​O ar da manhã no castelo do Norte era cortado por uma névoa espessa e gelada que se acumulava nos parapeitos das janelas arqueadas. No espelho da suíte, observei meu reflexo uma última vez.

​Tenten havia trabalhado com habilidade nos meus cabelos cor de rosa, trançando-os em uma trança embutida firme e elegante que descia pela lateral do pescoço, mantendo os fios presos de forma prática sem perder a nobreza. O traje separado para a ocasião era um vestido de veludo encorpado em tom azul-noturno profundo, com corte aristocrático e sobriedade imperial. As mangas compridas ajustavam-se perfeitamente aos braços, e a gola alta estruturada era adornada com bordados prateados em forma de ramificações congeladas.

​Eu não carregava comigo o pergaminho do decreto de imunidade. O documento permanecia sob a custódia de Sasuke no gabinete real — um lembrete do nosso pacto da noite anterior: o selo imperial só seria assinado e validado quando minhas alegações fossem devidamente comprovadas diante do conselho.

​Contudo, à medida que nos aproximávamos do corredor principal, o peso da realidade começou a desabar sobre mim.

​Minhas mãos estavam gélidas. No corredor de pedra que levava à câmara do conselho, parei por um segundo antes de alcançar as grandes portas de carvalho. Meu coração martelava contra as costelas com uma violência quase dolorosa, e uma leve náusea deu nós no meu estômago. Aquela era a minha primeira vez diante do Grande Conselho de Guerra do Norte. Eu nunca havia pisado naquele salão; até poucos dias atrás, eu era apenas uma jovem sob o teto dos Akasuna no Sul, e agora estava prestes a encarar os generais mais temidos e experientes do continente para acusar um deles de traição.

​E se eles não me ouvirem? E se me tratarem apenas como uma peça insignificante?

​Apertei os dedos no veludo do vestido, sentindo o tecido macio sob a ponta dos dedos gelados. Fechei os olhos e puxei o ar frio do Norte profundamente para os pulmões, exatamente como treinara na noite anterior. Lembrei-me do peso do punho da adaga, da voz grave de Sasuke dizendo para eu não vacilar e da firmeza do meu próprio propósito. Eu não podia me dar ao luxo de fraquejar agora. Quando abri os olhos, a hesitação havia dado lugar a uma determinação afiada.

​Quando as portas duplas de carvalho maciço do Grande Salão do Conselho foram finalmente abertas por Kakashi, o silêncio pesado da câmara caiu sobre nós como uma lâmina.

O ar do salão não era apenas gélido; era sufocante, denso, impregnado do cheiro de cera queimada e ferro antigo. As grandes tochas de ferro nas paredes de canteria oscilavam, lançando sombras gigantescas e agitadas sobre a mesa circular.

No topo da mesa, Sasuke permanecia imóvel. Sentado em uma suntuosa cadeira de comando de carvalho negro, a armadura de aço escuro parecia absorver a pouca luz do salão. Uma enorme tapeçaria com o brasão do Norte estava na parede atrás das suas costas. Ele não me olhou quando as grandes portas se abriram; não fez um gesto de acolhimento e nem piscou. O Imperador do Norte era uma estátua de gelo e ferro — impassível, terrivelmente distante, exalando uma aura tão sufocante que fazia meus pulmões protestarem a cada respiração.

​Ele usava sua armadura de gala militar: placas de aço negro polido que refletiam o brilho das tochas, com detalhes gravados em prata fria. Sobre os ombros largos, uma manta pesada de pele de lobo-cinzento presa por correntes de prata conferia-lhe uma imponência régia e intimidadora. Sua postura era ereta, impávida.

​Ao seu redor, dispostos em posições de autoridade, estavam os líderes militares do Império: à direita, o General Shikamaru Nara, Comandante do Flanco Central; ao lado de Kakashi, o Comandante Neji Hyūga, Chefe de Reconhecimento e Inteligência; e, próximo à janela, o Comandante Kiba Inuzuka, segurando pelas correntes dois lobos de guerra gigantescos de pelagem cinzenta, cujos rosnados baixos ecoavam pela pedra.

