Imperador de Areia
10 Capítulo 10 - O brilho em seu olhar
Notas iniciais
A noite foi longa depois daquele dia cheio de surpresas e muito trabalho duro, e Gaara que já não conseguia dormir, não conseguiu pregar o olho nem por alguns minutos, sua cabeça era atormentada pelo mal que causara a Ino, mesmo que sua responsabilidade fosse indireta.
Enquanto pensava em tudo isso, andando pelo quarto, Ino acordou. A loira estava com o corpo mole, a cabeça pesada e se sentindo um pouco tonta, por isso sua visão demorou a se firmar e quando o fez ela não podia entender o que Gaara fazia andando de um lado pro outro, inquieto no quarto, e nem como ela ainda estava viva, e sabia que estava viva pela dor forte nas costelas.
Gaara respirou fundo e parou na frente da cama, se assustando quando viu Ino tentando se por sentada. Ele encarou a mulher na cama, de olhos abertos, meio atordoados, e então a ficha caiu, ela estava acordando. Ele foi de encontro a ela e ajudou a ficar sentada, se colocando sentado ao lado dela.
—Como está se sentindo?
—Meio perdida. –ela levou a mão a cabeça.
—Está com muita dor?
—Minhas costelas estão doendo um pouco quando respiro, mas as surras da minha mãe eram bem piores. –ela sorriu com a lembrança.
—E apanhava por quê?
—Porque dizia que não ia as aulas pra ser uma boa esposa, porque não queria me casar com um babaca. –ela alargou mais o sorriso, as lembranças eram vivas, mas já não lhe fazia mal.
—É, esse babaca te deixou assim. –ele disse baixando o olhar.
Ino se assustou com o toque de culpa que a voz dele teve, e se assustou ainda mais por ver ele se sentir responsável por aquilo, quando ele nada poderia fazer pra ser diferente, ele não era responsável e não deveria se sentir daquela forma só por obrigação, ou não era só obrigação?
—Isso não é culpa sua.
—Como não? É minha responsabilidade cuidar desse povo, dessa menina, você não...
—Gaara, você não sabia sobre ela, não ficaria sabendo de tudo, foi terrível o que aconteceu e você já fez muito por todos, não pode pensar que seria diferente. Eu não me arrependo do que fiz, faria de novo e essa não é uma escolha sua, não é algo que você possa decidir. -ela disse seria e decidida.
—Não queria que se ferisse. -ele tinha a voz baixa, evitava olhar nos olhos dela.
Ela foi esbofeteada pelo tom de sinceridade dele e se sentiu ainda mais tonta e perdida, o que aquela tempestade havia feito com os miolos dele?
—Gaara, não se culpe, assim eu acho que fiz algo errado, não queria que ficasse assim, eu não queria lhe causar nenhum tormento.
Ele olhou nos olhos dela finalmente, e viu que ela estava triste, meio aflita por vê-lo daquela forma, então não entendeu, porque ela se preocupava com o que ele sentia, porque se preocupava com o bem dele mesmo depois de tudo o que fizera a ela? Era ele quem deveria cuidar do bem estar e da recuperação dela e não ela com os sentimentos dele.
O Sabaku ficou desnorteado com a última linha de seu pensamento, ele não poderia sentir nada, não tinha sentimentos, então porque ele estava preocupado com o que ela poderia pensar? Porque ela se preocupava com algo que não existia dentro dele?
—Eu não quero lhe deixar assustada Ino, só quero dizer que eu deveria ter ajudado essa cidade, sem ter que te por no meio disso, sem te ver agora toda ferida e quebrada.
—Você não está sozinho, aliás, com a Temari ao seu lado e toda essa gente que te venera, você nunca esteve sozinho, mas principalmente agora, que sou sua esposa, você tem que entender que tem alguém sempre ao seu lado.
