Imperador de Areia
4 Capítulo 4 - Um novo lar
Notas iniciais
A caminho da sede do império de Gaara, seus sete soldados, Temari, Ino e ele cavalgavam pelas areias do deserto entro o vilarejo e o Oasis, enquanto o sol forte ia atormentando seus vidas, vistas e cabeça, castigando seus corpos que exalavam a pouca água que lhes restava pelos poros.
O ruivo percebeu que Ino era a mais atingida, ela saíra de casa toda majestosa, tinha postura e modos pra cavalgar, mas suas costas começavam a encurvar, sua respiração estava dificultada e ele percebia que as suas mãos começavam a soltar as rédeas de seu belo cavalo branco. Um animal imponente, um tanto arredio, mas obediente a dona, tinha a pelagem tão branca que parecia feito de ceda e caminhava macio e corajoso sobre a areia quente debaixo de seus cascos não tão grossos e preparados.
Ele adiantou o passo e ficou ao lado de Ino, que o olhou com os olhos um tanto moles e a testa molhada de suor.
—É melhor entregar seu cavalo a Temari e vir comigo, daqui a pouco não vai mais aguentar segurar as rédeas.
—Está muito, muito quente...
—Esse é meu deserto, o conheço como ninguém, então venha, vai ser melhor pra todos se você não desmaiar. –ele parou os dois cavalos, deu um toque no seu animal, pra que ele se comportasse, porque não gostava muito de ter alguém na garupa, mas desta vez o cavalo não fez nenhuma gracinha, ele permitiu que Ino o montasse como Gaara fazia e o ruivo pensou que só poderia ser porque ele estava cansado pela traquinagem de mais cedo.
O rapaz colou a jovem a sua frente, segurando seu corpo com os braços a sua volta, enquanto ela, quase sem forças, deixou a cabeça pesar no ombro e seu tronco repousar no peito dele, enquanto ele continuava a guiar seu cavalo e Temari cuidava do dela.
Pouco mais de duas horas depois, Ino quase não conseguia manter seus olhos abertos, seu corpo sensível e delicado não conseguia mantê-la hidratada e ela se sentia muito cansada, como se o trajeto estivesse sendo feito a pé.
—Ino, fala comigo. –Gaara pediu, estava ficando inquieto por vê-la quase desmaiada em seus braços.
—O que quer falar, Sr. Sabaku? –ela disse com a respiração pesada.
—Porque não me conta como conseguiu seu cavalo?
Ela olhou pra cima, pro rosto dele meio em duvida, mas começou a falar, depois ele fez outra pergunta e assim foi indo, ele precisava mantê-la acordada, pra que seu corpo se acostumasse com aquela situação, afinal, ela agora era a imperatriz do deserto.
Mais algumas horas se passaram e Gaara ficou aliviado, ela ainda falava e o Oasis estava a vista, dando um ar de familiaridade e tranquilidade a ele.
—Ino...
—Oi.
—Olhe pra frente e me diz o que vê.
Ela fez o que ele dissera e ficou encantada com o que via, era um Oasis bem grande, esquecido no meio daquele deserto escaldante e era lindo. Havia vegetação verde sobre o solo, vários lagos, arvores majestosas de folhas largas e troncos estreitos, casinhas de pedras e tendas brancas faziam a moradia do lugar e bem no centro, um castelo branco e dourado, não tão grande quanto ela esperava, mas mais bonito do que imaginava, bem no centro de tudo.
—É aqui que você governa?
—Sim, essa é a cede do meu império.
—É maravilhoso.
—Eu sei. –ele disse presunçoso e ela sorriu, ele tinha razão, ele sabia governar.
Todos saíram as janelas e pro lado de fora das tendas quando a comitiva chegou e todos festejavam a volta de Gaara com sua esposa, assim tinham certeza que o clã que os protegia e os regia iria continuar, porque apesar de tudo, eles se sentiam seguros, prósperos e com esperança de terem vidas cuidadas e melhores.
—Minha nossa, eles estão felizes com isso mesmo?
—Eles acreditam que tudo vai melhorar, que tudo vai se ajeitar, com meu casamento acreditam que terei um herdeiro como eu pra seguir com este lugar e com o governo.
