Imperador de Areia
2 Capítulo 2 - Quando te conheci
Notas iniciais
—Gaara levanta daí, você tem um casamento pra ir e já está atrasado.
—Fala sério Temari, eu acabei de me deitar. –ele cobriu a cabeça com o travesseiro.
—Eu vi mesmo seu esquadrão de vadias sair daqui, mas não quero saber, você tem que honrar seus compromissos e...
—Meu compromissos? –ele disse erguendo o corpo e olhado pra ela. –Não fui eu que arrumei esse casamento.
—Mas tem que cumprir com ele, é sua obrigação agora, você aceitou.
—Foda-se, não aceito mais, pronto, não vou me casar.
—Gaara Sabaku, levante-se daí agora se não... –ela não terminou a frase de tão irritada que estava.
—Se não o que soldado? Você é minha guerreira, só isso, sou seu imperador, e sou quem eu decido a minha vida. –ele disse se levantando.
Os dois ficaram de pé se encarando, ambos bufando, eram irmão, mesmo gênio, mesmo sangue e quase o mesmo temperamento.
—Quer saber, faça como quiser, é o seu legado, sua obrigação e sua palavra. Foda-se.
Ela pegou o seu lenço que caíra no chão enquanto o acordava e saiu, deixando ele com uma dor de cabeça terrível.
Gaara era o jovem imperador cruel, seu nome era mais temido que o de seu pai, seu avô e todos os outros Sabakus antes dele, porque ele havia tido coragem de matar o próprio pai.
O homem se sentou na cama de novo e baixou a cabeça entre as pernas, respirando fundo, não devia ter brigado com a irmã, se sentia péssimo quando fazia isso, ela era a única pessoa que tinha nesse mundo, a única que não o via como o monstro que ele queria parecer ser e era a única que seria capaz de morrer por ele por amor e não só por obrigação, no entanto ele ficava profundamente irritado pelo jeito que a irmã o desafiava, ela realmente não tinha noção do quanto isso o deixava fora de si, porque odiava gente teimosa e se alguns de seus soldados e comandantes vissem o modo com que ela falava com ele, seria um verdadeiro desastre, porque a manter no exército já era problemas, imagina receber ordens dela.
Enquanto pensava no remorso, sua cabeça latejava, então resolveu ir tomar um banho, quem sabe esfriar a cabeça. Se dirigiu ao banheiro e encarou o espelho, estava péssimo.
Gaara não dormia há doze anos nada que passasse de duas horas, esse era seu limite por noite, e com tantas batalhas e afins ele não sabia como suportava. Seus olhos tinham olheiras profundas, seus olhos eram tão opacos quanto os da irmã, seus lábios finos não produziam um sorriso a pelo menos quinze anos, e ele se sentia cada vez mais cansado, cada vez mais o fardo era pesado e estava difícil suportar, e agora esse casamento.
Ele sentiu náuseas, a cabeça lhe doía de mais, o cansaço acumulado deixava seu corpo sem reação e assim ele acabou vomitando, mas ele não estranhou o ocorrido, isso acontecia com mais frequência do que deveria e ele já estava ficando acostumado, o difícil mesmo era se acostumar com o gosto amargo da bílis na boca, porque ele quase nunca comia, em compensação bebia mais do que deveria nas noites de farra depois de alguma conquista ou pra esquecer alguma derrota.
Ele voltou ao espelho e se perguntou como fora parar ali e a resposta sempre era a mesma ecoando na sua mente, seu pai lhe deixara aquele legado e martírio, havia o matado para se livrar dos pesadelos, no entanto só ficaram piores.
Seu corpo forte e com alguns músculos aparentes fora conquistado nos treinos e nas batalhas de guerras, seus olhos verdes opacos eram como a noite nebulosa, escondendo qualquer rastro de vida, suas mãos tinham varias marcas das batalhas e do seu passado, e seus cabelos ardidos como fogo lembravam a destruição e desordem.
Sem poder mais se encarar, Gaara foi tomar banho, um banho gélido e demorado, como sempre, no entanto, poderia ficar ali pra sempre que nem assim se sentiria limpo, toda uma podridão estava poluindo sua alma a anos e isso só piorava tudo.
Depois de se vestir, desceu e encontrou Temari na mesa do café, conversava com uma empregada e ambas se calaram quando ele chegou. Ela não estava sentada, não dividia a mesma mesa que o imperador, de modo que acompanhou a reverencia da emprega a figura ilustre que ali habitava.
