoa mais próxima, mas isso só deixou Gaara mais irritado, estava completamente fora de controle, era louco de ciúmes da loira, não suportava ver mais ninguém tão próximo dela.
—Não.
—Porque essa cara então?
—Nada. –ele disse frio, saindo em seguida.
—Xi, alguma coisa deve ter acontecido. Vou ver como está o reboliço lá em baixo, e você fica aqui e descansa um pouco, deve estar fraca.
—Vomitei a noite inteira.
—Por isso desmaiou. Vou preparar alguma coisa pra você comer, enquanto isso não sai da cama, depois você vê o filhote da Laica.
—Está bem, obrigada.
Ele sorriu gentil e deixou ela no quarto, indo a cozinha, e Ino ficou na cama, pela primeira vez tinha alguém que estaria ao lado dela sem a sombra do passado, porque ao contrario de Temari que devia satisfações e obrigações a seus pais e a Gaara, e o próprio ruivo, que se via prezo aos seus fantasmas, Kankuro era livre, e enxergava o lado bom de tudo, inclusive de uma vida difícil como a dela.
Fale com o autor