—Não fale assim, não mereço você, não mereço tudo o que você passou pra estar aqui, cada surra da sua mãe, cada vez que quis tirar sua vida, cada vez que tentou cuidar de mim, e não merece tudo o que te fiz.
—Tudo o que lhe disse ontem foi uma explosão, o ato impensado do veneno foi só uma loucura passageira, eu não me arrependo de nada, eu aceitei minhas escolhas e as escolhas que fizeram por mim, porque são partes de quem eu sou, mas eu agora estou aqui por minha vontade, fiz tudo por minha vontade e lhe devo desculpas pelo modo que exagerei, mas eu também não mereço que fique aqui ao meu lado se sentindo culpado, e eu não quero que tenha pena de mim, nunca quis que tivessem pena de mim.
—Pena? Pelo amor de Deus Ino, como posso ter pena de uma mulher que se colocou no meio de um furacão de areia pra salvar uma menina? Pena de uma mulher que está preocupada com o que eu penso quando deveria estar se entregando a dor física e espiritual?
Eles se encararam profundamente por algum tempo, até que ela disse:
—Você disse Deus?
Gaara ficou sem graça pela palavra e pelo modo que dissera, e mais ainda por ver ela notar o que e como dissera, mas depois olhou pra ela de novo e disse sério:
—Parece que você tinha razão, ele parece mesmo existir.
Ela sorriu delicadamente pra ele, depois lhe tocou o rosto, gentil e calorosamente, o fazendo fechar os olhos por um momento e quando o abriu de novo viu um novo brilho nos olhos dela, um brilho quente e sem ódio, um brilho tranqüilo que enchia os olhos dela de vida e pureza.
—E você disse mulher, ao invés de me chamar de garota.
—Você é uma mulher, por mais que seus dezessete anos não deixem transparecer.
—Na verdade dezoito, estou fazendo desde a meia noite.
Ele se aborreceu por não saber, mas nenhum pensamento ruim lhe invadiu, ele só consegui ficar preso ao brilho novo nos olhos dela.
Ela aproximou mais o rosto do dele, estava com medo do que seu coração pedia, mas não conseguiu dizer não, nunca dizia não aos seus instintos, mesmo quando devia, e assim deixou os seus lábios quentes se encontrar com os dele também quentes, e um arrepiou passou pelo corpo dos dois. Ino abriu os olhos por um segundo, e encarou os de Gaara que também se abriam, como se pedisse permissão a ele, e ele respondeu lhe abraçando a cintura de vagar, e se aproximando mais dela, lhe tomando os lábios por completo e ambos fecharam os olhos, se entregando a deliciosa sensação que curtiam quando estavam juntos.
O beijo começara calmo como o primeiro que haviam trocado, os lábios pressionados um contra o outro, as línguas descobrindo cada canto da boca um do outro e ar entrando e saindo pelas narinas que apreciavam o perfume envolvente e inebriante que tanto gostavam um no outro, mas tinham saudade daquele contato, estavam felizes por finalmente terem um pouco de paz e estarem se aproximando, por isso Gaara impeliu um pouco mais de ritmo ao beijo, o aprofundando mais, e Ino não fez qualquer objeção, retribuiu na mesma intensidade.
Ele a segurou mais firme pela cintura com um braço, com a outra mão lhe acariciava os cabelos, trazendo seu rosto para junto de si, e ela passava as mãos pelas costas e nuca dele, provocando mais calor em seus corpos.
Sem poder mias resistir ao desejo latente que lhe consumia, ele colou seus corpos, aprofundou mais o beijo e sentiu ela arfar, entre o desejo e a insegurança, fazendo ele achar ela ainda mais interessante e atraente por sua inocência.
Ino se lembrou de quando Gaara estava doente a uns dias, e se lembrou de sua pele clara, mas bronzeada de sol, toda molhada depois do banho, se lembrou de cada músculo desenhado de seu corpo, do perfume que ele exalava, e ficou vermelha pelas sensações deliciosas que a atingiam e mesmo sem entender, gostou do calor entre suas pernas que iam bambeando de vagar.