—Senhor, peço permissão para desfazer a comitiva do casamento e dispensar...
—Não tem permissão pra nada disso. Prepare os cavalos, sairemos daqui a duas horas, por enquanto, vá na frente, quero que fale com minha noiva antes de minha chegada, descubra quem ela é, o que pretende e lhe dê essas joias. –ele apontou um estojo sobre o aparador na sala de jantar.
Ela olhou as joias e olhou pra ele, estava meio perdida, não podia acreditar que ele daria as joias da mãe a uma desconhecida, e muito menos que ele se desfaria de algo que fora da mãe deles, porque pra ele, os pertences dela eram sagrados e trancados como um santuário.
—Quero ver o que ela diz das joias, quais os modos dela, quero saber de tudo. Você é minha melhor observadora, não me decepcione.
Mesmo sem entender a estratégia dele, Temari acatou a ordem.
—Sim, senhor, cuidarei disso imediatamente.
Temari saiu e Gaara se sentou, a empregada lhe serviu uma xícara de chá e apontou o restante da mesa, havia bolos, pães, cereais, algumas frutas importadas só pra ele e mais uma variedade de coisas, porém nada o agradou, ele não sentia fome, por isso apenas tocou o chá e saiu.
Gaara foi ao estábulo e pegou seu cavalo que já estava pronto e foi cavalgar. Seu cavalo era negro como noite, sua pelagem brilhava como a luz da lua e era indomável como a frieza da areia sem o sol. Era um belo e raro animal criado pra ele, um animal capaz de andar sobre a areia e comandá-la, um animal forte e persistente, com o gênio indomável do dono. Cavalo e cavaleiro se completavam e se uniam, por isso apenas Gaara conseguia montá-lo, apenas o imperador conseguia chegar perto dele.
Depois de satisfeito, Gaara levou o animal para descasar e beber água, ainda teriam a viagem longa pela frente e voltou ao seu quarto, preparou suas coisas e chamou seus homens, estava na hora de partir.
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Ino se preparava para a cerimônia quando viu ao longe a comitiva, bem menor do que ela suponha, chegar com seu noivo. Todos estavam cobertos pelas roupas e turbantes que os protegiam do calor e do deserto entre o vilarejo e o império de Gaara, então ela não soube dizer qual deles era seu marido, apenas observou eles adentrarem os portões de sua casa e se instalarem no jardim, longe da fonte e por isso longe de suas vistas.
Ino respirou fundo, então tudo iria mesmo acontecer, ali estava ela, sendo vestida de branco, perfumada com flores silvestres, e aconselhada de como deveria agir.
—Pensei que não viria mais. –disse Temari no quarto a sós com Gaara.
—Cogitei essa possibilidade, mas parece que é como tem de ser, eu tenho que tomar as idiotices que nosso pai fez.
—Talvez, só dessa vez, ele não tenha sido assim, tão idiota. –ela disse se sentando nas almofadas macias espalhadas sobre um caro tapete e pondo os pés calçados com botas sobre a mesa que sustentava uma bandeja de frutas.
—O que quer dizer? –ele indagou desconfiado e interessado.
—Falei com ela, você vai ter trabalho.
—Ainda não entendi. –ele franziu um pouco os olhos.
—Ela é uma garota bem diferente do que você esperava Gaara e acho que isso vai ser bom pra você, por isso não acho que nosso pai tenha sido tão estúpido ou idiota.
—No que ela é diferente?
—Ah, eu prefiro não atrapalhar a surpresa. –ela sorriu de canto, provocativa. –Mas veja só. –ela jogou o estojo com as joias sobre a mesinha.
—Ela não ficou com as joias? –ele indagou tentando controlar sua surpresa.
—Não, ela disse que ainda não é dono dela, então vai usar as joias de sua família. –ela continuou a sorrir e isso o irritou ainda mais.
—Mas quem essa garota pensa que é pra ir contra uma ordem minha? –ele serrou os dentes.
—Pensa que vai ser sua esposa, mais ainda não é. –ela alargou mais o sorriso.
—Tenho que botar essa garota no lugar dela o quanto antes.
—Então vai se casar mesmo com essa desfeita e teimosia?
—Ah, eu vou, ah se vou. Casar com ela vai ser o castigo que ela merece.