​E, na ponta oposta a Sasuke, sentado com rigidez e visível desdém, estava o General Danzo Shimura. Ele vestia trajes militares austeros, com faixas cobrindo parte do rosto e um olhar frio de quem se julgava intocável.

​— Vossa Majestade — anunciou Kakashi, dando um passo à frente. — A Senhorita Haruno.

​Engoli em seco, contive o tremor do peito, ajustei a postura e mantive o queixo erguido perante os olhares pesados da sala.

​O General Shikamaru deu um passo à frente na mesa, desdobrando o pergaminho oficial da pauta do dia para abrir formalmente a sessão do conselho.

​— Damos início à sessão extraordinária do Conselho de Guerra — declarou Shikamaru, a voz pausada e ressonante. — A pauta emergencial refere-se às constantes quebras de suprimentos e emboscadas sofridas pelas nossas guarnições nas fronteiras. E, por ordem direta do Imperador, ouviremos o depoimento da Senhorita Sakura Haruno, recentemente chegada das terras do Sul.

​Um murmúrio contido e tenso percorreu a mesa. Neji ajustou a postura, atento, enquanto Kiba conteve os lobos com um puxão firme nas correntes.

​— Uma ordem do dia bastante conveniente... — interveio a voz arrastada e sarcástica de Danzo. O velho general inclinou-se para trás em sua cadeira, encarando-me com escárnio indisfarçável. — Mas me pergunto desde quando este Conselho de Guerra se tornou palco para ouvir devaneios de uma fugitiva.

​Danzo olhou ao redor da mesa, buscando o apoio dos outros generais, antes de continuar com uma risada seca:

​— Para quem não está atualizado com as fofocas da corte do Sul, a jovem Haruno é a filha adotiva da Casa Akasuna. Ela era a noiva prometida ao Primeiro Príncipe do Reino do Sul, o Príncipe Naruto, e agora tem a cabeça a prêmio em todo o reino vizinho por romper o compromisso real e fugir. Agora, cruza as nossas fronteiras sem exército, sem recursos e sem aliados... O que me faz questionar quais são suas verdadeiras intenções aqui.

Danzo fez uma breve pausa antes de continuar a destilar o seu veneno.

— Ora, sejamos francos — a voz arrastada e sarcástica do General Danzo quebrou o silêncio como vidro moído. Ele inclinou-se para trás em sua cadeira, os olhos pequenos e amarelos fixados em mim com um escárnio nojento. — Não seria a primeira vez que uma nobre do Sul tenta usar o próprio corpo para conseguir asilo e salvação. A jovem percebeu que o noivado com o Primeiro Príncipe, o Príncipe Naruto, era uma gaiola e decidiu usar suas armas femininas para tentar seduzir o Imperador do Norte? Pretende usar seus 'atributos' no leito de Vossa Majestade em troca de abrigo militar e proteção para a sua fuga?

A insinuação vulgar ecoou pelas paredes de pedra como um tapa.

Na ponta da mesa, o Comandante Kiba Inuzuka trincou os dentes com tanta força que vi os músculos do seu maxilar saltarem, enquanto os dois lobos gigantescos ao seu lado rosnaram guturalmente, arranhando o piso de pedra. O Comandante Neji Hyūga cruzou os braços, os olhos estreitados num desconforto evidente. Ninguém naquele conselho estava habituado a ver uma mulher no centro da câmara de guerra — muito menos sendo atacada com tanta vilania diante do trono.

Meu coração martelou contra as costelas. O sangue subiu para o meu rosto, queimando.

Eles acham que eu sou apenas uma peça indefesa nesse enredo, pensei, sentindo uma faísca de adrenalina percorrer minha espinha. Eles não fazem ideia. Eu não sou apenas a Sakura deste mundo... Eu li esta história. Eu li este livro tantas vezes na minha vida anterior que decorava os capítulos, as reviravoltas e os nomes dos traidores antes de ir dormir. Eu sei o final de cada um de vocês.

