Imperador de Areia
11 Capítulo 11 - Um passeio instrutivo
Notas iniciais
Gaara acordou antes de o sol nascer, estava com Ino presa em seus braços, e se sentiu bem com aquilo, agora sabia que tinha alguém que lhe esperava voltar e se preocupava com sua volta, mesmo que seu povo já o fizesse, ela era alguém que fazia parte de sua vida, era alguém que estaria sempre ali e isso era importante pra ele.
De vagar ele foi saindo da cama e segurou sua correntinha no peito, para que não emaranhasse nos cabelos dela de novo e então foi ao banheiro, depois se vestiu com a roupa de batalhas e pegou sua espada.
Ele olhou pra esposa na cama por mais alguns minutos e então saiu, estava na hora de partir e ele não sabia se despedir. Encontrou Shikamaru já de pé e ativo preparando todos os cavalos.
—Está tudo pronto imperador, apenas o Sheiky deve ser selado.
—Obrigado Nara, eu mesmo faço isso. –Gaara caminhou pelas baias e Shikamaru ficou boquiaberto, ele tinha mesmo dito obrigado? –Nara, cuide da Ino na minha ausência, ela já está melhor, mas não pode ficar zanzando por ai. –disse o imperador já montado e a caminho da saída do Oasis.
—Não se preocupe, cuidarei dela.
Ele fez que sim com a cabeça e saiu em disparada, mas pela primeira vez Shikaamru não viu um monumento de areia criar vida, ele viu um homem domando a areia sob seus pés.
Ino acordou com a luz do sol pela janela e o calor insuportável que estava no quarto já pela manhã, olhou para o lado e não viu Gaara, se assustou, ficou meio aflita, então se lembrou das batalhas, da guerra programada e soube onde ele estava, mas isso não acalentou seu coração, só fez ficar pior, ele nem ao menos se despediu e se nunca mais o visse?
Ela fez força pra afastar o pensamento, mas era evidente que não conseguia afastar a sensação de seu peito, porque o brilho que nascera nos olhos dela, a algumas semanas, estava apagado novamente.
A loira se arrumou e desceu, tomou café em silêncio e depois se sentiu sufocada dentro de casa e resolveu tentar cavalgar um pouco, suas costelas e seu pé já estavam melhores e ela sabia que encontraria Shikamaru lá para ajudá-la e assim ela se sentia um pouco melhor.
—Bom dia Ino.
—Bom dia Shikamaru, como está?
—Bem e muito sossegado, estou de folga né? –ele sorriu.
—Todos os homens estão fora?
—Tirando a mim, o ferreiro e algumas crianças, sim, a vila está lotada de mulheres.
—O que elas fazem nessa época?
—A mesma coisa de sempre. Lavam, passam, cozinham, cuidam dos filhos, das casas, a coisa não muda, elas tem de seguir a vida, é normal isso aqui.
—E quando recebem os corpos de algum filho ou marido morto? Não é possível que não se abalem com essa ideia.
—Todos se abalam Ino, todas elas sofrem por dentro, mas essa é a vida delas, sabem que esse é um mal necessário, e que tudo por aqui é sempre igual e deve ser assim, e depois, não podem ficar de luto antes de que as coisas realmente aconteçam.
—Eu não sei, juro que não entendo, é como se tudo nesse lugar fosse feito de...
—Areia. –ele abriu mais o sorriso tranqüilo. –Você ficaria surpresa com o quanto esse lugar é humano... Quer dar uma volta?
—Claro.
Ele estendeu a mão para ela e lhe apoiou de modo acalentador, pelo pé dela ainda precisando de repouso, apesar dela estar se recuperando miraculosamente rápido, mas como ele prometera cuidar dela, assim o faria.
Ela se apoiou no braço dele e de vagar eles começaram a andar, saindo do muros do palácio e se encaminhando ao vilarejo.
De longe Ino viu uma porção de crianças brincando, vários meninos usavam lascas de taboas para fazerem de espadas e travar batalhas pelo gramado, que se recuperava no chão da vila.
—Vê? Desde crianças os meninos se preparam pra lutar, eles sentem prazer e poder com isso, é mais do que uma escolha, e é muito mais que uma imposição, é como se fosse um chamado.
—Porque não têm medo das guerras?