O ruivo interrompeu o beijo e encarou a face rubra dela, o sorriso delicado e encabulado, o corpo tão delicioso, e não agüentou segurar o desejo, lhe beijou a boca e depois correu os lábios por seu pescoço, até morder seu lóbulo, deixando um arrepio tomar conta dela, que gemeu baixo de satisfação.
Os dois tinham o fogo do desejo no olhar, a vontade de satisfazerem seus corpos e de sentirem suas almas mais unidas, e pela primeira vez Gaara, sentiu que aquele ato era bem maior e mais importante do que ele jamais havia sentido, ele queria que fosse especial pra ela e queria ter uma mulher de verdade, uma mulher que fosse completamente dele e que sentisse prazer e satisfação com isso.
Ele voltou a beijar o pescoço dela, lhe mordeu o queixo de leve e depois voltou a descer, até o vale de seus seios no decote da blusa que ela vestia, e ela se assustou por gostar tanto daqueles toques e daquele momento, por isso se deixou levar e lhe tocou a barriga sob a camisa que ele usava, sentindo a pele dele queimar suas mãos.
O desejo crescia e a vontade também, assim como a pressa e a falta de estarem mais unidos, e foi assim que ele lhe apertou as cintura e subiu as mãos a apertando, afim de chagar aos seus seios, porém ela cravou as unhas nas costas dele e deu um leve grito de dor, enquanto fechava os olhos, sentindo ele com as mãos fortes lhe segurar as costelas.
Imediatamente ele a soltou e sentiu vergonha de tudo aquilo, como poderia pensar naquilo em um momento de tormento como aquele? Como poderia desejá-la estando tão fragilizada e torpe pelo estado de dor e falta de noção do que acontecia?
Ele não entendia que havia doido o corpo dela, mas doeu mais ela ter de parar o que acontecia, porque passou a acreditar que não era um ato sujo, e sim de união e cumplicidade.
—Me perdoe, eu...
—Calma, vai passar. –ela disse respirando pesadamente pela dor.
—É melhor você se deitar, tem que descasar e esperar sarar.
—Mas Gaara, você conseguiu sentir um pouco de desejo por mim, sem pensar que eu sou uma fedelha, ou sua irmã, eu não quero que volte a pensar assim, não quero mais ser rejeitada como sua esposa, e...
Ele a calou com um selinho.
—Você é uma mulher linda, estou morrendo de desejo por você, mas não é certo, você tem que melhorar, e depois, acho que eu estava cego de raiva, não devia ter dito nada disso, porque a tempos que tenho de me segurar pra não te agarrar. –ele era sincero, ela merecia isso dele, mesmo que não fosse a coisa mais bonita que ela já ouvira.
—Me desculpe, eu queria controlar a dor como você consegue, mas sou fraca.
—Se repetir isso na minha frente sou capaz de lhe chacoalhar até por seus miolos no lugar, não quero ouvir isso da sua boca nunca mais. –ele disse com sua voz firme e grave.
Ela então o beijou calmamente e depois o puxou na cama.
—Então durma comigo essa noite, não só se deite pra dormir, se deite comigo, com sua esposa, fique aqui do meu lado.
Ele a aninhou nos braços de modo a não pesar nada sobre as costelas dela, e depois lhe acariciou os cabelos.
—Não se acostume, é só hoje. –ele disse pro gesto.
Ela sorriu, ele não conseguia terminar nenhum momento bom sem voltar a ser o homem seco e frio, no entanto, ela começava a duvidar que ele era mesmo feito de areia.