Dando dois passos firmes à frente, o som do meu salto contra a pedra cortou o salão como um estalo de chicote.

— O senhor fala de leitos e atributos, General Danzo, porque a sua pequenez moral não consegue conceber que uma mulher o supere em inteligência e estratégia — declarei. Minha voz não tremeu. Saiu grave, limpa, ressoando com uma autoridade que fez os generais se aprumarem na mesa. — Se pensa que atravessei as fronteiras do Norte para pedir esmola ou abrigo na defensiva, o senhor está terrivelmente enganado. Não estou aqui para pedir proteção. Estou aqui para expor o verme que está corroendo este Império por dentro.

Danzo estreitou os olhos, a boca se contorcendo ao ser rebatido de frente, ainda mais por uma mulher. Antes que ele pudesse vociferar, uma voz vinda do lado da porta cortou o salão com a precisão de um bisturi.

— Meça o tom para se dirigir à nossa convidada, Danzo — interveio Kakashi, dando um passo lento para fora das sombras da entrada. Ele mantinha a mão apoiada com serenidade sobre o cabo da sua espada, mas o olhar sob a máscara era de uma severidade mortal. — A Senhorita Haruno não está sob julgamento aqui. O senhor, por outro lado, talvez esteja.

— O quê?! — rugiu Danzo, virando o rosto para Kakashi. — Ficou louco, Kakashi? Vai dar ouvidos a essa...

— Guarde seus insultos para a sua sentença, Danzo — a voz fria de Sasuke cortou o salão.

O tom do Imperador não subiu, mas a frieza gélida era tão absoluta que o ar da sala pareceu despencar de vez. Sasuke nem sequer desviou os olhos do velho general para me olhar; o foco dele era cirúrgico e mortal. Ele apoiou os braços na mesa, com uma calma aterrorizante que traía o abismo de fúria por trás de seus olhos negros.

— A Senhorita Haruno está aqui porque trouxe a confirmação da investigação que meu gabinete conduz em segredo há uma década — disse Sasuke, a voz diminuindo para um sussurro mortal. — A emboscada na fronteira do Flanco Leste... a emboscada que cercou e tirou a vida do meu irmão, o Primeiro Príncipe Itachi... foi autorizada sob o seu selo oficial, Danzo.

O nome de Itachi atingiu a câmara como uma bomba diplomática. Tive uma sensação que a temperatura da sala havia caído levemente.

Shikamaru parou o movimento das mãos sobre os papéis. Neji empalideceu. Kiba prendeu o ar.

— Isso é um absurdo grotesco! — urrou Danzo, levantando-se de golpe e cravando os punhos na madeira. As veias do seu pescoço saltaram, desfiguradas pela raiva. — Vossa Majestade vai ressuscitar fantasmas do passado baseando-se em invenções? O Príncipe Itachi caiu em combate glorioso contra mercenários do Sul! Eu chorei a morte do herdeiro desta casa ao seu lado!

Danzo girou para os generais, tentando incitar o conselho:

— Vocês vão aceitar isso? Vão assistir em silêncio o Imperador acusar o seu veterano mais leal com base em palpites de uma estrangeira? Ela é a filha adotiva da Casa Akasuna! Como sabem que isso não é uma manobra do Sul para nos dividir antes do inverno?

A pressão do ambiente era sufocante. Neji deu um passo à frente, ajustando a postura militar.

— O General Danzo levanta uma dúvida legítima, Majestade — disse Neji, a voz fria e técnica. — Se vamos acusar um membro do Alto Conselho por regicídio e alta traição contra o sangue Uchiha, precisamos de provas irrefutáveis. Senhorita Haruno, como uma nobre criada na corte do Sul afirma saber o conteúdo de ordens secretas emitidas há dez anos?

Fechei os olhos por uma fração de segundo.