—Porque lhes ensinaram a não temer nada. Pode parecer cruel predestinar a vida dessas crianças, mas olhe bem pra elas, elas estão felizes e o melhor de tudo é que jamais se deixarão levar pelos medos, eles são corajosos de natureza, e aproveitam a vida sempre.
Ino olhou pra Shikamaru, ele tinha um semblante sério, mais tranquilo, observava tudo com calma e cuidado, com certeza era um homem lindo e muito decente, era conhecedor de tudo por ali, e tinha um modo de falar sempre sábio, Ino não pode deixar de admirá-lo e de sentir cada palavra que ele dizia.
Mais ao longe, várias mulheres usavam um dos lagos para lavarem roupa, era tradição longínqua cuidar pessoalmente das roupas dos maridos, lavando e cuarando as peças, então eles se aproximaram delas.
—Cada mulher usa a força de seus braços pra cuidar de sua família. Vê aquela de vestido vinho? Ela é capaz de segurar a criança e lavar a roupa do marido, ao mesmo tempo em que está de olho em sua cabana onde o almoço começa a cozer, agora me diga, acha mesmo que ela pode chorar a partida do homem forte que ela confia? A esperança é rei nesse lugar, por isso todos se ajudam, todos se cuidam e se conhecem, assim a solidão não faz sombra e a boa convivência torna as coisas harmônicas.
—A guerra é um terror, como pode fazer as coisas a sua voltar serem coloridas como você prega?
—Sim, a guerra é terrível, sonho com o dia em que nada disso será necessário, mas a guerra só termina se a ganância do homem terminar, e isso nunca vai acontecer. Desde que o mundo é mundo cada um tenta ser mais esperto que o outro, no entanto Ino, maior que a ganância é a solidão, ninguém gosta de ser sozinho...
—Nisso concordamos.
—E é por isso que todos aqui conseguem viver bem e vivem por causa do reflexo da guerra. As batalhas ficam lá, fora das vistas dos que aqui habitam e aqui estão seguros, a esperança é guardiã deles, por isso cada uma dessas mulheres e crianças se enche de coragem, bravura e de ocupação, assim não precisam dar voz a dor e ao medo.
Eles continuaram caminhando, quando uma menina correu até eles e entregou uma flor do deserto a Ino, lhe sorrindo.
—Obrigada. –disse a Ino.
—Não há de que, Sra. Sabaku, nossa heroína.
A menina sorriu e correu pro lado contrário, saltitando e indo brincar com outras meninas por ali.
—Heroína? –Ino balbuciou olhando a flor.
—Você salvou uma criança, ajudou como pode na reconstrução e resgatou nosso imperador, como queria ser chamada se não assim?
—Resgatei Gaara?
—Gaara era só um homem dedicado, mas frio, ele cuidava de seu povo e sempre o fez bem, ainda assim, estava sempre distante em seu palácio, nos momentos de festividades por aqui, sempre retraído, recluso, e apesar de todos aqui saberem e concordarem com a fama dele, jamais o chamamos de homem de areia, porque se assim fosse ele seria um péssimo governante, preso só aos seus interesses, mas não, ele é o oposto disso. Depois de sua vinda pra cá, Gaara parece mais vivo, se aproxima das pessoas sem aquele olhar gelado, conversa mais e está mais próximo das pessoas.
—Ele não é má pessoa, só mal compreendido e com uma vida difícil.
—Nós sabemos, mas nunca pudemos ajudar, enquanto você... De alguma forma, você perfurou aquela casca dura e seca de areia, e está fazendo a vida dele pulsar.
—Gostaria de sentir que isso é verdade, de ter essa certeza e saber que ele vai mudar.
—Gaara não vai mudar, não 100%, ele é como ele é, mas uma coisa é certa, ele pode achar que merece viver.
—E porque ele não mereceria?
—Há ainda muitas coisas pra você saber de seu marido Ino, e creio que eu não posso lhe dizer tudo, é melhor que vá descobrindo aos poucos, mas no fim eu tenho certeza que nunca mais pensará nele como um tirano.
—Eu já começo a ver ele de outra forma e acho isso engraçado, jamais pensei que sentiria falta dele, que me preocuparia com ele indo a essas batalhas, no entanto é bom saber que tenho motivos pra ter mudado minha forma de pensar, e por descobrir que mesmo soterrado, ele tem um coração.
—Sim, ele tem, e é enorme.