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Duas semanas se passaram, a vila estava quase toda reconstruída, mas Gaara começava a fazer planos pra melhorar o lugar e garantir que ninguém mais perderia suas casas a cada tempestade, e conhecia a pessoa perfeita pra lhe auxiliar naquilo, no entanto, ainda tinha uma guerra pra ir, já estava muito atrasado, e agora poderia deixar Ino mais tranquilo, ela já estava melhor e seus ossos quase colados novamente.
Os lagos foram recuperados, limpos, mas a água ainda era pouca, teriam de conseguir na volta da batalha, enquanto rezavam para que chovesse, e a menina que Ino salvara estava bem melhor, e brincava com as outras crianças perto desses lagos.
O ruivo estava preparado, as tropas saíram no dia seguinte, antes do sol nascer, então ele mandou chamar Temari, tinha algumas coisas pra resolver com ela.
—Queria me ver? –disse a loira entrando no escritório dele.
—Sim. Andei pensando sobre seu ato na casa da Ino, foi irresponsável de mais, e eu não vou voltar a atrás, você não vem comigo amanhã.
—Se foi só porá me lembrar disso, não precisava ter me feito vir até aqui.
—Não foi só por isso, estou dizendo isso só pra lembrar, o que quero é dizer que mesmo estando suspensa da batalha, você se redimiu muito bem por tudo o que fez esses dias, sem você por aqui as coisas teriam sido muito complicadas, por isso andei pensando e acho que você deve ser punida pelo o que fez antes, mas vai receber uma gratificação pelo o que fez agora.
—O que deu em você, nunca me deu um presente?
—Dá pra parar de ser tão ranzinza? –ele disse revirando os olhos e pegando uma espada ao lado de sua mesa, pondo em cima desta na frente de Temari.
—Essa é...
—É sim, está guardada a bastante tempo, desde que Gilbert morreu na batalha... Grande homem aquele, por isso ainda não tinha posto ninguém no lugar, ninguém ainda tinha provado ser feito do mesmo material que ele, mas você mais do que nunca provou que nem só de bravura e sangue frio vive um guerreiro, é preciso ter honra e comprometimento com o que e pelo que você luta, por isso ela é sua.
Temari pegou a espada feita de aço e uma liga de ouro branco, com a base incrustada por sete diamantes, dois rubis e duas esmeraldas, fazendo o brasão da família Sabaku, e sentiu o calor que ela emanava pras suas mãos.
—Obrigada Gaara, não sabe como é importante pra mim que você faça isso.
—Eu sei disso, não vai ser fácil aguentar os soldados e o restante do povo, nem dos imperadores, mas você mereceu e eu não poderia fazer isso por mais ninguém, minha irmã.
Ela pareceu sentir bondade na voz dele e sorriu satisfeita, mandando seu orgulho pro espaço e o abraçando. Ele não retribuiu o gesto, fora pego de surpresa totalmente, mas viu os olhos da irmã com um brilho intenso, o mesmo brilho que vira nos olhos de Ino e sentiu um pouco de inveja dela, sua irmã estava conseguindo ser feliz e superar tudo o que ficou pra trás.
—Já chega, não é? Quer que vejam minha capitã me abraçando por ai?!
—Você é um homem bom Gaara, nunca duvide disso.
—Temari, eu...
—Não fala nada, só guarda essa frase, está bem? Agora tenho que ir, há uma pessoa a quem eu gostaria de contar a novidade e agradecer.
—Como assim, agradecer?
—Oras, tenho que ir agradecer a Ino por ter feito você uma pessoa melhor.
Ele não teve tempo de dizer mais nada, Temari saiu do escritório e sumiu pelo corredor, enquanto ele se sentou e se virou para a janela que dava vista pro Oasis e suas arvores, pensando que talvez algo estivesse diferente mesmo e foi depois que Ino apareceu, então será que era mesmo uma pessoa diferente? Seria mesmo capaz de ser alguém melhor? Ele preferiu não tentar encontrar a resposta, porque não queria descobrir que a resposta era não, ele só estava passando por um momento menos turbulento dentro de si.
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