Na minha mente, não vieram memórias de infância desta vida, mas sim as páginas impressas daquele romance de fantasia e intriga política que eu devorara na minha vida passada. O Livro de Registros Secretos da Casa Akasuna — o Capítulo 12, parágrafo três, onde a autora descrevia detalhadamente como a conspiração fora documentada. Eu sabia disso porque reli aquela cena umas dez vezes, fascinada pela podridão da trama!

Abri os olhos, sentindo a frieza de quem conhece o roteiro do destino.

— Porque os registros da Casa Akasuna guardam cada prova que Sasori acumulou para chantagem — respondi, avançando mais um passo e encarando Neji e Shikamaru. — Sasori guardava um livro de registros confidenciais em seu cofre privado. Ele anotava cada transação de sangue, cada recibo e cada suborno.

Virei-me para Danzo, apontando um dedo firme e acusador contra o traidor:

— Na página quarenta e dois do registro de compensações de Sasori, consta a ordem original de movimentação do Flanco Leste com o selo em cera de azurita do Norte! O pigmento exclusivo extraído unicamente nas suas minas, Danzo! — estreitei os olhos — As cartas que o senhor trocou com ele deixam tudo claro: o senhor encomendou a morte do Príncipe Itachi porque Itachi era um diplomata brilhante que estava a um passo de assinar a paz definitiva com o Sul! E a paz destruiria o seu comércio ilegal de armas e a sua relevância militar! O senhor mandou matar o herdeiro Uchiha por ganância e poder!

Um arfada coletiva ecoou pelo salão.

— As cartas do livro de registros... — murmurou Shikamaru, puxando uma pasta de auditoria e arregalando os olhos ao cruzar os dados. — As contas de compensação da Casa Akasuna batem exatamente com os rombos financeiros que encontrei na época, Majestade! A conta do pigmento de azurita fecha perfeitamente!

A atmosfera ao redor de Sasuke virou poeira de gelo. A raiva dele era uma tempestade silenciosa. Os olhos do Imperador cravavam-se em Danzo como duas estacas de ferro. Senti meus dedos levemente enregelados. Estava tão frio assim antes?

Danzo empalideceu, o suor frio escorrendo pelas faixas do seu rosto. Ele olhou para Kakashi, mas o capitão apenas deu um passo à frente, bloqueando qualquer rota de fuga.

— Mentira! Papéis velhos e forjados! — gaguejou Danzo, a voz fraquejando. — Kabuto desmentiria essa loucura!

Como ele ousava citar aquele nome? Era um dos que estavam na lista. Eu estava guardando essa informação para conservar minha utilidade e minha vida também. Mas para Sasuke aquilo significava tudo e o meu egoísmo não poderia o atrapalhar de fazer justiça com o seu irmão.

— Kabuto? — soltei uma risada curta, carregada de desprezo. — O homem que o senhor aloja na fortaleza sob o pretexto de entregar tônicos medicinais? Ele é a ponte viva da sua traição! Mas o seu crime não se limita ao passado, Danzo... O Conselho precisa saber o que o senhor autorizou ontem à noite!

— Cale a boca! — urrou Danzo, avançando meio passo, descontrolado.

— Deixe-a falar — ordenou a voz de Sasuke. O som foi tão grave e carregado de autoridade que Danzo estancou no lugar, tremendo de ódio. Sentia a áurea gélida sufocante atravessando o veludo do vestido. Era a primeira vez que o via assim.

— As carroças do Flanco Leste que entraram neste castelo ontem à noite sob a sua assinatura não contêm alimentos — arrematei, deixando a revelação ecoar como um trovão. — O General Danzo autorizou a entrada de caixotes recheados de pólvora negra e selos de ignição da Akatsuki!

A menção ao nome fez o salão estremecer.

— Akatsuki?! — exclamou Neji, os olhos arregalados em choque. — A facção mercenária extremista do Sul? Eu acreditava que a Akatsuki era apenas um mito... um rumor de taverna inventado para amedrontar mercadores nas fronteiras!