Temari perdeu o sorriso, mas continuou com a certeza de que algo muito importante iria acontecer com aquela união e por incrível que pareça, não achava que seria algo ruim.
A irmã o ajudou a se vestir pro casamento e então eles foram até a tenda da cerimônia armada perto da fonte no jardim, Ino foi levada a entrada da tenda, o véu lhe cobria o rosto e Gaara não pode vê-la enquanto se aproximava e em sua cabeça só se passava a ideia de fazê-la pagar pela afronta, enquanto ela só pensava que queria aquela cerimônia acontecendo pra sempre, assim não teria de ir pra mesma cama que ele.
Nem Gaara e nem Ino prestaram atenção ao que celebrante dissera, ambos só pensavam que aquele casamento tinha chegado rápido de mais e que estavam entrando em um inferno, assim, Gaara não ouviu quando lhe foi perguntado se aceitava a união.
—Sr. Sabaku... Sr. Sabaku... –chamou o celebrante.
Ino se virou pro homem a seu lado, mas não podia vê-lo direito, o véu não deixava, apenas notou que ele tinha cabelos muito vermelhos e que balançou a cabeça como se saísse de um transe.
—Me desculpe, acabei me distraindo.
—Perguntei se aceita essa mulher como sua primeira esposa.
Ele respirou fundo e engoliu a seco, pra em fim responder:
—Aceito.
Assim o casamento estava selado, ela não teve de responder a mesma pergunta, ali, apenas os homens tinham o direito de querer ou não a união.
Foi dada a ordem para ele retirar o véu do rosto dela e ele o fez, o retirou de vagar e por um momento ficou assustado, jamais vira uma beleza como aquela, um olhar intenso como o dela e nem tão profundo, jamais vira pele tão lisa e clara, nem cabelos tão reluzentes quanto os dela, com certeza ela era uma flor rara do deserto.
Ela o encarou e viu que assim como a irmã ele tinha uma face sem expressão, mas ainda sim era muito bonito. Seu rosto bem talhado lhe dava mais poder de masculinidade, seus olhos opacos tinham vários mistérios soterrados, os cabelos vermelhos eram diferente e chamavam a atenção, sua boca de lábios finos faziam uma linha perfeita e parecia ainda mais jovem do que ela poderia supor.
Depois da cerimônia eles foram para a tenda da festa e apenas ficaram observando as coisas em volta, as pessoas ali sorriam, aquele era o tratado de paz que eles precisavam e proteção garantida, mesmo que tudo fosse ao custo da felicidade de uma jovem mulher.
Gaara se lembrou do ocorrido com as joias e encarou as que ela usava, se sentindo ainda mais enraivecido, nunca aquelas joias eram melhores que as que ele mandara a ela, e como ela ousava recusar as joias que foram de sua mãe?
Ino percebeu que ele a observava, então o olhou, ambos ficaram com os olhos um no do outro por um tempo e então ele disse:
—Já está tarde, acho que já podemos sair daqui.
Ino concordou, enquanto seu coração estava aos pulos, havia chegado o momento, ele a tomaria para si pra sempre, em todos os sentidos e ela seria dele, teria de o satisfazer e evitar ao máximo ele querer outras mulheres, porque essa seria uma situação muito complicada, quanto mais mulheres um homem escolhia, mais vistas como imprestáveis elas eram.
Ele foram para o quarto de Ino e Gaara ficou surpreso, haviam cuidado de tudo mesmo, olhou em volta e não viu nenhuma linha fora do lugar para por defeito, então parou o olhar a garota a sua frente, ela estava em uma roupa enorme, um vestido cheio de babados e tecidos, então não soube bem avaliar o que tinha a sua frente, porém, não tinha nenhuma vontade ou intenção de se deitar com ela, só conseguia ver seus traços infantis e a aliança na mão de ambos.
Com certeza não era santo, poderia ter qualquer mulher que desejasse, as vezes pensava que até abria mão de algumas oportunidades que teve e não aproveitou, no entanto, todas elas tinham algo em troca daquele ato, todas elas sairiam de sua cama de manhã pra nunca mais voltar, como poderia agir e ser da mesma forma que era com essas tais mulheres e com a menina a sua frente?
Como se não bastasse o ar infantil, ainda tinha que por sua vontade a ela e a fazer entender que não se podia ir contra uma ordem sua, isso queria dizer que devia passar a limpo a historia das joias.