—Eu não entendo... Ouvi coisas horríveis sobre você, mas todos adoram seu poder, seu modo de ser... Não faz sentido. -ela falava de forma embargada, tinha garganta seca, e não poderia filtrar o que dizia, estava cansada de mais.
—Todos que estão do meu lado me aprovam, os que estão contra mim me temem, é assim que deve ser um grande imperador, porque protejo meu povo e fico rico. -ele não se importou com o que ela dizia, com isso ele estava acostumado.
—Então porque o julgam?
—Porque faço o que outros não tem coragem de fazer. Se uma vida é insignificante, devemos acabar com ela, eliminar os fracos, é isso o que a guerra faz, escolhe os melhores, prevalece os mais fortes, e por isso não me rendo a compaixão, porque isso é burrice.
Ele terminou a frase e ouviu de sua boca exatamente a mesma frase que ouvira de seu pai quando criança e lutou em sua primeira batalha, e então se assustou, ele tinha mesmo se tornado a pessoa que mais odiou em sua vida, o que lhe dava medo do que viria a seguir, tinha medo do que faria a sua esposa e aos prováveis filhos que teria de ter.
A comitiva chegou ao castelo e depois de uma breve troca de gentilezas entre seu povo e seu governante, Gaara adentrou o castelo com a mulher, a irmã e os outros homens.
Chamou seus soldados e entregou a cada um deles uma bolsa de couro com moedas de ouro dentro.
—O pagamento de vocês pelo serviço prestado, agora estão dispensados, deixem os cavalos nos estábulos do exercito e vão pras suas casas.
—Sim senhor. –disseram todos em coro e saíram.
—Quanto a você Temari, aqui está seu pagamento também, afinal é como um de meus soldados, mas você está suspensa.
—O que? Você não vai fazer isso.
—Então fica olhando... Não quero você na próxima missão, vai ficar suspensa por ter posto a vida de seus companheiros em perigo.
—Isso não é justo, ele fez por merecer.
—Já disse, venha até mim e diga qual é o problema e eu decidirei o que devo fazer, mas por hora, essa é minha última palavra.
Temari ficou bufando de raiva, não podia mais discutir.
—Como quiser, meu amo e senhor. –ela disse o provocando, sabendo que ele odiava que ela falasse daquele jeito com ele, e depois saiu, deixando o casal a sós.
Gaara ficou pensativo por algum tempo e depois voltou ao seu normal, encarando Ino que ainda não estava muito bem e se apoiava em uma parede. Ele chamou uma de seus empregadas e pediu que ela preparasse algum suco pra sua esposa e levasse pra ela no quarto, junto com uma jarra de água gelada, a empregada concordou, deu boas vindas pra ela e se retirou.
—Venha, vou te levar ao seu quarto.
—Obrigada.
Ele não disse nada, apenas se encaminhou para as escadas, enquanto ela o acompanhava, quando ela chegou ao terceiro degrau suas pernas bambearam e ela viu seu corpo amolecer, indo de encontro ao chão, mas Gaara a segurou antes dela chegar ao seu destino, suspendendo-a e mantendo ela junto ao seu corpo.
Os olhos do casal se encontraram e Ino sentiu os olhos dele lhe invadir a alma, aquela imensidão jade, sem brilho, lhe incomodava e ao mesmo tempo lhe intrigava, enquanto ele sentia ser partido pelos olhos doces e sem brilho que ela tinha. Ele desviou o olhar para os lábios perfeitos dela, depois para os olhos de novo e por alguma razão sentiu uma vontade enorme de experimentar aquela boca, mas se conteve, ela não estava bem, precisava de alguns cuidados e não abusaria dela, ela era boa de mais pra isso, então apenas a pegou no colo, com um movimento rápido e preciso, fazendo ela perceber que ele era ágil e muito forte.
—Não precisa, eu posso andar.
—Eu vi bem o quanto pode, agora fique quieta, não quero você rachando a cabeça por ai e depois ouvi dizerem que fui eu que lhe maltratei.
Ele a levou até o quarto dele e a colocou na cama.
—Pode tirar seus sapatos sozinha?
—Posso, mas quero por uma roupa mais fresca...
—Desde que não caia por ai...
—Vou tomar cuidado pra isso não acontecer.