Meneei a cabeça.

— Não é um mito, Comandante Neji! — respondi, sustentando o olhar dele. — A Akatsuki é a força de elite oculta contratada para sabotagens pesadas no enredo do Sul, sob a liderança de Sasori e... o General Danzo — cerrei os punhos — Eles colocaram os explosivos sob o chão desta fortaleza!

Senti olhares estupefatos.

— Pólvora na reserva sob o salão?! — vociferou Kiba, segurando com força as correntes dos lobos que rosnavam furiosamente.

— E a traição não para aí — inclinei o corpo para a mesa, jogando a minha cartada final, a informação crucial que eu sabia por ter lido o clímax daquele arco no livro. Senti o coração acelerar ao pronunciar o destino que a história reservava: — Eu sei qual era o seu plano tático final enviado a Sasori, Danzo. A sua intenção era acionar esses explosivos no encerramento desta reunião, criar o caos na fortaleza e assassinar o Imperador Sasuke no meio da fumaça, para depois culpar o Sul pelo atentado e assumir a regência do Império sob a lei de emergência!

A revelação caiu como um raio devastador no centro da câmara.

— O quê?! — rugiu Kakashi, a voz perdendo a calma habitual enquanto sua lâmina de aço prateado saía da bainha com um ruidoso metal contra metal.

Kiba avançou dois passos com a adaga em riste. Neji desembainhou a espada, o rosto transfigurado de horror e fúria.

— Confirmação enviada, Majestade — disse Kakashi, encarando Sasuke. — Um de nossos guardas interceptou os caixotes no pátio inferior com meus homens há dez minutos. O relato da Senhorita Haruno é milimetricamente preciso. O castelo estava sob risco de atentado.

Sasuke, que permanecera imóvel até então, apoiou as mãos na mesa e levantou-se devagar.

A presença do Imperador preencheu o salão como uma sombra colossal. A fúria pelo irmão assassinado e pela traição contra sua própria vida transbordavam de seus olhos negros.

Danzo olhou ao redor e viu o fim. Viu as lâminas desembainhadas de Kakashi, Neji e Kiba, os lobos prontos para rasgar sua garganta, a repulsa de Shikamaru e o olhar de execução do Imperador Sasuke Uchiha.

Toda a sua arrogância, seus anos de manipulação e sua tentativa de diminuir a mulher no centro da sala haviam sido destruídos pelo conhecimento absoluto que ela trouxera de outra realidade.

— Miseráveis... bando de ingratos! — urrou Danzo, o rosto totalmente tomado pela insanidade e pelo pânico de um bicho encurralado. Ele recuou em um salto desajeitado, enfiando a mão no túnico e sacando um dispositivo mecânico.

Com um urro gutural, ele cravou o dispositivo contra o piso.

O estopim vermelho soltou uma faísca ensurdecedora.

— Abaixo! — gritou Kakashi, saltando sobre a mesa para tentar interceptar a ignição.

A onda de choque subiu do depósito inferior, rachando as lajes de pedra como se fossem vidro. As grandes colunas do salão cederam com um estalo medonho, lançando poeira e escombros do teto.

Fui arremessada para trás pelo impacto, o ar escapando dos meus pulmões. O pânico me paralisou quando vi uma viga gigantesca despencar na minha direção.

Antes que a rocha me esmagasse, uma sombra cortou o ar.

Um braço de ferro envolveu minha cintura com força brutal, puxando-me para um peito protegido por aço. No instante seguinte, Sasuke sacou a espada de bainha negra.

O que aconteceu a seguir me fez congelar de espanto.

Eu já tinha lido sobre a linhagem m dos Uchiha no livro, mas ver aquilo a centímetros do meu rosto era aterrorizante. O ar ao redor da lâmina de Sasuke simplesmente ruiu em uma névoa gélida. A temperatura do salão despencou dezenas de graus num fração de segundo; a umidade do ar virou estalactites de gelo instantâneas sobre o metal, e uma onda de geada visível se espalhou pelo chão. Com um único golpe ascendente, uma barreira de gelo maciço e reluzente brotou do nada, interceptando a viga de pedra e reduzindo o bloco a poeira congelada!