Shikamaru sorriu e Ino sorriu também, era ótimo conversar com ele e melhor ainda saber que não estava vendo coisas, Gaara era sim uma boa pessoa com um passado obscuro.
—Shikamaru, Ino...
—Olá Temari. –disse Ino sorrindo.
—Bom dia Senhorita Sabaku. –disse Shikamaru de um jeito sério.
—O que fazem pela vila?
—Estava cansada de ficar em casa, então vim conhecer um pouco mais sobre este lugar, e o Nara é um ótimo guia. –disse Ino sorrindo.
—Bom, se precisar de alguma coisa vão saber onde me encontrar...
—Espera Temari, posso te pedir um favor? –indagou Ino.
—Tudo pela minha cunhada e imperatriz.
Ino ficou intrigada pelo tom de Temari, parecia mais fria que de costume e um tanto cínica, mas ela fez de conta que não percebeu.
—Falei com Gaara sobre o jardim no fundo da mansão, ele disse que eu podia trabalhar nele e que tinha de ir a estufa, será que ainda restou alguma coisa deste lugar?
—Recuperamos pouca coisa por lá, mas ainda há algumas plantas e material de agricultura e jardinagem.
—Poderia ir conosco e me ajudar?
—Vocês parecem bem entrosados, acho que não vão precisar de minha...
—Por favor, ainda não me acostumei em ser a Sra. Sabaku, é melhor estar com uma integrante verdadeira da linhagem.
Temari suspirou e rolou os olhos meio impaciente, mas por fim acatou o pedido.
—Está bem, eu acompanho vocês.
Eles caminharam até a estufa que tinha os vidros sendo repostos nas paredes quadriculadas, de metal e vidro, e esperaram do lado de fora, enquanto aguardavam a liberação para entrar.
Alguns minutos se passaram e uma velha senhora mandou eles entrarem, Ino sentiu o passo falhar e quase caiu, se não estivesse sendo escorada por Shikamaru, seu pé estava doendo.
—É melhor se sentar, já abusou muito por hoje.
—Eu estou bem Shikamaru, foi só um passo em falso.
—Aquele banquinho ali vai servir por hora. –ele a pegou no colo e a colocou sentada, com certeza era tão forte quanto Gaara.
—Senhorita Sabaku e a imperatriz, a que devo a honra? –indagou a senhora.
—Precisamos de algumas coisas pra jardinagem caseira Glenda, pode nos ajudar? –indagou Temari.
—Se tiverem um pouquinho de paciência, ficarei muito contente em lhes arrumar tudo. –a mulher fez uma reverencia e se afastou apalpando as coisas a sua volta.
—Ela tem um jeito engraçado de nos olhar.
—É porque ela te olha, mas não pode lhe ver.
—Não entendi Temari.
—Oh, vejam, estava mesmo procurando por esta. –disse a mulher alto, as interrompendo enquanto pegava uma muda de flor roxa em um vaso, lhe acariciando a pétalas. –E tem essa outra. –ela disse mais adiante, observando um outro vaso.
Em alguns instantes ela havia separado várias ervas e flores, assim como algumas pequenas pás e regadores.
—Acha que é o suficiente, senhoras?
—Está perfeito. –disse Ino.
—Senhora, posso lhe fazer um pedido um pouco estranho... –indagou a senhora. –Posso lhe tocar a face?
Ino olhou pra ela intrigada, mas não faria nenhuma desfeita a aquela mulher que lhe atendera com tanta presteza.
—Claro.
Glenda lhe tocou a face com cuidado, contornando cada traço seu, depois se afastou e sorriu de satisfação.
—É tão linda quanto todos disserem e tão leve quanto seu perfume.
—Obrigada, fico muito lisonjeada.
—Não por isso.
—Ino, vou buscar meu cavalo e então voltamos. –disse Shikamaru, a loira respondeu com um aceno de cabeça e esperou ele voltar, enquanto as três mulheres conversavam.
O moreno voltou e pegou a sua senhora no colo, a ajudando a montar, depois Temari pegou as coisas que haviam comprado, pagando a senhora com seu ouro, depois acertaria com Gaara e então foram para o palácio, agora Ino sabia que aquela velha senhora era cega e uma das pessoas mais intuitivas e sábias do lugar.