—Ino Yamanaka, certo? –ela respondeu afirmativo com um aceno. –Quantos anos tem mesmo?
—Completo dezoito na semana que vem.
“Minha nossa, ela é mesmo uma criança.” –ele pensou incomodado, mas não demonstrou.
—Antes de mais nada quero esclarecer algumas coisas, pode ser?
—Seria lhe incomodar muito apenas tirar esses arranjos da cabeça? Ela está latejando a horas.
Por um segundo ele pensou que um relâmpago tinha passado por sua mente com um pouco de pena, mas fora tão rápido e tão atrapalhado que ele teve vontade de rir de si mesmo por pensar que ainda tinha algo assim dentro de si.
—Pode sim, se quiser pode se trocar, deve estar muito desconfortável, eu estou ficando irritado só de ver esse monte de pano.
—Muito obrigada.
Ela viu uma roupa de dormir preparada sobre um cesto de vime e ficou na dúvida do que deveria fazer, então ele se virou e fingiu se interessar por algumas garrafas sobre a mesa, enquanto ela aproveitava pra ir se vestir no banheiro.
Quando ela voltou ao quarto Gaara não pode acreditar, ela não era só linda e intrigante, ela era deliciosa, com um corpo recém formado e firme que o deixava impressionado, no entanto o colar barato ainda ornamentavam seu pescoço.
—Sou o Imperador de Suna, tenho um império relativamente extenso e sinceramente creio que nem eu e nem você gostaríamos de instaurar a guerra que faço nos campos de batalha dentro do nosso palácio, por isso há coisas simples a se fazer, não me desobedeça, não seja teimosa e acima de tudo, nada de me envergonhar, entende isso? -ele foi direto ao assunto.
—Sim senhor, posso só dizer uma coisa em relação a isso? Claro, se vier a achar devido.
—Diga. –ele cruzou os braços.
—Sei que está aborrecido com as joias, mas...
—Eu dei uma ordem direta a Temari, você não a obedeceu, mas desta vez não vou fazer nada quanto a isso, talvez ela não tenha sido muito clara, no entanto, isso não vai voltar a se repetir quando eu der uma ordem, compreende?
—Na verdade Temari foi muito clara, acontece que não obedeci porque não quis. –ela disse o encarando séria, não gostou do modo presunçoso que ele falava e nem das ameaças que soltava, por isso não controlou mais a língua afiada que tinha dentro da boca. –Você não era meu marido, não mandava em mim e então eu uso o que eu quiser. Está certo que as coisas mudam agora, mas não pense que você é o dono do mundo e nem que pode comprar as pessoas com tanta facilidade, porque não pode, e por mais que você seja prepotente e arrogante e eu tenha de suportar, saiba que eu não faria nada diferente.
Gaara sentiu o sangue lhe arder nas veias, podia ver que ela sentia o mesmo, suas respirações se cruzavam quentes e turbulentas, e isso só lhe dava mais raiva por ter chegado até ali, por estar preso a uma fedelha arrogante e presunçosa, enquanto ela tinha os mesmo pensamentos sobre ele, e por mais que soubesse que deveria teme-lo, não podia controlar dizer a verdade a ele.
—Sua fedelha, acha mesmo que tem como me afrontar desse jeito? –ele tinha a voz no mesmo tom de sempre, frio, calculado, enquanto mantinha palavras duras. –Tome conhecimento do seu lugar e pare de achar que pode se achar só porque se casou com alguém como eu. Você tem que me servir, em tudo o que eu quiser, seja fora ou dentro de casa, na cama ou fora dela, você me deve obediência, respeito e obrigação, eu sou o dono da sua vida, por isso não se meta a besta.
—Eu não sou sua serva. –ela esbravejou, mesmo que o medo começasse a aparecer.
—Pior, é minha esposa, sendo assim, assuma seu papel. -aquelas palavras foram tão gélidas que ela sentiu um arrepio se passar por sua espinha, assim que ele as pronunciou.
Os dois continuaram a se encarar, até que ele deu as costas pra ela e jogou o paletó que usava sobre uma poltrona e foi para porta.
—Eu quero você pronta pra partir quando o dia amanhecer, e se eu quero é bom você estar.
Ele saiu e ela se jogou na cama, não suportava mais parecer forte, e assim se pôs a chorar, aquilo estava sendo pior do que ela poderia imaginar.
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