Ela se levantou e foi ao closet, onde suas malas estavam para serem desfeitas, ela escolheu um vestido azul claro de alças finas que ficava um pouco acima dos joelhos e prendeu os cabelos novamente, voltando pro quarto descalça.
Gaara a olhou de forma discreta, mas pode sentir um formigamento dentro de si, ela era incrivelmente bonita e ele incrivelmente mentiroso. Não era porque ela lhe lembrava a irmã e nem era uma criança que não ficava com ela, ele não ficava porque era covarde de acabar gostando de tê-la pra si, por isso mentiu pra ela.
Ela se deitou de novo e sentiu seu corpo relaxar, enquanto um perfume marcante lhe invadia as narinas e aquele perfume era o do ruivo e impregnava a sua cama.
—Descanse, eu vou tomar banho e já volto, daqui a pouco o suco vai ser trazido.
—Obrigada por cuidar de mim, mesmo que por obrigação. –ela já adiantou a resposta ao que ele poderia alegar.
—Não por isso, é só o meu dever.
—Mas era meu dever cuidar de você e não o contrario.
—Meu dever é o bem estar de todos nesse Oasis e eu não quero ser lembrado como o imperador que ficou viúvo depois de quinze horas casado.
Ela não disse mais nada e ele entrou no banheiro pra tomar seu banho gelado de sempre, enquanto isso lhe serviram o suco e a fizeram beber bastante água, deixaram algumas frutas sobre a mesa de frente a sacada e depois deixaram o quarto, enquanto Ino bebia água, se sentia melhor, mas não parava de pensar no encontro de seus olhos com os dele, na sensação diferente que lhe invadiu e na vontade de tocar os lábios dele com os seus.
Ela balançou a cabeça pra afastar os pensamentos e se afundou nos travesseiros, fechando os olhos, quando estava quase adormecendo, Gaara voltou ao quarto, estava vestindo uma camisa de mangas curtas cor de uva, calça jeans leve meio rasgada e tênis preto.
—Não sabia que as pessoas se vestiam de maneira normal aqui... –ela comentou displicente.
—Por que não?
—Você é tão conservador...
—Mas a moda nem tanto, e não viu na cidade que todos são “normais” aqui? Não é porque mais da metade da população carrega uma arma que vão te atacar, são todos psicologicamente normais.
—Me desculpe, não quis ofender ninguém, só achei curioso.
—Sem problemas. Mas agora eu vou descer, tenho alguns documentos pra analisar no escritório, mais tarde será servido o chá, se precisar de ajuda é só chamar.
—Gaara. –ela chamou quando ele já estava saindo do quarto, então ele se virou sem dizer nada. –O que eu vou ficar fazendo aqui?
—O que te disseram que teria de fazer?
—Bom, eu deveria cuidar da casa, da comida, do seu bem estar, mas todos esses empregados já fazem isso.
—Está bem, vou ver o que faço quanto a isso.
—Está certo.
—Agora descanse, é uma ordem, não quero mais você passando mal por ai.
Ele saiu do quarto e Ino ficou deitada, mas não conseguiu dormir, então foi até a sacada e viu um jardim meio destruído no fundo da casa, quase chegando aos estábulos e aquilo lhe deu uma ideia, mas por hora apenas observou com cuidado um homem moreno, cabelos escuros presos em um rabo de cavalo, vestia calças jeans, estava sem camisa e molhava a nuca, deixando Ino vermelha e impressionada. O rapaz acabou de se refrescar e foi pegar um cavalo no estábulo, e depois ergueu os olhos pra janela, deixando a loira ainda mais envergonhada, mas ele pareceu displicente e apenas seguiu seu caminho, então ela voltou pro quarto e se trocou, colocou uma calça preta justa, uma camisa branca de tecido leve, quase transparente, com alguns babados na gola e uma sapatilha roxa, depois desceu e viu Gaara se encaminhando para a sala de jantar, onde a mesa do chá estava posta.
Os dois comeram alguma coisa em silêncio, ela notou que ele mal tocara no seu prato e na sua xícara, assim como no café da manhã, mas ficou calada, não iria se intrometer, então mudou o rumo de seus pensamentos e lembrou da ideia que tivera quando olhou pela janela, antes do lindo moço aparecer.
—Gaara, posso fazer um pedido?