Os três adentraram o palácio e as empregadas guardaram as coisas que haviam trazido, enquanto eles tomavam alguma coisa para repor as forças daquele dia exaustivamente quente.
—Está mais quente aqui... –disse Ino depois de um copo de limonada.
—Acho que nunca vi um dia tão escaldante assim, e olha que moro aqui desde que nasci. –disse Temari.
—Alguns lagos se perderam com a tempestade, o que aumenta o calor. –constatou Shikamaru.
—Vou ter que tomar cuidado com as flores. –disse Ino pensando em voz alta.
—Bom, agora que está bem em sua casa, eu já vou indo, ainda tenho que fazer algumas compras. –disse Temari a cunhada.
—Porque não almoça comigo? Essa casa é enorme e tão solitária.
—Sou uma capitã, não faço refeições na mesma mesa que o imperador e suas mulheres.
—Mas você é irmã do imperador e está aqui como minha cunhada, estou lhe convidando apenas pra...
—Ino, vamos esclarecer uma coisa, essa história de princesa de Suna é balela, eu sou só membro do exercito, meu irmão e eu mantemos nossa relação o mais restrita possível, e eu pretendo que as coisas continuem assim, e ainda mais profissionais, então se não se importa, eu tenho que ir.
Ino ficou sem entender, Temari estava muito estranha, pensou que fizera uma amiga, mas parecia que a loira estava mais pra inimiga, ou no mínimo sem querer qualquer contato com ela, por algum motivo que ela não podia ver.
Temari saiu em seguida, e Shikamaru fez uma mesura a Ino.
—Se não precisa mais de mim, também vou terminar de limpar as baias e dar meu serviço por encerrado.
Ele se foi e ela ficou sozinha e triste naquela casa, queria uma companhia. Ino suspirou sozinha e resolveu ir se deitar um pouco, então subiu as escadas de vagar, mas o som de algumas vozes abafadas sob sua janela lhe chamou a atenção, então se esgueirando até a sacada e viu Shikamaru prender Temari pelo braço, que não parecia nada feliz.
A loira estava tão irritada lá em baixo, que eles não perceberam a mulher sobre eles, e se deixaram ouvir.
—Se não me soltar agora você vai sentir como a lamina da minha espada é fria.
—Eu acho que vou merecer mesmo, mas ainda assim, isso não vai acontecer até que você se desculpe com ela.
—Porque se importa tanto com ela? Que diferença faz? E essa não é uma escolha que cabe a você.
—Será que não vê o quanto está sendo ridícula e infantil?
—Será que não percebe que não lhe devo satisfação nenhuma? Eu posso ser o que e como eu quiser, você nada tem com isso.
—Grande capitã de araque você vai ser agindo como uma mulherzinha mimada.
Ela se soltou das mãos dele e lhe deu um estralado e ardido tapa na cara.
—Vá pro inferno Nara, você não sabe de nada sobre mim e não tem que saber.
—Sei que está assim sem motivos, descontando tudo na pessoa errada. Você não é assim, geralmente é racional, o que está havendo?
—Agora você se importa? Porque você não vai cuidar da sua vida e me deixa em paz.
—Porque a tratou daquela forma? Ela gosta de você.
—O que eu não entendo é porque você a trata daquela forma, meu irmão não vai gostar nada disso se o vir bancando o super homem.
—Você não está pensando que eu... ela...
—Eu não estou pensando nada, aliás, não sei nem porque estou discutindo isso com você.
Ele a prendeu de novo e desta vez a colocou tão perto de si que puderam sentir o coração disparado um do outro.
—Você está com ciúmes como uma criança.
—Você é que está pensando como um adolescente burro, não estou com ciúmes de nada.
—Então olha nos meus olhos e diz que não se importa de me ver com outra mulher, mesmo que seja bem diferente do que você imagina.
—Eu digo, assim que você disser nos meus olhos que não gosta dela.
Os dois continuaram a se encarar até que ele a soltou.
—Você está muito enganada sobre tudo.
—Claro que estou, você sempre só faz o certo pelo meu bem, não é? Só se esquece que ninguém sabe melhor o que é pro meu bem, além de mim.
Eles não disseram mais anda e cada um foi pra um lado, deixando Ino pensativa, ela tinha que fazer alguma coisa sobre aquilo e tinha que fazer rápido, aquilo estava ganhando rumos que não tinham cabimento e levando a pensamentos perigosos.
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