Pisquei, o peito subindo e descendo com violência, a pele do meu rosto queimando pelo choque térmico do frio extremo. Uma coisa é ler a descrição de um autor no papel... outra é sentir a pressão magnética do poder de um Imperador ao vivo!

— Mantenha-se atrás de mim — ordenou a voz gélida de Sasuke, sem nem olhar para mim.

O salão virou um inferno. Mas o pior não era o fogo: soldados com a mesma farda prateada e azul da Guarda Imperial do Norte desembainharam suas espadas e começaram a degolar os próprios companheiros ao lado!

— Eles estão usando as nossas fardas! — gritou Kiba, enquanto seus lobos saltavam sobre um guarda que tentava golpear Neji pelas costas. — A Akatsuki se infiltrou no regimento da guarda!

— Não dá para saber quem é quem! — rugiu Neji, bloqueando lâminas de homens que, até minutos atrás, marchavam sob a mesma bandeira.

A confusão era absoluta. Danzo, aproveitando que ninguém sabia em quem confiar, recuou às pressas para trás da tapeçaria rasgada do trono.

— Sasuke! — gritei, sem me importar com títulos, segurando no peito da armadura dele para me fazer ouvir no meio do estrépito de aço e fogo. — Danzo vai para o mecanismo do pátio interno! Ele quer desmoronar a ala Leste e nos sepultar!

— Como? — Sasuke me olhou por um segundo, os olhos negros cravados nos meus.

— Me segue! — puxei o braço dele, correndo para a passagem atrás do trono.

Cruzamos a tapeçaria no exato momento em que outra explosão ruiu o piso do salão, isolando os outros generais no combate contra os falsos guardas e nos trancando no corredor estreito de pedra.

No fim da galeria, Danzo encaixou uma chave pesada numa fechadura cravada na rocha.

— O Império morre aqui! — urrou o traidor, girando o mecanismo.

As engrenagens ancestrais rangeram. Sasuke deu três passos e, com um movimento quase invisível, desferiu um corte no ar. Uma estaca de gelo azulado cortou a galeria como um projetil, atingindo a mão de Danzo e congelando o mecanismo na parede. O impacto quebrou a rocha, arremessando Danzo na fenda profunda que se abrira no chão sob seus pés. O traidor despencou na escuridão com um grito sufocado que se apagou na distância.

O silêncio caiu sobre o corredor, quebrado apenas pelo estalar da rocha acima de nós. A saída do salão principal estava completamente soterrada por pedras e chamas.

— O salão caiu — disse Sasuke, a voz grave e controlada enquanto ele guardava a espada. Ele virou-se para mim, a aura de frio ainda emanando de suas roupas. — Estamos presos.

— Não estamos — respondi, tentando recompor o fôlego. — Atrás desta parede de canteria fica a entrada para as catacumbas dos antigos reis Uchiha. É uma rota que sai no vale, abaixo das muralhas.

Sasuke franziu o cenho, encarando a parede sólida de pedra escura e depois me olhando com uma severidade intrigada.

— Esta fortaleza pertence à minha família há quatrocentos anos — disse Sasuke, dando um passo lento na minha direção, a voz perigosamente baixa. — As catacumbas dos reis fundadores foram seladas e apagadas dos mapas da corte após a Guerra dos Três Banidos. Não existe menção a essa passagem nem nos arquivos reais do meu gabinete. Como uma nobre do Sul sabe da existência de um túnel ancestral que nem o próprio Imperador conhece?

Senti um pingo de suor frio descer pela minha nuca.

Droga. O livro descrevia essa passagem secreta no Capítulo 18 porque o autor precisava de uma saída estratégica para os protagonistas... mas no mundo real, pro dono do castelo, isso soa como feitiçaria ou espionagem impossível!