Ele franziu um pouco a testa, mas fez sinal pra ela prosseguir.
—Há um jardim abandonado nos fundos da casa, posso cuidar dele?
—Bom, mal não vai fazer, então tudo bem, até mesmo porque só tenho mais alguns dias por aqui. Há uma estufa na cidade, fale com a Carmem, ela vai arrumar o que você precisa, mas não quero que saia sozinha, quando for até lá me avise, ou então a alguns dos empregados, não quero você saindo sozinha.
—Mas está tudo bem, eu já me recuperei e comecei a me acostumar com o lugar, eu não vou mais...
—Não é por isso. Não quero que saia sozinha, entendeu?
—Sim senhor.
—Agora vou voltar pro meu escritório, que é parte expressamente proibida de ter visitas. –ele apenas comunicou e se levantou, pegando o caminho pro escritório de novo, enquanto ela pensou na vida inútil e monótona que teria.
“Pelo menos a gente não discutiu mais, e quero que continue assim, porque apesar de tudo ele tem cuidado de mim, e seja lá pelo que motivo for, eu devo isso a ele, então tenho que continuar a me comportar.”
Ela voltou pro quarto e foi desfazer suas malas, sem se dar conta que o dia havia passado e a hora do jantar chegado, então ele foi buscar ela no quarto.
—Ino, venha jantar.
—Um segundinho... E pronto, terminei de arrumar minhas coisas.
—Ótimo. –ele respondeu sem animo e começou a sair do quarto, mas tropeçou em um lenço fino de Ino e bateu com a cabeça no portal, pra depois cair sentado.
Gaara bufou de ódio e jogou o lenço longe, depois saiu e bateu a porta com tanta força que Ino sentiu o quarto inteiro tremer, e se perguntava do porque não conseguir fazer nada certo, com certeza ele não iria perdoá-la tão logo.
“O que será que ele está pensando? Ai, como sou desastrada, será que ele vai me devolver?”
Ela entrou em pânico e mais em pânico ficou quando ele voltou ao quarto, soltando fumaça pelas orelhas.
—Eu não te chamei pra jantar, então o que está esperando?
—Eu já vou, já vou. –ela se apressou para sair, mas estancou de frente a ele, levando a mão a testa que sangrava, ele segurou o pulso dela com força.—Me desculpe, só quero ajudar.
—Ajuda tomando conta das suas coisas direito.
—Prometo que vou tomar cuidado pra lhe agradar, mas foi um acidente, me deixe ao menos me redimir cuidando disso ai.
—Não foi nada de mais. –ele disse seco, mas a verdade era que a cabeça dele latejava, porém não era uma dor nova pra ele, então ele não se abalava.
—Mesmo assim... Por favor. –ela disse gentil.
Ele soltou o pulso dela, e ela entendeu como permissão, então segurou a mão dele delicadamente, sentindo aquele calor percorrer sua pele e o levou até a cama, o fazendo se sentar, depois foi ao banheiro e pegou um kit de primeiros socorros, passando a limpar o corte na testa. Ele não deu nenhum pio, mesmo que ela soubesse que aquilo queimava bastante e ficou surpresa pelo autocontrole dele, porque ela jamais conseguira aquilo, depois colocou um pequeno curativo e acariciou os cabelos dele.
—Pronto, você vai ficar novinho em folha, e eu prometo que não vai acontecer de novo.
Ele a encarou e a viu sorrir de um jeito tão especial que ele não pode mais se conter, se ergueu e ficou tão perto dela que podia sentir o coração dela bater e ficar acelerado.
Gaara segurou o rosto dela com as duas mãos e a beijou, primeiro um selinho, encarando os olhos dele em seguida, como ela não o afastou, voltou a lhe beijar, de forma calma, invadindo a boca dela de vagar, sentindo a maciez da pele dela, o calor de seu corpo e a doçura de seus lábios, enquanto ela correspondia o beijo aos poucos, descobrindo o que era aquilo e se espantou de gostar de seu primeiro beijo na vida, porque ela jamais imaginou que alguém como ele, beijava como ele o fazia, e quando sentiu seu peito reclamar por ar, ambos se afastaram e se encararam, até que ele segurou a mão dela e disse:
—Vamos descer pra jantar.
E o clima de paz pareceu se apoderar do lugar.
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