— Eu... — engoli em seco, o ar faltando nos meus pulmões enquanto sustentava o olhar penetrante de Sasuke. — Sasori tinha mapas antigos da arquitetura original. Mas se você quiser ficar aqui discutindo meu nível de acesso a segredos imperiais enquanto o castelo rui, a escolha é sua!

Sasuke encarou-me por um segundo eterno, os olhos negros brilhando na penumbra. Mas antes que ele pudesse responder, um estalo horrendo cortou o ar.

A rocha acima de nós finalmente cedeu.

Uma fratura gigantesca rasgou o teto da galeria, e toneladas de pedra e concreto começaram a despencar como uma avalanche. O chão tremeu tanto que perdi o equilíbrio, meus pés escorregando na poeira.

Sem hesitar um milissegundo, Sasuke canalizou seu poder na lâmina e desferiu um soco brutal contra o ponto cego da parede que eu indicara. A pedra congelou e se despedaçou com um estrondo, revelando a boca escura de um túnel que descia em caracol para as profundezas.

— Corra! — a voz dele ecoou como um trovão.

Não houve tempo para pensar. Segurei a barra do meu vestido e nos lançamos para a escuridão da escadaria no exato instante em que o corredor atrás de nós foi completamente soterrado por uma chuva de rochas e cinzas.

A descida era cega, úmida e íngreme. O som da fortaleza se desintegrando acima de nós era ensurdecedor — um rugido contínuo de pedra moendo pedra que fazia os degraus tremerem sob nossos pés. A poeira espessa nos cegava, impregnando a garganta.

De repente, o teto da própria escadaria começou a ceder. Um bloco maciço de canteria se soltou diretamente acima da minha cabeça.

Olhei para cima, o pânico congelando meus passos. É o fim.

Antes que a pedra me atingisse, senti um impacto violento. Sasuke não me puxou — ele se jogou sobre mim.

O choque do corpo dele contra o meu me arremessou contra a parede fria de rocha. O Imperador prendeu meu corpo sob o dele, curvando as costas e usando a própria armadura de aço escuro e a capa pesada como um escudo humano sobre mim.

O som foi avassalador. O bloco de pedra colidiu brutalmente contra as proteções de ombro da armadura de Sasuke. Eu ouvi o estalo abafado do metal absorvendo o impacto e o rosnado baixo, contido, que escapou entre os dentes dele com a dor do golpe. Mas ele não cedeu. Ele não se moveu um milímetro.

Fiquei paralisada, o rosto cravado no peito dele. O contraste era avassalador: o cheiro de geada e metal que emanava de sua armadura misturado ao calor intenso e ao ritmo acelerado do coração dele, batendo com força contra minhas costelas. Pela primeira vez, aquele homem de gelo parecia um ser humano feito de carne, osso e uma força física assustadora.

Minhas mãos agarraram instintivamente os ombros da armadura dele, sentindo os tremores da rocha se dissipando.

— Você... você está bem? — murmurei, a voz saindo sufocada, quase num sopro.

Sasuke ergueu o corpo devagar, a respiração pesada e descompassada contra o meu rosto. Na penumbra, os olhos dele cravaram-se nos meus com uma intensidade que fez meu sangue gelar e queimar ao mesmo tempo.

— Se você morrer, as respostas morrem com você — disse ele, a voz grave, embora um pouco rouca pelo esforço. Ele se afastou, recuperando a postura ereta em uma fração de segundo, embora eu tenha notado uma leve rigidez no seu ombro esquerdo. — Mexa-se.

Ele me puxou pelo pulso, empurrando a porta pesada de ferro batido que havia no final dos degraus.

Passamos pela abertura no exato momento em que o restante da escadaria ruiu em definitivo, selando a passagem atrás de nós com um baque ensurdecedor.

Depois disso... o silêncio.

Um silêncio absoluto, denso e sepulcral nos envolveu.